A música nas igrejas

Por Osvaldo Bertolino

A genialidade de algumas pessoas não deixa de ser intrigante. Em todas as atividades existem gênios que para os mortais comuns fazem coisas aparentemente inexplicáveis. Talvez seja por isso que a criação de deuses sempre foi uma prática, uma forma simples para explicar coisas complexas. Também nessa seara coisas geniais foram criadas. Uma delas é a diversidade musical. Verdadeiros prodígios se formaram em templos religiosos, em todas as partes do mundo.

O blues e o jazz nasceram no árduo trabalho nas colheitas e portos, e em dias de festas. Os escravos nos Estados Unidos cultivavam suas canções, ritmos e danças tradicionais, enriquecidos com as melodias dos hinos das igrejas protestantes. Eric Hobsbawm, em sua obra História social do jazz, descreve esse rico panorama da música popular do século XX.

O livro fala do jazz como um “hobby e paixão de uma grande legião de entusiastas” e “como parte da vida moderna”. “Se é comovente, é porque homens e mulheres são comoventes: você e eu. Se é um pouco louco e descontrolado, é porque a sociedade em que vivemos também é assim”, escreveu. O jazz é “apenas fruir da música e fazer com que outros também fruam enquanto ela é executada”, analisou.

No Brasil, há também um rico histórico da música nas igrejas. A Congregação Cristã no Brasil, por exemplo, tem o que é considerada maior orquestra do mundo. Em cada templo há um corpo de músicos, que interpreta as músicas sacras com uma harmonia que expressa a incrível criatividade do povo. Todos podem ser músicos na igreja, uma norma que desperta talentos por toda parte, alguns verdadeiros gênios com um instrumento nas mãos. Foi onde aprendi, ainda na primeira infância, os rudimentos da música erudita que me permitem tocar amadoristicamente diversos instrumentos.

Mas a minha interpretação para esse fenômeno não é espiritual. A religião simplesmente deu oportunidade para muitos desenvolver seus talentos. Esse é um dos motivos que me faz ter admiração por essas igrejas. Sem elas, a humanidade não teria essas maravilhas musicais. Pelo menos as que temos atualmente. Como já escrevi, tenho uma relação com a religião como a de Voltaire, contada pelo cronista Humberto de Campos.

Diz ele que o príncipe dos homens sem fé, andando em uma rua de Paris acompanhado de amigos, deparou-se com uma procissão. Ao se aproximar do andor em que se erguia a imagem de Jesus Cristo, o filósofo, com seu sorriso discreto e irônico, levou a mão à cabeça e tirou respeitosamente o chapéu. “Que é isso?”, indagou um amigo, estranhando a atitude daquele ateu confesso. “Virou amigo de Jesus?”, completou. “Não”, respondeu o autor de “Cândido”. “Nós nos cumprimentamos, mas não nos falamos.”

Falo das religiões sérias, não das seitas fundamentalistas e fascistas, a indústria do dízimo. Infelizmente, essas organizações criminosas que emporcalham o mundo cristão são as que mais crescem. E fazem lembrar outra pérola de Humberto de Campos, falando de um imaginário diálogo entre Jesus e Pedro sobre esses parasitas. A história adaptada para o Natal ficou bem apropriada para esses tempos de bestialidade bolsonarista.

Diz ele que a alegria era tão intensa cá embaixo que Jesus, abandonando a cadeira luminosa em que tem assento, à direita do Pai, se encaminhou para a entrada do Paraíso, onde Pedro cochilava pesadamente, com a cabeça encostada ao enorme livro de registro da portaria. “Simão Pedro”, chamou. Despertado subitamente, o antigo barqueiro de Genezaré esfregou os olhos com força, com as costas das mãos, sorriu de ser apanhado em flagrante, e, recompondo a barba alva, e a túnica tão alva como a barba, atendeu: “Pronto, meu Senhor.”

Ainda sonolento, ouviu: “Simão Pedro, eu teria gosto em ir ver, pela terra, o que fazem ali neste meu dia de aniversário. Parece que há grandes alegrias, e eu queria saber se todos, por lá, são felizes. Queres acompanhar-me?” Minutos depois, eram vistas pelas ruas de uma grande cidade, uma ao lado da outra, duas sombras suaves, que marchavam em silêncio, aparecendo e desaparecendo à claridade dos focos elétricos.

À porta de cada casa, mesmo das que se achavam fechadas, e que se abriam à sua simples aproximação, olhavam para dentro, e trocando ligeiras palavras imperceptíveis, continuavam o seu caminho. Aqui, era um palácio, todo enfeitado e festivo, jorrando ouro líquido e sonoro pelas janelas escancaradas; ali, a casa humilde, com a toalha clara, e, sobre a toalha, a consoada frugal dos pobres; adiante, a furna do mendigo sem mesa, sem toalha, sem pão.

Ao fim da rua, Jesus deteve-se, meditativo. “Simão Pedro?”, chamou de novo. “Meu senhor”, respondeu o porteiro do céu. “Achas que eu deveria voltar novamente ao mundo, para humilhar os soberbos e exaltar os humildes?”, indagou. Pedro teve um estremecimento: “Ah, meu Senhor! Não, nunca! Seria pior, muito pior!” Jesus ficou intrigado: “Pior, Simão Pedro?”

E ouviu: “Sim, meu Senhor. Da outra vez, tivestes um discípulo para vos vender e onze para vos salvar; e hoje tereis talvez um para vos salvar e setenta vezes sete os onze para vos vender. Os vermes da terra que corroem a fraternidade e a caridade, muitos se banqueteando em vosso nome, são milhões, talvez bilhões.” E ganharam, tristes, em silêncio, a porta de ouro do Paraíso.

Sobre o abandono dos humanos por Deus há ainda a história atribuída a Anatole France ao elogiar o abade Alfred Loisy, conhecido pelo historicismo que sistematiza nas ciências religiosas o afastamento do sobrenatural. O método põe em questão a história sagrada e suas origens divinas transmitidas pela tradição a partir dos textos sagrados. Loisy dirigiu o famoso Collège de France, substituindo o renomado Ernest Renan. Considerado modernista, acabou excomungado em 1908.

Humilde na sua sabedoria, escreve Humberto de Campos, o eminente sacerdote vivera, sempre, afastado da agitação do mundo, preferindo, em vez da missão de amansar ovelhas humanas, criar frangos de raça em uma pequena propriedade às margens do rio Sena. Cético, o interesse de Anatole France por um membro do clero causava rumores.

Numa homenagem a Loisy, ele falou sobre a sua missão no lugar de Renan: “Para a vaga de um santo, só Deus. E monsenhor Loisy me recorda o primeiro Deus, na sua sabedoria.” Como Deus sobre os homens, monsenhor Loisy velava sobre as galinhas. “Depois, mata-as. Monsenhor Loisy é, mesmo, superior a Deus, pois come as suas vítimas. Deus não tem, sequer, essa desculpa.”

Um dia frio e um bom lugar para se ouvir Luis Fernando Veríssimo

Por Osvaldo Bertolino

Um talento pouco valorizado de Luis Fernando Veríssimo, que acaba de falecer em Porto Alegre, é o musical. São raros os registros fotográficos e audiovisuais dele com seu saxofone. Esse talento era uma das facetas de minha admiração por ele. No geral, tenho grande identificação com a sua história. A diferença é a dimensão dos talentos – ele foi gênio, sem hipérbole, em todas as artes a que se entregou. Assim como ele, comecei tarde no jornalismo – premido pelas dificuldades econômicas, ao contrário dele, que foi por opção –, ofício pelo qual eu tenho obsessão desde quando aprendi que o mundo é grande.

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Veríssimo dizia que a fase de filho de pai rico terminou em pouco tempo, por falta de vocação para playboy e de pai rico. Filho do renomado escritor Érico Veríssimo, enveredou pelo mesmo caminho, também tardiamente. Eu me tornei escritor também tardiamente. Ele gostava de gol do Internacional de Porto Alegre, eu do Santos Futebol Clube. E foi aprender saxofone quando morou nos Estados Unidos numa escola de música, enquanto eu aprendi clarinete, amadoristicamente, observando outros músicos e tomando lições teóricas de conhecidos.

Também na timidez me identifico com ele. Com o passar do tempo fui rompendo algumas barreiras, mas ainda carrego um peso enorme toda vez que preciso frequentar ambientes alheios à minha convivência. Veríssimo estampava timidez em seu falar, no olhar e nos gestos. Talvez seja por isso que falava das mulheres com tanta elegância e conveniência, como numa referência à atriz Patrícia Pillar. “O pudim de laranja é a única prova convincente da existência de Deus. Além da Patrícia Pillar, claro”, disse.

Veríssimo deixa uma galeria de frases que são ontologias de humor, inteligência e perspicácia. Quando Lula ganhou as eleições presidenciais de 2002, ele escreveu que acabava a era dos Bragança e começava a dos Silva. Depois disse que o governo Lula era decepcionante: decepcionou os que imaginavam que ele mudaria tudo e decepcionou os que imaginavam que ele não mudaria nada.

Repetia a frase Dura lex, sed lex (a lei é dura, mas é lei), no cabelo só gumex (do teatro de Vianinha) para ironizar os economistas engomados de cabelos emplastrados da “era FHC”, segundo ele neoliberais apropriadamente chamados de time de cobras, bicho desunido e dissimulado, frustrado por não poder passar a perna um no outro. Era uma crítica à “austeridade fiscal” e suas leis discricionárias, como a Lei de Responsabilidade Fiscal, criada para blindar a roubalheira neoliberal via taxa de juros do Banco Central.

Certa vez, acompanhando um congresso da Associação Nacional de Transporte Público (ANTP), num dia muito frio em Porto Alegre, soube que ele tocaria em público no shopping Moinhos de Vento. Peguei um táxi e fui bater lá. Veríssimo estava no saguão com seu saxofone e poucas pessoas assistindo. Num determinado momento ele notou meus aplausos e me agradeceu. Conversamos por alguns minutos, tempo suficiente para ele saber tudo o que eu acho dele. Adeus, mestre! Obrigado por me ensinar tanto!

Durval de Noronha Goyos lança dicionário de aforismas napolitanos

Por Beppe Molisano

Para nós, orgulhosos membros da formidável comunidade napolitana do Brasil, o Dicionário de Aforismas Napolitanos, por Durval de Noronha Goyos, é uma obra que resgata o nosso sentimento cultural ancestral, bem como as melhores recordações de nossa infância e da educação familiar, conduzida com típico zelo, por nossas mães, pais e avós. A alma napolitana, fortificada pelo espírito e graça de San Gennaro, e com a decidida colaboração de San Vito e San Nicola, é sabidamente muito pronunciada, mas ela foi mantida dentre nós, no Brasil, com o auxílio dos provérbios, aforismas e expressões idiomáticas partenopéias. Esses constituíram, em conjunto com as canções napolitanas, o acervo didático que nos foi disponível.

A obra de Noronha compila este rico material, traduzido pelo Autor do napolitano para o italiano, para o português do Brasil e para o inglês dos Estados Unidos da América. É sabido que a cidade de São Paulo, no Brasil, tem a maior comunidade napolitana no mundo, no que é seguida pelo Rio de Janeiro; por Buenos Aires; por Nova Iorque e … por Nápoles. Isto explica a tradução do material para o inglês. Por sua vez, o Autor julgou desnecessária a versão para o espanhol portenho, devido à semelhança linguística com o português do Brasil.

No rico material compilado, o Autor desdobrou-se em identificar expressões idiomáticas encontradas nas poesias, textos de teatro e canções napolitanas de Renato Carosone, Tito Manlio, Domenico Modugno, Totò, Labriola, Luigi Merola, Andolfi, Colomba Rosaria, Giovani Bilardi, Salvatore Gambarella, Giuseppe Capaldo, Massimo Troisi, Eduardo De Filippo, Pino Danieli, Vincenzo De Crescenzo, Ernesto Murolo, Roberto Murolo, Gigi D’Alessio, Giuseppe Turco, Salvatore Cardillo, Fred Bongusto, Silvana Napoli Reale, Salvatore Palomba, Salvatore Di Giacomo, M. Galdieri, A. Barberis, Benedetto Croce, Armezio Cavallaro, Pupella Maggio, Cristofaro Letico, Francesco Buongiovanni, A. Romeo, Peppino Di Capri, Antonio Musetti, Edoardo Bennato, Enrico Caruso, Carlo Bernari, G. Fiorelli, Aurelio Fierro, Nino D’Angelo, C. Parente, dentre outros. Até mesmo alguns grafitti foram compilados.

Noronha é filho de mãe molisana, Sabella Maria Verginia, a quem a obra é dedicada. Ele é autor de 72 livros, alguns dos quais publicados em português, italiano, inglês, mandarim, francês e espanhol. O Autor tem uma rica carreira como advogado, professor, escritor e historiador, fala 8 línguas e escreveu 3 outros dicionários, além da obra sob comento, um anglo-português, jurídico; um de anglicismos; e um de mandarim Pin-Yin em mandarim, português e inglês. Suas obras estão em mais de 400 bibliotecas acadêmicas anglófilas, segundo o WorldCat, e em outras tantas mundo afora. A Library of Congress dos EUA tem 20 de suas obras em seu acervo, a primeira das quais adquirida em 1980.

O Dicionário é lançado por ocasião da efeméride dos 150 anos da imigração italiana no Brasil, celebrada em 2024, juntamente com A Breve História da Imigração Meridional Italiana no Estado de São Paulo, Brasil, também de autoria de Noronha, numa duologia publicada pela Observador Legal Editora, de São Paulo. O Dicionário terá também uma edição internacional a ser publicada em Nápoles no final do ano. No Brasil, ambas as obras serão lançadas em São Paulo, no Circolo Italiano, no dia 15 de julho de 2024, e em São José do Rio Preto, na Igreja da Redentora, em 23 de julho de 2024.

O Autor doou todos os exemplares da primeira edição das obras para fins beneficentes, com os recursos oriundos integrais oriundos das receitas dedicados, em São Paulo, à Igreja de San Gennaro e à Associação San Vito; e em São José do Rio Preto à Igreja da Redentora e à Associação Amici d’Italia. Ambos os eventos terão lugar às 19:30 horas e serão animados por canções napolitanas na voz do grande cantor da comunidade, Sergio De Rosa.

– Mídia e crise dos cartões: o papel-chave do movimento social

No mundo da mídia brasileira — ao contrário do jogo do bicho em que vale mesmo o que está escrito —, não vale nem o que está escrito e nem o que é falado. Nada mais arriscado do que tomar ao pé da letra o que se ouve e se lê nas principais manchetes.

Na maioria das nações com um grau razoável de civilização, faz parte das regras do jogo acreditar no que a mídia diz. Não no Brasil, e menos ainda no Brasil de hoje. Antes de prosseguir, é preciso definir o conceito de mídia. Parece razoável pensá-la, resumidamente, como o espectro de informações que circulam nos veículos de comunicação majoritários de um país e a sua reprodução como senso comum. É a chamada ”grande imprensa”. Analisar a postura da mídia brasileira em relação ao governo Lula tendo como pano de fundo esta definição é ter a certeza de que algo muito grave está ocorrendo.

O exame clínico do passado recente desta relação revela que se existe algo que o Brasil tem de sobra — como petróleo, minério de ferro e água — são previsões tétricas. Vale tudo para tentar transformar um governo com alguma identificação com o povo, e que aparece razoavelmente bem na foto, numa administração de segunda classe. Talvez a mídia não tenha tempo ou capacidade para cometer todos os desatinos que pretende, mas com certeza está empenhada em aproveitar ao máximo todas as oportunidades que aparecerem pela frente para vituperar contra o governo Lula.

Encontro do estardalhaço com a inutilidade

O problema é que a tendência humana é a de acreditar muito mais no que se vê do que no que se lê — ou se ouve. Daí a repetição e a renovação da roupagem das “denúncias” numa velocidade estonteante. Para encobrir a realidade, quanto mais manchetes funéreas, melhor. A idéia da mídia é fazer com que, como no jogo do bicho, se está escrito deve valer — e assim vai se dando como verdade qualquer coisa que apareça contra o governo. Pouco importa se o dito tem ou não tem nexo. Desde que indique a existência de uma calamidade extrema, a coisa em questão passa a ser repetida, vai se alimentando da própria repetição e acaba por se transformar em verdade mais ou menos oficial.

O caso da corrupção é um dos clássicos do gênero. Em matéria de bobagem em estado puro, é o que há. As denúncias que vieram à tona nos últimos tempos deram ensejo a debates acalorados, como é legítimo e saudável que aconteça. Mas esse calor não nos exime da tarefa de analisá-las com certa frieza, numa perspectiva temporal mais ampla, como um capítulo da história que estamos tentando construir no Brasil. São denúncias que nunca dão em nada. Não é o caso de chegar ao extremo de encampar a afirmação cínica de que ”tudo sempre acaba em pizza”, mas é importante registrar que elas não prosperam por falta de qualidade.

Não deveria ser assim. Se há denúncias, é preciso investigá-las com rigor e lupa de precisão. Isso é bem diferente deste encontro do estardalhaço com a inutilidade que vira e mexe aparece na mídia. O fato é que os escândalos que se vão sucedendo parecem produzir efeitos cada vez menores no que se refere à mobilização cívica e ao aperfeiçoamento institucional. Quais seriam as causas desse declínio — se é que é de fato uma tendência? A questão é complexa — e mais ainda quando se tem em vista o que está por trás desta inusitada sucessão de acusações que vimos nos últimos tempos.

Festival de besteira que assola o país

Na virada do ano, já havíamos tido os casos da falsa epidemia de febre amarela (foi, na verdade, uma epidemia de febre marron) e do infundado falatório sobre o “apagão elétrico”. Agora, com o caso dos cartões corporativos, o frêmito acusatório volta às temperaturas dos tempos das CPIs do fim do mundo, criadas para “apurar” o “mensalão” — uma patifiaria que já entrou para o folclore como símbolo da vigarice que norteia a mídia brasileira. O fato, entretanto, é que nenhum desses episódios teve desfecho explosivo. Ao contrário: a impressão que se tem é que o teor radioativo da série se reduz à medida que as denúncias se multiplicam.

Minha hipótese é que esse festival de besteira que assola o país perde cada vez mais credibilidade em decorrência da falta de seriedade, de responsabilidade e de compromisso público por parte da mídia. Um exemplo evidente disso é a o grau de repercussão das denúncias sobre os cartões federais e paulistas. De nariz torto, a mídia foi obrigada a registrar práticas semelhantes e justificativas idênticas — sem se dar ao trabalho de verificar se há ou não fundamento nas denúncias sobre os dois casos. O episódio paulista foi uma espécie de contragolpe certeiro na mais recente marola contra o governo Lula.

Para que uma denúncia se transforme em indignação social viva e pública, ela precisa de um ingrediente básico: credibilidade. Quando a denúncia não se sustenta, um ou outro cidadão pode até ter os seus motivos de indignação, mas abstém-se de comunicá-los a outras pessoas — e, mais ainda, de participar em demonstrações coletivas. Na verdade, as causas principais do esmaecimento das reações sociais diante de tantas denúncias são a própria consolidação do governo Lula e a sensação de melhora que o país passou a desfrutar nos últimos cinco anos.

“Ética na política” é carregada de subjetividade

Ultrapassado o momento mais agudo da transição do regime abertamente neoliberal ao de maior atenção ao papel do Estado, observa-se uma redução da carga dramática da política em todos os seus aspectos — inclusive no tocante a denúncias de irregularidades. Movidos por objetivos politiqueiros ou por interesses próprios, o fato é que os protagonistas do regime neoliberal — a mídia no fundo é o comitê central dessa gente — passaram a investir muito nessas sucessivas cruzadas de purificação moral, tentando dizer que elas, por si só, podem solucionar os problemas do país.

Essa é uma visão golpista. O recurso demasiado freqüente a tais cruzadas tem o perverso efeito de desvalorizar a própria cruzada como instrumento cívico e político. Se tudo é escândalo, nada mais é escândalo. Aí aparecem os redentores, como apareceram em 1964. Não se está aqui dizendo que o país pode se deparar com algo semelhante amanhã ou depois. Está se dizendo que é bom não perder de vista as eleições de 2010, que têm seu prelúdio em 2008 com as eleições municipais.

O falso combate à corrupção tem sido uma arma recorrente dessa gente. A questão é que a tão falada “ética na política” é carregada de subjetividade. E por isso se transformou em munição para quem faz a luta política de forma desonesta. Em qualquer Estado administrado pelo modelo de democracia em que vivemos existe uma enorme zona cinzenta entre o que é claramente legal e o que é claramente ilegal. É essa zona cinzenta que abre espaço tanto para a corrupção quanto para denúncias infundadas de supostos desvios éticos que ganham imediata repercussão na mídia quando o governo não é do seu agrado.

Diferenças significativas na forma de governar

É neste ponto que reside a atual crise política. Na verdade, as engrenagens do poder político num Estado como o nosso não são visíveis a olho nu. Mas o Brasil de hoje tem organizações que controlam a administração pública de forma razoavelmente eficiente, como a Controladoria Geral da União (CGU) e mesmo o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Conselho de Ética (que atua com base num código de conduta para a alta burocracia federal) — além do Portal da Transparência. No governo Lula, não se tem notícias de autoridades visitando bancos ou consultorias privadas antes de tomar decisões, como foi comum na “era FHC”.

Em suma: há diferenças significativas na forma de governar o país. O governo Lula merece duras críticas — principalmente no tocante à condução da economia de forma conservadora. Mas a julgar pelas mudanças que vêm ocorrendo no Brasil desde 2002, é obrigatória a constatação de que o presidente tem aquele senso de colocação que distingue os bons atacantes do futebol. Ele pôde avançar com os programas sociais porque nunca avançou sem respaldo, na base da improvisação ou da aventura. Acertou na mosca quando conferiu prioridade total ao combate à miséria ao ver que esse era o pai de todos os problemas.

Ou seja: era a condição para a solução de outros problemas, inclusive para reverter aquele plano inclinado de ingovernabilidade para onde o país ia se encaminhando quando FHC deixou o Palácio do Planalto. Em termos de poder político, as jogadas necessariamente teriam de passar por aí. Lula chegou ao Rubicão da candidatura eleitoralmente viável e, na outra margem, à planície por vezes incerta da Presidência da República com esta bandeira no ombro. Nesta situação em que denúncias ameaçam detonar o governo a cada 15 minutos, é preciso falar disso mesmo: redução das desigualdades sociais.

Poder temporariamente encarnado em Lula

Lula escolheu uma colocação que não o deixa a descoberto, escudando-se numa aliança política que sabemos ser precária mas sem a qual obviamente não teria chegado a lugar nenhum. Manejando-a com habilidade, paciência de Jó e até um pouco de sorte, vai levando: só tenta o passo adiante quando se sente escorado pelo avanço anterior. A formação sindical e as credenciais pessoais do presidente ajudam muito, é claro, mas não explicam tudo.

O governo Lula optou pelo exercício do poder político cimentado por ingredientes como transigência, negociação, composição de interesses e o estímulo à cooperação. A sua principal vitória não foi propriamente a reeleição em 2006 — obviamente contra a vontade da mídia e de outros menos votados. Nem tampouco a condução da economia, visto que, nessa área, o seu desempenho é modesto — para não dizer pífio —, um aspecto que se não compromete o governo causa um razoável estrago pela opção abertamente contrária aos interesses dos setores da sociedade que mais o apóia.

A maior vitória do governo Lula é a capacidade de resistir ao desgaste e de continuar persuadindo a maioria da sociedade de que ela precisa desse poder que se vem formando no país. Poder que está temporariamente encarnado em Lula, mas que não é uma realidade individual: não pertence a ele nem se explica somente em função dele. Não é poder individual, e sim agregado, ou coletivo. Poder agregado de um país que vai aos poucos recuperando a capacidade de o Estado trabalhar de maneira mais eficiente.

Máquina midiática com cheiro de queimado

Chega-se a um ponto decisivo da questão: a crise, se a CPI destinada a investigar os cartões corporativos for mesmo criada, tende a se transferir para o Congresso Nacional — que até agora não se engajou seriamente nas propostas de reformas progressistas devido à sua notória lentidão, à sua proverbial fragmentação e às picuinhas de que muitas vezes se ocupa. É uma hábil decisão do governo a de levar o debate para uma arena em que a pressão popular surte efeito.

Estamos entrando numa fase em que a direita tenta reerguer a sua agenda e cabe aos setores populares impedir que isso aconteça. Em outras palavras: não é papel do presidente da República dar resposta agudas aos ataques da mídia. O movimento social precisa entrar em campo para que o jogo não seja desigual no Congresso Nacional — onde sabemos que o outro lado joga com o velho hábito de mentir.

A máquina midiática já vem andando há um bom tempo com cheiro de queimado — basta lembrar as agressões à política externa do governo Lula, ao avanço da recomposição do Estado e às políticas sociais. O presidente, com o apoio de seus aliados — principalmente o movimento social —, demonstrou, mais de uma vez e diante de questões críticas, que é perfeitamente capaz de ignorar as pressões da mídia e optar pela decisão que julga ser a mais responsável. O caso dos cartões corporativos é mais um clássico do gênero.