Lula e o comunismo do seu Antônio em Maringá

Osvaldo Bertolino, Portal Vermelho, 26/1/2006

De férias, conversava com seu Antônio, um velho conhecido de 79 anos, na rica cidade de Maringá, Noroeste do Paraná. Lá pelas tantas, ele pergunta: “E o Lula, como está lá em São Paulo?” Respondo: “Parece que a sua popularidade reflete um pouco o resultado das eleições municipais. Nas imensas periferias historicamente abandonadas, ele é respeitado. Onde predominam as faixas médias, que ostentam alguma riqueza, o pessoal da direita, como sempre, nada de braçadas. Os ricos paulistanos, o senhor sabe, não gostam dos ‘interioranos’ — principalmente se eles são nordestinos. São Paulo é uma cidade muito preconceituosa.”

Seu Antônio coçou a cabeça e disse: “Sei lá, rapaz! O Lula fez um governo até que mais ou menos, mas se ele ganhar de novo aí entra o comunismo!” Eu pergunto: “Será?” Ele responde: “Entra porque o Lula vai trazer o José Dirceu de volta, que vai fazer a cabeça dele e aí já viu.” Seu Antônio traz no rosto as marcas do trabalho duro no campo e no semblante a desilusão por ver suas terras mecanizadas e por viver uma vida urbana que não lhe agrada. Ele acha que o país vai de mal a pior e por isso o comunismo está às portas dos brasileiros. Para seu Antônio, o ex-presidente João Goulart tentou implantar o comunismo e por isso veio o golpe militar de 1964 que produziu essa “bagunça que está aí”. “O Lula precisa tomar cuidado”, recomendou seu Antônio.

A falta de emprego

Tentei mostrar a ele que as passagens históricas similares ao cenário político atual tiveram como pano de fundo a propaganda anticomunista. Mesmo em desuso, esse figurino ainda dita a moda política da direita. Mas o problema maior, no qual está inserido o anticomunismo, é o desinteresse desses setores da sociedade pelo Brasil e pela maioria dos brasileiros. Disse ao seu Antônio: “Aqui mesmo em Maringá, que tem em seu entorno mais de dois milhões de habitantes e uma economia baseada num forte comércio alimentado por pequenas propriedades altamente produtivas, vi adesivos pela cidade criticando Lula. São, possivelmente, pessoas que se beneficiam como nunca da política macroeconômica que se alimenta das exportações e do agronegócio.”

Comecei citando a soja. Citei também a carne. E o suco de laranja. E os produtos metalúrgicos. Enquanto ia falando, seu Antônio reparou que todos esses produtos eram commodities, no seu vocabulário matérias-primas em estado bruto ou semiprocessadas. Ele disse: “Falta emprego, Osvaldo! Sem emprego não tem solução.” Argumentei que a presença tímida do Estado na economia brasileira desinstrumentaliza o esforço do governo para gerar empregos. Não pude mexer nas ideias preconcebidas (ainda que largamente verificáveis) com que seu Antônio compreende o Brasil e o lugar que ocupamos entre as outras nações. Afinal, os números que o país efetivamente produz — ou deixa de produzir — desabonam qualquer tentativa de rever a imagem de periferia, exotismo e ineficiência que ainda nos cobre.

Água e vinho no Sul

Apelei para a necessidade de uma efetiva reforma agrária. Lembrei que se dividirmos o estado do Rio Grande do Sul no sentido horizontal, teremos água e vinho, literalmente. A metade Norte do estado, colonizada por italianos e alemães, foi estruturada em minifúndios — assim como a maioria dos outros dois estados da região Sul, Paraná e Santa Catarina. Já a metade Sul do Rio Grande do Sul foi estruturada em grandes concentrações de terra — assim como a maioria do Brasil. Enquanto o Norte comemora a fartura com vinho — como a famosa festa da uva, em Caxias do Sul —, o Sul faz água com suas enormes estâncias cercadas de populações empobrecidas. Disse ao seu Antônio que esse quadro sulista é a um só tempo uma fotografia do que o Brasil tem sido e do que poderia ser.

As regiões das Missões, do Alto Uruguai e da Serra, ao Norte, assim como as regiões Norte, Noroeste e Oeste do Paraná, correspondem à ideia que o resto do Brasil faz do Sul: lavouras verdejantes, comércio forte, cidades em progresso. São lugares onde a fome, o analfabetismo e a mortalidade infantil não são tão escandalosos como em outras regiões do Brasil. Já as regiões da Campanha e das fronteiras Sul e Oeste do Rio Grande do Sul não guardam muita distância do que ocorre nos sertões de outras regiões do país. Essa fotografia social pode ser explicada pelo modo como aconteceu a colonização no Brasil.

Fronteiras latifundiárias

Enquanto os Estados Unidos atraíam imigrantes distribuindo a eles lotes de terra para que produzissem de modo autônomo, a elite brasileira decidiu resolver o problema da falta de trabalhadores promovendo uma imigração forçada de escravos como força de trabalho barata para os fazendeiros. Somente alguns trabalhadores puderam ter a própria terra, mas bem longe de onde o país estava estabelecido — primeiro no Rio Grande do Sul e Santa Catarina e depois desbravando matas no Norte, Noroeste e Oeste do Paraná. Nos anos 1970 e 1980, a ditadura militar empurrou muitas vítimas da concentração de terra para a Amazônia.

Seu Antônio lembrou que junto com elas foram muitos aventureiros que viram nesse gesto dos governos militares a oportunidade de expandir suas fronteiras latifundiárias para o Norte do país — cortando árvores e destruindo ecossistemas mais antigos do que a própria humanidade para plantar soja e criar gado. Muitos dos que foram para lá atrás de terra acabaram constatando logo que aquele solo não se presta à agricultura e sobrevivem do extrativismo predatório da floresta, derrubando árvores milenares para garantir pequenas plantações ou ganhando uma mixaria para jogar mercúrio nos rios em busca de minerais preciosos.

Legítimo mate paranaense

Disse ao seu Antônio que é fundamental o combate aos muitos fora da lei que dominam vastas regiões improdutivas. Mas que nada se fará enquanto essa ideia não for um posicionamento nacional claro e indiscutível. “Esse é o problema”, respondeu ele. Eu disse: “Um problema que não se limita ao campo. Toda nossa economia é altamente vulnerável. Já devíamos ter aprendido isso há muito tempo.” Lembrei que na quebra da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, o Brasil assistiu impotente à falência de seu comércio exterior, causada pela queda vertiginosa do preço internacional do café, o carro-chefe de nossas exportações à época.

Desde então, qualquer baixa nos preços de mercado dos produtos agrícolas que o governo não possa compensar comprando a safra a preços subsidiados acarreta em centenas de produtores queimando cebola ou derramando leite à frente de instituições federais. Uma cena que, além de desperdiçar alimentos e enfear as cidades, demonstra que alguns produtores brasileiros ainda não perceberam que a chave da questão é beneficiar seu produto de modo a não ficarem à mercê das cotações ditadas por Chicago, nos Estados Unidos, a famosa bolsa de mercadorias dos manipuladores dos preços de matérias-primas. Para tanto, precisamos de mais Estado na economia e mais mercado interno, coisas que a direita sempre usou para taxar seus defensores de “comunistas”. Seu Antônio riu e disse: Gostei disso, Osvaldo. Vamos tomar um tererê com legítimo mate paranaense.”

A agressividade dos senhores da terra contra Lula

Osvaldo Bertolino – Portal Vermelho,  9/7/2003

Se dividirmos o Estado do Rio Grande do Sul no sentido horizontal, teremos água e vinho, literalmente. A metade norte do Estado, colonizada por italianos e alemães, foi estruturada em minifúndios — assim como a maioria dos outros dois Estados da região sul, Paraná e Santa Catarina. Já a metade sul do Rio Grande do Sul foi estruturada em grandes concentrações de terra — assim como a maioria do Brasil. Enquanto o norte comemora a fartura com vinho — como a famosa festa da uva, em Caxias do Sul —, o Sul faz água com suas enormes estâncias cercadas de populações empobrecidas. Esse quadro sulista é a um só tempo uma fotografia do que o Brasil tem sido e do que poderia ser. As regiões das Missões, do Alto Uruguai e da Serra, ao norte, assim como as regiões Norte, Noroeste e Oeste do Paraná, correspondem à ideia que o resto do Brasil faz do sul: lavouras verdejantes, comércio forte, cidades em progresso. São lugares onde a fome, o analfabetismo e a mortalidade infantil não são tão escandalosos como em outras regiões do Brasil. Já as regiões da Campanha e das fronteiras Sul e Oeste do Rio Grande do Sul não guardam muita distância do que ocorre nos sertões do resto do país.

Essa fotografia social pode ser explicada pelo modo como aconteceu a colonização no Brasil. Enquanto os Estados Unidos atraíam imigrantes distribuindo a eles lotes de terra para que produzissem de modo autônomo, a elite brasileira decidiu resolver o problema da falta de trabalhadores promovendo uma imigração forçada de escravos como mão-de-obra barata para os fazendeiros. Somente alguns trabalhadores puderam ter a própria terra, mas bem longe de onde o país estava estabelecido — primeiro no Rio Grande do Sul e Santa Catarina e depois desbravando matas no Norte, Noroeste e Oeste do Paraná. A abolição da escravatura não eliminou a estrutura oligárquica: antes o dono da terra tinha escravos, agora tinha vassalos. Tampouco a Revolução de 1930 e a industrialização do país mudaram essa ordem que, de certa forma, também se estabeleceu nos minifúndios do sul. A condição de senhor da terra não se alterou e segue solidamente instalada no campo como ideologia dominante. Os coronéis estão representados em todas as esferas da política nacional e seus jagunços continuam atirando a esmo em trabalhadores que lutam por um pedaço de chão.

É fundamental que o Brasil democrático chegue aos latifúndios

Nos anos 1970 e 1980, a ditadura militar empurrou muitas vítimas da concentração de terra para a Amazônia. Junto com elas foram muitos aventureiros que viram nesse gesto dos governos militares a oportunidade de expandir suas fronteiras latifundiárias para o Norte do país — cortando árvores e destruindo ecossistemas mais antigos do que a própria humanidade para plantar soja e criar gado. Muitos dos que foram para lá atrás de terra acabaram constatando logo que aquele solo não se presta à agricultura e sobrevivem do extrativismo predatório da floresta, derrubando árvores milenares para garantir pequenas plantações ou ganhando uma mixaria para jogar mercúrio no rio atrás de minerais preciosos. Esse quadro camponês paupérrimo, enfim, poderia ser radicalmente alterado ao custo de umas poucas leis e diretrizes administrativas. Não faz sentido um país com a extensão do Brasil ostentar um cenário de Idade Média em pleno século XXI. Evidentemente, para essa alteração seria necessário que o governo promovesse uma inflexão no campo.

É fundamental que o Brasil democrático vá até os latifúndios e troque de lugar com os muitos fora-da-lei que hoje dominam vastas regiões improdutivas. Aos aventureiros sem escrúpulos, que se estabeleceram em terras devolutas e se sentem na casa da mãe Joana, caberia aplicar uma receita básica: rua, lei e cadeia. Mas nada se fará enquanto essa idéia não for um posicionamento nacional claro e indiscutível. Esse é o problema. Para essa questão, é necessário considerar que tão importante quanto a vontade política do governo para alterar esse cenário — que indiscutivelmente existe — é a visão dominante que o Brasil tem sobre o campo. A ideologia escravista sobre a nossa estrutura fundiária vê atitudes como as do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) como crimes. Para ela, uma organização que abarca um grande número de pessoas com um enorme potencial de luta num ponto neurálgico da vida nacional é uma inconveniência intolerável. A história brasileira é pródiga em exemplos de repressão às organizações que tentaram mudar as regras desse jogo.

Radicalismo é contraponto ao autoritarismo da oligarquia

Ainda é recente o caso da histeria causada pelo decreto do presidente João Goulart que declarou de interesse social para fins de desapropriação algumas áreas inexploradas. A reação a essa medida, cujo ponto alto foi a tristemente famosa “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” realizada dia 19 de março de 1964 pedindo aos militares que expressavam opiniões reacionárias que derrubassem o governo, teve na Sociedade Rural Brasileira — velha entidades de fazendeiros paulistas — um de seus principais organizadores. Por trás da vã invocação de Deus e da liberdade estavam os interesses terrenos e oligárquicos dos latifundiários — muitos deles grileiros. Os recentes episódios de luta no campo demonstram quão enraizada na elite brasileira está essa ideologia. Do ponto de vista político, essa herança escravista apresenta-se em uma dicotomia clara: de um lado há uns poucos que lutam para manter privilégios com rancor e nenhum bom senso e de outro uma imensa massa sem cidadania que vê no governo Lula uma boa oportunidade para a conquista de um pedaço de terra.

Se há algum radicalismo nas ações dos trabalhadores ele é mero contraponto ao autoritarismo histórico dessa oligarquia. Por nunca ter em seu projeto o conceito de nação, a elite brasileira abriu espaço, com sua conduta de exploração e acúmulo, para ações radicalizadas. Os governos passados, tradicionalmente vinculados ao poder econômico, não funcionavam como elemento de equilíbrio nessa dicotomia e contribuíam para o acirramento das posturas. No governo Lula, o que se espera é uma atitude que traga para o debate nacional a necessidade de se equalizar essa dicotomia. O desafio é gigante. Afinal, num dos pratos da balança estão os proprietários — e seus apoios ideológicos — de algo próximo a 150 milhões de hectares de terras improdutivas, um oceano de solos inúteis ao país que equivale a dois Chiles ou a quinze Coréias, dispostos a defender seus feudos com balas e chantagens — inclusive no Congresso Nacional, ameaçando votações de interesse do governo. No outro prato estão aqueles que viram na eleição de Lula a esperança de termos no país um desenvolvimento nacional integrado, no qual ninguém será esquecido.

Histeria feudal deve soar como sinal de alerta para todos nós

O ponto aqui é encontrar o norte do debate: a ideia de nação. A reflexão sobre algumas propostas do governo para o campo oferece uma visão clara da disposição das peças no tabuleiro do Brasil de hoje. Na reunião realizada dia dois de julho passado entre o governo e o MST, Lula anunciou medidas como a desapropriação de áreas que não cumprem função social e um programa massivo de educação no campo (a íntegra das propostas está na edição do Vermelho do dia três de julho). A rigor, por trás da histeria desatada supostamente pelo gesto de Lula de vestir o boné do movimento está o fato de a elite brasileira não aceitar do povão outra postura que não seja a reverência. Para ela, é um disparate o governo planejar ações do Estado com gente considerada a ralé da sociedade. Essa elite não simpatiza com a ideia de democratizar o debate nacional porque ela sempre viveu sob o domo do Estado, de modo fisiológico e clientelista. Seus expoentes querem forjar uma situação no país que permita a manutenção do status quo, com o governo lhes fazendo favores, lhes protegendo as fontes de lucro e lhes pagando as contas.

Segundo dados do Incra, 94% dos proprietários rurais com latifúndios entre 50 mil e 500 mil hectares sonegam o imposto territorial. Dados da Central Única dos Trabalhadores (CUT) mostram que 3.500 latifundiários foram perdoados de uma dívida de 7 bilhões de reais junto ao Banco do Brasil. No âmbito das empresas, também é possível reconhecer esses traços feudais — uma simbiose de um setor do capitalismo brasileiro com os senhores de terra. Não é novidade que o Estado protege certos monopólios em detrimento de uma economia com profusões de iniciativas. Ainda é a hegemonia do sobrenome, da família e dos círculos a que se pertence que domina o cenário econômico e, em certa medida, político brasileiro. A reação às ações do MST, portanto, é o ideário oligárquico lutando para conservar a riqueza e as oportunidades do mesmo lado da cerca — um comportamento baseado em nossa história de rasgada distância entre classes sociais e fundado na ideologia dominante de que existimos como senhor escravista e escravo, corte e plebe. Mudar esse quadro requer muito mais do que um governo democrático. Esse é um desafio que depende da tomada de consciência dos trabalhadores. A histeria escravista, portanto, soa como sinal de alerta para todos nós.