Um dia frio e um bom lugar para se ouvir Luis Fernando Veríssimo

Por Osvaldo Bertolino

Um talento pouco valorizado de Luis Fernando Veríssimo, que acaba de falecer em Porto Alegre, é o musical. São raros os registros fotográficos e audiovisuais dele com seu saxofone. Esse talento era uma das facetas de minha admiração por ele. No geral, tenho grande identificação com a sua história. A diferença é a dimensão dos talentos – ele foi gênio, sem hipérbole, em todas as artes a que se entregou. Assim como ele, comecei tarde no jornalismo – premido pelas dificuldades econômicas, ao contrário dele, que foi por opção –, ofício pelo qual eu tenho obsessão desde quando aprendi que o mundo é grande.

Leia também:

A música nas igrejas

Veríssimo dizia que a fase de filho de pai rico terminou em pouco tempo, por falta de vocação para playboy e de pai rico. Filho do renomado escritor Érico Veríssimo, enveredou pelo mesmo caminho, também tardiamente. Eu me tornei escritor também tardiamente. Ele gostava de gol do Internacional de Porto Alegre, eu do Santos Futebol Clube. E foi aprender saxofone quando morou nos Estados Unidos numa escola de música, enquanto eu aprendi clarinete, amadoristicamente, observando outros músicos e tomando lições teóricas de conhecidos.

Também na timidez me identifico com ele. Com o passar do tempo fui rompendo algumas barreiras, mas ainda carrego um peso enorme toda vez que preciso frequentar ambientes alheios à minha convivência. Veríssimo estampava timidez em seu falar, no olhar e nos gestos. Talvez seja por isso que falava das mulheres com tanta elegância e conveniência, como numa referência à atriz Patrícia Pillar. “O pudim de laranja é a única prova convincente da existência de Deus. Além da Patrícia Pillar, claro”, disse.

Veríssimo deixa uma galeria de frases que são ontologias de humor, inteligência e perspicácia. Quando Lula ganhou as eleições presidenciais de 2002, ele escreveu que acabava a era dos Bragança e começava a dos Silva. Depois disse que o governo Lula era decepcionante: decepcionou os que imaginavam que ele mudaria tudo e decepcionou os que imaginavam que ele não mudaria nada.

Repetia a frase Dura lex, sed lex (a lei é dura, mas é lei), no cabelo só gumex (do teatro de Vianinha) para ironizar os economistas engomados de cabelos emplastrados da “era FHC”, segundo ele neoliberais apropriadamente chamados de time de cobras, bicho desunido e dissimulado, frustrado por não poder passar a perna um no outro. Era uma crítica à “austeridade fiscal” e suas leis discricionárias, como a Lei de Responsabilidade Fiscal, criada para blindar a roubalheira neoliberal via taxa de juros do Banco Central.

Certa vez, acompanhando um congresso da Associação Nacional de Transporte Público (ANTP), num dia muito frio em Porto Alegre, soube que ele tocaria em público no shopping Moinhos de Vento. Peguei um táxi e fui bater lá. Veríssimo estava no saguão com seu saxofone e poucas pessoas assistindo. Num determinado momento ele notou meus aplausos e me agradeceu. Conversamos por alguns minutos, tempo suficiente para ele saber tudo o que eu acho dele. Adeus, mestre! Obrigado por me ensinar tanto!