Meu convívio com a vida e as ideias de Renato Rabelo

Por Osvaldo Bertolino

Escrever a biografia de Renato, proposta pelo secretário nacional de Formação e Propaganda do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Adalberto Monteiro, foi um grande desafio. Conheço as ideias de Renato desde o início dos anos 1980, lendo seus textos na imprensa do PCdoB.

Tim, tim, Renato Rabelo! Uma honra contar a sua história na AP e no PCdoB!

Minha primeira conversa com ele ocorreu num seminário organizado pelo Sindicato dos Metroviários, do qual eu era diretor de Imprensa, eleito em 1989. Renato foi um dos convidados para fazer análise de conjuntura. A profundidade e abrangência de sua fala chamaram a atenção, característica que presenciei muitas outras vezes.

Entrevistei Renato para os portais Vermelho e Grabois, para a TV Grabois e para a revista Princípios. A última atividade em que participei com ele foi em 2 de outubro de 2022, dia do primeiro turno das eleições, numa transmissão de mais de cinco horas, comandada pelo sociólogo, professor, escritor e militante comunista Lejeune Mirhan, compartilhada por vários canais na internet. Tive a honra também de contar com seu Prefácio na biografia de Aurélio Peres.

Fazer a sua biografia exigiu dedicação quase integral, um isolamento praticamente total. Foram muitas horas de entrevistas, leituras, pesquisas e checagem de informações. Ouvi irmãos, filhos, companheiros, camaradas e amigos.

A irmã de Renato, Mara, teve participação especial. Foi paciente e prestativa, sempre disposta a me socorrer em momentos cruciais. De memória privilegiada, não foram poucas as vezes que ela prontamente se dispôs a solucionar dúvidas sobre a vida familiar de Renato. Por seu intermédio, pude conversar longamente com os irmãos Antônio e Jorge, igualmente diligentes e prestativos.

Os filhos de Renato, Nina e André, também foram fundamentais. Suas memórias infantis explicaram momentos às vezes dramáticos dos pais, a opção entre a segurança diante das ameaças da ditadura militar e a convivência familiar.

Seus depoimentos mostraram Renato e Conchita como pais zelosos e carinhosos em meio às agruras da clandestinidade e do exílio. Foram determinantes para a descrição de outra faceta importante de Renato: o pai dedicado. Mostraram também a convivência de Renato com os parentes mais próximos, mesmo sob rigorosa clandestinidade.

Faço uma menção especial à Conchita, por sua dedicação na tarefa de levantar informações familiares. Pacientemente ela reuniu materiais e sugeriu fontes, trabalho que deu vigor à história pessoal de Renato.

Foram horas e horas de conversa, de consultas de documentos e fotos, de lembranças muitas vezes descontraídas, mas também de intensa emoção. Para ela, revisitar algumas passagens de suas vidas foi um exercício de revolvimento de memórias com muitos detalhes apagados pelo tempo.

Renato sempre nos acompanhava em sua poltrona, com um livro na mão. No início de nossas conversas, quando começamos as gravações de seu depoimento, brindamos com um vinho – bebida de sua predileção – o trabalho desta biografia e a celebração à amizade que se estreitou em minhas muitas visitas à sua residência.

Pessoa reservada

Comecei o trabalho da biografia reunindo uma grande bibliografia, listei muitas fontes de pesquisa e formei uma valorosa equipe de apoio. A primeira incursão foi sobre suas memórias, com cerca de dez horas de gravação.

Acomodado na mesa da pequena sala do seu apartamento, em São Paulo, com uma pilha de livros ao lado, Renato Rabelo começou a falar. Parecia incansável. De meados da tarde até a noite avançada, lembrou detalhes de sua vida e do seu pensamento. Era muita coisa. Foi preciso retomar em outro dia. Novamente faltou coisa.

E assim a cena se repetiu, até que tudo fosse falado. Estava sempre bem-humorado, disposto a falar de tudo. Nunca fez a mínima ressalva sobre qualquer assunto e respondeu em detalhes tudo o que lhe foi perguntado. Tampouco pediu para mudar algum conteúdo quando leu os originais.

O tempo precisava ser otimizado para atender ao cuidado com a saúde. Diagnosticado com câncer de próstata em 2009, Renato começou o tratamento com reposição hormonal, que evoluiu para radioterapia e, em 2011, para cirurgia. Seguiu-se uma rotina de medicação e fisioterapia. Renato enfrentou o tratamento em meio à sua agenda intensa. Muitas vezes, saía da radioterapia direto para o aeroporto.

Em 2018, foi diagnosticado com a evolução do câncer, que atingiu o pâncreas. Uma cirurgia extirpou o tumor e estabilizou a doença.

Diabético, Renato mantinha uma rotina diária de caminhada e corrida acelerada, mesmo quando viajava. “Isso ajudou muito na minha saúde. Os médicos elogiaram a cirurgia porque, mesmo com diabetes, tudo cicatrizava muito bem. Falaram que eu tinha boa musculatura. Foram trinta ou quarenta anos andando e correndo”, diz.

Mesmo sob tratamento intensivo, Renato manteve a agenda carregada, sempre requisitado para palestras, cursos, entrevistas e artigos. Ao mesmo tempo, dedicava-se aos afazeres administrativos da Fundação Maurício Grabois, que lhe consumiam grande parte do tempo.

Renato se define como pessoa reservada, que não gosta de aparecer, o mais tímido dos irmãos. “Quando comecei a assumir o trabalho político, tive de fazer um esforço muito grande para ser uma pessoa com capacidade pública maior. Era essencial para a minha atividade. Acho que consegui não só por intervenções públicas como na relação política com grandes lideranças, como presidentes da República, presidentes da Câmara e do Senado, gente como o José Alencar, ministros. Todos me atendiam com muito respeito.”

Essa relação de confiança se devia ao prestígio do PCdoB, segundo Renato. “Então, eu ia sentindo que estava fazendo o papel necessário. Compreendi que estava fazendo um papel importante. Isso me deu muita segurança. Tinha certa autoridade.”

Um dos momentos mais decisivos de sua vida foi a indicação de Luciana Santos para assumir a presidência do PCdoB. “Foi uma das atitudes mais serenas e mais justas que tomei. Não foi uma corrida de revezamento”, comenta ao falar das pacientes consultas e dos debates no âmbito da direção do Partido. Para ele, esse processo guarda semelhança com a sua indicação para presidente do Partido por João Amazonas.

Renato recorda de seus camaradas com emoção, especialmente Haroldo Lima. “Haroldo teve também um papel importante para eu ingressar na luta. Eu poderia ficar por ali mesmo, em Salvador, estudando, ser um médico. Foi um ponto importante na minha vida”, relata, mostrando a foto da capa do livro autobiográfico de Haroldo, inconformado com a sua morte por uma causa que poderia ser evitada.

Falou também da relação com os filhos, muito atenciosos, mesmo quando estão distantes (principalmente André, que reside no Canadá). “Sempre foram muito compreensivos, pelo que eles passaram. A relação conosco mostra a grandeza deles. Se viraram por conta própria, uma coisa também muito importante. Foram independentes. Hoje, eles têm grande admiração e respeito por nós, eu e a mãe deles.” A convivência com os netos – Ana Clara e Sophia, filhas de André e Carolina, e Lorenzo, filho de Nina e Carlos Eduardo – é sempre uma alegria revigorante, define.

Renato cita a experiência vivida na China, quando jovem, como fundamental para a sua militância. “Uma experiência da envergadura da Revolução Chinesa ensina muito”, afirma. As visitas ao Vietnã também lhe causaram forte impressão. “Fiquei impressionado com o povo vietnamita. Não é por acaso que expulsaram três imperialismos. Essa ideia de nova luta pelo socialismo é deles.”

Segundo Renato, foram conhecimentos que ajudaram muito na sua compreensão sobre a tática e a estratégia. “O tempo que passei na França foi também importante, porque o exílio é uma escola. O povo francês é muito testado. É a terra das revoluções. Eles têm uma tradição de luta gigantesca. A vivência com um povo desse ensina muito para a gente”, afirma.

“Na minha vida, não tenho uma atitude que considero errada, algo que deveria ter feito de outra forma. Não consigo encontrar nada, assim, que me marcou negativamente”, conclui, com o olhar revelando que acabara de fazer uma viagem no tempo, desde seus primeiros dias em Ubaíra, onde nasceu.

Coletânea mostra vida de combate teórico de Maurício Grabois

Por Osvaldo Bertolino

Os textos aqui reunidos mostram um homem de combates. Um revolucionário que se guiava pela teoria, enfrentando cada etapa de sua trajetória com a força das ideias, até o momento em que foi silenciado pela brutalidade das armas da barbárie. Ao ser atingido mortalmente na Guerrilha do Araguaia, Sul do estado do Pará, na manhã chuvosa de 25 de dezembro de 1973, estava respondendo ao fogo do inimigo com o recurso disponível, um revólver calibre 38, mas seu gesto representou muito mais do que um simples ato de defesa.

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Maurício Grabois e a Constituição democrática de 1946

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Ergueu-se, no combate final, o portador de uma história que essa coletânea revela como base de sua prática. A repressão calou a voz de um combatente, mas suas ideias não podem ser silenciadas. Agora, com esse livro, elas ganham mais amplificação, uma sistematização de aspectos dos combates do Partido Comunista do Brasil desde seus primeiros passos como protagonista da história brasileira. Emerge, da leitura desses textos, um cenário que as forças opressoras tentam invisibilizar como recurso para neutralizar seus efeitos.

Maurício Grabois, ainda na juventude, compreendeu que não se faz transformações sociais sem ideias, a máxima de Vladimir Lênin de que sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário. Assimilou cedo o primado de que as ideias ganham força material quando são sistematizadas e organizadas, a formulação leninista de partido revolucionário. Foi, sem dúvida, o que mais compreendeu esse princípio num momento em que o Partido Comunista do Brasil procurava sua afirmação como força política.

Sua produção teórica combina textos flamejantes, verdadeiras conclamações ao combate, com reflexões sobre a essência da teoria revolucionária, a superação de toda forma de opressão e exploração. Aparece, na sua produção, o olhar rigoroso para a realidade concreta, a começar pela conjuntura do entreguerras, a difícil tarefa de alinhar a ação política ao objetivo transformador, a clássica combinação de tática e estratégia, um exercício que exigiu rápida reinterpretação do papel dos agentes daquele cenário de grandes batalhas.

Com o instrumental teórico do marxismo-leninismo, Grabois despontou nessa tarefa como integrante da esquipe do jornal A Classe Operária e redator nas revistas Renovação e Continental. Em seus textos aparecem o nascimento e a evolução do conceito de “união nacional” – a tática do Partido à época – como caminho para a derrota do nazifascismo, num momento em que a máquina de guerra comandada por Adolf Hitler avançava furiosa. O presidente Getúlio Vargas, que liderou a Revolução de 1930 e o Estado Novo de 1937, regido por uma ditatorial Constituição outorgada, agora se aproximava da resistência democrática.

Era um mar de contradições, que exigia sagacidade para interpretar cada movimento de forma concreta. Grabois entendia que o momento exigia o fortalecimento da organização política que apontava a saída estratégica. Formou a Comissão Nacional de Organização Provisória (Cnop) e foi à luta para reunir quadros do Partido espalhados pelo país em torno de um projeto organizativo, a Conferência da Mantiqueira de 1943. Foi a ignição de uma nova fase da resistência democrática, com manifestações combativas dos movimentos estudantil e sindical, da intelectualidade e de setores da institucionalidade do Estado.

Grabois começou a aparecer como articulador político, um interlocutor com trânsito em diferentes setores sociais. A mudança no cenário político levou à anistia aos presos políticos do Estado Novo e a um vigoroso movimento de massas pelo estabelecimento da legalidade democrática, a campanha exigindo Assembleia Nacional Constituinte. Após a legalidade do Partido, proclamada em 23 de maio de 1945 no comício do Estádio de São Januário, do Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, Grabois fez discursos memoráveis sobre as possibilidades de transformações sociais pelo caminho da democracia.

Eleito constituinte, destacou-se com sua eloquência e visão política nos duros embates para a elaboração de uma Constituição que traduzisse e institucionalizasse os ideais da história de lutas do povo. Nos limites do jogo de força estabelecido, conseguiu, com seus camaradas de bancada e aliados, inscrever pontos progressistas essenciais na Constituição. Após a Constituinte, como líder da bancada comunista, mais uma vez ergueu-se com sua estatura intelectual e moral, agora contra a ofensiva da direita para pisotear o que havia sido conquistado na Constituinte.

Mesmo com a resistência, houve a cassação do registro e dos mandatos comunistas, em confrontos que foram verdadeiras lições de combates. Foi um período em que Grabois, além dos discursos como parlamentar, escreveu em profusão na imprensa do Partido e para eventos partidários. Seu pronunciamento de despedida da bancada comunista representou uma contundente denúncia do arbítrio que voltava a se manifestar, ao mesmo tempo em que anunciou a continuidade da luta histórica do Partido.

Apesar da mordaça do governo do general Eurico Gaspar Dutra, Grabois seguiu produzindo análises, que se intensificariam nos anos 1950. O momento era de redefinição tática, também numa conjuntura conturbada, a ofensiva anticomunista da “guerra fria”. Grabois foi buscar mais conhecimentos num curso de longa duração na União Soviética e na volta se mostrou preparado para os combates em defesa do Partido nos acontecimentos pós-XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS).

Novamente se mostrou um estrategista sagaz, que compreendia bem os compromissos táticos. O Partido, para ele, era um instrumento imprescindível, sem o qual não haveria transformações sociais. Precisava ser reorganizado, com base nos princípios norteadores da luta revolucionária, tarefa que assumiu com a mesma determinação de quando criou a Cnop. E assim prosseguiu, até o momento em que levou à prática sua vasta produção teórica nos combates do Araguaia, como um dos líderes políticos e comandante militar da Guerrilha. Caiu, de arma na mão, e com o peso de sua profícua vida de combates.

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Eu fui à Bahia me despedir de Péricles de Souza

Por Osvaldo Bertolino

O falecimento de Péricles de Souza nesta sexta-feira, 05 de setembro de 2025, em Salvador, Bahia, representa uma daquelas perdas humanas de dimensão histórica. Enfrentou a doença de Parkinson, na luta pela vida, período em que iniciei a pesquisa para escrever a sua biografia, lançada no final de 2024. A tarefa me levou aos ambientes do Brasil e do mundo no ciclo iniciado na década de 1950, a atmosfera do pós-Segunda Guerra Mundial que levou a juventude à resistência às reminiscências do nazifascismo.

As cinzas do grande combate aos regimes que se projetaram sob as botas de Adolf Hitler se levantavam com nova forma, projetada pelo anticomunismo proclamado sobretudo por Herry Truman e Winston Churchill. Os genocídios estavam de volta, com as guerras da Coreia e do Vietnã e os banhos de sangue anticomunistas na Indonésia e na Tailândia. O Brasil foi arrastado para essa atmosfera com a chamada Doutrina Truman, abraçada incondicionalmente pelo governo do general Eurico Gaspar Dutra, abrindo o país para a doutrina da guerra imperialista com a criação da Escola Superior de Guerra, em 1949.

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Péricles cresceu nessa atmosfera e viu a juventude intensificando o combate à militarização da Cortina de Ferro, proclamada por Churchill, então primeiro-ministro britânico, num discurso enfaticamente anticomunista, dia 5 de março de 1946, no Westminster College, na cidade de Fulton, Missouri, Estados Unidos.

No Brasil, os jovens se mobilizaram contra a tentativa de enviar soldados à guerra da Coreia e sabiam que a atmosfera da anticomunista Guerra Fria tendia a militarização do governo, tentativas que se manifestaram contra os presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitscheck. As ameaças se intensificaram com a militarização da Cortina de Ferro para conter as ideias da luta de libertação da Coreia e do Vietnã, da Revolução Chinesa, em 1949, e da Revolução Cubana, em 1959, inspiradas na guerra popular contra o nazifascismo pela União Soviética.

A compreensão desses cenários foi a base para explicar o início da militância de Péricles na sua adolescência. Quando a intenção da militarização se concretizou, com o golpe de 1964, intensificando a brutal ofensiva imperialista na América Latina, Péricles estava nas trincheiras da resistência. A militância na Juventude Estudantil Católica (JEC) foi uma transição para ideias revolucionárias, consolidada na sua participação da fundação da Ação Popular (AP), em 1963.

Os estudos iniciados pela Doutrina Social da Igreja – o pensamento progressista católico – transitaram para o marxismo e, consequentemente, para a ideia da guerra popular de libertação nacional. Péricles foi para os estados do Pará e do Maranhão com essas ideias, assumidas pela AP. Na biografia, esse período é descrito com o alto grau de tensão e perigo daquela missão. Péricles se instalou na região com a esposa, Carmilce, e o filho Saulo.

Caçado pela ditadura, foi para São Paulo onde foi ativo integrante do grupo que fez a transição da AP para o marxismo-leninismo e a consequente incorporação ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em 1973. Péricles desempenhava uma função de alta responsabilidade – a segurança dos militantes, quando a repressão estava no auge e qualquer passo em falso poderia levar a prisões, torturas e mortes. Eram tempos de perseguição à Guerrilha do Araguaia, com uma sucessão de assassinatos brutais e caçada implacável aos comunistas. Em 1975, ele foi para Aracaju, Sergipe, reorganizar o Partido no Nordeste, agora integrado pela estrutura da AP.

Com a anistia de 1979, Péricles retornou a Salvador e foi o principal articulador do Partido na Bahia – ao lado de Haroldo Lima, seu contemporâneo do movimento estudantil no início da década de 1960 –, construindo os alicerces da grande projeção dos comunistas do estado. Sua autoridade moral, esculpida por profunda convicção revolucionária, desenvolvida no fogo das batalhas políticas e ideológicas, foi amplamente reconhecida por todos que participaram das pesquisas para a sua biografia.

A cordialidade, traço de Péricles que considero essencial para um revolucionário, marcou profundamente os membros do Partido que atuaram ao seu lado. Todas e todos ressaltaram essa característica, essencial para a sua militância agregadora e rigorosa com princípios e compromissos, a autoridade que se impunha pelo exemplo e pela força das ideias. Foi com essa cordialidade que fui recebido em Salvador pelos comunistas, dos dirigentes aos militantes de base.

Faço um agradecimento especial aos seus filhos – Saulo, Mariana e Jorge – e à sua esposa, Carmilce. Com emoção lembro as longas conversas, as trocas de informações, seus esforços para que a biografia tivesse o máximo de informações. O resultado é a descrição de Péricles como autêntico comunista, exemplo de revolucionário. O militante, o dirigente, o camarada, o companheiro, o filho, o irmão, o marido, o pai e o trabalhador incansável aparecem como traços de uma pessoa que viveu para o ideal da civilização, a luta pelo socialismo, e deixa um acervo inspirador aos que abraçam o mesmo propósito.

Quando a biografia foi lançada em Salvador, visitei Péricles no hospital, acompanhado por seu filho Jorge e dirigentes do PCdoB. Seu estado de saúde não impediu que ele interagisse com a nossa conversa, às vezes balbuciando algumas palavras, outras nos acompanhando com o olhar. Foi uma emoção especial saber que ele estava entendendo o que representava a sua biografia, da qual participou, com a leitura dos originais pelos filhos, manifestando alegria e confirmando a fidelidade dos fatos narrados.

Obrigado, camarada Péricles, por me proporcionar a oportunidade de contar, em sua biografia, tudo o que você foi! Até sempre!

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Leia a Nota do autor, publicada em sua biografia:

Eu fui à Bahia

Você já foi a Bahia? Não? Então vá! A obra-prima de Dorival Caymmi que instiga o conhecimento de um dos estados mais representativos da brasilidade é uma espécie de guia para se entender o que nenhuma outra terra tem, como diz a canção. “Tudo, tudo na Bahia faz a gente querer bem”, expressa Caymmi. Andando por Salvador, a sensação é de que se ouve essa música por toda parte. A baianidade transborda cordialidade e cultura, história e hospitalidade, traços comuns do Nordeste com especificidades locais. Em todo lugar tem um pedaço da raiz do Brasil. Com quem se fala, fica-se sabendo algo mais sobre a formação do povo brasileiro.

Nos últimos três anos, convivi quase diariamente com esse clima para escrever, simultaneamente, as biografias de Péricles de Souza e Renato Rabelo, baianos que marcaram a história de um período expressivo da luta do povo brasileiro. São, a rigor, continuadores de seus conterrâneos da Independência, das lutas abolicionistas e republicanas, agora num processo de resistência que busca caminhos para outro salto civilizatório. São intérpretes das aspirações populares, vidas dedicadas, desde a tenra juventude, ao ideal socialista.

Como lideranças da Ação Popular (AP) e do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Péricles e Renato têm em suas biografias parte considerável do acervo teórico e histórico dessa trajetória. Muitas passagens se repetem na narração por serem personagens protagonistas da mesma luta. Foi impossível falar de um sem citar outro, cada um em sua dimensão, paralelo nascido pela opção de enfrentar uma das situações mais tenebrosas da história do Brasil, num tempo em que os ecos do nazifascismo ainda ressoavam e se manifestavam na forma de uma série de golpes de Estado iniciada em 19 de maio de 1954 na Guatemala.

Novas formas políticas da ideologia da violência estavam em curso, uma cadeia de ações nascida no pós-Segunda Guerra Mundial e pronunciada de forma mais visível nas guerras da Coreia e do Vietnã. O horizonte se apresentava sombrio para aquela juventude que conhecia bem as ameaças de envolvimento do Brasil em guerras imperialistas e sabia dos perigos deste lado da anticomunista “cortina de ferro” proclamada nos Estados Unidos por Winston Churchill, então primeiro-ministro britânico, referindo-se à barreira ideológica e militar que passou para a história com o nome de Guerra Fria, inserida na chamada Doutrina Truman, o expansionismo autoritário do regime de Washington.

Conheci a luta e as ideias de Péricles e Renato movido pela inquietação da geração que despontou no final dos anos 1970 combatendo a já cambaleante ditadura militar. Péricles conheci pessoalmente fazendo pesquisas para a biografia de Pedro Pomar, liderança do PCdoB desde a década de 1930, assassinado pela ditadura em 16 de dezembro de 1976, publicada no centenário de seu nascimento em 2013. Conversamos por mais de uma hora na sede do Partido, em São Paulo, durante uma reunião do Comitê Central. Fiquei impressionado com a profundidade de suas análises, permeadas por críticas e autocríticas, num momento em que ainda estava em debate a renovação da teoria marxista, iniciada no PCdoB em seu VIII Congresso, de 1992.

Quando recebi o convite de Caio Botelho, então secretário de Formação e Propaganda do PCdoB-BA, para escrever esta biografia, imediatamente a conversa com Péricles me veio à memória. Sua voz pausada, acompanhada de gestos cadenciados, transmitia a serenidade contundente dos que manifestam convicção sobre o que falam. Foram palavras incisivas, que remetem à reflexão no lugar da exaltação, à interrogação sem exclamação, essenciais para a inquietação prospectiva. Ao mesmo tempo, transmitem cordialidade, característica própria da sabedoria revolucionária.

Vi esses traços de Péricles em todas as pessoas que entrevistei para esta biografia. Infelizmente não pude falar com ele, impedido por seu estado de saúde. Mas fiz amizade com seus filhos – Saulo, Mariana e Jorge –, que me auxiliaram do começo ao fim. Foram longas conversas virtuais na busca de informações, com trocas de opiniões e esclarecimentos de dúvidas. Observei neles as lições do pai, de contundência nas convicções, rigor ético e generosidade. Também não pude falar pessoalmente com a esposa, Carmilce, mas tive dela a inestimável colaboração em muitas passagens dessa história. Norlei, a irmã de Péricles, foi igualmente generosa com informações da família.

Menciono, de modo reverencial, Jorge Wilton e Ricardo Moreno por suas inestimáveis contribuições no desbravamento da história do PCdoB-BA, que muito facilitou meu trabalho para esta biografia. Memórias de uma esquerda em transição, de Jorge Wilton, é um extraordinário painel da trajetória dos comunistas baianos na travessia do combate à ditadura militar à consolidação de seu protagonismo político. Naquelas manhãs de segunda – a trajetória de Haroldo Lima, de Ricardo Moreno, relata com primor a vida e as ideias de uma das importantes lideranças políticas da história da Bahia.

Faço também agradecimentos especiais aos dirigentes, militantes e funcionários do PCdoB-BA, que dedicaram tempos preciosos para atender aos meus pedidos de entrevistas. Além de Caio Botelho – que escreve as orelhas deste livro –, faço um destaque para o presidente estadual do Partido, Geraldo Galindo, autor do Prefácio, que também assumiu a tarefa de fazer essa biografia vir à luz. Conversamos longamente no período em que estive pesquisando em Salvador, no começo de 2024 – quando tive o privilégio de presenciar a Festa de Iemanjá, em 2 de fevereiro, na companhia dos amigos e camaradas Itana Sampaio e Ricardo Moreno –, molhando as palavras com cerveja e cachaça, como ele diz no Prefácio.

Considero um imenso privilégio esse trabalho de resgate da memória do PCdoB. É um sonho que vem dos primeiros contatos com a história dos comunistas, no longínquo início da década de 1980. Pude iniciar esse trabalho somente no começo dos anos 2000, como membro da Comissão Estadual de Formação do PCdoB em São Paulo, liderada por Altamiro Borges, que me sugeriu escrever a biografia de Carlos Nicolau Danielli. As biografias de Renato e Péricles são a sétima e a oitava que escrevo. Escrevi também os trinta anos da União da Juventude Socialista (UJS), a trajetória do ressurgimento do sindicalismo brasileiro até a criação da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), a defesa da Guerrilha do Araguaia e a história do PCdoB no Rio Grande do Norte desde a década de 1920.

Como sempre, este é um trabalho coletivo. Participaram comigo, além dos entrevistados, o sempre parceiro e dileto amigo Luiz Manfredini, jornalista e escritor talentoso. Menciono também a colaboração de Fernando Garcia e Felipe Spadari, do centro de Documentação e Memória (CDM) da Fundação Maurício Grabois, e de Harlen Oliveira, que abriu as portas do PCdoB-BA para a minha pesquisa e providenciou o envio do material pesquisado para São Paulo. E agradeço a sempre confortante presença e apoio dos meus filhos, Murilo, Isabela e Lais, a quem dedico este trabalho.

São Paulo, setembro de 2024.

A China e a revolução escondida

Por Osvaldo Bertolino

O fenômeno chinês é, possivelmente, um dos assuntos mais debatidos na atualidade em todo o mundo. No Brasil, é possível afirmar que o assunto está no topo do debate político, econômico e ideológico. Com o advento das novas formas de comunicação, velhos estereótipos foram desmoralizados, sobretudo os que estigmatizam a China como ditadura e fornecedora de força de trabalho abundante a baixos custos, sem contrapartidas, como se essa fosse uma condição do sistema.

Ficou, no debate com esses novos conhecimentos, um vazio de ideias. Fala-se muito sobre a China, mas pouco sobre o essencial, a ideologia que impulsiona o seu desenvolvimento. Compreende-se pouco, pelas manifestações mais conhecidas, o dínamo daquele país, a organização que orienta politicamente a sociedade: o Partido Comunista da China (PCCh). Nele está o projeto chinês, compreendido como antípoda do imperialismo como evolução natural das ideias surgidas com Adam Smith e seus congêneres, à época chamadas de liberais. O socialismo é o processo de superação do capitalismo, não seu mero concorrente

É um anacronismo chamar o atual projeto econômico, político e social do capitalismo de liberal. O termo surgiu como sinônimo de liberdade, num mundo em que a relação entre capital e trabalho era vista como antinomia assimilável pelo princípio da liberdade, tida como universal e perene. Mais recentemente, tentou-se reavivar esse projeto, rebatizado de neoliberal, a nova ordem econômica e política do velho imperialismo.

A história logo provou a cientificidade da crítica da economia política de Karl Marx, a constatação de que a liberdade de Adam Smith não era universal e muito menos perene. A crítica de Marx é lastreada numa síntese do pensamento social desde a antiguidade clássica. Outros marxistas deram novas sistematizações a essa ideia, sobretudo Vladimir Lênin, que elaborou outra grande síntese do pensamento social.

Surge, nesse curso histórico, a concepção leninista de partido de novo tipo, o portador consciente de um processo inconsciente, as contradições manifestadas em luta política pelas categorias da dialética, transformando os trabalhadores de classe em si para classe para si, a consciência social de que o capital é instrumento de dominação, exploração e alienação. O partido leninista concentra essa teoria em suas elaborações programáticas e dá a elas sentido prático, com táticas e estratégias impulsionadas dialeticamente, conforme as realidades concretas.

Não se compreende a China sem esses elementos. Foram eles que levaram à revolução de 1949 e ao desenvolvimento do socialismo, também carregado de antinomias e contradições. As limitações teóricas foram o grande entrave a esse processo – também foram em outras experiências socialistas –, atualmente em processo de superação, mais conhecido como nova luta pelo socialismo, por experientes partidos comunistas, entre eles o Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

É a busca de novas elaborações no cenário mundial de novas realidades, caminhos para a consecução do projeto socialista. O PCCh empreende grande esforço nesse sentido. Suas elaborações permitem compreender melhor a síntese leninista, a causa do sucesso chinês, um bem-sucedido projeto antinômico que transforma capital em investimentos e desenvolvimento, produzindo novas realidades, o caminho do socialismo.

Ou seja: a raiz do fenômeno chinês é o partido leninista, com a revolução de 1949 como seu marco principal. Resta saber se, com esses elementos, é possível dizer que o mundo caminha para a multipolaridade, com o imperialismo cada vez mais feroz na defesa da ordem do capital e a China em marcha acelerada com seu projeto socialista.

PCdoB cento e três anos: as lideranças das gerações comunistas

Prólogo do livro Renato Rabelo – vida, ideias e rumos

O sorriso largo não deixava dúvida. João Amazonas estava feliz ao receber uma placa homenageando seus quase sessenta e sete anos de militância comunista, perto de completar quarenta anos como principal dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Pouco antes, estivera na tribuna do X Congresso do Partido, realizado entre 9 e 12 de dezembro de 2001 no Centro de Convenções Riocentro, Rio de Janeiro, para apontar, com voz serena e embargada, Renato Rabelo, então vice-presidente, como seu substituto. A quarta geração de dirigentes estava assumindo o comando do Partido.

Os mais de oitocentos delegados, representando em torno de duzentos mil filiados, além dos convidados e trinta e duas delegações estrangeiras, ouviram, em silêncio absoluto, Amazonas dizer que Renato era um bom camarada, que vinha se destacando no Partido e procurando seguir suas tradições de luta.

Em pé, trajando terno e gravata, com as mãos apoiadas na mesa, Amazonas falou, num breve discurso, que completaria noventa anos de idade em 1º de janeiro de 2002 e não tinha mais condições físicas para ocupar o cargo máximo da direção partidária. Pediu aos seus camaradas dispensa da função. Não havia cargo vitalício no PCdoB, mas não estava pedindo aposentadoria, comunicou. Queria morrer em sua banca de trabalho, continuando a luta pelos ideais que procurou defender durante a vida. Seguiria membro do Comitê Central, agora no simbólico posto de presidente de honra.

Agradeceu pelo apoio que sempre teve “nas fileiras do glorioso e heroico Partido Comunista do Brasil” e virou-se para a esquerda, onde estava sua companheira de jornada, Elza Monnerat. Sentou-se lentamente. Com o gesto, retirou-se simbolicamente do posto que ocupava desde 1962, quando o Partido foi reorganizado. Às suas costas, um painel do Congresso ostentava as imagens de Karl Marx, Friedrich Engels e Vladimir Lênin.

Em cem anos de atividades do Partido Comunista do Brasil, passaram por sua direção, antes de Renato, à frente de gerações de dirigentes, Astrojildo Pereira – que liderou a fundação e os primeiros anos do Partido –, Luiz Carlos Prestes – que assumiu na Conferência da Mantiqueira, de 1943, na reconstrução após a ditadura do Estado Novo – e Amazonas, uma das lideranças da reorganização na Conferência extraordinária de 1962.

Nas duas conferências – de 1943 e de 1962 –, os comunistas recomeçavam praticamente do zero, uma atividade de construção e reconstrução do Partido que Amazonas comparava à mitológica Fênix, a ave da literatura grega que renasce de suas cinzas.

Passagem para Renato Rabelo

Na passagem de comando para Renato, Amazonas destacou o papel dos camaradas da direção coletiva na sua geração, dos quais lembrava com saudades e respeito pela sua combatividade. Citou Maurício Grabois, Pedro Pomar, Lincoln Oest, Carlos Danielli, Ângelo Arroyo, Luís Guilhardini e outros tantos que pagaram alto preço pela coragem de desafiar um regime de traição e brutalidade – a ditadura militar – para defender os interesses do povo.

Com os assassinatos daqueles camaradas, coube a ele maiores responsabilidades. O ingresso de Renato e outros dirigentes da Ação Popular (AP) no Partido, no começo da década de 1970, reforçou a direção. Foram recebidos com entusiasmo. Estavam entrando para o PCdoB em um momento de alto risco, quando a repressão atacava ferozmente os comunistas. A caçada aos que, de uma forma ou de outra, estavam ligados à Guerrilha do Araguaia era uma obsessão da ditadura militar.

Começava ali o trajeto que levaria à quarta geração de dirigentes, reunindo remanescentes da incorporação da Ação Popular e novas lideranças. Quando Renato ingressou no PCdoB, encontrou na direção quadros experientes, marcados por combates que vinham dos anos 1930. Não conheceu Grabois, morto em ação armada na Guerrilha do Araguaia, mas foi recebido por Amazonas, Pedro Pomar e Elza Monnerat, sobreviventes das matanças promovidas pela ditadura e antigos dirigentes comunistas.

Amazonas ingressou no Partido em Belém do Pará, sua terra Natal, onde fora preso em atividades da Aliança Nacional Libertadora (ANL), que organizava o Levante de 1935, assim como Pomar. Elza Monnerat viera do Rio de Janeiro. Ingressara no Partido em 1945. Foram lideranças da reorganização de 1962, quando o Partido enfrentou um surto revisionista e reformista, processo iniciado em 1956 sob o influxo do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS).

Com o golpe de 1964, diante da quase impossibilidade da luta revolucionária nas cidades, foram para o campo organizar a guerra popular, o caminho da luta armada, a resistência à ditadura. Amazonas e Elza sobreviveram à repressão à Guerrilha do Araguaia, no Sul do Pará. Pomar esteve em diferentes regiões do Norte e do Nordeste. Fixou-se no Vale do Ribeira, organizando bases da guerra popular nas montanhas do Sul do estado de São Paulo, e seria morto na Chacina da Lapa, em 16 de dezembro de 1976.

Liderança de João Amazonas

Amazonas assumiu a liderança da terceira geração de dirigentes, em 1962 – ao lado de Maurício Grabois, Pedro Pomar e outros –, com a experiência de membro do Comitê Central desde a Conferência da Mantiqueira, de 1943, assim chamada por ter sido realizada nas proximidades da serra com esse nome, numa casa de taipa, moradia de uma propriedade rural que pertencia a um militante comunista, no meio da mata, em Engenheiro Passos, distrito de Resende, Sul Fluminense, entre 28 e 30 de agosto de 1943. Nela, o Partido foi reconstruído após a feroz perseguição do Estado Novo, instaurado com o golpe de 1937.

Sua militância política começou na “Ala Moça” da União Popular do Pará (UPP), uma frente única organizada para participar das eleições municipais de Belém em 30 de novembro de 1935. O passo seguinte seria o ingresso no Partido Comunista do Brasil, tendo como caminho a ANL, organizadora do Levante de 1935, liderada por Luiz Carlos Prestes. Ingressou também na União dos Proletários.

Quando a ANL surgiu com força no país, Amazonas participou de uma ação ousada ao içar, à noite, uma bandeira da organização nos mastros dos reservatórios de água da Lauro Sodré, local com ampla visibilidade na cidade, com vinte metros de altura. O jornal Folha do Norte de 19 de dezembro de 1935 noticiou o fato notado pelo público desde a manhã do dia anterior. Os participantes do protesto escreveram, segundo a Folha do Norte, com tinta arroxeada, várias inscrições – como Viva Luiz Carlos Prestes, Viva a ANL e Viva o comunismo.

Na repressão que se instalou no país após o Levante, Amazonas foi preso na Cadeia de São José, descrita pela Folha do Norte como “um antigo e inqualificável pardieiro, uma ignomínia”. Um ano depois, a Justiça mandou soltá-lo, quando terminou o estado de guerra. Mergulhou na clandestinidade, mas logo seria preso novamente.

Segundo o inquérito que determinou a sua prisão, nas palavras da Folha do Norte, “João Amazonas agia no preparo de matrizes e boletins subversivos da propaganda moscovita, matrizes que eram entregues a Pedro de Araújo Pomar, detido há dias passados”, encarregado “de mimeografá-los em grande quantidade para os espalhar sorrateiramente pelos bairros da cidade”. Eram “pouquinhos, mas teimosos os adeptos do credo sinistro”.

Foram para a prisão de Umarizal, em Belém, de onde fugiram e, numa longa e penosa viagem, chegaram ao Rio de Janeiro para se juntar aos comunistas que reconstruíam o Partido, ainda na vigência do Estado Novo, liderados por Maurício Grabois. A decisão foi tomada após a informação de que a Alemanha nazista invadira a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 22 de junho de 1941. Fugiram em 5 de agosto. Chegaram ao Rio de Janeiro e se integraram à Comissão Nacional de Organização Provisória (CNOP), criada por Maurício Grabois e outros comunistas para reestruturar o Partido desarticulado pelo Estado Novo.

Amazonas empregou-se como auxiliar de contabilidade, no centro da cidade. Era uma forma de fazer algum recurso enquanto a CNOP pavimentava os caminhos para o início de uma nova jornada. Logo foi para Minas Gerais. Recebeu alguns mil-réis e a passagem de trem que o levaria para as terras onde deveria fazer rebrotar as raízes comunistas. Outro ponto visitado por Amazonas foi a Bahia, de onde partiu o dirigente Diógenes Arruda Câmara para se integrar à CNOP. O objetivo era realizar uma Conferência Nacional e eleger um Comitê Central.

Os comunistas ressurgiam com força, presentes em organizações como a União Nacional dos Estudantes (UNE), a Associação Brasileira de Escritores (ABDE), além da Liga de Defesa Nacional – uma frente com vários departamentos, entre eles o sindical, assumido por Amazonas, embrião do Movimento Unificador dos Trabalhadores (MUT). O Partido priorizava a organização de células nas empresas, formando uma grande base de trabalhadores.

De 1941 a 1945 foram anos de luta aguda contra o liquidacionismo – os que pretendiam liquidar o Partido, dissolvendo-o numa frente contra o nazifascismo –, disse Amazonas. “É preciso dizer que a desvantagem era grande. Vencemos porque a verdade estava do nosso lado”, afirmou. A nova equipe que assumia a defesa do Partido – registrou Amazonas – eram pessoas desconhecidas quase completamente. “Afinal, essa nova equipe – Arruda, Grabois, Pomar, eu etc. – eram pessoas que não tinham nenhuma posição no Partido, na época, a não ser locais, naqueles lugares onde tínhamos atuado.”

Na Conferência da Mantiqueira Amazonas assumiu a Secretaria Sindical e de Massas. A direção eleita contava também com Grabois, Pomar, Arruda, José Medina Filho, Álvaro Ventura, Jorge Herlein, Francisco Campos, Agostinho Dias de Oliveira e Lindolfo Hill.

Naquele processo, o encontro de Amazonas, Pomar, Grabois e Arruda representou as fundações de uma nova fase do Partido Comunista do Brasil. A meta era enterrar a ditadura do Estado Novo e liquidar o nazifascismo. Em 9 de agosto de 1943, o governo do presidente Getúlio Vargas decidiu organizar a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Segundo Amazonas, os comunistas foram os primeiros a reivindicar a participação militar do Brasil na Segunda Guerra Mundial. “E o fizemos de maneira consequente”, constatou.

Os comunistas lideraram grandes manifestações para redemocratizar o país, defendendo uma Assembleia Nacional Constituinte, principalmente após a legalidade, em meados de 1945. Amazonas foi eleito deputado constituinte, o mais votado do Distrito Federal, sediado então no Rio de Janeiro. Depois da cassação do registro do Partido – em 1947 – e dos mandatos comunistas – em 1948 –, voltou à clandestinidade.

No debate deflagrado pelas mudanças do PCUS, Amazonas foi um dos primeiros a se pronunciar. Seu primeiro artigo, intitulado As massas, o indivíduo e a história, publicado no jornal Voz Operária em 26 de janeiro de 1957, contestou duramente a base dos argumentos daqueles que iniciaram os ataques ao Partido Comunista do Brasil, então com a sigla PCB. Disse que eram as massas que faziam a história, mas “não se pode concluir que seja nulo ou insignificante o papel das personalidades”.

Amazonas voltaria a escrever em 2 de fevereiro de 1957 para defender a ideia de que “o Partido Comunista elabora sua orientação e enriquece seus princípios coletivamente”. “Isso dá ao Partido do proletariado uma grande vantagem sobre os partidos burgueses”, asseverou.

Nos debates do V Congresso, em 1960, também inovou ao abordar o desenvolvimento do capitalismo no Brasil pela via prussiana (as análises de Marx e Engels sobre o desenvolvimento capitalista no espaço da Prússia e do que viria a ser a Alemanha sem alterações na propriedade da terra).

Segundo ele, as Teses do Congresso se equivocavam ao definir “que as contradições entre o desenvolvimento do capitalismo e o monopólio da terra são antagônicas”. “O capitalismo, seguindo o caminho prussiano, pode se desenvolver no campo, conservando o latifúndio. Pode também o capitalismo crescer, substituindo a dependência do país ao imperialismo”, escreveu. “Não é o crescimento do capitalismo que leva à independência e às transformações democráticas, como se afirma implicitamente nas Teses.”

Os debates do V Congresso evoluíram para o “racha” e a reorganização. No jornal do Partido A Classe Operária, Pomar fez uma minuciosa análise dos acontecimentos que levaram à reorganização, revelando nuances daquela batalha. Os que assumiram o controle partidário elaboraram um novo Programa e novo Estatuto para a criação de outro partido, o Partido Comunista Brasileiro, que assumiu a sigla PCB. Segundo Pomar, toda a atividade pretérita dos comunistas se transformou em alvo de zombaria. Era acusada, em todos os aspectos, de ser sectária e dogmática.

A atitude revoltou os comunistas que combateram a linha vitoriosa no V Congresso. Imediatamente enviaram à nova direção um documento denominado Em defesa do Partido, com cem assinaturas – que ficaria conhecido como Carta dos cem –, solicitando a revogação das mudanças anunciadas. O documento classificava as medidas como uma “violação frontal dos princípios partidários, aberta infração das decisões do V Congresso (que) ferem a disciplina e atingem a própria unidade do Partido”.

De acordo com o documento, “as mudanças feitas no nome, no Programa e nos Estatutos objetivam o registro de um novo partido e, por isto, se suprime tudo que possa ser identificado com o Partido Comunista do Brasil, de tão gloriosas tradições”. “Ora, precisamente o partido que deve conquistar a legalidade é o Partido Comunista do Brasil e não um arremedo de partido de vanguarda do proletariado”, asseverava.

A resposta do Comitê Central foi, como destaca Pomar, de intolerância a toda prova. “Entrou pelo terreno das sanções disciplinares, da acusação de divisionismo, até o ponto de pretender expulsar do movimento comunista honrados lutadores da causa revolucionária do proletariado. Assim, os reformistas consumavam o divisionismo no movimento comunista. Não restava outro recurso aos que se mantinham firmemente nas posições revolucionárias do marxismo-leninismo senão o da convocação de uma Conferência extraordinária do Partido Comunista do Brasil que tratasse, fundamentalmente, da sua reorganização diante das graves consequências da política e dos métodos aplicados pelos revisionistas.”

Após o golpe militar de 1964, o Partido, agora com a sigla PCdoB, começou a estudar o caminho da guerra popular. “Em toda parte, em especial no campo, é preciso discutir os problemas da luta armada e, guardadas as normas de trabalho conspirativo, tomar medidas visando à sua preparação prática”, diz o texto da VI Conferência, de 1966. O PCdoB saiu a campo à procura dos melhores lugares para instalar a guerrilha, com três grupos de trabalho – um dirigido por Amazonas e Grabois, outro por Pedro Pomar e Ângelo Arroyo, e um terceiro por Carlos Danielli.

Amazonas se integraria ao Araguaia, Sul do Pará, onde Grabois e outros militantes do PCdoB desenvolviam o trabalho da guerra popular. Na ocasião, Amazonas e Grabois escreveram dois importantes documentos: A atualidade do pensamento de Lênin e Cinquenta anos de luta, sobre a história do Partido Comunista do Brasil.

Liderança de Luiz Carlos Prestes

Luiz Carlos Prestes assumiu a liderança da segunda geração de dirigentes comunistas na Conferência da Mantiqueira. Ainda nos cárceres da ditadura do Estado Novo, preso por ter liderado a ANL no Levante de 1935, foi eleito secretário-geral. Seu prestígio decorria da liderança na Coluna Invicta, um movimento nunca derrotado que percorreu o Brasil no final da década de 1920 combatendo os desmandos da República Velha e fermentando as condições para a Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas.

Prestes desembarcou clandestinamente no Brasil em 15 de abril de 1935, vindo da União Soviética, onde estava exilado, para liderar o Levante. O governo Vargas baniu a ANL da legalidade e, após o malogro do movimento rebelde, desencadeou uma violenta onda repressiva.

Prestes foi preso em 5 de março de 1936, depois de uma caçada comandada pelo chefe da polícia política, Filinto Müller, que esquadrinhou o bairro do Méier e revistou casa por casa. Estava com a esposa, a alemã Olga Benário, deportada grávida para a Alemanha nazista onde morreu em uma câmara de gás, na cidade de Bernburg, pouco depois de dar à luz Anita Leocádia Benário Prestes.

Com a reviravolta na Segunda Guerra Mundial, quando os soviéticos começaram a empurrar os nazistas de volta para Berlim, o presidente da República foi para o lado dos Aliados – a aliança de países que combateram o Eixo nazifascista formado por Alemanha, Itália e Japão – e recebeu o reconhecimento dos comunistas. O diplomata Orlando Leite Ribeiro foi designado para ser o elo com Prestes, ainda encarcerado. Em 18 de abril de 1945, Vargas concedeu a anistia aos presos e exilados. Prestes deixou a prisão.

Tempos depois, Prestes avaliaria que o presidente da República precisava dos comunistas, uma força política à época com grande apoio popular. Havia um setor do governo que agia abertamente contra o avanço das medidas democráticas, logo transformado em conspiradores.

Prestes só assumiria de fato a função de secretário-geral no final do “Pleno da Vitória”, como ficou conhecida a primeira reunião legal da direção nacional, depois de vinte e três anos de vida clandestina, realizada entre 7 e 12 de agosto de 1945. O Partido Comunista do Brasil puxava grandes manifestações populares, numa campanha vitoriosa pela convocação da Assembleia Nacional Constituinte.

A eleição dos constituintes ocorreu em 2 de dezembro de 1945, quando também foi eleito o presidente da República. Compareceram às urnas cerca de seis milhões de eleitores. O candidato a presidente do Partido Comunista do Brasil, Yeddo Fiúza, obteve 569.818 votos, 9,7% do total de votantes. O general Eurico Gaspar Dutra, do Partido Social Democrático (PSD), foi eleito com 55% dos votos e Eduardo Gomes, da União Democrática Nacional (UDN), obteve 35%. Os comunistas elegeram catorze deputados federais e Prestes senador.

As perseguições anticomunistas, no entanto, recomeçaram já no início de 1946, quando dois pedidos de cassação do registro eleitoral do Partido Comunista do Brasil foram apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Prestes seguiu na liderança do Partido até 1961, quando assumiu a chefia do Partido Comunista Brasileiro.

Liderança de Astrojildo Pereira

O líder da primeira geração de dirigentes comunistas, Astrojildo Pereira, foi o fundador do Partido. Prestes entrou em contato com os comunistas por seu intermédio. Foi em dezembro de 1927, na Bolívia. Lá estavam os remanescentes da Coluna Invicta. Prestes já era conhecido como o lendário Cavaleiro da Esperança e deixaria seu nome como marca da Coluna, inicialmente chamada de Miguel Costa-Prestes, uma referência ao general que também comandou os revoltosos.

Astrojildo viajou como repórter do jornal A Esquerda, dirigido por Pedro Motta Lima – que comandaria alguns dos jornais do Partido –, levando uma mala carregada de livros de Karl Marx, Friedrich Engels, Vladimir Lênin e outros, publicações da editora L’Humanité, do Partido Comunista Francês – no Brasil, poucas obras marxistas em português haviam sido publicadas –, possivelmente trazidas quando estivera na União Soviética, em 1924, ou recebidas pelo correio naval. O encontro ocorreu em Porto Suarez, ao lado de Corumbá, a cidade brasileira de Mato Grosso do Sul na fronteira boliviana.

Foi recebido por Prestes e dois oficiais na Coluna, vindos possivelmente da cidade boliviana de Santa Cruz de la Sierra, conforme a memória de Astrojildo. Há versões de que os remanescentes da Coluna se instalaram numa localidade chamada La Guaíba. Em Porto Suarez, conversaram por quase dois dias, instalados numa casa simples. O dirigente do Partido Comunista do Brasil transmitiu-lhe o pensamento dos comunistas e as questões que o levaram a procurá-lo.

Segundo Astrojildo, o motivo da conversa era, em suma, o problema político da aliança entre os comunistas e os combatentes da Coluna Prestes, a união do proletariado revolucionário, sob a influência dos comunistas, e as massas populares – especialmente os camponeses – influenciadas pela Coluna e seu comandante.

O PCB estava saindo de um período de clandestinidade, iniciado logo após a sua fundação com a adoção do estado de sítio em julho de 1922, uma resposta do governo Epitácio Pessoa ao movimento tenentista que entrou para a história como a “Revolta dos 18 do Forte de Copacabana”, e extinto em 15 de novembro de 1926, já no governo de Washington Luís.

De janeiro a agosto de 1927, o PCB liderou um ciclo de greves operárias. O jornal A Nação, em cuja redação trabalhavam três ou quatro membros do Comitê Central, segundo Astrojildo, divulgava amplamente as ações dos comunistas. Com a chamada “Lei Celerada”, editada em 12 de agosto de 1927, os comunistas voltaram à ilegalidade e tiveram seu jornal fechado.

Nos meses seguintes, o Comitê Central chegou à conclusão de que a derrota sofrida se devia basicamente às posições sectárias do Partido, relatou Astrojildo. Era preciso buscar aliados. Essa era a missão na Bolívia. A essência da conversa, publicada como entrevista em janeiro de 1928 no jornal A Esquerda, alinhava os pontos principais de um programa de frente única, democrática e nacionalista.

Prestes, contudo, foi para a Argentina, onde trabalhou como engenheiro e participou de atividades políticas. Em 1930, lançou um manifesto apontando o caminho da revolução agrária e anti-imperialista, sob a hegemonia da classe operária. Expulso da Argentina, exilou-se na União Soviética e, em 1º de agosto de 1934, foi oficialmente aceito como membro do Partido Comunista do Brasil. No VII Congresso da Internacional Comunista, em agosto de 1935, passou a integrar o seu Comitê Executivo.

A militância anarquista de Astrojildo começou em 1910, no movimento sindical. Trabalhou como tipógrafo de jornal, linotipista, revisor, repórter e redator. Como um dos líderes das greves de 1918 e redator do jornal Voz do Povo, foi preso e processado. Recebia informações da III Internacional Comunista antes mesmo da fundação do PCB, segundo ele pela “correspondência internacional”.

A revista Movimento Comunista, sob sua direção, começou a circular em 1º de janeiro de 1922 com notícias vindas da União Soviética. Em 1924 viajou para a pátria do socialismo. Tomou o navio na Praça Mauá, Rio de Janeiro, precisamente no dia da morte de Lênin, em 21 de janeiro. Como a partida seria à noite, pôde ler a notícia nos jornais vespertinos. De Moscou, enviou matérias para os jornais O Paiz e Correio da Manhã, relatando aspectos do nascente socialismo e comentando como a imprensa anarquista no Brasil distorcia os propósitos da Revolução.

Ele mesmo egresso do anarquismo, via aquele movimento como superado pelo marxismo, compreensão que o havia levado a organizar as primeiras ações visando à fundação do Partido Comunista do Brasil, um movimento conhecido como “os doze astrojildistas”, nominação recebida de Octávio Brandão, outro importante dirigente do PCB daquela geração. De acordo com Astrojildo, em 1921 já havia “acalorados debates nos sindicatos operários” que resultaram na fundação, em 7 de novembro daquele ano – aniversário da Revolução Russa de 2017 –, de um grupo chamado “Centro Comunista”.

A primeira ideia de criar o Partido Comunista do Brasil, diz Astrojildo, havia sido lançada cerca de três anos antes, mas não estava ainda madura e “gorou no nascedouro”. De 1917 em diante, a influência da Revolução Russa tornou-se decisiva, sobrepondo-se pouco a pouco à hegemonia anarquista. Uma onda de greves iniciada naquele ano ficou marcada por manifestação de apoio aos comunistas russos.

Intelectuais também se manifestaram, entre eles Lima Barreto, que, em 1919, publicou um artigo intitulado Manifesto maximalista, com grande repercussão. Segundo Astrojildo, tudo levava a crer que o escritor, falecido em 1º de novembro de 1922, tomaria posição a favor do Partido.

Naquele clima de debates, houve a cisão no anarquismo e a criação do “Centro Comunista”. Os “doze astrojildistas” entraram em contato com comunistas de outras regiões do país e lançaram a revista mensal Movimento Comunista, importante veículo de ligação e preparação política entre os grupos que elegeram delegados para o Congresso de fundação do Partido Comunista do Brasil.

Depois de seis meses de preparação, nove delegados reuniram-se dias 25 e 26 de março de 1922 no Rio de Janeiro. A reunião final ocorreu dia 27 na pequena sala de visitas da residência de Astrojildo, na Rua Visconde de Rio Branco, número 651, Niterói. Terminados os trabalhos, os delegados levantaram-se e cantaram a Internacional Comunista.

De acordo com Astrojildo, a formação do Partido se deu em pleno fogo da luta de classes e, ao mesmo tempo, sob o fogo de uma dura luta ideológica, reflexo, no Brasil, e segundo as condições brasileiras, da luta ideológica travada no plano mundial pela III Internacional Comunista. Em 1º de maio de 1925, circulou pela primeira vez o lendário jornal do Partido A Classe Operária, do qual Astrojildo era o principal redator.

O jornal surgiu após o ingresso do PCB na Internacional, no seu V Congresso, em 1924. Astrojildo, mesmo ausente, foi eleito para a Comissão de Controle do Comitê Executivo e o PCB passou a ser reconhecido como membro efetivo da organização.

Astrojildo tornou-se um escritor refinado, descrito pelo analista Sylvio Rabello, num texto publicado nos jornais do grupo Diários Associados, como “de uma simplicidade ideal, uma simplicidade que está em boa correspondência com as suas doutrinas e com o curso de sua argumentação, ao mesmo tempo de um virtuosismo do escritor preocupado com a disciplina e o rigor de sua arte”.

Especializou-se na obra de Machado de Assis, com quem esteve pouco antes de sua morte. O encontro foi descrito por Euclides da Cunha em uma homenagem ao escritor no Jornal do Comércio de 30 de setembro de 1908: “Chegou, não disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre, beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-a depois de algum tempo ao peito. Levantou-se e, sem dizer palavra, saiu.” Machado de Assis, disse Astrojildo, foi “o escritor que melhor refletiu em sua obra a vida social e o espírito da sociedade brasileira do seu tempo”.

Astrojildo voltou à União Soviética em 1929, onde permaneceu de março até o final de dezembro. Os acontecimentos no pós-contato com Prestes na Bolívia, segundo ele, “puseram à prova o que havia de tremendamente falso” na concepção da direção do PCB, “que levou o Partido a uma completa e criminosa passividade diante dos acontecimentos de outubro de 1930 (a Revolução liderada por Getúlio Vargas) e às terríveis oscilações da direita para a esquerda e da esquerda para a direita que se seguiram durante meses e anos”.

Naquele ziguezague tático, a direção acusou o Partido de seguir a linha política do “astrojildismo menchevista”. Com a chegada de Prestes, o Partido Comunista do Brasil iniciou nova fase. Astrojildo estava afastado e só voltaria na década de 1940. Sobreviveu do comércio de bananas, numa quitanda do Rio de Janeiro, condição que mereceu de Manuel Bandeira o seguinte poema:

Bananeiras – Astrojildo esbofa-se –
Plantai-a às centenas, às mil:
Musa paradisíaca, a única
Que dá dinheiro neste Brasil.

Em 1945, Astrojildo descreveu o Partido com essas palavras: “O fio d’água desceu minguadinho por entre as pedras, seguiu o seu destino por montes e vales, cresceu de vulto passo a passo, com a afluência de novas águas, engrossando por efeito mesmo das tempestades que sobre ele se formaram, e ei-lo hoje, o grande rio brasileiro, sulco profundo na terra do Brasil, artéria vital no sistema político do nosso país – o Partido Comunista do Brasil.”

Coletivo dirigente

Renato assumiu o comando desse “grande rio brasileiro”, liderando a quarta geração de dirigentes comunistas, no curso natural das águas. Anunciou que o faria ainda mais caudaloso. Os que bebem nessa fonte de interpretações marxistas e progressistas desde 1922 teriam agora uma nova fase de desafios, representados por mudanças de largo espectro nas conjunturas nacional e internacional. “Tentarei dar desenvolvimento ao pensamento político do nosso Partido na nova situação e reunir as inteligências e os meios necessários para enfrentar os novos desafios que nos apresentam. Manteremos a linha revolucionária e flexível que nos possibilitará conquistas ainda maiores”, resumiu.

Amazonas trabalhou a sua sucessão com a dedicação de sempre. Envolveu o coletivo dirigente no processo e fez a transição seguro de que seus métodos como principal liderança do Partido garantiriam a continuidade da marcha revolucionária iniciada em 1922.

Uma de suas principais preocupações, naquele momento, era a tática para as eleições presidenciais de 2002. João Amazonas defendia, desde a campanha de 1989, quando se formou a Frente Brasil Popular (PT, PCdoB e PSB) liderada pelo candidato presidencial Luiz Inácio Lula da Silva, que, nas condições brasileiras, inseridas na conjuntura da América Latina e do mundo, seria muito difícil a esquerda sozinha ganhar eleições presidenciais.

Amazonas ficou contente quando soube que Lula, na articulação de sua quarta campanha, procurava ampliar a frente. Disse-lhe pessoalmente, na sede do PCdoB, em São Paulo – a última vez que se encontraram –, que a escolha de José Alencar para seu vice era uma boa decisão. Amazonas não chegou a ver a vitória de Lula nas eleições de 2002 – faleceu, cinco meses antes, de causas naturais, no dia 27 de maio de 2002.

Dia Internacional da Mulher: símbolo da luta pelo socialismo

Por Osvaldo Bertolino

A histórica batalha pelos direitos da mulher tem uma forte tradição progressista

O Dia Internacional da Mulher, 8 de março, tem um significado de batalhas históricas por justiça, igualdade e direitos. Uma frase de Samora Machel, líder da guerra pela independência de Moçambique, define com precisão o alcance dessa comemoração histórica: “A libertação da mulher é uma necessidade da Revolução, garantia da sua continuidade, condição de seu triunfo.”

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O atraso imposto às mulheres começou a ser rompido, de fato, com as revoluções do século XX. Na Rússia, a Revolução de Outubro de 1917 abalou profundamente velhas convicções machistas e elevou a condição da mulher a um patamar avançado na luta pelos seus direitos. Pode-se dizer que elas foram uma das principais forças na fase decisiva da Revolução. Já no dia 3 de março de 1913, as mulheres lembraram o seu dia com manifestações e protestos. No ano seguinte, a prisão das organizadoras do evento impediu uma nova manifestação.

O início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, encontrou as mulheres socialistas russas dispostas a não permitir que o país fosse destruído por interesses que nada tinham a ver com o povo. Em pleno fogo da guerra, no começo de 1917, elas realizaram mobilizações, no dia 23 de fevereiro — segundo o calendário russo de então, a data correspondia ao dia 8 de março — que deram origem à greve espontânea das tecelãs e costureiras de Petrogrado. As trabalhadoras saíram às ruas para exigir a paz e pedir pão — e declararam-se em greve.

Cinzas da Segunda Guerra Mundial

Começava ali, efetivamente, a chamada Revolução de Fevereiro, que destruiria o império czarista e abriria caminho para a Revolução de Outubro — quando os trabalhadores, liderados por Vladimir Lênin, assumiriam o poder no país. A comissária do povo soviético Alexandra Kollontai escreveu que o dia 23 de fevereiro — 8 de março — de 1917 foi “uma data memorável para a história”. “Nesse dia, as mulheres russas levantaram a tocha da Revolução”, disse ela.

Com o poder soviético, as mulheres descortinaram novos horizontes. A Conferência das mulheres comunistas, realizada em 1921 na cidade de Moscou, oficializou o 8 de março como o Dia Internacional da Mulher. A decisão foi amplamente divulgada pela Terceira Internacional Comunista, mas o combate ao terror nazifascista que cobriu a Europa, prenunciando acontecimentos tenebrosos, fez com que a data deixasse de ser comemorada.

O Dia da Mulher só voltaria a ser lembrado na década de 1960, quando o mundo começava a deixar para trás as cinzas da Segunda Guerra Mundial. Durante todo esse período, no entanto, a emancipação da mulher foi uma bandeira segurada com firmeza pelos socialistas. A base dessa luta são as ideias marxistas. O livro de Friedrich Engels A Origem da família, da propriedade privada e do Estado estabelece uma dimensão realista do peso imposto pelas sociedades baseadas na exploração de classe sobre a mulher. “A opressão do homem pelo homem iniciou- se com a opressão da mulher pelo homem”, escreveu Karl Marx.

Crescente mobilização das mulheres

A teórica marxista Clara Zetkin desenvolveu uma vasta literatura sobre o tema, iniciada nas últimas décadas do século XIX — já nos primeiros anos após a criação da Primeira Internacional. A luta pelos direitos da mulher rapidamente transformou-se em uma das principais bandeiras socialistas. August Bebel, proeminente representante da Primeira Internacional, escreveu o livro A mulher e o socialismo; e Lênin produziu importantes formulações sobre o papel da mulher na nova sociedade almejada pelos socialistas. Toda essa torrente resultou na grande obra A nova mulher e a moral sexual, de Alexandra Kollontai.

Pode-se dizer que a formulação socialista deu impulso a um processo de rebeldia feminina iniciado na segunda metade do século XIX. À época, as mulheres — principalmente nos países onde o capitalismo ganhara predominância, como Inglaterra e Estados Unidos — já lutavam pelo direito de votar. Com a fundação do partido socialista norte-americano, em 1901, as mulheres daquele país criaram a União Socialista das Mulheres a fim de exigir esse direito. Nos anos seguintes, brotaram, nos Estados Unidos, muitos clubes de mulheres que empunhavam essa bandeira.

A crescente mobilização feminina levou o partido socialista norte-americano, por meio do seu Comitê Nacional da Mulher, a organizar, no dia 28 de fevereiro de 1909, em Nova York, o primeiro Dia da Mulher no país. “A realização da revolução das mulheres é um dos meios mais eficazes para a revolução de toda a sociedade”, dizia a convocatória do movimento. Até aquele ano, apenas quatro estados permitiam que elas votassem — o sufrágio universal feminino só chegaria em 1920.

Longa greve nos Estados Unidos

No âmbito da Internacional Socialista — à época a Segunda Internacional —, o debate sobre o voto feminino também era intenso. A 1ª Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, realizada em 1907 na cidade de Stuttgart (Alemanha), com a participação de 58 delegadas representando 14 países, aprovou uma resolução — elaborada por Clara Zetkin, Rosa Luxemburgo e Alexandra Kollontai — segundo a qual os partidos socialistas teriam de encampar a bandeira do voto feminino.

A mobilização das mulheres avançava rapidamente. Nos Estados Unidos, o Dia da Mulher de 1910 — o segundo organizado pelo partido socialista — contou com uma grande participação de trabalhadoras têxteis que acabara de sair de uma greve pelo reconhecimento do sindicato da categoria. A repressão agiu com dureza — além da violência aberta, mais de seiscentas pessoas foram presas. Mas as trabalhadoras estavam determinadas a conquistar o seu objetivo e sustentaram a paralisação de 22 de novembro de 1909 até 15 de fevereiro de 1910.

Ainda em 1910, o partido socialista norte-americano aprovou, em congresso realizado no mês de maio, uma proposta, que seria levada à Segunda Conferência das Mulheres Socialistas — realizada em agosto — instituindo o Dia Internacional da Mulher. “As mulheres socialistas de todas as nações organizarão um Dia das Mulheres específico, cujo primeiro objetivo será promover o direito de voto feminino. É preciso discutir esta proposta, ligando-a à questão mais ampla das mulheres, numa perspectiva socialista”, publicou o jornal A Igualdade, dirigido por Clara Zetkin, na edição do dia 29 de agosto de 1910.

Emancipação dos trabalhadores

A data não foi especificada. Alexandra Kollontai, que dirigia a Secretaria da Mulher Socialista da Internacional, propôs que na Europa o Dia da Mulher fosse lembrado em 19 de março — segundo ela para coincidir com o aniversário de um levante de trabalhadoras na Prússia, em 1848, que conquistou, embora provisoriamente, o direito do voto feminino. Mais tarde, na Conferência das mulheres comunistas realizada em 1921 na cidade de Moscou, houve a unificação em torno do 8 de março — a data da greve em que “as mulheres russas levantaram a tocha da revolução”, como dissera Alexandra Kollontai.

É importante reafirmar essa tradição da luta feminina tem como objetivo intrínseco a emancipação de todos os trabalhadores. Como escreveram Marx e Engels, na família moldada pelos ditames capitalistas o homem é o burguês e a mulher representa o proletariado. Não é possível, portanto, a emancipação dos trabalhadores sem a libertação das mulheres.

Biografia de Renato Rabelo retrata frondosa árvore da notável floresta socialista

Biografia de Renato Rabelo: Frondosa árvore de uma notável floresta

Por Adalberto Monteiro

Quando uma árvore, por seu porte, por suas raízes profundas, por inúmeras floradas e iguais colheitas proporcionadas, por tantas sementes dela germinadas, desponta-se em uma alta floresta, vem de quem a enxerga a indagação de quanto disso e daquilo ela teve de enfrentar e vencer para adquirir aquela presença destacada, valorizada, naquela paisagem por si só rica e diversa.

A biografia de Renato Rabelo, pelo trabalho arguto e meticuloso do historiador e biógrafo Osvaldo Bertolino, dá-nos acesso às páginas da vida deste destacado dirigente do PCdoB e ao mapa de uma longa e realizadora militância revolucionária. O livro é uma realização da Fundação Maurício Grabois, da qual Renato é, hoje, o presidente de honra.

Trata-se de um trabalho de mais de três anos, alicerçado em pesquisas, apoiado em fontes, muitas até então inéditas; além, é claro, de horas e horas de gravação com o biografado. Osvaldo, não fosse historiador, biógrafo, poderia ter sido roteirista de cinema. Por vezes, leitor, leitora, a fluência do texto nos faz ver, enxergar, assistir, sentir fatos vividos por Renato. Riqueza de detalhes, reconstituição de cenários e circunstâncias, mas sempre marcando o significado de cada episódio.

As minúcias são na verdade chaves através das quais somos transportados aos portais do tempo. Quais a senha e a contrassenha que os/as estudantes delegados/as tinham que pronunciar para ter acesso ao clandestino XXVIII Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE)? Quem é o personagem da palavra de ordem entoada pelas passeatas estudantis de meados dos anos 1960: Osso, osso, abaixo o sem-pescoço?

A biografia de Renato flui, pela maestria de Bertolino, carne e unha com a história do Brasil, entrelaçada com as histórias da Ação Popular (AP), da Ação Popular Marxista-Leninista (APML) e do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e, também, do movimento comunista internacional. Vê-se a presença destacada de Renato em batalhas e confrontos decisivos para o Brasil e para o proletariado, a luta pelo socialismo nas últimas seis décadas e um rol de feitos e realizações de sua militância.

O Índice Onomástico da obra evidencia um conjunto numeroso de nomes de quadros e lideranças da AP e do PCdoB, que torna patente o trabalho coletivo que Renato sempre valorizou como método de trabalho; e, também, de personalidades dos campos democrático e popular do país que, por sua vez, refletem a política de alianças amplas do PCdoB da qual Renato é um dos elaboradores e protagonistas na aplicação. Os textos, neste livro, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da ex-presidente Dilma Rousseff bem simbolizam a dimensão destas relações de aliança, bem como a estatura do legado político de Renato.

Um dos méritos da obra de Bertolino, aliás um dos traços também presentes em biografias anteriores, é não circundar nenhuma auréola em torno da cabeça do biografado. Movimenta-se, então, um Renato substantivamente humano, terrestre, como você, ele, ela e eu, que tem família, que se diverte, que se embevece com uma taça de vinho, que se entristece, que tem saúde, que adoece, que trabalha muito, acerta e erra. A vida sempre modesta, por vezes, duramente difícil, de Renato e da família.

Em diferentes circunstâncias, a biografia ressalta duas características dominantes da personalidade de Renato: a empatia e a imensa capacidade de ouvir e de, assertivamente, interagir com a ideias a ele apresentadas, mesmo que delas tenha divergência; e a coragem política, a firmeza de tomar decisões.

Uma essência transborda da biografia de Renato: sua maior obra e legado é ter aportado, ao acervo teórico, político e ideológico do Partido Comunista do Brasil, importantes contribuições teóricas e políticas que enriqueceram o pensamento tático, estratégico e programático da legenda comunista, como também a práxis de sua edificação e atuação na arena da luta de classes. A isso se soma um elenco de quadros comunistas em relação aos quais o papel de Renato foi destacado para formá-los, seja na Escola Nacional João Amazonas, seja na estrutura do Partido, seja nas frentes de atuação, notadamente no movimento estudantil.

E este aporte alinhava o fluxo da biografia, revelando-nos em que circunstâncias, no curso de quais confrontos da luta de classes, no Brasil e no mundo, o legado de Renato foi se erguendo.

E, temporalmente, isso se dá ao longo de mais de sessenta anos de militância. O marco zero deste itinerário é o final dos anos 1950, quando, no interior da Bahia, no último ano do colégio, assumiu a secretaria geral do grêmio estudantil. Segundo Osvaldo Bertolino, Renato “queria conhecer Salvador, ver o Brasil, tomar pulso do mundo”. Sonho que, como se sabe, concretizou-se.

A sua jornada de lutas se inicia no âmbito da juventude católica, orientada pela Teologia da Libertação. E, logo a seguir, nas fileiras revolucionárias da Ação Popular, e, a partir de 1973, após incorporação desta organização à legenda comunista, no núcleo dirigente do PCdoB. Trajetória essa que chega ao ápice no período de dezembro de 2001 a maio de 2015, quando, por indicação de João Amazonas, liderança histórica dos comunistas, Renato é eleito pelo Comitê Central para exercer a presidência do Partido Comunista do Brasil.

Uma vida longa é a um só tempo privilégio e desafio. Desafio, pois que, quaisquer que sejam as vicissitudes, a liderança comunista é chamada a descrever uma linha de coerência. Da primeira página até a última do livro, o que costura o itinerário de lutas de Renato são três palavras: coerência, convicção e compromisso, com ideais do comunismo, com um projeto de nação, de um Brasil democrático, soberano, socialista, que abraçou com ardor e consciência desde a juventude.

A maturação da têmpera revolucionária de Renato, o processo cumulativo de suas qualidades respondendo às responsabilidades cada vez mais elevadas de mandatos oriundos do coletivo, deram-se consoante, sobretudo, à dinâmica da luta política do país, mas também sob os impactos dos conflitos e confrontos que se irromperam na realidade mundial e, é claro, das vicissitudes do movimento comunista brasileiro e internacional com suas vitórias, mas, também, com suas divisões e seus reveses.

O retrato de Renato, pelos traços de sua biografia, revela uma liderança de ação, de combate, de verdadeira gana por intervir nas principais lutas sociais, políticas, ideológicas, travadas no país nas últimas seis décadas. E, ao mesmo tempo, sistematiza e generaliza a prática transformadora, estuda, elabora, a partir do marxismo, formulações que buscam responder aos nexos principais da luta de classes em cada momento histórico, jamais se deixando aprisionar por verdades pétreas.

E sempre que a prática e o curso da história revelam erros ou insuficiências, com base no método leninista da crítica e da autocrítica, abraça ou participa da gênese do novo, que faz a teoria e a prática avançarem.

Para completar, o terceiro traço do retrato se avulta: construtor do Partido Comunista do Brasil, com a seiva da luta política e de massas, com a teoria marxista-leninista a toda carga, com sua essência transformadora iluminando a prática revolucionária.
Finalmente, a biografia de Renato é um acervo vivo e pulsante de ideias e práticas transformadoras, de convicções e de energia revolucionárias que nos convidam, nos convocam, a prosseguir as jornadas de lutas pela construção do socialismo em nosso país.

Adalberto Monteiro é jornalista e poeta, secretário nacional de Formação e Propaganda do PCdoB

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Serviço:

Título: Renato Rabelo – vida, ideias e rumos
Autor: Osvaldo Bertolino
ISBN: 978-65980456-4-7
Publicação: Fundação Maurício Grabois
Ano de publicação: 2025
Páginas: 848

Fonte: www.gradois.org.br

Parabéns, Renato Rabelo, por seus 83 anos de vida bem vivida

Por Osvaldo Bertolino

Da biografia que escrevi dele recentemente:

Acomodado na mesa da pequena sala do seu apartamento, em São Paulo, com uma pilha de livros ao lado, Renato começou a falar. Parecia incansável. De meados da tarde até a noite avançada, lembrou detalhes de sua vida e do seu pensamento. Era muita coisa. Foi preciso retomar em outro dia. Novamente faltou coisa. E assim a cena se repetiu, até que tudo fosse falado.

Renato se define como pessoa reservada, que não gosta de aparecer, o mais tímido dos irmãos. “Quando comecei a assumir o trabalho político, tive de fazer um esforço muito grande para ser uma pessoa com capacidade pública maior. Era essencial para a minha atividade. Acho que consegui não só por intervenções públicas como na relação política com grandes lideranças, como presidentes da República, presidentes da Câmara e do Senado, gente como o José Alencar, ministros. Todos me atendiam com muito respeito.”

Essa relação de confiança se devia ao prestígio do PCdoB, segundo Renato. “Então, eu ia sentindo que estava fazendo o papel necessário. Compreendi que estava fazendo um papel importante. Isso me deu muita segurança. Tinha certa autoridade.”

Um dos momentos mais decisivos de sua vida foi a indicação de Luciana Santos para assumir a presidência do PCdoB. “Foi uma das atitudes mais serenas e mais justas que tomei. Não foi uma corrida de revezamento”, comenta ao falar das pacientes consultas e dos debates no âmbito da direção do Partido. Para ele, esse processo guarda semelhança com a sua indicação para presidente do Partido por João Amazonas.

Renato recorda de seus camaradas com emoção, especialmente Haroldo Lima. “Haroldo teve também um papel importante para eu ingressar na luta. Eu poderia ficar por ali mesmo, em Salvador, estudando, ser um médico. Foi um ponto importante na minha vida”, relata, mostrando a foto da capa do livro autobiográfico de Haroldo, inconformado com a sua morte por uma causa que poderia ser evitada, a Covid-19.

Falou também da relação com os filhos, muito atenciosos. “Sempre foram muito compreensivos, pelo que eles passaram. A relação conosco mostra a grandeza deles.”

Renato cita a experiência vivida na China, quando jovem, como fundamental para a sua militância. “Uma experiência da envergadura da Revolução Chinesa ensina muito”, afirma. As visitas ao Vietnã também lhe causaram forte impressão. “Fiquei impressionado com o povo vietnamita. Não é por acaso que expulsaram três imperialismos. Essa ideia de nova luta pelo socialismo é deles.”

Segundo Renato, foram conhecimentos que ajudaram muito na sua compreensão sobre a tática e a estratégia. “O tempo que passei na França foi também importante, porque o exílio é uma escola. O povo francês é muito testado. É a terra das revoluções. Eles têm uma tradição de luta gigantesca. A vivência com um povo desse ensina muito para a gente”, afirma.

Motivos e fatos da reorganização do PCdoB em 1962

Passados 63 anos da Conferência extraordinária que reorganizou o PCdoB, ocorrida em 18 de fevereiro de 1962, a versão de que o Partido foi “fundado” nessa data já não reina em regime de monopólio, superada pela força dos fatos.

Por Osvaldo Bertolino

Carlos Nicolau Danielli, um dos primeiros dirigentes comunistas a opinar sobre o cisma ocorrido com os impactos do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), escreveu que naquele processo estava em questão a defesa dos princípios do Partido Comunista do Brasil. Segundo ele, os princípios deveriam ser defendidos sob pena de o Partido perder suas características essenciais de um partido revolucionário.

Outros dirigentes comunistas – principalmente João Amazonas – também rejeitaram com ênfase a tese superficial daquela primeira vertente revisionista. Pode-se afirmar com segurança que havia naquele primeiro embate uma manipulação dos fatos com uma finalidade mal escondida – a liquidação do Partido Comunista do Brasil.

Maurício Grabois escreveu, em 1960, durante o debate do V Congresso do PCdoB, que nas discussões de 1956/57 surgiram entre os comunistas ideias antipartidárias. Seus porta-vozes eram basicamente militantes que atuavam na imprensa do Partido.

Grabois conta que ideias reformistas e revisionistas do debate de 1956/57 acabaram se impondo no Partido. Mas no debate do V Congresso elas ganharam uma formulação claramente mais sofisticada.

O antológico texto de Grabois Duas concepções, duas orientações políticas resume a questão. Para ele, a nova orientação traçada pelo Comitê Central em março de 1958, com a Declaração de Março, defendia uma linha “oportunista de direita”. A polêmica evoluiu para o “racha”.

Já no V Congresso, doze dos vinte e cinco membros do Comitê Central – além de vários suplentes – não foram reeleitos. Entre eles estavam Maurício Grabois, João Amazonas e Diógenes Arruda Câmara.

Mais tarde, foram afastados também Pedro Pomar, Danielli e Ângelo Arroyo. E, mais adiante, uma nova leva de dirigentes – Lincoln Oest, José Duarte, Walter Martins e Calil Chade – também seria destituída.

Era a consolidação da direção que defendeu a nova linha política pós-XX Congresso do PCUS. No dia 11 de agosto de 1961, o jornal Novos Rumos publicou um suplemento com o programa e os estatutos do Partido Comunista Brasileiro, de inspiração visivelmente revisionista. A direção eleita no V Congresso pretendia, com os novos documentos e a mudança de nome, obter a legalidade da nova agremiação.

O problema é que esse ato contrariava o artigo 32 dos Estatutos do Partido. “As decisões do Congresso são obrigatórias para todo o Partido e não podem ser revogadas, no todo ou em parte, senão por outro Congresso”, dizia o documento.

Em resposta, os comunistas que combateram a linha política da Declaração de Março organizaram um abaixo-assinado – Carta dos Cem – pedindo à nova direção a revogação das medidas anunciadas. Na Carta, eles disseram que a mudança de nome do Partido era “uma séria concessão às forças reacionárias”.

De fato, quando a repressão lançou os comunistas na ilegalidade, em 1947, o principal pretexto foi o de que o nome deixava claro que o Partido Comunista do Brasil era um instrumento da política externa da União Soviética. “Na realidade, essa alteração tem sentido mais grave – procura-se registrar um novo partido, com programa e estatutos que nada têm a ver com o verdadeiro Partido Comunista”, diz a Carta.

No encerramento do debate do V Congresso, Pedro Pomar escreveu que ele tinha esperanças de que a defesa feita por Luiz Carlos Prestes, então secretário-geral, no único artigo por ele publicado, de uma “justa linha política revolucionária para o Partido”, viesse a se concretizar.

O texto da Carta dos Cem termina com esta conclamação: “Ao adotar essa posição, confiamos que nas fileiras do próprio Partido existam forças suficientes para derrotar as tendências errôneas e encontrar o acertado caminho para resolver as dificuldades que o Partido enfrenta”.

No longo debate interno – iniciado em 1956/57 e encerrado em 1960 – fica facilmente perceptível que os principais fatores que levaram à cisão eram de fato predominantemente internos.

O problema é que no curso do processo do V Congresso solidificou a tendência revisionista, culminando na criação do novo PCB – o que não deixou aos antigos dirigentes alternativas à reorganização do Partido.

Pedro Pomar afirmou que a Conferência de 1962 fora convocada para debater e enfrentar graves problemas do movimento comunista no Brasil, decorrente de um longo processo que culminara na formação de um novo partido.

Outra missão seria a discussão da necessidade de reorganizar “o nosso velho e glorioso Partido e de indicar o caminho da luta capaz de conduzir o proletariado e povo à sua emancipação nacional e social”.

Segundo Pedro Pomar, em comentário no jornal A Classe Operária, não seria possível compreender o significado da Conferência sem estabelecer conexão com os acontecimentos anteriores, sobretudo os dos anos 1950.

Fora um período difícil para país, constatou ele, que exigiu dos comunistas esforços para vencer os obstáculos “que o Partido teve de transpor para cumprir sua missão revolucionária”.

Fora também uma fase rica de ensinamentos, na qual muitos militantes manifestaram grande abnegação, “mas a direção do Partido não teve a capacidade de encontrar o melhor caminho da revolução e deixou que se perdessem magníficas oportunidades para elevar o nível da ação combativa das massas”.

Naquela época já se podia observar certo desalento nas fileiras comunistas e perceber que a linha política claudicava diante dos acontecimentos que se precipitavam, como os de 24 de agosto de 1954 e os de 11 de novembro de 1955, analisou.

O Programa do Partido, aprovado no IV Congresso, na opinião de Pedro Pomar passou a ter uma interpretação sui generis, que não afinava com as diretrizes essenciais nele contidas. “Nessas condições é que nos surpreendeu a ofensiva da reação imperialista e o surto revisonista”, afirmou.

Pedro Pomar constatou que nas fileiras comunistas propagou-se rapidamente uma sensação de frustração, sobretudo nos setores da intelectualidade ligada aos comunistas ou sob a influência do Partido. “Cresceu a confusão ideológica em face das enormes vacilações da direção partidária e da sua impotência para enfrentar os ataques dos revisionistas”, comentou ele.

Pedro Pomar fez uma minuciosa análise dos acontecimentos que levaram à reorganização do Partido Comunista do Brasil, revelando nuances que permitem visualizar as entranhas da batalha desenvolvida no processo do V Congresso.

Segundo ele, o debate no “movimento comunista” começou por iniciativa dos revisionistas e, “embora contivesse aspectos positivos e revelasse o sentimento internacionalista e revolucionário de diversos camaradas, não contribuiu para esclarecer devidamente os problemas controvertidos”.

Ao contrário, gerou mais desorientação, disse ele. “Tudo isso contribuiu para que fosse declinando a influência dos comunistas no movimento operário e democrático. As forças populares, sem liderança efetiva, se tornaram objeto da traficância dos demagogos burgueses e pequeno-burgueses. O movimento de massas ia sendo empolgado, cada vez mais, pelo nacionalismo. As publicações comunistas de massa despareceram e o próprio nome do Partido Comunista do Brasil passou a ser omitido, sendo substituído pela expressão ‘movimento comunista’ ou pela assinatura de um único dirigente”, escreveu.

Toda a atividade pretérita dos comunistas se transformou em alvo de zombaria, disse Pedro Pomar. Era acusada, em todos os aspectos, de ser sectária e dogmática.

“O Programa do Partido foi considerado superado em sua totalidade pelos corifeus do revisionismo, sob a acusação de que não refletia as novas condições do mundo e do Brasil. No que se refere à situação internacional, os revisonistas afirmavam que, na base de uma falsa apreciação, havíamos exagerado o perigo de guerra, que o poderio do socialismo era de tal magnitude que todas as reformas sob o capitalismo favoreciam o socialismo e que, portanto, a ditadura do proletariado e a revolução proletária deixaram de ser indispensáveis.”

O culto à personalidade de Prestes, que segundo Pedro Pomar os comunistas estimularam durante muitos anos, tornou-se um fator primordial para que as ideias revisionistas acabassem se impondo.

“Por ironia, um dos aspectos negativos da atividade do Partido e que os revisionistas diziam combater é que lhes propiciou a arma mais poderosa para empolgar a direção e depois o conjunto do Partido. Justamente graças à adesão de Prestes ao grupo revisionista, em 1957, é que este passou a predominar no Partido.”

Pedro Pomar revelou que os dirigentes do grupo revisionista, de acordo com Prestes na reunião do Comitê Central em agosto de 1957, acusaram quatro integrantes do antigo Presidium de serem os principais responsáveis pelos erros do Partido.

“Embora em conversas privadas confessassem outra coisa, consideraram Prestes como vítima de uma conspiração, como um homem não informado. Os ‘cabeça de turco’ (locução de uso popular que significa teimoso, obstinado, resistente) foram apontados no Partido e alijados de seus postos e aquele que era de fato o maior responsável, não só como decorrência do posto que ocupava, mas, sobretudo, pelo sistema de culto à personalidade, foi inocentado, ou considerado capaz de recuperação”, detalhou.

Apelando para a esperteza e utilizando sofismas, disse Pedro Pomar, os revisionistas continuavam rendendo o mesmo culto à personalidade, acusando, entretanto, os que se mantinham fiéis às tradições revolucionárias do Partido como “saudosistas desejosos da volta do passado”.

“Com esses estribilhos monótonos, aplicavam a torto e a direito o método mandonista por eles tão condenado. Velhos quadros e militantes foram vítimas de uma política discriminatória mais absurda e hipócrita. Empregando tais processos, os revisonistas conseguiram impor no 5º Congresso a linha reformista, apesar da vigilância dos elementos revolucionários e de sua crescente resistência diante do que ocorria no Partido. Tanto assim que os Estatutos então aprovados ainda conservaram, no fundamental, os princípios e as normas leninistas consagrados pelo movimento comunista internacional.”

Era preciso ressaltar a resistência aos revisionistas para se apreciar de modo correto o que aconteceu quando o Comitê Central eleito no V Congresso resolveu alterar o nome do Partido e criar um novo partido, que não se regeria mais pelos princípios do marxismo-leninismo e do internacionalismo proletário, ponderou Pedro Pomar.

“Nessa ocasião, grande número de militantes se dirigiu ao Comitê Central para condenar essa tentativa de formar um novo partido, sob o pretexto de obter seu registro eleitoral. Simultaneamente, esses militantes solicitaram a convocação de um novo Congresso, única instância que podia decidir a questão caso a direção não quisesse voltar atrás de seus propósito liquidacionista.”

A resposta do Comitê Central a essa petição dos que divergiam de sua conduta foi de uma intolerância a toda prova.

“Entrou pelo terreno das sanções disciplinares, da acusação de divisionismo, até o ponto de pretender expulsar do movimento comunista honrados lutadores da causa revolucionária do proletariado. Assim, os reformistas consumavam o divisonismo no movimento comunista. Não restava outro recurso aos que se mantinham firmemente nas posições revolucionárias do marxismo-leninismo senão o da convocação de uma Conferência extraordinária do Partido Comunista do Brasil que tratasse, fundamentalmente, da sua reorganização diante das graves consequências da política e dos métodos aplicados pelos revisionistas.”

O marxismo e a emancipação da mulher

Por Osvaldo Bertolino

Feminismo e emancipação feminina. Eis uma questão que atravessa os tempos e desafia as formulações políticas que enfrentam a histórica ordem econômica e social regida pela opressão. Compreender o conceito de emancipação é o primeiro passo. Ele tem no entendimento de que a dicotomia opressores e oprimidos não é natural, uma condição que pode ser superada pelo domínio da ciência sobre as leis que determinam os fenômenos sociais, conhecido na história como socialismo científico, a grande síntese do pensamento sobre a igualdade social, desde a Antiguidade Clássica.

O tema está no livro Trajetória teórica e política do feminismo emancipacionista, publicação da Secretaria Nacional da Mulher do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), uma coletânea de textos do período entre 1954 e 2012, infelizmente pouco conhecido. É uma espécie de síntese daquilo que Vladimir Lênin, o líder da Revolução Russa de 1917, definiu como “base teórica clara e precisa” do movimento feminino. A secretária da Mulher, Liège Rocha, explica na apresentação que os textos foram publicados em revistas, jornais, boletins e outros veículos, além de informes de congressos do Partido.

O marxismo como síntese

São 403 páginas de textos de especialistas no tema: Ana Rocha, Clara Araújo, Iracema Ribeiro, Jô Moraes, Liège Rocha, Lilian Martins, Loreta Valadares, Lúcia Rincón, Mary Garcia Castro, Milton Barbosa, Olga Maranhão e Sara Romero da Silva. O texto que abre o livro, de Jô Moares, intitulado A origem da opressão da mulher, é uma espécie de apresentação da ideia emancipacionista. À indagação sobre se o homem é por natureza opressor, ela responde: “Nos movimentos de mulheres sempre surge a ideia de que a nossa luta é contra os homens. O preconceito com que a maioria da população vê o termo ‘feminismo’ vem daí.”

Loreta Valadares, no texto A ‘controvérsia’ feminismo-marxismo, é enfática. “As críticas à pretensa ‘insuficiência’ do marxismo sobre a questão da mulher se fazem presente em quase todas as análises sobre a situação de dependência e inferioridade na sociedade, bem como sobre as origens de sua opressão. Evidentemente, as diversas teorias feministas não param somente na crítica à interpretação do marxismo sobre o processo de transformação da sociedade, mas, sobretudo, investem contra o caminho apontado pelo marxismo para a luta de emancipação da mulher”, escreve.

Sara Romero da Silva, no artigo A classe operária e a questão de gênero, ressalva que no campo da teoria marxista vai sendo evidenciado o esgotamento de uma série de modelos teóricos e práticos, “sem o suficiente desenvolvimento científico do próprio marxismo por parte de seus seguidores”. “O marxismo-leninismo afirma, e a vida, tanto no mundo capitalista como das experiências socialistas, tem confirmado que a exploração de classe é decisiva em relação à opressão de gênero e que esta última não se resolverá sem que se resolva a exploração de classe.”

A questão é compreender o marxismo como síntese do pensamento social na história. “O marxismo apresentou a primeira formulação sistematizada acerca da opressão da mulher”, escreve Liliam Martins no artigo As mulheres e o socialismo. “Incorporando ideias formuladas pelas primeiras feministas, pelos socialistas utópicos, como Fourier, desvendou a origem dessa opressão como intrinsecamente ligada ao surgimento da propriedade privada, à formulação das classes sociais.”

O poder da reprodução humana

No artigo Gênero, trabalho e pobreza: para além dos direitos iguais, Clara Araújo constata que “as crises do capitalismo agravam sobremaneira as adversas condições de vida da maioria das mulheres”. “A chamada globalização tem como um dos pontos constantemente abordados o argumento de que, em uma economia internacionalizada, de mercados transnacionais, o Estado vai perdendo sua razão de ser, assim como o próprio conceito de soberania”, diz. “A ideologia neoliberal é, portanto, contrária à própria essência das reivindicações materiais das mulheres, que dependem de iniciativas de cunho social.”

Pelo mesmo viés, Lúcia Rincon comenta, no artigo O papel da maternidade, que “o poder da reprodução humana sempre foi alvo privilegiado de preocupações daqueles que detêm o poder econômico e político e que procuram dominá-lo e controlá-lo”. “Na sociedade patriarcal e, depois, na sociedade capitalista, muitos foram os cientistas e ideólogos que se dedicaram a compreender e a explicar a reprodução humana”, escreve.

Nos textos, o ponto de vista marxista é o norte das argumentações, mas não são poucas as observações críticas sobre leituras artificias do conceito emancipacionista. Mary Garcia Castro destaca, no artigo Feminismo marxista – mais que um gênero em tempos neoliberais, que o marxismo é uma teoria científica e um movimento social crítico das sociedades de classe, em particular contra o capitalismo. “A referência no feminismo de corte liberal e social-democrata e mesmo dito ‘radical’, porque destacaria sexualidade e diferenças, é uma mulher genérica, desterrada da classe e raça. Mas em tendências no feminismo socialista, que se pautam por leituras acríticas do marxismo, também se aporta a uma mulher proletária genérica. Sem circulação na raça ou em outras identidades marcadas por sistemas político-econômico-culturais de opressões.”

Sara Romero Silva, no artigo Origens da opressão de gênero, afirma que “houve um tempo em que militantes socialistas consideravam, em termos práticos (e até teóricos), que a luta de classes explicava tudo”. “No entanto, Marx e Engels trazem o ensinamento de que é preciso conhecer melhor a realidade, não fechar o ângulo de visão. O próprio surgimento das ideias marxistas sobre a questão da família e da mulher traz essa lição também.”

Milton Barbosa, no bem ilustrado artigo Pequena contribuição metodológica ao feminismo emancipacionista, escreve que “durante um tempo demasiadamente longo e enfadonho, a filosofia e a ciência, com seus mais ilustres e melhores representantes, desqualificaram a mulher, tornando-a uma obviedade desinteressante para a investigação racional”. “Mais do que isso, a apropriação privada pré-capitalista e capitalista, que inicialmente aprisionou-as à vida doméstica, impedindo-as de desenvolver uma visão ampla da sua existência e de suas possibilidades enquanto ser humano, hoje as objetifica e mercantiliza, faz do corpo feminino um meio de acesso à vida pública para eternizá-la como objeto de desejo dos machos, velhos e novos.”

Uma vida livre e feliz

Ana Rocha encerra o livro com o texto Impactos da ideologia neoliberal na subjetividade feminina. “Vimos que a mulher avançou sua presença no espaço público, mas que a questão da dupla jornada permanece como um problema crônico, que tem afetado a vida da mulher, aumentando seus impasses, estresse e sobrecargas. Para entendermos como o neoliberalismo aprofundou essa sobrecarga e traz uma ameaça de retrocesso na condição feminina é necessário abordarmos em que consiste a vitória ideológica-cultural do neoliberalismo no mundo.”

Antes, o livro tem dois textos do 4º Congresso do Partido, realizado em 1954. O primeiro é uma intervenção de Iracema Ribeiro. “O trabalho de ganhar milhões de mulheres para o Programa (do Partido) só poderá se desenvolver com pleno êxito quando deixar de ser apenas tarefas das seções do trabalho feminino e das organizações de base femininas e for incluído entre as tarefas permanentes e diárias de todos os organismos do Partido.”

Olga Maranhão, também em intervenção no 4º Congresso, disse que o Partido Comunista do Brasil é herdeiro das gloriosas tradições de luta do povo e dirige “as lutas das massas femininas pelos direitos e interesses da mulher, pela paz, pelas liberdades democráticas e pela independência nacional”. “O Partido nos ensina que a ação unida e organizada das grandes massas femininas é indispensável para assegurar às mulheres uma vida livre e feliz.”

Mulheres contra os homens

Um ponto abordado em algumas passagens do livro, referente à indagação de Jô Moares sobre a natureza opressora do homem, representa um dilema histórico. O que se convencionou chamar de “sexismo” é tratado por ela no artigo A nova etapa do feminismo como “ruptura”, que se dá, “fundamentalmente, com o chamado feminismo da igualdade na sua expressão liberal-reformista”. “A concepção da universalidade da condição feminina reforçou-se com a ideia da ‘irmandade de mulheres’, que constituía o modelo feminino de fazer política. Expressa com força no feminismo americano, a ideia da irmandade se desenvolveu amplamente pelo mundo”, relata.

Jô Moraes traz um conceito que, às vezes, tenta se impor pelas palavras, tirando do debate o arejamento das ideias e o exercício reflexivo. Essa discussão, na verdade, é antiga. No Partido Comunista do Brasil ela aparece, por exemplo, numa sabatina do então deputado constituinte comunista Carlos Marighella, em 1946, em Salvador. “Com a presença de grande número de mulheres, operárias, donas de casa, elementos femininos progressistas de várias classes sociais e representantes da Liga Femina Democrática, além de pessoas outras, teve lugar na sede da Associação dos Empregados do Comércio, a sabatina com o deputado Carlos Marighella com as mulheres baianas”, noticiou a agência de notícias do Partido, Iter Press.

Segundo Marighella, a mulher só poderia se libertar “procurando se organizar e conseguindo participar da produção, porque então obterá uma situação de independência econômica, de onde decorrerão todas as outras situações de liberdade e vida digna e moderna”. Citou como exemplo a União Soviética, onde, mesmo após a vitória do socialismo, persistiu a violência contra a mulher. Mas “as mulheres mais esclarecidas se organizaram e se uniram às companheiras e, após séria luta organizada, conseguiram a sua independência”. E falou do falso feminismo, que se dizia disposto a emancipar as mulheres, um movimento de mulheres contra os homens.

Marighella citou o exemplo de mulheres no parlamento na França e na União Soviética para dizer que, com o atraso político no Brasil, mulher alguma tomava assento no Legislativo, a exemplo da dirigente comunista Adalgisa Cavalcanti, de Pernambuco, cuja candidatura à Assembleia Constituinte não foi reconhecida. Era um momento em que o Partido promovia debates sobre a emancipação da mulher. O Barão de Itararé, nome mais conhecido de Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, era um dos palestrantes.

Destruir Cartago

Em 1956, A Editoria Vitória, ligada ao Partido, publicou, em livreto, uma coletânea de textos de Lênin, sob o título O socialismo e a emancipação da mulher. Num dos textos ele diz que “a verdadeira emancipação da mulher, o verdadeiro comunismo, só começa onde e quando comece a luta das massas (dirigida pelo proletariado, que detém o poder do Estado) contra a pequena economia doméstica, ou melhor, onde comece a transformação em massa dessa economia na grande economia socialista”.

Em outra passagem, ele relata que “em dois anos, em um dos países mais atrasados da Europa, o poder soviético fez pela emancipação da mulher, por sua igualdade com o sexo ‘forte’, mais do que haviam feito todas as repúblicas avançadas, cultas, ‘democráticas’, do mundo inteiro, no curso de cento e trinta anos”.

O livreto inclui um cativante artigo de Clara Zetkin (personagem histórica do feminismo marxista), intitulado Lênin e o movimento feminino, relatando uma longa conversação com ele em 1920. Vale reproduzir essa pérola: “Fazer a crítica histórica dessa sociedade significa dissecar sem piedade a ordem burguesa, desnudar sua essência e suas consequências e estigmatizar, além disso, a falsa moral sexual. Todos os caminhos levam a Roma. Toda análise verdadeiramente marxista de uma parte importante da superestrutura ideológica da sociedade ou de um fenômeno social importante deve conduzir à análise da ordem burguesa e de sua base, a propriedade privada; cada uma dessas análises deve conduzir a essa conclusão: ‘É preciso destruir Cartago.’ Lênin sorria e fazia com a cabeça sinais de aprovação.”