Os comunistas e a insurreição de 1935, que tentou tomar o céu de assalto

Por Osvaldo Bertolino

Prólogo do livro Rio Vermelho

Sessenta e quatro anos depois que o proletariado tentou tomar o céu de assalto em Paris, uma cena parecida se repetiu em Natal, Rio Grande do Norte. A Comuna deflagrada em 1871 foi uma ousada ação, chamada por Karl Marx de “feito glorioso”, assim como o dos insurretos potiguares de 1935. O levante parisiense representou uma tentativa de inverter a ordem opressora do pós-Revolução Francesa e o do Brasil o enfrentamento com o pós-Revolução de 1930 e a inserção do país no esquadro da ascensão do nazifascismo.

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Sob a influência do Partido Comunista do Brasil, então com a sigla PCB, e da Aliança Nacional Libertadora (ANL), o Levante foi desencadeado na noite de 23 de novembro de 1935, no quartel do 21º Batalhão de Caçadores em Natal. Em nome “do capitão Luiz Carlos Prestes”, conforme ordem do então cabo Giocondo Dias – que mais tarde seria um dirigente comunista de destaque –, o oficial do dia foi preso. Militares e civis rebeldes — inclusive mulheres — controlaram o quartel e travaram durante toda a noite um duro combate com as forças governistas. No final da tarde do dia seguinte, os últimos pontos-chave da cidade foram ocupados. Estava instaurado o poder revolucionário.

Às nove horas da manhã de 24 de novembro, foi a vez de o 29º Batalhão de Caçadores em Socorro se levantar, no município de Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife. Uma coluna de rebelados tomou o rumo do interior e outra foi para a capital.

Na madrugada de 27 de novembro, levantou-se o 3º Regimento de Infantaria da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Outro grupo de militares tomou a Escola de Aviação Militar. Prestes deu ordens para que os rebelados em seguida marchassem em direção ao palácio presidencial.

A revolta de Natal prosseguiu até 27 de novembro e sucumbiu diante da contraofensiva fulminante de Vargas. No Rio de Janeiro, quatro horas depois de dominada pela rebelião, a Escola de Aviação Militar foi retomada pelas tropas do governo. No mesmo dia, a resistência da Praia Vermelha foi rompida com a ajuda de três aviões e dois navios. Em Pernambuco, a rebelião foi vencida dia 25.

 

O PCB sofrera perseguições, iniciadas três meses após a sua fundação – em 25 de março de 1922 –, mas desenvolveu importantes iniciativas para se integrar à dinâmica do país e chegou ao final da década de 1920 como força política nacional considerável. Na vigência do estado de sítio, decretado pelo presidente da República Epitácio Pessoa em resposta ao movimento tenentista, em julho do mesmo ano de sua fundação o Partido foi posto na ilegalidade, que se estendeu até 1927.

Em 1925 surgiu o jornal A Classe Operária, que desempenhou papel crucial na difusão das orientações do PCB, por indicação da Internacional Comunista — que sugeriu inclusive o nome —, projetado numa conferência de delegados de células e de núcleos do Rio de Janeiro e Niterói, realizada em conjunto com a Comissão Central Executiva em 22 de fevereiro de 1925. O primeiro número saiu em 1º de maio do mesmo ano, com tiragem de cinco mil exemplares, logo expandida.

Seu lançamento resultou de um plano meticulosamente elaborado, com a finalidade de criar uma publicação de massas — um “jornal de trabalhadores feito por trabalhadores” —, em pleno estado de sítio, decretado desde antes da posse de Arthur Bernardes na Presidência da República, em novembro de 1922, para reprimir os levantes tenentistas. Em abril, a direção do PCB lançou milhares de manifestos e panfletos, distribuídos na Rua Larga (hoje Avenida Marechal Floriano Peixoto) para os trabalhadores que passavam para tomar os trens da Central do Brasil, no Rio de Janeiro.

Octávio Brandão, um dos fundadores do Partido Comunista do Brasil, disse que A Classe Operária “tinha leitores e propagandistas desde Manaus até Boa Vista do Erechim, no Rio Grande do Sul, e Campo Grande, em Mato Grosso”. Havia comitês de propaganda do jornal e uma rede de “pacoteiros” nas fábricas e nos bairros.

O PCB priorizava sua distribuição para conter a dispersão dos comunistas. O jornal funcionava como elo que possibilitava manter os comunistas em contato com a direção. Marinheiros dos navios mercantes conduziam a carga em caixotes com senhas. Rui Facó, jornalista e escritor comunista cearense, descreve o processo como uma missão de alto risco. Seus responsáveis organizavam verdadeiros quebra-cabeças, sempre fugindo da repressão.

Doze números depois, o jornal foi fechado pelo governo, retornando em 1928. Mas logo sua redação seria invadida e destruída pela polícia. Nos anos seguintes, passou por várias oficinas, muitas redações e mãos de operários e intelectuais comunistas. A forte repressão chegou ao ponto de custar a vida de Manoel Ferreira da Silva, que morreu na Bahia defendendo A Classe Operária, quando passou a ser impressa naquele estado durante a ditadura do Estado Novo, instaurada em 1937.

Às vésperas da Revolução de 1930, com o PCB sob rigorosa clandestinidade, Manoel recebia as matérias redigidas em um quartinho, na Vila Isabel, para a impressão na oficina no Largo de São Domingos, em Niterói, desconhecida até dos redatores. Quando a repressão fechou o cerco aos comunistas, foi enviado à Bahia para cuidar da impressão em Salvador.

No Rio de Janeiro, A Classe Operária depois de impressa seguia para o Mercado Municipal em caixotes misturados com outros que continham frutas e legumes, onde seria entregue ao estudante Mendes de Almeida, responsável por enviá-la a diversos pontos de distribuição. Ainda no Rio de Janeiro, o jornal chegou a ser impresso em Bangu – então conhecido como o “sertãozinho carioca” –, sob vigilância de uns enquanto outros operavam uma máquina barulhenta.

 

Os comunistas não haviam engolido o movimento que levou Getúlio Vargas à presidência da República e transitavam por uma via paralela à Revolução de 1930, preparando outro processo revolucionário, que seria consequência dos levantes tenentistas da década de 1920. A Internacional Comunista apoiou a ideia e, para comandar o Levante, enviou com Luiz Carlos Prestes alguns quadros experientes.

O Brasil estava diante de uma encruzilhada que refletia os conturbados anos iniciais da década de 1930. Cumpria à equipe d’A Classe Operária desvendar aquela intrincada conjuntura. Não era fácil. O documento Cinquenta anos de luta, escrito por Maurício Grabois e João Amazonas – históricos dirigentes comunistas –, sobre o cinquentenário do Partido Comunista do Brasil, em 1972, descreveu aquela situação como um “movimento ainda confuso por transformações democrático-burguesas”.

Amplos setores sociais que participaram da Revolução de 1930 estavam descontentes com o rumo do governo, o que acentuava a diferença entre forças progressistas e setores retrógrados, posição traduzida pelas poderosas greves que agitavam o país. Um agravante, afirma o documento, fora o aparecimento da Ação Integralista Brasileira, braço do nazifascismo no Brasil, que tentava tomar o poder apoiado em círculos do governo.

Os preparativos para a Segunda Guerra Mundial estavam em franco desenvolvimento. Enquanto a Alemanha de Adolf Hitler, cuja conquista do posto de chanceler — o cargo máximo do poder político naquele país — ocorreu em 1933, rangia os dentes para a União Soviética, o Partido Comunista do Brasil se preparava para impedir que a vaga nazifascista triunfasse em terras brasileiras. Orientado pela Internacional Comunista, propunha a formação de uma frente única para impedir o seu avanço. Assim, deu um grande passo adiante com a organização da Aliança Nacional Libertadora.

Esse patamar só foi atingido porque os comunistas romperam com o sectarismo que reinava até então, e que havia tornado o Partido uma espécie de seita.

O PCB ensaiava a aproximação com os militares rebeldes desde que havia adotado, no seu II Congresso, realizado em maio de 1925, a concepção dualista agrarismo e industrialismo, que correspondia às análises contidas no livro homônimo de Octávio Brandão, referência teórica do PCB ao lado de Astrojildo Pereira.

Redigido em 1924, Agrarismo e industrialismo só seria publicado em 1926 como “ensaio marxista-leninista sobre a revolta de São Paulo e a guerra de classe no Brasil”, conforme diz o subtítulo. Para Brandão, uma terceira revolta — a primeira fora o Levante do Forte de Copacabana em 1922 e a segunda o movimento de São Paulo e do Rio Grande do Sul de 1924 — deveria unir “o Exército e Marinha, o Rio e São Paulo, o sul e o norte, o proletariado, a pequena burguesia urbana e a grande burguesia industrial”. E ressalvava: “O proletariado entrará na batalha como classe independente, realizando uma política própria”.

João Quartim de Moraes diz, na obra A esquerda militar no Brasil – da Coluna à comuna, que a leitura de A Nação – jornal cedido pelo jornalista Leônidas de Resende para ser o primeiro diário comunista no Brasil entre 3 de janeiro e 11 de agosto de 1927 – dá uma clara ideia de como os comunistas começaram a construção de um dos mais decisivos processos revolucionários no Brasil. Da Coluna à comuna é questão de um passo, estampou o jornal em manchete de sua edição de 18 de janeiro de 1927, acompanhada de uma fotografia de Luiz Carlos Prestes. E o subtítulo dizia que o proletariado não se colocaria contra Prestes, mas o apoiaria contra o capitalismo.

Na edição de 24 de fevereiro, o jornal explicou o desdobramento da tática do PCB, que consistia em compreender a natureza das “duas espécies de revolução” em andamento — uma “militar-liberal” e outra “civil-comunista”. A primeira teria como frente de luta “o sertão” e a segunda “as assembleias operárias e políticas”. Para o jornal do PCB, “amanhã os dois fronts têm de se confraternizar (…), subordinando-se o liberal ao comunista”.

Prestes era a principal referência política da oposição na época, lendário como o Cavaleiro da Esperança depois que liderou a Coluna Invicta – assim chamada por nunca ter sido derrotada militarmente – entre 1925 e 1927. Astrojildo Pereira foi encontrá-lo em seu exílio na Bolívia. Deixou com ele livros marxistas e lhe falou dos planos dos comunistas para tomar o poder. Segundo Leôncio Basbaum, em seu livro de memórias, Uma vida em seis tempos, a delegação que representou o PCB na I Conferência Latino-Americana dos Partidos Comunistas, em Buenos Aires, fez uma série de contatos com Prestes, já abrigado na cidade, para convencê-lo a ser o candidato do PCB à presidência da República em 1930. Ele recusou.

Entre os dias 29 e 31 de dezembro de 1928, o PCB realizou seu III Congresso, em Niterói, e aprovou as resoluções ainda sob a influência da concepção da “terceira revolta”. Segundo os comunistas, havia uma conjuntura revolucionária, resultado da combinação da crise econômica em consequência da catástrofe na política do café com leite, do fracasso do plano de estabilização monetária e da instabilidade política vinculada à sucessão presidencial de 1930. As resoluções falavam de “uma terceira explosão revolucionária”, continuação mais ampla e radical dos movimentos anteriores, à qual toda a tática do Partido Comunista do Brasil deveria subordinar-se.

 

Prestes, adepto da ideia de que o Brasil precisava passar por reformas estruturais, também fora consultado por Getúlio Vargas para acompanhá-lo nos preparativos da Revolução de 1930. No final das contas, optou por um caminho próprio e, no começo de 1930, lançou o célebre Manifesto de Maio — no qual defendeu um governo baseado nos conselhos de trabalhadores da cidade e do campo, soldados e marinheiros — e criou a Liga de Ação Revolucionária.

O PCB recebeu o documento de Prestes com um misto de apoio e críticas. Para os comunistas, conforme nota publicada no jornal A Classe Operária de 5 de julho de 1930, o Manifesto desmascarava ainda mais o “caráter reacionário” da Aliança Liberal de Getúlio Vargas. “Para nós, o Manifesto representa apenas a comprovação mais segura do aprofundamento da marcha para a esquerda, agravada pela penetração cada vez maior dos imperialismos inglês e norte-americano”, dizia o texto.

Segundo o PCB, o documento de Prestes reconhecia, “sem confessar abertamente”, a “justeza da linha política do Partido Comunista”. Mais adiante, as críticas: “Nós temos o direito de pensar que Luiz Carlos Prestes seja de novo arrastado para o jogo da Aliança e do imperialismo. Sua categoria social, a pequena burguesia, suas ligações com os elementos reacionários da Coluna Prestes e com a Aliança Liberal, suas vacilações anteriores justificam essa nossa opinião, que temos o dever de apontar às massas”.

Essa dubiedade decorria de duas lacunas históricas, na visão de Grabois e Amazonas: a pouca experiência política da classe operária e o precário conhecimento do marxismo. Como consequência, o PCB não compreendeu aquele processo político e não descortinou naquelas lutas o movimento por transformações democrático-burguesas. Considerou que o proletariado nada tinha a ver com os fatos em desenvolvimento no país e adotou posições sectárias, ausentando-se da situação real. Aplicando mecanicamente as teses da Internacional Comunista, defendeu a criação de um governo apoiado em sovietes de operários e camponeses.

A nota que avaliou o Manifesto de Prestes terminou lançando o “grito de guerra” dos comunistas aos trabalhadores: “Organizai-vos e armais-vos! Apossai-vos de toda a terra! Confiscai-a! Dividi-a! Apossai-vos das empresas imperialistas! Dia de 7 horas! Aumento geral de salários! Dia de 6 horas para os menores e as mulheres! Pão e trabalho para os desempregados! Criai o governo operário e camponês, baseado nos Sovietes, isto é, nos Conselhos de Operários e Camponeses, Soldados e Marinheiros! Pela União das Repúblicas Soviéticas da América Latina!”.

Grabois e Amazonas interpretaram aquelas confusas posições dos comunistas como inclinações esquerdistas, que resultariam no afastamento do secretário-geral, Astrojildo Pereira. Ao fazê-lo, o PCB enveredou por um caminho errôneo, sectário, realizando uma campanha contra os “elementos” de origem pequeno-burguesa em favor de um pretenso modo de vida proletário. Via como causa da sua estagnação os indivíduos e não as concepções sectárias até então vigentes. Assim, não conseguiu sair do seu isolamento, ao passo que Vargas abria caminho para consolidar o seu governo, principalmente depois do levante de São Paulo em 1932, a chamada “Revolução Constitucionalista”.

De acordo com o documento Cinquenta anos de luta, o passo adiante só foi possível quando o PCB, ajudado pela política da Internacional Comunista que orientava a formação de frentes únicas contra o fascismo, decidiu fazer uma nova leitura da conjuntura. Assim, analisou relativamente bem a situação criada no Brasil, rompeu, em boa parte, com o sectarismo e se voltou para as massas ao dirigir greves importantes e promover ações contra o integralismo.

A política ampla, com o gume dirigido contra o fascismo e o imperialismo, levou à organização da ANL, que agrupou extensos setores populares e numerosos civis e militares que participaram da Revolução de 1930. Segundo Quartim de Moraes, o tenentismo tinha a esperança de fazer da Constituição de 1934 um instrumento de reforma política e cultural. Uma parte dos tenentes aderiu de vez ao governo Vargas e muitos ajudaram a fundar a ANL em 23 de março de 1935.

Na primeira reunião pública da ANL, realizada no teatro João Caetano, Rio de Janeiro, cinco dias após sua fundação, a presença popular mostrou a força que emergia dos propósitos da organização. Além dos problemas internos, o Brasil fora arrastado para a atmosfera cinzenta da Alemanha nazista e da Itália fascista. Seus propagadores brasileiros deram-lhe forma por meio da Ação Integralista Brasileira, chefiada nacionalmente por Plínio Salgado.

Em 23 de abril de 1933, inspirados nos fascistas e nos nazistas, os integralistas saíram às ruas de São Paulo em desfile e foram confrontados por operários. Do confronto surgiu o embrião da ANL. “Sinal dos tempos, este sangrento desfecho serviu apenas para reforçar, à direita, o prestígio dos integralistas e, à esquerda, a unidade de ação antifascista”, escreveu Quartim de Moraes.

A ANL surgiu dentro de uma ótica unitária e frentista, proposta por George Dimitrov no VII Congresso da Internacional Comunista, realizado entre 25 de julho e 20 de agosto de 1935. Segundo Quartim, o sucesso da ANL residia em “alargar mais ainda essa frente, atraindo em primeiro lugar os milhões de camponeses”.

Em 1935, o PCB não era mais aquele pugilo de revolucionários abnegados, político e ideologicamente claudicante, que se limitava à propaganda abstrata das ideias revolucionárias e a fazer agitação pouco compreensível às massas, desligada da vida. Como fiador da frente única, o Partido ganhara projeção nacional e aparecia como uma organização revolucionária que lutava pelo poder efetivamente popular. Mesmo na clandestinidade, conseguiu se organizar em todos os estados e o número de militantes cresceu com rapidez.

 

A evolução partidária se deu por um processo traumático. A I Conferência do PCB, realizada em Minas Gerais, entre 8 e 16 de julho de 1934, propôs-se a chacoalhar a militância comunista ao anunciar uma forte luta ideológica contra os portadores de teorias falsas, varrendo aventureiros e contrarrevolucionários que, aberta e disfarçadamente, entravavam a sua marcha.

Os informes publicados n’A Classe Operária e no Boletim de Organização (publicação interna do Partido) ainda refletiam certa confusão entre os comunistas. Falava-se em aplicação da “linha justa”, “proletarização” contra “os desvios graves da linha política do astrojildismo menchevista” e atacava o “prestismo” como “teoria pequeno-burguesa direitista, golpista, que deixa de ter fé no proletariado”.

Sinalizava, conforme o prolixo Manifesto da Primeira Conferência Nacional do Partido Comunista do Brasil ao proletariado, à massa camponesa, aos soldados e marinheiros, às nacionalidades e minorias nacionais escravizadas, a todo o povo oprimido e explorado do Brasil, o caminho para a libertação dos explorados e oprimidos da insuportável situação de miséria em que viviam, a luta contra a guerra imperialista, os golpes armados, a reação e o fascismo e pelo pão, pela terra e pela liberdade, não passava necessariamente por eleições.

Segundo o PCB, as eleições para a Câmara Federal e para as assembleias constituintes estaduais, marcadas para outubro de 1934, seriam “um compromisso entre as camarilhas dominantes, compromisso feito sob pressão das greves combativas e das lutas heroicas de massa que ora se desenrolam por todo o país”. Mesmo com o apoio a candidatos “proletários” em diversos estados, o parlamento era considerado “uma instituição burguesa e, portanto, reacionária”, um “instrumento de escravização material e política das massas operárias e camponesas pelos patrões e seu governo”. O caminho, dizia o documento, deveria ser o da “revolução operária e camponesa”.

Pouco antes da Conferência, em 20 de abril de 1934, o Birô Político do Partido discutiu e aprovou “a linha e o conteúdo” do documento A Luta Contra a Guerra Imperialista, a Reação e o Fascismo — Tarefa Imediata e Fundamental de Todo o Partido, que detalhou a “situação guerreira internacional” e afirmou que aquele quadro se refletia no Brasil, “um país semicolonial e de economia dependente do imperialismo”.

O documento orientava os comunistas a organizarem a luta contra a guerra no trabalho sindical, camponês, feminino e de juventude. O PCB dizia que os jovens, “presas da inquietação causada pela crise, sob o desespero da desocupação”, eram cada vez mais arrastados para o campo da exaltação nacionalista do fascismo e da guerra.

Logo após a Conferência, a manchete principal do jornal A Classe Operária reportou o Manifesto da Primeira Conferência Nacional do Partido Comunista do Brasil ao proletariado, à massa camponesa, aos soldados e marinheiros, às nacionalidades e minorias nacionais escravizadas, a todo o povo oprimido e explorado do Brasil. Sob o prolixo título do Manifesto, veio a lista de destinatários, uma imensidão de povo que incluía até vaqueiros, cangaceiros e coiteiros.

Segundo A Classe Operária, a Conferência realizou-se “através duma forte luta ideológica contra os portadores de teorias falsas no Partido”. Também tratou “amplamente” de “problemas que ainda não estavam bem esclarecidos nas fileiras do Partido — como a questão agrária, a questão nacional etc.”.

 

Luiz Carlos Prestes entrou para o PCB nesse clima, enfrentando resistências internas. Uma publicação de outubro de 1934, chamada Sentinela Vermelha, informava que o Birô Político havia discutido amplamente a proposta da Internacional Comunista de adesão de Prestes às fileiras do PCB. E um post scriptum, determinando a reprodução obrigatória e imediata a todas as bases para ampla discussão, com retorno urgente para o Partido da opinião de cada organismo.

O Partido estava saindo de suas posições estreitas, que empurravam gente para fora de seus quadros enquanto as greves se avolumavam, formando uma onda que varria o país. Segundo o Sentinela Vermelha, Prestes deixava de ser um “caudilho pequeno-burguês” e passava “a confiar nas forças do proletariado como única classe revolucionária e no seu partido, o PC”. Reconheceu “em vários documentos escritos todo o seu passado de erros” e vinha “demonstrando na prática a sua dedicação à causa revolucionária do proletariado, participando ativamente na construção do socialismo na União Soviética e, sobretudo, que a direção e as bases do PCB se fortificam ideologicamente”.

A adesão de Prestes, “como simples soldado” da Internacional Comunista, era importante “para o movimento revolucionário do proletariado no Brasil”. Vinha “desarmar todos os elementos oportunistas que exploram o nome de Prestes para trair as lutas das massas trabalhadoras das cidades e do campo, entravando a marcha da revolução agrária anti-imperialista, ou operária e camponesa, dirigida pela vanguarda revolucionária do proletariado, o PCB”.

Mas os comunistas precisavam “intensificar o fogo contra o prestismo dentro e fora de nossas fileiras”, contra a “teoria e prática” de ilusões em “chefetes e caudilhos pequeno-burgueses, ‘salvadores’, ‘cavaleiros da esperança’”. O Partido deveria fechar suas fileiras para a “ideologia prestista”. A entrada de Prestes coincidiu com a evolução das greves e da organização dos trabalhadores. A Classe Operária, que circulou em 23 de agosto de 1934, relata que entre abril e maio as cidades do Rio de Janeiro e Niterói foram paralisadas, impulsionando uma grande onda de greves em agosto.

 

Prestes desembarcou clandestinamente no Brasil, em 15 de abril de 1935, vindo da União Soviética, onde estava exilado, para liderar o Levante, já ocupando o posto de presidente de honra da ANL. A decisão fora tomada pelo Comitê Executivo Nacional da organização, que se reuniu pela primeira vez em 12 de março. Não demorou e ondas de povo acorreram para aquela organização, vista como algo novo, um caminho por onde poderiam canalizar seus anseios. Chegavam de forma espontânea, atraídas pelas narrativas que davam conta do Cavaleiro da Esperança novamente disposto a mudar a face do Brasil. Apinhavam-se para ouvi-lo dizer que estava iniciando uma nova jornada de lutas. No ato de 5 de julho de 1935 — aniversário dos levantes dos tenentes de 1922 e de 1924 —, um Manifesto de sua autoria foi lido pelo eloquente Carlos Lacerda, na sede da ANL. As palavras contagiaram o coração daquela multidão e se propagaram como descarga elétrica.

Foram palavras duras. Num dos trechos, o Manifesto dizia que no país estavam, de um lado, os libertadores, e, de outro, os traidores “a serviço do imperialismo”. Havia chegado o momento do assalto ao poder, porque o Brasil vivia uma situação de guerra. “Cada um deve ocupar o seu posto”, disse Prestes. O documento expressava o encontro de duas vertentes revolucionárias, ambas com raízes na década de 1920: o tenentismo e o PCB. O Brasil estava em estado de fervura.

Diante das palavras pesadas de Prestes, Getúlio Vargas recorreu à Lei de Segurança Nacional e decretou a ilegalidade da organização de massas que acabara de nascer. A repressão não arrefeceu os ânimos do PCB, cuja compreensão sobre o que estava sendo decidido era “a causa do Brasil e de todos os seus filhos”. “O Partido Comunista do Brasil apoia com todo vigor, firmeza e decisão, esse heroico movimento revolucionário”, dizia um documento divulgado logo após a decretação da ilegalidade da ANL.

Até mesmo a Internacional Comunista haveria de convir que aquelas proclamações do PCB demonstravam as condições para o Levante como fruto maduro. Era a hora de pôr as forças revolucionárias em ação, de fazer o que precisava ser feito. E foi feito: uma ação que marcou a história do país e desencadeou uma feroz repressão aos comunistas.

 

Na manhã de 26 de novembro de 1935, um dia antes da derrota dos rebeldes em Natal, os jornais deram grande destaque para a decisão do governo de decretar estado de sítio por trinta dias, em todo o país, para que o Estado pudesse “defender-se da insolência comunista”. Investido de poderes absolutos, o presidente da República desencadeou a repressão.

O chefe de polícia do Distrito Federal, Filinto Müller, determinou que o porte de armas estava proibido e que ninguém poderia sair da cidade do Rio de Janeiro sem autorização da Delegacia Especial de Ordem Social. As fichas policiais de membros ou simpatizantes da ANL foram transformadas em mandados de prisão. E o quartel-general da Polícia Especial, no morro de Santo Antônio, em centro de torturas.

No final do mês, milhares de pessoas já estavam presas em todo o país. Vargas jogava pesado. Em quatro vezes sucessivas, pediu — e conseguiu — ao Congresso que prorrogasse o estado de sítio por mais noventa dias. Prestes foi preso, em 5 de março de 1936, depois de uma caçada comandada por Filinto Müller que esquadrinhou o bairro do Méier e revistou casa por casa. Estava com a esposa, a alemã Olga Benário, que foi deportada grávida para a Alemanha nazista e, pouco depois de dar à luz Anita Leocádia Benário Prestes, morreu numa câmara de gás da cidade de Bernburg.

O Informe Sobre a Insurreição no Brasil, da seção brasileira do Socorro Vermelho Internacional, dirigiu, “por intermédio de suas coirmãs do exterior, um fraternal apelo à solidariedade internacional em favor dos bravos militares e populares revolucionários presos, suas famílias e os órfãos dos que tombaram”.

Outro Informe, assinado pela direção da ANL, divulgou uma longa lista de personalidades internacionais, e de vários comitês estrangeiros de solidariedade aos presos políticos, que haviam intercedido junto ao governo brasileiro pela libertação de Prestes. Entre eles, estavam os que organizaram o Levante no Rio Grande do Norte.

Coletânea mostra vida de combate teórico de Maurício Grabois

Por Osvaldo Bertolino

Os textos aqui reunidos mostram um homem de combates. Um revolucionário que se guiava pela teoria, enfrentando cada etapa de sua trajetória com a força das ideias, até o momento em que foi silenciado pela brutalidade das armas da barbárie. Ao ser atingido mortalmente na Guerrilha do Araguaia, Sul do estado do Pará, na manhã chuvosa de 25 de dezembro de 1973, estava respondendo ao fogo do inimigo com o recurso disponível, um revólver calibre 38, mas seu gesto representou muito mais do que um simples ato de defesa.

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A vida de combates de Maurício Grabois

Maurício Grabois e a Constituição democrática de 1946

O diário de Maurício Grabois e os devaneios de um jornalista de CartaCapital

Ergueu-se, no combate final, o portador de uma história que essa coletânea revela como base de sua prática. A repressão calou a voz de um combatente, mas suas ideias não podem ser silenciadas. Agora, com esse livro, elas ganham mais amplificação, uma sistematização de aspectos dos combates do Partido Comunista do Brasil desde seus primeiros passos como protagonista da história brasileira. Emerge, da leitura desses textos, um cenário que as forças opressoras tentam invisibilizar como recurso para neutralizar seus efeitos.

Maurício Grabois, ainda na juventude, compreendeu que não se faz transformações sociais sem ideias, a máxima de Vladimir Lênin de que sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário. Assimilou cedo o primado de que as ideias ganham força material quando são sistematizadas e organizadas, a formulação leninista de partido revolucionário. Foi, sem dúvida, o que mais compreendeu esse princípio num momento em que o Partido Comunista do Brasil procurava sua afirmação como força política.

Sua produção teórica combina textos flamejantes, verdadeiras conclamações ao combate, com reflexões sobre a essência da teoria revolucionária, a superação de toda forma de opressão e exploração. Aparece, na sua produção, o olhar rigoroso para a realidade concreta, a começar pela conjuntura do entreguerras, a difícil tarefa de alinhar a ação política ao objetivo transformador, a clássica combinação de tática e estratégia, um exercício que exigiu rápida reinterpretação do papel dos agentes daquele cenário de grandes batalhas.

Com o instrumental teórico do marxismo-leninismo, Grabois despontou nessa tarefa como integrante da esquipe do jornal A Classe Operária e redator nas revistas Renovação e Continental. Em seus textos aparecem o nascimento e a evolução do conceito de “união nacional” – a tática do Partido à época – como caminho para a derrota do nazifascismo, num momento em que a máquina de guerra comandada por Adolf Hitler avançava furiosa. O presidente Getúlio Vargas, que liderou a Revolução de 1930 e o Estado Novo de 1937, regido por uma ditatorial Constituição outorgada, agora se aproximava da resistência democrática.

Era um mar de contradições, que exigia sagacidade para interpretar cada movimento de forma concreta. Grabois entendia que o momento exigia o fortalecimento da organização política que apontava a saída estratégica. Formou a Comissão Nacional de Organização Provisória (Cnop) e foi à luta para reunir quadros do Partido espalhados pelo país em torno de um projeto organizativo, a Conferência da Mantiqueira de 1943. Foi a ignição de uma nova fase da resistência democrática, com manifestações combativas dos movimentos estudantil e sindical, da intelectualidade e de setores da institucionalidade do Estado.

Grabois começou a aparecer como articulador político, um interlocutor com trânsito em diferentes setores sociais. A mudança no cenário político levou à anistia aos presos políticos do Estado Novo e a um vigoroso movimento de massas pelo estabelecimento da legalidade democrática, a campanha exigindo Assembleia Nacional Constituinte. Após a legalidade do Partido, proclamada em 23 de maio de 1945 no comício do Estádio de São Januário, do Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, Grabois fez discursos memoráveis sobre as possibilidades de transformações sociais pelo caminho da democracia.

Eleito constituinte, destacou-se com sua eloquência e visão política nos duros embates para a elaboração de uma Constituição que traduzisse e institucionalizasse os ideais da história de lutas do povo. Nos limites do jogo de força estabelecido, conseguiu, com seus camaradas de bancada e aliados, inscrever pontos progressistas essenciais na Constituição. Após a Constituinte, como líder da bancada comunista, mais uma vez ergueu-se com sua estatura intelectual e moral, agora contra a ofensiva da direita para pisotear o que havia sido conquistado na Constituinte.

Mesmo com a resistência, houve a cassação do registro e dos mandatos comunistas, em confrontos que foram verdadeiras lições de combates. Foi um período em que Grabois, além dos discursos como parlamentar, escreveu em profusão na imprensa do Partido e para eventos partidários. Seu pronunciamento de despedida da bancada comunista representou uma contundente denúncia do arbítrio que voltava a se manifestar, ao mesmo tempo em que anunciou a continuidade da luta histórica do Partido.

Apesar da mordaça do governo do general Eurico Gaspar Dutra, Grabois seguiu produzindo análises, que se intensificariam nos anos 1950. O momento era de redefinição tática, também numa conjuntura conturbada, a ofensiva anticomunista da “guerra fria”. Grabois foi buscar mais conhecimentos num curso de longa duração na União Soviética e na volta se mostrou preparado para os combates em defesa do Partido nos acontecimentos pós-XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS).

Novamente se mostrou um estrategista sagaz, que compreendia bem os compromissos táticos. O Partido, para ele, era um instrumento imprescindível, sem o qual não haveria transformações sociais. Precisava ser reorganizado, com base nos princípios norteadores da luta revolucionária, tarefa que assumiu com a mesma determinação de quando criou a Cnop. E assim prosseguiu, até o momento em que levou à prática sua vasta produção teórica nos combates do Araguaia, como um dos líderes políticos e comandante militar da Guerrilha. Caiu, de arma na mão, e com o peso de sua profícua vida de combates.

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Eu fui à Bahia me despedir de Péricles de Souza

Por Osvaldo Bertolino

O falecimento de Péricles de Souza nesta sexta-feira, 05 de setembro de 2025, em Salvador, Bahia, representa uma daquelas perdas humanas de dimensão histórica. Enfrentou a doença de Parkinson, na luta pela vida, período em que iniciei a pesquisa para escrever a sua biografia, lançada no final de 2024. A tarefa me levou aos ambientes do Brasil e do mundo no ciclo iniciado na década de 1950, a atmosfera do pós-Segunda Guerra Mundial que levou a juventude à resistência às reminiscências do nazifascismo.

As cinzas do grande combate aos regimes que se projetaram sob as botas de Adolf Hitler se levantavam com nova forma, projetada pelo anticomunismo proclamado sobretudo por Herry Truman e Winston Churchill. Os genocídios estavam de volta, com as guerras da Coreia e do Vietnã e os banhos de sangue anticomunistas na Indonésia e na Tailândia. O Brasil foi arrastado para essa atmosfera com a chamada Doutrina Truman, abraçada incondicionalmente pelo governo do general Eurico Gaspar Dutra, abrindo o país para a doutrina da guerra imperialista com a criação da Escola Superior de Guerra, em 1949.

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Péricles cresceu nessa atmosfera e viu a juventude intensificando o combate à militarização da Cortina de Ferro, proclamada por Churchill, então primeiro-ministro britânico, num discurso enfaticamente anticomunista, dia 5 de março de 1946, no Westminster College, na cidade de Fulton, Missouri, Estados Unidos.

No Brasil, os jovens se mobilizaram contra a tentativa de enviar soldados à guerra da Coreia e sabiam que a atmosfera da anticomunista Guerra Fria tendia a militarização do governo, tentativas que se manifestaram contra os presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitscheck. As ameaças se intensificaram com a militarização da Cortina de Ferro para conter as ideias da luta de libertação da Coreia e do Vietnã, da Revolução Chinesa, em 1949, e da Revolução Cubana, em 1959, inspiradas na guerra popular contra o nazifascismo pela União Soviética.

A compreensão desses cenários foi a base para explicar o início da militância de Péricles na sua adolescência. Quando a intenção da militarização se concretizou, com o golpe de 1964, intensificando a brutal ofensiva imperialista na América Latina, Péricles estava nas trincheiras da resistência. A militância na Juventude Estudantil Católica (JEC) foi uma transição para ideias revolucionárias, consolidada na sua participação da fundação da Ação Popular (AP), em 1963.

Os estudos iniciados pela Doutrina Social da Igreja – o pensamento progressista católico – transitaram para o marxismo e, consequentemente, para a ideia da guerra popular de libertação nacional. Péricles foi para os estados do Pará e do Maranhão com essas ideias, assumidas pela AP. Na biografia, esse período é descrito com o alto grau de tensão e perigo daquela missão. Péricles se instalou na região com a esposa, Carmilce, e o filho Saulo.

Caçado pela ditadura, foi para São Paulo onde foi ativo integrante do grupo que fez a transição da AP para o marxismo-leninismo e a consequente incorporação ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em 1973. Péricles desempenhava uma função de alta responsabilidade – a segurança dos militantes, quando a repressão estava no auge e qualquer passo em falso poderia levar a prisões, torturas e mortes. Eram tempos de perseguição à Guerrilha do Araguaia, com uma sucessão de assassinatos brutais e caçada implacável aos comunistas. Em 1975, ele foi para Aracaju, Sergipe, reorganizar o Partido no Nordeste, agora integrado pela estrutura da AP.

Com a anistia de 1979, Péricles retornou a Salvador e foi o principal articulador do Partido na Bahia – ao lado de Haroldo Lima, seu contemporâneo do movimento estudantil no início da década de 1960 –, construindo os alicerces da grande projeção dos comunistas do estado. Sua autoridade moral, esculpida por profunda convicção revolucionária, desenvolvida no fogo das batalhas políticas e ideológicas, foi amplamente reconhecida por todos que participaram das pesquisas para a sua biografia.

A cordialidade, traço de Péricles que considero essencial para um revolucionário, marcou profundamente os membros do Partido que atuaram ao seu lado. Todas e todos ressaltaram essa característica, essencial para a sua militância agregadora e rigorosa com princípios e compromissos, a autoridade que se impunha pelo exemplo e pela força das ideias. Foi com essa cordialidade que fui recebido em Salvador pelos comunistas, dos dirigentes aos militantes de base.

Faço um agradecimento especial aos seus filhos – Saulo, Mariana e Jorge – e à sua esposa, Carmilce. Com emoção lembro as longas conversas, as trocas de informações, seus esforços para que a biografia tivesse o máximo de informações. O resultado é a descrição de Péricles como autêntico comunista, exemplo de revolucionário. O militante, o dirigente, o camarada, o companheiro, o filho, o irmão, o marido, o pai e o trabalhador incansável aparecem como traços de uma pessoa que viveu para o ideal da civilização, a luta pelo socialismo, e deixa um acervo inspirador aos que abraçam o mesmo propósito.

Quando a biografia foi lançada em Salvador, visitei Péricles no hospital, acompanhado por seu filho Jorge e dirigentes do PCdoB. Seu estado de saúde não impediu que ele interagisse com a nossa conversa, às vezes balbuciando algumas palavras, outras nos acompanhando com o olhar. Foi uma emoção especial saber que ele estava entendendo o que representava a sua biografia, da qual participou, com a leitura dos originais pelos filhos, manifestando alegria e confirmando a fidelidade dos fatos narrados.

Obrigado, camarada Péricles, por me proporcionar a oportunidade de contar, em sua biografia, tudo o que você foi! Até sempre!

__________

Leia a Nota do autor, publicada em sua biografia:

Eu fui à Bahia

Você já foi a Bahia? Não? Então vá! A obra-prima de Dorival Caymmi que instiga o conhecimento de um dos estados mais representativos da brasilidade é uma espécie de guia para se entender o que nenhuma outra terra tem, como diz a canção. “Tudo, tudo na Bahia faz a gente querer bem”, expressa Caymmi. Andando por Salvador, a sensação é de que se ouve essa música por toda parte. A baianidade transborda cordialidade e cultura, história e hospitalidade, traços comuns do Nordeste com especificidades locais. Em todo lugar tem um pedaço da raiz do Brasil. Com quem se fala, fica-se sabendo algo mais sobre a formação do povo brasileiro.

Nos últimos três anos, convivi quase diariamente com esse clima para escrever, simultaneamente, as biografias de Péricles de Souza e Renato Rabelo, baianos que marcaram a história de um período expressivo da luta do povo brasileiro. São, a rigor, continuadores de seus conterrâneos da Independência, das lutas abolicionistas e republicanas, agora num processo de resistência que busca caminhos para outro salto civilizatório. São intérpretes das aspirações populares, vidas dedicadas, desde a tenra juventude, ao ideal socialista.

Como lideranças da Ação Popular (AP) e do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Péricles e Renato têm em suas biografias parte considerável do acervo teórico e histórico dessa trajetória. Muitas passagens se repetem na narração por serem personagens protagonistas da mesma luta. Foi impossível falar de um sem citar outro, cada um em sua dimensão, paralelo nascido pela opção de enfrentar uma das situações mais tenebrosas da história do Brasil, num tempo em que os ecos do nazifascismo ainda ressoavam e se manifestavam na forma de uma série de golpes de Estado iniciada em 19 de maio de 1954 na Guatemala.

Novas formas políticas da ideologia da violência estavam em curso, uma cadeia de ações nascida no pós-Segunda Guerra Mundial e pronunciada de forma mais visível nas guerras da Coreia e do Vietnã. O horizonte se apresentava sombrio para aquela juventude que conhecia bem as ameaças de envolvimento do Brasil em guerras imperialistas e sabia dos perigos deste lado da anticomunista “cortina de ferro” proclamada nos Estados Unidos por Winston Churchill, então primeiro-ministro britânico, referindo-se à barreira ideológica e militar que passou para a história com o nome de Guerra Fria, inserida na chamada Doutrina Truman, o expansionismo autoritário do regime de Washington.

Conheci a luta e as ideias de Péricles e Renato movido pela inquietação da geração que despontou no final dos anos 1970 combatendo a já cambaleante ditadura militar. Péricles conheci pessoalmente fazendo pesquisas para a biografia de Pedro Pomar, liderança do PCdoB desde a década de 1930, assassinado pela ditadura em 16 de dezembro de 1976, publicada no centenário de seu nascimento em 2013. Conversamos por mais de uma hora na sede do Partido, em São Paulo, durante uma reunião do Comitê Central. Fiquei impressionado com a profundidade de suas análises, permeadas por críticas e autocríticas, num momento em que ainda estava em debate a renovação da teoria marxista, iniciada no PCdoB em seu VIII Congresso, de 1992.

Quando recebi o convite de Caio Botelho, então secretário de Formação e Propaganda do PCdoB-BA, para escrever esta biografia, imediatamente a conversa com Péricles me veio à memória. Sua voz pausada, acompanhada de gestos cadenciados, transmitia a serenidade contundente dos que manifestam convicção sobre o que falam. Foram palavras incisivas, que remetem à reflexão no lugar da exaltação, à interrogação sem exclamação, essenciais para a inquietação prospectiva. Ao mesmo tempo, transmitem cordialidade, característica própria da sabedoria revolucionária.

Vi esses traços de Péricles em todas as pessoas que entrevistei para esta biografia. Infelizmente não pude falar com ele, impedido por seu estado de saúde. Mas fiz amizade com seus filhos – Saulo, Mariana e Jorge –, que me auxiliaram do começo ao fim. Foram longas conversas virtuais na busca de informações, com trocas de opiniões e esclarecimentos de dúvidas. Observei neles as lições do pai, de contundência nas convicções, rigor ético e generosidade. Também não pude falar pessoalmente com a esposa, Carmilce, mas tive dela a inestimável colaboração em muitas passagens dessa história. Norlei, a irmã de Péricles, foi igualmente generosa com informações da família.

Menciono, de modo reverencial, Jorge Wilton e Ricardo Moreno por suas inestimáveis contribuições no desbravamento da história do PCdoB-BA, que muito facilitou meu trabalho para esta biografia. Memórias de uma esquerda em transição, de Jorge Wilton, é um extraordinário painel da trajetória dos comunistas baianos na travessia do combate à ditadura militar à consolidação de seu protagonismo político. Naquelas manhãs de segunda – a trajetória de Haroldo Lima, de Ricardo Moreno, relata com primor a vida e as ideias de uma das importantes lideranças políticas da história da Bahia.

Faço também agradecimentos especiais aos dirigentes, militantes e funcionários do PCdoB-BA, que dedicaram tempos preciosos para atender aos meus pedidos de entrevistas. Além de Caio Botelho – que escreve as orelhas deste livro –, faço um destaque para o presidente estadual do Partido, Geraldo Galindo, autor do Prefácio, que também assumiu a tarefa de fazer essa biografia vir à luz. Conversamos longamente no período em que estive pesquisando em Salvador, no começo de 2024 – quando tive o privilégio de presenciar a Festa de Iemanjá, em 2 de fevereiro, na companhia dos amigos e camaradas Itana Sampaio e Ricardo Moreno –, molhando as palavras com cerveja e cachaça, como ele diz no Prefácio.

Considero um imenso privilégio esse trabalho de resgate da memória do PCdoB. É um sonho que vem dos primeiros contatos com a história dos comunistas, no longínquo início da década de 1980. Pude iniciar esse trabalho somente no começo dos anos 2000, como membro da Comissão Estadual de Formação do PCdoB em São Paulo, liderada por Altamiro Borges, que me sugeriu escrever a biografia de Carlos Nicolau Danielli. As biografias de Renato e Péricles são a sétima e a oitava que escrevo. Escrevi também os trinta anos da União da Juventude Socialista (UJS), a trajetória do ressurgimento do sindicalismo brasileiro até a criação da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), a defesa da Guerrilha do Araguaia e a história do PCdoB no Rio Grande do Norte desde a década de 1920.

Como sempre, este é um trabalho coletivo. Participaram comigo, além dos entrevistados, o sempre parceiro e dileto amigo Luiz Manfredini, jornalista e escritor talentoso. Menciono também a colaboração de Fernando Garcia e Felipe Spadari, do centro de Documentação e Memória (CDM) da Fundação Maurício Grabois, e de Harlen Oliveira, que abriu as portas do PCdoB-BA para a minha pesquisa e providenciou o envio do material pesquisado para São Paulo. E agradeço a sempre confortante presença e apoio dos meus filhos, Murilo, Isabela e Lais, a quem dedico este trabalho.

São Paulo, setembro de 2024.

A fênix comunista de João Amazonas

Por Osvaldo Bertolino

Em duas conferências do Partido Comunista do Brasil  – de 1943 e de 1962 –, os comunistas recomeçavam praticamente do zero, uma atividade de construção e reconstrução do Partido que João Amazonas comparava à mitológica fênix, a ave da literatura grega que renasce de suas cinzas.

O sorriso largo não deixava dúvida. João Amazonas estava feliz ao receber uma placa homenageando seus quase sessenta e sete anos de militância comunista, perto de completar quarenta anos como principal dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Pouco antes, estivera na tribuna do X Congresso do Partido, realizado entre 9 e 12 de dezembro de 2001 no Centro de Convenções Riocentro, Rio de Janeiro, para apontar, com voz serena e embargada, Renato Rabelo, então vice-presidente, como seu substituto. A quarta geração de dirigentes estava assumindo o comando do Partido.

Os mais de oitocentos delegados, representando em torno de duzentos mil filiados, além dos convidados e trinta e duas delegações estrangeiras, ouviram, em silêncio absoluto, Amazonas dizer que Renato era um bom camarada, que vinha se destacando no Partido e procurando seguir suas tradições de luta.

Em pé, trajando terno e gravata, com as mãos apoiadas na mesa, Amazonas falou, num breve discurso, que completaria noventa anos de idade em 1º de janeiro de 2002 e não tinha mais condições físicas para ocupar o cargo máximo da direção partidária. Pediu aos seus camaradas dispensa da função. Não havia cargo vitalício no PCdoB, mas não estava pedindo aposentadoria, comunicou. Queria morrer em sua banca de trabalho, continuando a luta pelos ideais que procurou defender durante a vida. Seguiria membro do Comitê Central, agora no simbólico posto de presidente de honra.

Agradeceu pelo apoio que sempre teve “nas fileiras do glorioso e heroico Partido Comunista do Brasil” e virou-se para a esquerda, onde estava sua companheira de jornada, Elza Monnerat. Sentou-se lentamente. Com o gesto, retirou-se simbolicamente do posto que ocupava desde 1962, quando o Partido foi reorganizado. Às suas costas, um painel do Congresso ostentava as imagens de Karl Marx, Friedrich Engels e Vladimir Lênin.

Maiores responsabilidades

Na passagem de comando para Renato, Amazonas destacou o papel dos camaradas da direção coletiva na sua geração, dos quais lembrava com saudades e respeito pela sua combatividade. Citou Maurício Grabois, Pedro Pomar, Lincoln Oest, Carlos Danielli, Ângelo Arroyo, Luís Guilhardini e outros tantos que pagaram alto preço pela coragem de desafiar um regime de traição e brutalidade – a ditadura militar – para defender os interesses do povo.

Com os assassinatos daqueles camaradas, coube a ele maiores responsabilidades. O ingresso de Renato e outros dirigentes da Ação Popular (AP) no Partido, no começo da década de 1970, reforçou a direção. Foram recebidos com entusiasmo. Estavam entrando para o PCdoB em um momento de alto risco, quando a repressão atacava ferozmente os comunistas. A caçada aos que, de uma forma ou de outra, estavam ligados à Guerrilha do Araguaia era uma obsessão da ditadura militar.

Começava ali o trajeto que levaria à quarta geração de dirigentes, reunindo remanescentes da incorporação da Ação Popular e novas lideranças. Quando Renato ingressou no PCdoB, encontrou na direção quadros experientes, marcados por combates que vinham dos anos 1930. Não conheceu Grabois, morto em ação armada na Guerrilha do Araguaia, mas foi recebido por Amazonas, Pedro Pomar e Elza Monnerat, sobreviventes das matanças promovidas pela ditadura e antigos dirigentes comunistas.

Guerrilha do Araguaia

Amazonas ingressou no Partido em Belém do Pará, sua terra Natal, onde fora preso em atividades da Aliança Nacional Libertadora (ANL), que organizava o Levante de 1935, assim como Pomar. Elza Monnerat viera do Rio de Janeiro. Ingressara no Partido em 1945. Foram lideranças da reorganização de 1962, quando o Partido enfrentou um surto revisionista e reformista, processo iniciado em 1956 sob o influxo do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS).

Com o golpe de 1964, diante da quase impossibilidade da luta revolucionária nas cidades, foram para o campo organizar a guerra popular, o caminho da luta armada, a resistência à ditadura. Amazonas e Elza sobreviveram à repressão à Guerrilha do Araguaia, no Sul do Pará. Pomar esteve em diferentes regiões do Norte e do Nordeste. Fixou-se no Vale do Ribeira, organizando bases da guerra popular nas montanhas do Sul do estado de São Paulo, e seria morto na Chacina da Lapa, em 16 de dezembro de 1976.

Amazonas assumiu a liderança da terceira geração de dirigentes, em 1962 – ao lado de Maurício Grabois, Pedro Pomar e outros –, com a experiência de membro do Comitê Central desde a Conferência da Mantiqueira, de 1943, assim chamada por ter sido realizada nas proximidades da serra com esse nome, numa casa de taipa, moradia de uma propriedade rural que pertencia a um militante comunista, no meio da mata, em Engenheiro Passos, distrito de Resende, Sul Fluminense, entre 28 e 30 de agosto de 1943. Nela, o Partido foi reconstruído após a feroz perseguição do Estado Novo, instaurado com o golpe de 1937.

Sua militância política começou na “Ala Moça” da União Popular do Pará (UPP), uma frente única organizada para participar das eleições municipais de Belém em 30 de novembro de 1935. O passo seguinte seria o ingresso no Partido Comunista do Brasil, tendo como caminho a ANL, organizadora do Levante de 1935, liderada por Luiz Carlos Prestes. Ingressou também na União dos Proletários.

Primeira prisão

Quando a ANL surgiu com força no país, Amazonas participou de uma ação ousada ao içar, à noite, uma bandeira da organização nos mastros dos reservatórios de água da Lauro Sodré, local com ampla visibilidade na cidade, com vinte metros de altura. O jornal Folha do Norte de 19 de dezembro de 1935 noticiou o fato notado pelo público desde a manhã do dia anterior. Os participantes do protesto escreveram, segundo a Folha do Norte, com tinta arroxeada, várias inscrições – como Viva Luiz Carlos PrestesViva a ANL e Viva o comunismo.

Na repressão que se instalou no país após o Levante, Amazonas foi preso na Cadeia de São José, descrita pela Folha do Norte como “um antigo e inqualificável pardieiro, uma ignomínia”. Um ano depois, a Justiça mandou soltá-lo, quando terminou o estado de guerra. Mergulhou na clandestinidade, mas logo seria preso novamente.

Segundo o inquérito que determinou a sua prisão, nas palavras da Folha do Norte, “João Amazonas agia no preparo de matrizes e boletins subversivos da propaganda moscovita, matrizes que eram entregues a Pedro de Araújo Pomar, detido há dias passados”, encarregado “de mimeografá-los em grande quantidade para os espalhar sorrateiramente pelos bairros da cidade”. Eram “pouquinhos, mas teimosos os adeptos do credo sinistro”.

Células nas empresas

Foram para a prisão de Umarizal, em Belém, de onde fugiram e, numa longa e penosa viagem, chegaram ao Rio de Janeiro para se juntar aos comunistas que reconstruíam o Partido, ainda na vigência do Estado Novo, liderados por Maurício Grabois. A decisão foi tomada após a informação de que a Alemanha nazista invadira a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 22 de junho de 1941. Fugiram em 5 de agosto. Chegaram ao Rio de Janeiro e se integraram à Comissão Nacional de Organização Provisória (CNOP), criada por Maurício Grabois e outros comunistas para reestruturar o Partido desarticulado pelo Estado Novo.

Amazonas empregou-se como auxiliar de contabilidade, no centro da cidade. Era uma forma de fazer algum recurso enquanto a CNOP pavimentava os caminhos para o início de uma nova jornada. Logo foi para Minas Gerais. Recebeu alguns mil-réis e a passagem de trem que o levaria para as terras onde deveria fazer rebrotar as raízes comunistas. Outro ponto visitado por Amazonas foi a Bahia, de onde partiu o dirigente Diógenes Arruda Câmara para se integrar à CNOP. O objetivo era realizar uma Conferência Nacional e eleger um Comitê Central.

Os comunistas ressurgiam com força, presentes em organizações como a União Nacional dos Estudantes (UNE), a Associação Brasileira de Escritores (ABDE), além da Liga de Defesa Nacional – uma frente com vários departamentos, entre eles o sindical, assumido por Amazonas, embrião do Movimento Unificador dos Trabalhadores (MUT). O Partido priorizava a organização de células nas empresas, formando uma grande base de trabalhadores.

Contra o liquidacionismo

De 1941 a 1945 foram anos de luta aguda contra o liquidacionismo – os que pretendiam liquidar o Partido, dissolvendo-o numa frente contra o nazifascismo –, disse Amazonas. “É preciso dizer que a desvantagem era grande. Vencemos porque a verdade estava do nosso lado”, afirmou. A nova equipe que assumia a defesa do Partido – registrou Amazonas – eram pessoas desconhecidas quase completamente. “Afinal, essa nova equipe – Arruda, Grabois, Pomar, eu etc. – eram pessoas que não tinham nenhuma posição no Partido, na época, a não ser locais, naqueles lugares onde tínhamos atuado.”

Na Conferência da Mantiqueira Amazonas assumiu a Secretaria Sindical e de Massas. A direção eleita contava também com Grabois, Pomar, Arruda, José Medina Filho, Álvaro Ventura, Jorge Herlein, Francisco Campos, Agostinho Dias de Oliveira e Lindolfo Hill.

Naquele processo, o encontro de Amazonas, Pomar, Grabois e Arruda representou as fundações de uma nova fase do Partido Comunista do Brasil. A meta era enterrar a ditadura do Estado Novo e liquidar o nazifascismo. Em 9 de agosto de 1943, o governo do presidente Getúlio Vargas decidiu organizar a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Segundo Amazonas, os comunistas foram os primeiros a reivindicar a participação militar do Brasil na Segunda Guerra Mundial. “E o fizemos de maneira consequente”, constatou.

Os comunistas lideraram grandes manifestações para redemocratizar o país, defendendo uma Assembleia Nacional Constituinte, principalmente após a legalidade, em meados de 1945. Amazonas foi eleito deputado constituinte, o mais votado do Distrito Federal, sediado então no Rio de Janeiro. Depois da cassação do registro do Partido – em 1947 – e dos mandatos comunistas – em 1948 –, voltou à clandestinidade.

Via prussiana

No debate deflagrado pelas mudanças do PCUS, Amazonas foi um dos primeiros a se pronunciar. Seu primeiro artigo, intitulado As massas, o indivíduo e a história, publicado no jornal Voz Operária em 26 de janeiro de 1957, contestou duramente a base dos argumentos daqueles que iniciaram os ataques ao Partido Comunista do Brasil, então com a sigla PCB. Disse que eram as massas que faziam a história, mas “não se pode concluir que seja nulo ou insignificante o papel das personalidades”.

Amazonas voltaria a escrever em 2 de fevereiro de 1957 para defender a ideia de que “o Partido Comunista elabora sua orientação e enriquece seus princípios coletivamente”. “Isso dá ao Partido do proletariado uma grande vantagem sobre os partidos burgueses”, asseverou.

Nos debates do V Congresso, em 1960, também inovou ao abordar o desenvolvimento do capitalismo no Brasil pela via prussiana (as análises de Marx e Engels sobre o desenvolvimento capitalista no espaço da Prússia e do que viria a ser a Alemanha sem alterações na propriedade da terra).

Segundo ele, as Teses do Congresso se equivocavam ao definir “que as contradições entre o desenvolvimento do capitalismo e o monopólio da terra são antagônicas”. “O capitalismo, seguindo o caminho prussiano, pode se desenvolver no campo, conservando o latifúndio. Pode também o capitalismo crescer, substituindo a dependência do país ao imperialismo”, escreveu. “Não é o crescimento do capitalismo que leva à independência e às transformações democráticas, como se afirma implicitamente nas Teses.”

Unidade do Partido

Os debates do V Congresso evoluíram para o “racha” e a reorganização. No jornal do Partido A Classe Operária, Pomar fez uma minuciosa análise dos acontecimentos que levaram à reorganização, revelando nuances daquela batalha. Os que assumiram o controle partidário elaboraram um novo Programa e novo Estatuto para a criação de outro partido, o Partido Comunista Brasileiro, que assumiu a sigla PCB. Segundo Pomar, toda a atividade pretérita dos comunistas se transformou em alvo de zombaria. Era acusada, em todos os aspectos, de ser sectária e dogmática.

A atitude revoltou os comunistas que combateram a linha vitoriosa no V Congresso. Imediatamente enviaram à nova direção um documento denominado Em defesa do Partido, com cem assinaturas – que ficaria conhecido como Carta dos cem –, solicitando a revogação das mudanças anunciadas. O documento classificava as medidas como uma “violação frontal dos princípios partidários, aberta infração das decisões do V Congresso (que) ferem a disciplina e atingem a própria unidade do Partido”.

De acordo com o documento, “as mudanças feitas no nome, no Programa e nos Estatutos objetivam o registro de um novo partido e, por isto, se suprime tudo que possa ser identificado com o Partido Comunista do Brasil, de tão gloriosas tradições”. “Ora, precisamente o partido que deve conquistar a legalidade é o Partido Comunista do Brasil e não um arremedo de partido de vanguarda do proletariado”, asseverava.

Guerra popular

A resposta do Comitê Central foi, como destaca Pomar, de intolerância a toda prova. “Entrou pelo terreno das sanções disciplinares, da acusação de divisionismo, até o ponto de pretender expulsar do movimento comunista honrados lutadores da causa revolucionária do proletariado. Assim, os reformistas consumavam o divisionismo no movimento comunista. Não restava outro recurso aos que se mantinham firmemente nas posições revolucionárias do marxismo-leninismo senão o da convocação de uma Conferência extraordinária do Partido Comunista do Brasil que tratasse, fundamentalmente, da sua reorganização diante das graves consequências da política e dos métodos aplicados pelos revisionistas.”

Após o golpe militar de 1964, o Partido, agora com a sigla PCdoB, começou a estudar o caminho da guerra popular. “Em toda parte, em especial no campo, é preciso discutir os problemas da luta armada e, guardadas as normas de trabalho conspirativo, tomar medidas visando à sua preparação prática”, diz o texto da VI Conferência, de 1966. O PCdoB saiu a campo à procura dos melhores lugares para instalar a guerrilha, com três grupos de trabalho – um dirigido por Amazonas e Grabois, outro por Pedro Pomar e Ângelo Arroyo, e um terceiro por Carlos Danielli.

Amazonas se integraria ao Araguaia, Sul do Pará, onde Grabois e outros militantes do PCdoB desenvolviam o trabalho da guerra popular. Na ocasião, Amazonas e Grabois escreveram dois importantes documentos: A atualidade do pensamento de Lênin e Cinquenta anos de luta, sobre a história do Partido Comunista do Brasil.

Eleições presidenciais

Ele trabalhou a sua sucessão com a dedicação de sempre. Envolveu o coletivo dirigente no processo e fez a transição seguro de que seus métodos como principal liderança do Partido garantiriam a continuidade da marcha revolucionária iniciada em 1922.

Uma de suas principais preocupações, naquele momento, era a tática para as eleições presidenciais de 2002. João Amazonas defendia, desde a campanha de 1989, quando se formou a Frente Brasil Popular (PT, PCdoB e PSB) liderada pelo candidato presidencial Luiz Inácio Lula da Silva, que, nas condições brasileiras, inseridas na conjuntura da América Latina e do mundo, seria muito difícil a esquerda sozinha ganhar eleições presidenciais.

Ficou contente quando soube que Lula, na articulação de sua quarta campanha, procurava ampliar a frente. Disse-lhe pessoalmente, na sede do PCdoB, em São Paulo – a última vez que se encontraram –, que a escolha de José Alencar para seu vice era uma boa decisão. Amazonas não chegou a ver a vitória de Lula nas eleições de 2002 – faleceu, cinco meses antes, de causas naturais, no dia 27 de maio de 2002.

A China e a revolução escondida

Por Osvaldo Bertolino

O fenômeno chinês é, possivelmente, um dos assuntos mais debatidos na atualidade em todo o mundo. No Brasil, é possível afirmar que o assunto está no topo do debate político, econômico e ideológico. Com o advento das novas formas de comunicação, velhos estereótipos foram desmoralizados, sobretudo os que estigmatizam a China como ditadura e fornecedora de força de trabalho abundante a baixos custos, sem contrapartidas, como se essa fosse uma condição do sistema.

Ficou, no debate com esses novos conhecimentos, um vazio de ideias. Fala-se muito sobre a China, mas pouco sobre o essencial, a ideologia que impulsiona o seu desenvolvimento. Compreende-se pouco, pelas manifestações mais conhecidas, o dínamo daquele país, a organização que orienta politicamente a sociedade: o Partido Comunista da China (PCCh). Nele está o projeto chinês, compreendido como antípoda do imperialismo como evolução natural das ideias surgidas com Adam Smith e seus congêneres, à época chamadas de liberais. O socialismo é o processo de superação do capitalismo, não seu mero concorrente

É um anacronismo chamar o atual projeto econômico, político e social do capitalismo de liberal. O termo surgiu como sinônimo de liberdade, num mundo em que a relação entre capital e trabalho era vista como antinomia assimilável pelo princípio da liberdade, tida como universal e perene. Mais recentemente, tentou-se reavivar esse projeto, rebatizado de neoliberal, a nova ordem econômica e política do velho imperialismo.

A história logo provou a cientificidade da crítica da economia política de Karl Marx, a constatação de que a liberdade de Adam Smith não era universal e muito menos perene. A crítica de Marx é lastreada numa síntese do pensamento social desde a antiguidade clássica. Outros marxistas deram novas sistematizações a essa ideia, sobretudo Vladimir Lênin, que elaborou outra grande síntese do pensamento social.

Surge, nesse curso histórico, a concepção leninista de partido de novo tipo, o portador consciente de um processo inconsciente, as contradições manifestadas em luta política pelas categorias da dialética, transformando os trabalhadores de classe em si para classe para si, a consciência social de que o capital é instrumento de dominação, exploração e alienação. O partido leninista concentra essa teoria em suas elaborações programáticas e dá a elas sentido prático, com táticas e estratégias impulsionadas dialeticamente, conforme as realidades concretas.

Não se compreende a China sem esses elementos. Foram eles que levaram à revolução de 1949 e ao desenvolvimento do socialismo, também carregado de antinomias e contradições. As limitações teóricas foram o grande entrave a esse processo – também foram em outras experiências socialistas –, atualmente em processo de superação, mais conhecido como nova luta pelo socialismo, por experientes partidos comunistas, entre eles o Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

É a busca de novas elaborações no cenário mundial de novas realidades, caminhos para a consecução do projeto socialista. O PCCh empreende grande esforço nesse sentido. Suas elaborações permitem compreender melhor a síntese leninista, a causa do sucesso chinês, um bem-sucedido projeto antinômico que transforma capital em investimentos e desenvolvimento, produzindo novas realidades, o caminho do socialismo.

Ou seja: a raiz do fenômeno chinês é o partido leninista, com a revolução de 1949 como seu marco principal. Resta saber se, com esses elementos, é possível dizer que o mundo caminha para a multipolaridade, com o imperialismo cada vez mais feroz na defesa da ordem do capital e a China em marcha acelerada com seu projeto socialista.

Tim, tim, Renato Rabelo! Uma honra contar a sua história na AP e no PCdoB!

Por Osvaldo Bertolino

Pronunciamento no ato de lançamento da biografia Renato Rabelo – vida, ideias e rumos, de minha autoria

Agradeço todas e todos pela presença, aos internautas da TV Grabois, e saúdo a Mesa.

Quero agradecer inicialmente ao Renato, que conheci pelas páginas do jornal Tribuna da Luta Operária nas eleições de 1982 e pessoalmente em 1989, numa atividade do Sindicato dos Metroviários de São Paulo, do qual eu era diretor de imprensa. Conversei muitas vezes com Renato para os nossos veículos de comunicação da Fundação Maurício Grabois e do PCdoB. Para esta biografia, foram em torno de nove horas gravadas, uma descrição ampla de sua vida e do seu pensamento.

Foi o ponto de partida para um mergulho nos arquivos da ditadura militar, fazendo o minucioso trabalho de cruzar as informações com a memória de Renato e de seus contemporâneos. Ao mesmo tempo, o arquivo da Fundação Maurício Grabois, reunido pelo trabalho dedicado do saudoso Augusto Buonicore e do abnegado Fernando Garcia no Centro de Documentação e Memória, o CDM da Fundação, foi um precioso ponto de apoio. É um tesouro do PCdoB.

E assim a pesquisa foi perpassando a trajetória de Renato e constituindo o painel biográfico narrado no livro, com a valiosa ajuda do amigo e camarada Luiz Manfredini, jornalista, militante da AP e do PCdoB, escritor talentoso. Destaco também o trabalho precioso do diagramador Laércio d’Angelo, da revisora Lucília Ruy e das pesquisadoras Vanilda Fatega e Carolina Polli e do Felipe Spadari, também do CDM.

Quero agora agradecer de modo especial a Conchita, que fez com Renato toda essa caminhada, desde os tempos de jovens estudantes em Salvador. Ela foi essencial para a apuração de muitas passagens da biografia. Ela também é, de certa forma, biografada. Merece uma biografia por seu exemplo de vida e de militante comunista. Conchita faz parte da galeria das heroínas do PCdoB, muitas vezes ocultas pelas circunstâncias e pela estrutura opressiva da sociedade, que se estende à subjetividade da memória histórica. Sua ajuda para essa biografia foi inestimável.

Agradeço, também de modo especial, a Mara, irmã do Renato, meu braço direito na Bahia. Foi de uma gentileza e presteza incalculáveis. Por meio dela, pude conversar com os irmãos Antônio e Jorge, que também estão muito presentes na biografia. Faço também uma reverência a Nina e a André, filhos de Renato e Conchita, igualmente pacientes e diligentes quando precisei de suas preciosas informações.

A vertente familiar é um dos esteios da biografia, juntamente com a das organizações às quais ele pertenceu, a AP e o PCdoB, e as conjunturas nacionais e internacionais de cada momento de sua vida.

Também de modo especial, agradeço a Adalberto Monteiro, o mentor desta biografia, à época presidente da Fundação Maurício Grabois. Com ele, agradeço a Walter Sorrentino, atual presidente da Fundação, e por eles agradeço a estrutura de direção da Fundação e do PCdoB, que possibilitaram essa publicação. Agradeço, igualmente, a Luciana Santos, presidenta do PCdoB, que se dedicou a escrever o denso Prefácio do livro. Assim como o presidente Lula e a ex-presidenta Dilma, que gentilmente escreveram apresentações para a biografia.

Esta biografia é resultado também de outras sete anteriores, um acervo da história do PCdoB iniciado com a biografia de Carlos Nicolau Danielli, em 2002, assassinado pela ditadura militar em 1972, uma sugestão de Altamiro Borges, então secretário de Formação do PCdoB de São Paulo. Na biografia de Danielli tem muito de Pedro Pomar e de Renato, pela transição da AP ao PCdoB. Danielli e Pomar foram essenciais para a AP incorporar conceitos marxistas-leninistas, dando origem à Ação Popular Marxista-Leninista, APML.

Como diz Renato, seu ingresso no PCdoB representou um ponto divisor em sua vida, um mundo de compreensão que se abriu. Ele iniciou a sua militância política lá na região onde nasceu, Ubaíra, Bahia, como integrante da Juventude Estudantil Católica (JEC), em plena campanha presidencial de Juscelino Kubitschek, em 1955. Ele chegou à Juventude Universitária Católica (JUC), já em Salvador, como estudante de Medicina da Universidade Federal da Bahia.

E foi eleito presidente da União dos Estudantes da Bahia, a UEB, de onde saiu, na clandestinidade, após um confronto com o ministro das Relações Exteriores da ditadura, Juraci Magalhães, para participar da Operação Trote, que realizou o 28º Congresso da UNE em Belo Horizonte, sob severa perseguição da repressão, quando foi eleito vice-presidente. Os estudantes deram um olé na ditadura com a Operação Trote.

Quero mencionar aqui José Luiz Moreira Guedes, o presidente da UNE eleito naquele Congresso, que deve estar nos assistindo pela TV Grabois, personagem importante na trajetória de Renato, presente em muitos momentos cruciais de sua história.

Naturalmente, surgiu na história a Guerrilha do Araguaia, assunto em debate na AP na fase final da incorporação. Renato, já na Executiva do PCdoB, em 1974 foi cumprir missão partidária na região da Guerrilha, tema de seus estudos sobre a guerra popular desde quando esteve na China num curso político-militar na academia do Exército Popular em Nanquim.

E surgiu, também, a biografia de Maurício Grabois, teórico e construtor do PCdoB desde a década de 1930, comandante militar no Araguaia. Depois vieram biografias de ex-militantes da AP: Aurélio Peres, Vital Nolasco, Antônio Almeida Soares, o Tom, e Péricles de Souza. E outros livros relatando aspectos da história do PCdoB.

À esquerda, Adalberto Monteiro

Surgiu ainda a descoberta do documentário produzido na Tchecoslováquia que destaca o guerrilheiro Osvaldão, do qual tomei conhecimento numa conversa com o filho de Pomar, Eduardo, que também está no documentário, numa conversa para a biografia de seu pai. O documentário resultou no filme dirigido pela Tininha, pelo Vandré Fernandes e outros.

São episódios cruciais dessa fase de Renato, que nominei de Desbravador. Nela está também a sua profícua atividade de dirigente do PCdoB ao lado de João Amazonas, Diógenes Arruda Câmara e Dynéas Aguiar no exílio forçado na França pela Chacina da Lapa, em 1976, e a volta ao Brasil após a anistia de 1979, numa fase de reconstrução do Partido e de sua inserção na luta de massas que levou ao fim da ditadura militar em 1985, à Assembleia Constituinte e à ativa colaboração de Renato para a formação da Frente Brasil Popular, com Lula candidato a presidente da República em 1989.

Renato iniciou ali também a fase que denomino de Ideólogo, com seu pronunciamento no primeiro programa em rede nacional da história do Partido, quando ele apresentou a ideia que iria norteá-lo, o caminho para o ideal socialista. Em seu Informe de Organização no 7º Congresso do Partido, em 1988, ele aprofundou o conceito, que seria decisivo para enfrentar a crise do socialismo iniciada no final da década de 1980.

Renato se destacou nas formulações do histórico 8º Congresso, de 1992, e liderou a elaboração do Programa aprovado na 8ª Conferência, em 1995. Surgiu, nesse processo, suas formulações com base na tese da nova luta pelo socialismo. Ele também esteve presente com destaque nos embates políticos, sobretudo nas eleições presidenciais, com a ideia da frente ampla para isolar e derrotar o projeto da direita.

No auge dessa batalha, ele assumiu a presidência do PCdoB, no X Congresso, em 2002. É quando se inicia a fase que no livro denomino de Construtor. Sua atuação, principalmente nas crises políticas decorrentes das investidas golpistas, foi decisiva para os êxitos dos governos Lula e Dilma, como eles relatam em suas apresentações. Renato também se aproximou do vice-presidente, José Alencar, com quem conversava sistematicamente, desenvolvendo, além de afinidades políticas, amizade pessoal.

Renato se eleva nessa fase, pondo em prática seu acúmulo teórico e sua experiência, com novas formulações, estruturando o PCdoB como relevante força da luta política, também apoiado na trajetória dos comunistas brasileiros desde 1922 e nas experiências revolucionárias internacionais.

Ele esteve presente em diversos países, onde foi recebido com reverência, especialmente China e Vietnã. Também recebeu, no PCdoB, destacadas lideranças comunistas de outros países. No pós-crise das experiências socialistas, enriqueceu a teoria marxista também com ideias debatidas nesses eventos internacionais.

Renato é um exemplo de caráter, de compromisso com os ideais pelos quais dedicou a vida. Em seu percurso, teve perdas pessoais impactantes, como o falecimento precoce da mãe, dona Maria de Brotas, e do irmão, Agnaldo, militante do PCdoB desde a década de 1960.

E a perda de João Amazonas, em 2002, num momento para ele inesperado, quando estava em viagem a Cuba, o que lhe causou grande impacto. Enfim, assim é o Renato, descrito nessas 848 páginas do livro como um homem de carne e osso, sangue e sentimentos, apreciador de vinho, de boa conversa, admirado também como pai, marido, avô do Lorenzo, da Ana Clara e da Sophia, camarada e amigo de todos os que com ele tiveram o privilégio de conviver. Um brinde, Renato! Tim, tim!

Muito obrigado

PCdoB cento e três anos: as lideranças das gerações comunistas

Prólogo do livro Renato Rabelo – vida, ideias e rumos

O sorriso largo não deixava dúvida. João Amazonas estava feliz ao receber uma placa homenageando seus quase sessenta e sete anos de militância comunista, perto de completar quarenta anos como principal dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Pouco antes, estivera na tribuna do X Congresso do Partido, realizado entre 9 e 12 de dezembro de 2001 no Centro de Convenções Riocentro, Rio de Janeiro, para apontar, com voz serena e embargada, Renato Rabelo, então vice-presidente, como seu substituto. A quarta geração de dirigentes estava assumindo o comando do Partido.

Os mais de oitocentos delegados, representando em torno de duzentos mil filiados, além dos convidados e trinta e duas delegações estrangeiras, ouviram, em silêncio absoluto, Amazonas dizer que Renato era um bom camarada, que vinha se destacando no Partido e procurando seguir suas tradições de luta.

Em pé, trajando terno e gravata, com as mãos apoiadas na mesa, Amazonas falou, num breve discurso, que completaria noventa anos de idade em 1º de janeiro de 2002 e não tinha mais condições físicas para ocupar o cargo máximo da direção partidária. Pediu aos seus camaradas dispensa da função. Não havia cargo vitalício no PCdoB, mas não estava pedindo aposentadoria, comunicou. Queria morrer em sua banca de trabalho, continuando a luta pelos ideais que procurou defender durante a vida. Seguiria membro do Comitê Central, agora no simbólico posto de presidente de honra.

Agradeceu pelo apoio que sempre teve “nas fileiras do glorioso e heroico Partido Comunista do Brasil” e virou-se para a esquerda, onde estava sua companheira de jornada, Elza Monnerat. Sentou-se lentamente. Com o gesto, retirou-se simbolicamente do posto que ocupava desde 1962, quando o Partido foi reorganizado. Às suas costas, um painel do Congresso ostentava as imagens de Karl Marx, Friedrich Engels e Vladimir Lênin.

Em cem anos de atividades do Partido Comunista do Brasil, passaram por sua direção, antes de Renato, à frente de gerações de dirigentes, Astrojildo Pereira – que liderou a fundação e os primeiros anos do Partido –, Luiz Carlos Prestes – que assumiu na Conferência da Mantiqueira, de 1943, na reconstrução após a ditadura do Estado Novo – e Amazonas, uma das lideranças da reorganização na Conferência extraordinária de 1962.

Nas duas conferências – de 1943 e de 1962 –, os comunistas recomeçavam praticamente do zero, uma atividade de construção e reconstrução do Partido que Amazonas comparava à mitológica Fênix, a ave da literatura grega que renasce de suas cinzas.

Passagem para Renato Rabelo

Na passagem de comando para Renato, Amazonas destacou o papel dos camaradas da direção coletiva na sua geração, dos quais lembrava com saudades e respeito pela sua combatividade. Citou Maurício Grabois, Pedro Pomar, Lincoln Oest, Carlos Danielli, Ângelo Arroyo, Luís Guilhardini e outros tantos que pagaram alto preço pela coragem de desafiar um regime de traição e brutalidade – a ditadura militar – para defender os interesses do povo.

Com os assassinatos daqueles camaradas, coube a ele maiores responsabilidades. O ingresso de Renato e outros dirigentes da Ação Popular (AP) no Partido, no começo da década de 1970, reforçou a direção. Foram recebidos com entusiasmo. Estavam entrando para o PCdoB em um momento de alto risco, quando a repressão atacava ferozmente os comunistas. A caçada aos que, de uma forma ou de outra, estavam ligados à Guerrilha do Araguaia era uma obsessão da ditadura militar.

Começava ali o trajeto que levaria à quarta geração de dirigentes, reunindo remanescentes da incorporação da Ação Popular e novas lideranças. Quando Renato ingressou no PCdoB, encontrou na direção quadros experientes, marcados por combates que vinham dos anos 1930. Não conheceu Grabois, morto em ação armada na Guerrilha do Araguaia, mas foi recebido por Amazonas, Pedro Pomar e Elza Monnerat, sobreviventes das matanças promovidas pela ditadura e antigos dirigentes comunistas.

Amazonas ingressou no Partido em Belém do Pará, sua terra Natal, onde fora preso em atividades da Aliança Nacional Libertadora (ANL), que organizava o Levante de 1935, assim como Pomar. Elza Monnerat viera do Rio de Janeiro. Ingressara no Partido em 1945. Foram lideranças da reorganização de 1962, quando o Partido enfrentou um surto revisionista e reformista, processo iniciado em 1956 sob o influxo do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS).

Com o golpe de 1964, diante da quase impossibilidade da luta revolucionária nas cidades, foram para o campo organizar a guerra popular, o caminho da luta armada, a resistência à ditadura. Amazonas e Elza sobreviveram à repressão à Guerrilha do Araguaia, no Sul do Pará. Pomar esteve em diferentes regiões do Norte e do Nordeste. Fixou-se no Vale do Ribeira, organizando bases da guerra popular nas montanhas do Sul do estado de São Paulo, e seria morto na Chacina da Lapa, em 16 de dezembro de 1976.

Liderança de João Amazonas

Amazonas assumiu a liderança da terceira geração de dirigentes, em 1962 – ao lado de Maurício Grabois, Pedro Pomar e outros –, com a experiência de membro do Comitê Central desde a Conferência da Mantiqueira, de 1943, assim chamada por ter sido realizada nas proximidades da serra com esse nome, numa casa de taipa, moradia de uma propriedade rural que pertencia a um militante comunista, no meio da mata, em Engenheiro Passos, distrito de Resende, Sul Fluminense, entre 28 e 30 de agosto de 1943. Nela, o Partido foi reconstruído após a feroz perseguição do Estado Novo, instaurado com o golpe de 1937.

Sua militância política começou na “Ala Moça” da União Popular do Pará (UPP), uma frente única organizada para participar das eleições municipais de Belém em 30 de novembro de 1935. O passo seguinte seria o ingresso no Partido Comunista do Brasil, tendo como caminho a ANL, organizadora do Levante de 1935, liderada por Luiz Carlos Prestes. Ingressou também na União dos Proletários.

Quando a ANL surgiu com força no país, Amazonas participou de uma ação ousada ao içar, à noite, uma bandeira da organização nos mastros dos reservatórios de água da Lauro Sodré, local com ampla visibilidade na cidade, com vinte metros de altura. O jornal Folha do Norte de 19 de dezembro de 1935 noticiou o fato notado pelo público desde a manhã do dia anterior. Os participantes do protesto escreveram, segundo a Folha do Norte, com tinta arroxeada, várias inscrições – como Viva Luiz Carlos Prestes, Viva a ANL e Viva o comunismo.

Na repressão que se instalou no país após o Levante, Amazonas foi preso na Cadeia de São José, descrita pela Folha do Norte como “um antigo e inqualificável pardieiro, uma ignomínia”. Um ano depois, a Justiça mandou soltá-lo, quando terminou o estado de guerra. Mergulhou na clandestinidade, mas logo seria preso novamente.

Segundo o inquérito que determinou a sua prisão, nas palavras da Folha do Norte, “João Amazonas agia no preparo de matrizes e boletins subversivos da propaganda moscovita, matrizes que eram entregues a Pedro de Araújo Pomar, detido há dias passados”, encarregado “de mimeografá-los em grande quantidade para os espalhar sorrateiramente pelos bairros da cidade”. Eram “pouquinhos, mas teimosos os adeptos do credo sinistro”.

Foram para a prisão de Umarizal, em Belém, de onde fugiram e, numa longa e penosa viagem, chegaram ao Rio de Janeiro para se juntar aos comunistas que reconstruíam o Partido, ainda na vigência do Estado Novo, liderados por Maurício Grabois. A decisão foi tomada após a informação de que a Alemanha nazista invadira a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 22 de junho de 1941. Fugiram em 5 de agosto. Chegaram ao Rio de Janeiro e se integraram à Comissão Nacional de Organização Provisória (CNOP), criada por Maurício Grabois e outros comunistas para reestruturar o Partido desarticulado pelo Estado Novo.

Amazonas empregou-se como auxiliar de contabilidade, no centro da cidade. Era uma forma de fazer algum recurso enquanto a CNOP pavimentava os caminhos para o início de uma nova jornada. Logo foi para Minas Gerais. Recebeu alguns mil-réis e a passagem de trem que o levaria para as terras onde deveria fazer rebrotar as raízes comunistas. Outro ponto visitado por Amazonas foi a Bahia, de onde partiu o dirigente Diógenes Arruda Câmara para se integrar à CNOP. O objetivo era realizar uma Conferência Nacional e eleger um Comitê Central.

Os comunistas ressurgiam com força, presentes em organizações como a União Nacional dos Estudantes (UNE), a Associação Brasileira de Escritores (ABDE), além da Liga de Defesa Nacional – uma frente com vários departamentos, entre eles o sindical, assumido por Amazonas, embrião do Movimento Unificador dos Trabalhadores (MUT). O Partido priorizava a organização de células nas empresas, formando uma grande base de trabalhadores.

De 1941 a 1945 foram anos de luta aguda contra o liquidacionismo – os que pretendiam liquidar o Partido, dissolvendo-o numa frente contra o nazifascismo –, disse Amazonas. “É preciso dizer que a desvantagem era grande. Vencemos porque a verdade estava do nosso lado”, afirmou. A nova equipe que assumia a defesa do Partido – registrou Amazonas – eram pessoas desconhecidas quase completamente. “Afinal, essa nova equipe – Arruda, Grabois, Pomar, eu etc. – eram pessoas que não tinham nenhuma posição no Partido, na época, a não ser locais, naqueles lugares onde tínhamos atuado.”

Na Conferência da Mantiqueira Amazonas assumiu a Secretaria Sindical e de Massas. A direção eleita contava também com Grabois, Pomar, Arruda, José Medina Filho, Álvaro Ventura, Jorge Herlein, Francisco Campos, Agostinho Dias de Oliveira e Lindolfo Hill.

Naquele processo, o encontro de Amazonas, Pomar, Grabois e Arruda representou as fundações de uma nova fase do Partido Comunista do Brasil. A meta era enterrar a ditadura do Estado Novo e liquidar o nazifascismo. Em 9 de agosto de 1943, o governo do presidente Getúlio Vargas decidiu organizar a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Segundo Amazonas, os comunistas foram os primeiros a reivindicar a participação militar do Brasil na Segunda Guerra Mundial. “E o fizemos de maneira consequente”, constatou.

Os comunistas lideraram grandes manifestações para redemocratizar o país, defendendo uma Assembleia Nacional Constituinte, principalmente após a legalidade, em meados de 1945. Amazonas foi eleito deputado constituinte, o mais votado do Distrito Federal, sediado então no Rio de Janeiro. Depois da cassação do registro do Partido – em 1947 – e dos mandatos comunistas – em 1948 –, voltou à clandestinidade.

No debate deflagrado pelas mudanças do PCUS, Amazonas foi um dos primeiros a se pronunciar. Seu primeiro artigo, intitulado As massas, o indivíduo e a história, publicado no jornal Voz Operária em 26 de janeiro de 1957, contestou duramente a base dos argumentos daqueles que iniciaram os ataques ao Partido Comunista do Brasil, então com a sigla PCB. Disse que eram as massas que faziam a história, mas “não se pode concluir que seja nulo ou insignificante o papel das personalidades”.

Amazonas voltaria a escrever em 2 de fevereiro de 1957 para defender a ideia de que “o Partido Comunista elabora sua orientação e enriquece seus princípios coletivamente”. “Isso dá ao Partido do proletariado uma grande vantagem sobre os partidos burgueses”, asseverou.

Nos debates do V Congresso, em 1960, também inovou ao abordar o desenvolvimento do capitalismo no Brasil pela via prussiana (as análises de Marx e Engels sobre o desenvolvimento capitalista no espaço da Prússia e do que viria a ser a Alemanha sem alterações na propriedade da terra).

Segundo ele, as Teses do Congresso se equivocavam ao definir “que as contradições entre o desenvolvimento do capitalismo e o monopólio da terra são antagônicas”. “O capitalismo, seguindo o caminho prussiano, pode se desenvolver no campo, conservando o latifúndio. Pode também o capitalismo crescer, substituindo a dependência do país ao imperialismo”, escreveu. “Não é o crescimento do capitalismo que leva à independência e às transformações democráticas, como se afirma implicitamente nas Teses.”

Os debates do V Congresso evoluíram para o “racha” e a reorganização. No jornal do Partido A Classe Operária, Pomar fez uma minuciosa análise dos acontecimentos que levaram à reorganização, revelando nuances daquela batalha. Os que assumiram o controle partidário elaboraram um novo Programa e novo Estatuto para a criação de outro partido, o Partido Comunista Brasileiro, que assumiu a sigla PCB. Segundo Pomar, toda a atividade pretérita dos comunistas se transformou em alvo de zombaria. Era acusada, em todos os aspectos, de ser sectária e dogmática.

A atitude revoltou os comunistas que combateram a linha vitoriosa no V Congresso. Imediatamente enviaram à nova direção um documento denominado Em defesa do Partido, com cem assinaturas – que ficaria conhecido como Carta dos cem –, solicitando a revogação das mudanças anunciadas. O documento classificava as medidas como uma “violação frontal dos princípios partidários, aberta infração das decisões do V Congresso (que) ferem a disciplina e atingem a própria unidade do Partido”.

De acordo com o documento, “as mudanças feitas no nome, no Programa e nos Estatutos objetivam o registro de um novo partido e, por isto, se suprime tudo que possa ser identificado com o Partido Comunista do Brasil, de tão gloriosas tradições”. “Ora, precisamente o partido que deve conquistar a legalidade é o Partido Comunista do Brasil e não um arremedo de partido de vanguarda do proletariado”, asseverava.

A resposta do Comitê Central foi, como destaca Pomar, de intolerância a toda prova. “Entrou pelo terreno das sanções disciplinares, da acusação de divisionismo, até o ponto de pretender expulsar do movimento comunista honrados lutadores da causa revolucionária do proletariado. Assim, os reformistas consumavam o divisionismo no movimento comunista. Não restava outro recurso aos que se mantinham firmemente nas posições revolucionárias do marxismo-leninismo senão o da convocação de uma Conferência extraordinária do Partido Comunista do Brasil que tratasse, fundamentalmente, da sua reorganização diante das graves consequências da política e dos métodos aplicados pelos revisionistas.”

Após o golpe militar de 1964, o Partido, agora com a sigla PCdoB, começou a estudar o caminho da guerra popular. “Em toda parte, em especial no campo, é preciso discutir os problemas da luta armada e, guardadas as normas de trabalho conspirativo, tomar medidas visando à sua preparação prática”, diz o texto da VI Conferência, de 1966. O PCdoB saiu a campo à procura dos melhores lugares para instalar a guerrilha, com três grupos de trabalho – um dirigido por Amazonas e Grabois, outro por Pedro Pomar e Ângelo Arroyo, e um terceiro por Carlos Danielli.

Amazonas se integraria ao Araguaia, Sul do Pará, onde Grabois e outros militantes do PCdoB desenvolviam o trabalho da guerra popular. Na ocasião, Amazonas e Grabois escreveram dois importantes documentos: A atualidade do pensamento de Lênin e Cinquenta anos de luta, sobre a história do Partido Comunista do Brasil.

Liderança de Luiz Carlos Prestes

Luiz Carlos Prestes assumiu a liderança da segunda geração de dirigentes comunistas na Conferência da Mantiqueira. Ainda nos cárceres da ditadura do Estado Novo, preso por ter liderado a ANL no Levante de 1935, foi eleito secretário-geral. Seu prestígio decorria da liderança na Coluna Invicta, um movimento nunca derrotado que percorreu o Brasil no final da década de 1920 combatendo os desmandos da República Velha e fermentando as condições para a Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas.

Prestes desembarcou clandestinamente no Brasil em 15 de abril de 1935, vindo da União Soviética, onde estava exilado, para liderar o Levante. O governo Vargas baniu a ANL da legalidade e, após o malogro do movimento rebelde, desencadeou uma violenta onda repressiva.

Prestes foi preso em 5 de março de 1936, depois de uma caçada comandada pelo chefe da polícia política, Filinto Müller, que esquadrinhou o bairro do Méier e revistou casa por casa. Estava com a esposa, a alemã Olga Benário, deportada grávida para a Alemanha nazista onde morreu em uma câmara de gás, na cidade de Bernburg, pouco depois de dar à luz Anita Leocádia Benário Prestes.

Com a reviravolta na Segunda Guerra Mundial, quando os soviéticos começaram a empurrar os nazistas de volta para Berlim, o presidente da República foi para o lado dos Aliados – a aliança de países que combateram o Eixo nazifascista formado por Alemanha, Itália e Japão – e recebeu o reconhecimento dos comunistas. O diplomata Orlando Leite Ribeiro foi designado para ser o elo com Prestes, ainda encarcerado. Em 18 de abril de 1945, Vargas concedeu a anistia aos presos e exilados. Prestes deixou a prisão.

Tempos depois, Prestes avaliaria que o presidente da República precisava dos comunistas, uma força política à época com grande apoio popular. Havia um setor do governo que agia abertamente contra o avanço das medidas democráticas, logo transformado em conspiradores.

Prestes só assumiria de fato a função de secretário-geral no final do “Pleno da Vitória”, como ficou conhecida a primeira reunião legal da direção nacional, depois de vinte e três anos de vida clandestina, realizada entre 7 e 12 de agosto de 1945. O Partido Comunista do Brasil puxava grandes manifestações populares, numa campanha vitoriosa pela convocação da Assembleia Nacional Constituinte.

A eleição dos constituintes ocorreu em 2 de dezembro de 1945, quando também foi eleito o presidente da República. Compareceram às urnas cerca de seis milhões de eleitores. O candidato a presidente do Partido Comunista do Brasil, Yeddo Fiúza, obteve 569.818 votos, 9,7% do total de votantes. O general Eurico Gaspar Dutra, do Partido Social Democrático (PSD), foi eleito com 55% dos votos e Eduardo Gomes, da União Democrática Nacional (UDN), obteve 35%. Os comunistas elegeram catorze deputados federais e Prestes senador.

As perseguições anticomunistas, no entanto, recomeçaram já no início de 1946, quando dois pedidos de cassação do registro eleitoral do Partido Comunista do Brasil foram apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Prestes seguiu na liderança do Partido até 1961, quando assumiu a chefia do Partido Comunista Brasileiro.

Liderança de Astrojildo Pereira

O líder da primeira geração de dirigentes comunistas, Astrojildo Pereira, foi o fundador do Partido. Prestes entrou em contato com os comunistas por seu intermédio. Foi em dezembro de 1927, na Bolívia. Lá estavam os remanescentes da Coluna Invicta. Prestes já era conhecido como o lendário Cavaleiro da Esperança e deixaria seu nome como marca da Coluna, inicialmente chamada de Miguel Costa-Prestes, uma referência ao general que também comandou os revoltosos.

Astrojildo viajou como repórter do jornal A Esquerda, dirigido por Pedro Motta Lima – que comandaria alguns dos jornais do Partido –, levando uma mala carregada de livros de Karl Marx, Friedrich Engels, Vladimir Lênin e outros, publicações da editora L’Humanité, do Partido Comunista Francês – no Brasil, poucas obras marxistas em português haviam sido publicadas –, possivelmente trazidas quando estivera na União Soviética, em 1924, ou recebidas pelo correio naval. O encontro ocorreu em Porto Suarez, ao lado de Corumbá, a cidade brasileira de Mato Grosso do Sul na fronteira boliviana.

Foi recebido por Prestes e dois oficiais na Coluna, vindos possivelmente da cidade boliviana de Santa Cruz de la Sierra, conforme a memória de Astrojildo. Há versões de que os remanescentes da Coluna se instalaram numa localidade chamada La Guaíba. Em Porto Suarez, conversaram por quase dois dias, instalados numa casa simples. O dirigente do Partido Comunista do Brasil transmitiu-lhe o pensamento dos comunistas e as questões que o levaram a procurá-lo.

Segundo Astrojildo, o motivo da conversa era, em suma, o problema político da aliança entre os comunistas e os combatentes da Coluna Prestes, a união do proletariado revolucionário, sob a influência dos comunistas, e as massas populares – especialmente os camponeses – influenciadas pela Coluna e seu comandante.

O PCB estava saindo de um período de clandestinidade, iniciado logo após a sua fundação com a adoção do estado de sítio em julho de 1922, uma resposta do governo Epitácio Pessoa ao movimento tenentista que entrou para a história como a “Revolta dos 18 do Forte de Copacabana”, e extinto em 15 de novembro de 1926, já no governo de Washington Luís.

De janeiro a agosto de 1927, o PCB liderou um ciclo de greves operárias. O jornal A Nação, em cuja redação trabalhavam três ou quatro membros do Comitê Central, segundo Astrojildo, divulgava amplamente as ações dos comunistas. Com a chamada “Lei Celerada”, editada em 12 de agosto de 1927, os comunistas voltaram à ilegalidade e tiveram seu jornal fechado.

Nos meses seguintes, o Comitê Central chegou à conclusão de que a derrota sofrida se devia basicamente às posições sectárias do Partido, relatou Astrojildo. Era preciso buscar aliados. Essa era a missão na Bolívia. A essência da conversa, publicada como entrevista em janeiro de 1928 no jornal A Esquerda, alinhava os pontos principais de um programa de frente única, democrática e nacionalista.

Prestes, contudo, foi para a Argentina, onde trabalhou como engenheiro e participou de atividades políticas. Em 1930, lançou um manifesto apontando o caminho da revolução agrária e anti-imperialista, sob a hegemonia da classe operária. Expulso da Argentina, exilou-se na União Soviética e, em 1º de agosto de 1934, foi oficialmente aceito como membro do Partido Comunista do Brasil. No VII Congresso da Internacional Comunista, em agosto de 1935, passou a integrar o seu Comitê Executivo.

A militância anarquista de Astrojildo começou em 1910, no movimento sindical. Trabalhou como tipógrafo de jornal, linotipista, revisor, repórter e redator. Como um dos líderes das greves de 1918 e redator do jornal Voz do Povo, foi preso e processado. Recebia informações da III Internacional Comunista antes mesmo da fundação do PCB, segundo ele pela “correspondência internacional”.

A revista Movimento Comunista, sob sua direção, começou a circular em 1º de janeiro de 1922 com notícias vindas da União Soviética. Em 1924 viajou para a pátria do socialismo. Tomou o navio na Praça Mauá, Rio de Janeiro, precisamente no dia da morte de Lênin, em 21 de janeiro. Como a partida seria à noite, pôde ler a notícia nos jornais vespertinos. De Moscou, enviou matérias para os jornais O Paiz e Correio da Manhã, relatando aspectos do nascente socialismo e comentando como a imprensa anarquista no Brasil distorcia os propósitos da Revolução.

Ele mesmo egresso do anarquismo, via aquele movimento como superado pelo marxismo, compreensão que o havia levado a organizar as primeiras ações visando à fundação do Partido Comunista do Brasil, um movimento conhecido como “os doze astrojildistas”, nominação recebida de Octávio Brandão, outro importante dirigente do PCB daquela geração. De acordo com Astrojildo, em 1921 já havia “acalorados debates nos sindicatos operários” que resultaram na fundação, em 7 de novembro daquele ano – aniversário da Revolução Russa de 2017 –, de um grupo chamado “Centro Comunista”.

A primeira ideia de criar o Partido Comunista do Brasil, diz Astrojildo, havia sido lançada cerca de três anos antes, mas não estava ainda madura e “gorou no nascedouro”. De 1917 em diante, a influência da Revolução Russa tornou-se decisiva, sobrepondo-se pouco a pouco à hegemonia anarquista. Uma onda de greves iniciada naquele ano ficou marcada por manifestação de apoio aos comunistas russos.

Intelectuais também se manifestaram, entre eles Lima Barreto, que, em 1919, publicou um artigo intitulado Manifesto maximalista, com grande repercussão. Segundo Astrojildo, tudo levava a crer que o escritor, falecido em 1º de novembro de 1922, tomaria posição a favor do Partido.

Naquele clima de debates, houve a cisão no anarquismo e a criação do “Centro Comunista”. Os “doze astrojildistas” entraram em contato com comunistas de outras regiões do país e lançaram a revista mensal Movimento Comunista, importante veículo de ligação e preparação política entre os grupos que elegeram delegados para o Congresso de fundação do Partido Comunista do Brasil.

Depois de seis meses de preparação, nove delegados reuniram-se dias 25 e 26 de março de 1922 no Rio de Janeiro. A reunião final ocorreu dia 27 na pequena sala de visitas da residência de Astrojildo, na Rua Visconde de Rio Branco, número 651, Niterói. Terminados os trabalhos, os delegados levantaram-se e cantaram a Internacional Comunista.

De acordo com Astrojildo, a formação do Partido se deu em pleno fogo da luta de classes e, ao mesmo tempo, sob o fogo de uma dura luta ideológica, reflexo, no Brasil, e segundo as condições brasileiras, da luta ideológica travada no plano mundial pela III Internacional Comunista. Em 1º de maio de 1925, circulou pela primeira vez o lendário jornal do Partido A Classe Operária, do qual Astrojildo era o principal redator.

O jornal surgiu após o ingresso do PCB na Internacional, no seu V Congresso, em 1924. Astrojildo, mesmo ausente, foi eleito para a Comissão de Controle do Comitê Executivo e o PCB passou a ser reconhecido como membro efetivo da organização.

Astrojildo tornou-se um escritor refinado, descrito pelo analista Sylvio Rabello, num texto publicado nos jornais do grupo Diários Associados, como “de uma simplicidade ideal, uma simplicidade que está em boa correspondência com as suas doutrinas e com o curso de sua argumentação, ao mesmo tempo de um virtuosismo do escritor preocupado com a disciplina e o rigor de sua arte”.

Especializou-se na obra de Machado de Assis, com quem esteve pouco antes de sua morte. O encontro foi descrito por Euclides da Cunha em uma homenagem ao escritor no Jornal do Comércio de 30 de setembro de 1908: “Chegou, não disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre, beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-a depois de algum tempo ao peito. Levantou-se e, sem dizer palavra, saiu.” Machado de Assis, disse Astrojildo, foi “o escritor que melhor refletiu em sua obra a vida social e o espírito da sociedade brasileira do seu tempo”.

Astrojildo voltou à União Soviética em 1929, onde permaneceu de março até o final de dezembro. Os acontecimentos no pós-contato com Prestes na Bolívia, segundo ele, “puseram à prova o que havia de tremendamente falso” na concepção da direção do PCB, “que levou o Partido a uma completa e criminosa passividade diante dos acontecimentos de outubro de 1930 (a Revolução liderada por Getúlio Vargas) e às terríveis oscilações da direita para a esquerda e da esquerda para a direita que se seguiram durante meses e anos”.

Naquele ziguezague tático, a direção acusou o Partido de seguir a linha política do “astrojildismo menchevista”. Com a chegada de Prestes, o Partido Comunista do Brasil iniciou nova fase. Astrojildo estava afastado e só voltaria na década de 1940. Sobreviveu do comércio de bananas, numa quitanda do Rio de Janeiro, condição que mereceu de Manuel Bandeira o seguinte poema:

Bananeiras – Astrojildo esbofa-se –
Plantai-a às centenas, às mil:
Musa paradisíaca, a única
Que dá dinheiro neste Brasil.

Em 1945, Astrojildo descreveu o Partido com essas palavras: “O fio d’água desceu minguadinho por entre as pedras, seguiu o seu destino por montes e vales, cresceu de vulto passo a passo, com a afluência de novas águas, engrossando por efeito mesmo das tempestades que sobre ele se formaram, e ei-lo hoje, o grande rio brasileiro, sulco profundo na terra do Brasil, artéria vital no sistema político do nosso país – o Partido Comunista do Brasil.”

Coletivo dirigente

Renato assumiu o comando desse “grande rio brasileiro”, liderando a quarta geração de dirigentes comunistas, no curso natural das águas. Anunciou que o faria ainda mais caudaloso. Os que bebem nessa fonte de interpretações marxistas e progressistas desde 1922 teriam agora uma nova fase de desafios, representados por mudanças de largo espectro nas conjunturas nacional e internacional. “Tentarei dar desenvolvimento ao pensamento político do nosso Partido na nova situação e reunir as inteligências e os meios necessários para enfrentar os novos desafios que nos apresentam. Manteremos a linha revolucionária e flexível que nos possibilitará conquistas ainda maiores”, resumiu.

Amazonas trabalhou a sua sucessão com a dedicação de sempre. Envolveu o coletivo dirigente no processo e fez a transição seguro de que seus métodos como principal liderança do Partido garantiriam a continuidade da marcha revolucionária iniciada em 1922.

Uma de suas principais preocupações, naquele momento, era a tática para as eleições presidenciais de 2002. João Amazonas defendia, desde a campanha de 1989, quando se formou a Frente Brasil Popular (PT, PCdoB e PSB) liderada pelo candidato presidencial Luiz Inácio Lula da Silva, que, nas condições brasileiras, inseridas na conjuntura da América Latina e do mundo, seria muito difícil a esquerda sozinha ganhar eleições presidenciais.

Amazonas ficou contente quando soube que Lula, na articulação de sua quarta campanha, procurava ampliar a frente. Disse-lhe pessoalmente, na sede do PCdoB, em São Paulo – a última vez que se encontraram –, que a escolha de José Alencar para seu vice era uma boa decisão. Amazonas não chegou a ver a vitória de Lula nas eleições de 2002 – faleceu, cinco meses antes, de causas naturais, no dia 27 de maio de 2002.

Dia Internacional da Mulher: símbolo da luta pelo socialismo

Por Osvaldo Bertolino

A histórica batalha pelos direitos da mulher tem uma forte tradição progressista

O Dia Internacional da Mulher, 8 de março, tem um significado de batalhas históricas por justiça, igualdade e direitos. Uma frase de Samora Machel, líder da guerra pela independência de Moçambique, define com precisão o alcance dessa comemoração histórica: “A libertação da mulher é uma necessidade da Revolução, garantia da sua continuidade, condição de seu triunfo.”

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O atraso imposto às mulheres começou a ser rompido, de fato, com as revoluções do século XX. Na Rússia, a Revolução de Outubro de 1917 abalou profundamente velhas convicções machistas e elevou a condição da mulher a um patamar avançado na luta pelos seus direitos. Pode-se dizer que elas foram uma das principais forças na fase decisiva da Revolução. Já no dia 3 de março de 1913, as mulheres lembraram o seu dia com manifestações e protestos. No ano seguinte, a prisão das organizadoras do evento impediu uma nova manifestação.

O início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, encontrou as mulheres socialistas russas dispostas a não permitir que o país fosse destruído por interesses que nada tinham a ver com o povo. Em pleno fogo da guerra, no começo de 1917, elas realizaram mobilizações, no dia 23 de fevereiro — segundo o calendário russo de então, a data correspondia ao dia 8 de março — que deram origem à greve espontânea das tecelãs e costureiras de Petrogrado. As trabalhadoras saíram às ruas para exigir a paz e pedir pão — e declararam-se em greve.

Cinzas da Segunda Guerra Mundial

Começava ali, efetivamente, a chamada Revolução de Fevereiro, que destruiria o império czarista e abriria caminho para a Revolução de Outubro — quando os trabalhadores, liderados por Vladimir Lênin, assumiriam o poder no país. A comissária do povo soviético Alexandra Kollontai escreveu que o dia 23 de fevereiro — 8 de março — de 1917 foi “uma data memorável para a história”. “Nesse dia, as mulheres russas levantaram a tocha da Revolução”, disse ela.

Com o poder soviético, as mulheres descortinaram novos horizontes. A Conferência das mulheres comunistas, realizada em 1921 na cidade de Moscou, oficializou o 8 de março como o Dia Internacional da Mulher. A decisão foi amplamente divulgada pela Terceira Internacional Comunista, mas o combate ao terror nazifascista que cobriu a Europa, prenunciando acontecimentos tenebrosos, fez com que a data deixasse de ser comemorada.

O Dia da Mulher só voltaria a ser lembrado na década de 1960, quando o mundo começava a deixar para trás as cinzas da Segunda Guerra Mundial. Durante todo esse período, no entanto, a emancipação da mulher foi uma bandeira segurada com firmeza pelos socialistas. A base dessa luta são as ideias marxistas. O livro de Friedrich Engels A Origem da família, da propriedade privada e do Estado estabelece uma dimensão realista do peso imposto pelas sociedades baseadas na exploração de classe sobre a mulher. “A opressão do homem pelo homem iniciou- se com a opressão da mulher pelo homem”, escreveu Karl Marx.

Crescente mobilização das mulheres

A teórica marxista Clara Zetkin desenvolveu uma vasta literatura sobre o tema, iniciada nas últimas décadas do século XIX — já nos primeiros anos após a criação da Primeira Internacional. A luta pelos direitos da mulher rapidamente transformou-se em uma das principais bandeiras socialistas. August Bebel, proeminente representante da Primeira Internacional, escreveu o livro A mulher e o socialismo; e Lênin produziu importantes formulações sobre o papel da mulher na nova sociedade almejada pelos socialistas. Toda essa torrente resultou na grande obra A nova mulher e a moral sexual, de Alexandra Kollontai.

Pode-se dizer que a formulação socialista deu impulso a um processo de rebeldia feminina iniciado na segunda metade do século XIX. À época, as mulheres — principalmente nos países onde o capitalismo ganhara predominância, como Inglaterra e Estados Unidos — já lutavam pelo direito de votar. Com a fundação do partido socialista norte-americano, em 1901, as mulheres daquele país criaram a União Socialista das Mulheres a fim de exigir esse direito. Nos anos seguintes, brotaram, nos Estados Unidos, muitos clubes de mulheres que empunhavam essa bandeira.

A crescente mobilização feminina levou o partido socialista norte-americano, por meio do seu Comitê Nacional da Mulher, a organizar, no dia 28 de fevereiro de 1909, em Nova York, o primeiro Dia da Mulher no país. “A realização da revolução das mulheres é um dos meios mais eficazes para a revolução de toda a sociedade”, dizia a convocatória do movimento. Até aquele ano, apenas quatro estados permitiam que elas votassem — o sufrágio universal feminino só chegaria em 1920.

Longa greve nos Estados Unidos

No âmbito da Internacional Socialista — à época a Segunda Internacional —, o debate sobre o voto feminino também era intenso. A 1ª Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, realizada em 1907 na cidade de Stuttgart (Alemanha), com a participação de 58 delegadas representando 14 países, aprovou uma resolução — elaborada por Clara Zetkin, Rosa Luxemburgo e Alexandra Kollontai — segundo a qual os partidos socialistas teriam de encampar a bandeira do voto feminino.

A mobilização das mulheres avançava rapidamente. Nos Estados Unidos, o Dia da Mulher de 1910 — o segundo organizado pelo partido socialista — contou com uma grande participação de trabalhadoras têxteis que acabara de sair de uma greve pelo reconhecimento do sindicato da categoria. A repressão agiu com dureza — além da violência aberta, mais de seiscentas pessoas foram presas. Mas as trabalhadoras estavam determinadas a conquistar o seu objetivo e sustentaram a paralisação de 22 de novembro de 1909 até 15 de fevereiro de 1910.

Ainda em 1910, o partido socialista norte-americano aprovou, em congresso realizado no mês de maio, uma proposta, que seria levada à Segunda Conferência das Mulheres Socialistas — realizada em agosto — instituindo o Dia Internacional da Mulher. “As mulheres socialistas de todas as nações organizarão um Dia das Mulheres específico, cujo primeiro objetivo será promover o direito de voto feminino. É preciso discutir esta proposta, ligando-a à questão mais ampla das mulheres, numa perspectiva socialista”, publicou o jornal A Igualdade, dirigido por Clara Zetkin, na edição do dia 29 de agosto de 1910.

Emancipação dos trabalhadores

A data não foi especificada. Alexandra Kollontai, que dirigia a Secretaria da Mulher Socialista da Internacional, propôs que na Europa o Dia da Mulher fosse lembrado em 19 de março — segundo ela para coincidir com o aniversário de um levante de trabalhadoras na Prússia, em 1848, que conquistou, embora provisoriamente, o direito do voto feminino. Mais tarde, na Conferência das mulheres comunistas realizada em 1921 na cidade de Moscou, houve a unificação em torno do 8 de março — a data da greve em que “as mulheres russas levantaram a tocha da revolução”, como dissera Alexandra Kollontai.

É importante reafirmar essa tradição da luta feminina tem como objetivo intrínseco a emancipação de todos os trabalhadores. Como escreveram Marx e Engels, na família moldada pelos ditames capitalistas o homem é o burguês e a mulher representa o proletariado. Não é possível, portanto, a emancipação dos trabalhadores sem a libertação das mulheres.

Biografia de Renato Rabelo retrata frondosa árvore da notável floresta socialista

Biografia de Renato Rabelo: Frondosa árvore de uma notável floresta

Por Adalberto Monteiro

Quando uma árvore, por seu porte, por suas raízes profundas, por inúmeras floradas e iguais colheitas proporcionadas, por tantas sementes dela germinadas, desponta-se em uma alta floresta, vem de quem a enxerga a indagação de quanto disso e daquilo ela teve de enfrentar e vencer para adquirir aquela presença destacada, valorizada, naquela paisagem por si só rica e diversa.

A biografia de Renato Rabelo, pelo trabalho arguto e meticuloso do historiador e biógrafo Osvaldo Bertolino, dá-nos acesso às páginas da vida deste destacado dirigente do PCdoB e ao mapa de uma longa e realizadora militância revolucionária. O livro é uma realização da Fundação Maurício Grabois, da qual Renato é, hoje, o presidente de honra.

Trata-se de um trabalho de mais de três anos, alicerçado em pesquisas, apoiado em fontes, muitas até então inéditas; além, é claro, de horas e horas de gravação com o biografado. Osvaldo, não fosse historiador, biógrafo, poderia ter sido roteirista de cinema. Por vezes, leitor, leitora, a fluência do texto nos faz ver, enxergar, assistir, sentir fatos vividos por Renato. Riqueza de detalhes, reconstituição de cenários e circunstâncias, mas sempre marcando o significado de cada episódio.

As minúcias são na verdade chaves através das quais somos transportados aos portais do tempo. Quais a senha e a contrassenha que os/as estudantes delegados/as tinham que pronunciar para ter acesso ao clandestino XXVIII Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE)? Quem é o personagem da palavra de ordem entoada pelas passeatas estudantis de meados dos anos 1960: Osso, osso, abaixo o sem-pescoço?

A biografia de Renato flui, pela maestria de Bertolino, carne e unha com a história do Brasil, entrelaçada com as histórias da Ação Popular (AP), da Ação Popular Marxista-Leninista (APML) e do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e, também, do movimento comunista internacional. Vê-se a presença destacada de Renato em batalhas e confrontos decisivos para o Brasil e para o proletariado, a luta pelo socialismo nas últimas seis décadas e um rol de feitos e realizações de sua militância.

O Índice Onomástico da obra evidencia um conjunto numeroso de nomes de quadros e lideranças da AP e do PCdoB, que torna patente o trabalho coletivo que Renato sempre valorizou como método de trabalho; e, também, de personalidades dos campos democrático e popular do país que, por sua vez, refletem a política de alianças amplas do PCdoB da qual Renato é um dos elaboradores e protagonistas na aplicação. Os textos, neste livro, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da ex-presidente Dilma Rousseff bem simbolizam a dimensão destas relações de aliança, bem como a estatura do legado político de Renato.

Um dos méritos da obra de Bertolino, aliás um dos traços também presentes em biografias anteriores, é não circundar nenhuma auréola em torno da cabeça do biografado. Movimenta-se, então, um Renato substantivamente humano, terrestre, como você, ele, ela e eu, que tem família, que se diverte, que se embevece com uma taça de vinho, que se entristece, que tem saúde, que adoece, que trabalha muito, acerta e erra. A vida sempre modesta, por vezes, duramente difícil, de Renato e da família.

Em diferentes circunstâncias, a biografia ressalta duas características dominantes da personalidade de Renato: a empatia e a imensa capacidade de ouvir e de, assertivamente, interagir com a ideias a ele apresentadas, mesmo que delas tenha divergência; e a coragem política, a firmeza de tomar decisões.

Uma essência transborda da biografia de Renato: sua maior obra e legado é ter aportado, ao acervo teórico, político e ideológico do Partido Comunista do Brasil, importantes contribuições teóricas e políticas que enriqueceram o pensamento tático, estratégico e programático da legenda comunista, como também a práxis de sua edificação e atuação na arena da luta de classes. A isso se soma um elenco de quadros comunistas em relação aos quais o papel de Renato foi destacado para formá-los, seja na Escola Nacional João Amazonas, seja na estrutura do Partido, seja nas frentes de atuação, notadamente no movimento estudantil.

E este aporte alinhava o fluxo da biografia, revelando-nos em que circunstâncias, no curso de quais confrontos da luta de classes, no Brasil e no mundo, o legado de Renato foi se erguendo.

E, temporalmente, isso se dá ao longo de mais de sessenta anos de militância. O marco zero deste itinerário é o final dos anos 1950, quando, no interior da Bahia, no último ano do colégio, assumiu a secretaria geral do grêmio estudantil. Segundo Osvaldo Bertolino, Renato “queria conhecer Salvador, ver o Brasil, tomar pulso do mundo”. Sonho que, como se sabe, concretizou-se.

A sua jornada de lutas se inicia no âmbito da juventude católica, orientada pela Teologia da Libertação. E, logo a seguir, nas fileiras revolucionárias da Ação Popular, e, a partir de 1973, após incorporação desta organização à legenda comunista, no núcleo dirigente do PCdoB. Trajetória essa que chega ao ápice no período de dezembro de 2001 a maio de 2015, quando, por indicação de João Amazonas, liderança histórica dos comunistas, Renato é eleito pelo Comitê Central para exercer a presidência do Partido Comunista do Brasil.

Uma vida longa é a um só tempo privilégio e desafio. Desafio, pois que, quaisquer que sejam as vicissitudes, a liderança comunista é chamada a descrever uma linha de coerência. Da primeira página até a última do livro, o que costura o itinerário de lutas de Renato são três palavras: coerência, convicção e compromisso, com ideais do comunismo, com um projeto de nação, de um Brasil democrático, soberano, socialista, que abraçou com ardor e consciência desde a juventude.

A maturação da têmpera revolucionária de Renato, o processo cumulativo de suas qualidades respondendo às responsabilidades cada vez mais elevadas de mandatos oriundos do coletivo, deram-se consoante, sobretudo, à dinâmica da luta política do país, mas também sob os impactos dos conflitos e confrontos que se irromperam na realidade mundial e, é claro, das vicissitudes do movimento comunista brasileiro e internacional com suas vitórias, mas, também, com suas divisões e seus reveses.

O retrato de Renato, pelos traços de sua biografia, revela uma liderança de ação, de combate, de verdadeira gana por intervir nas principais lutas sociais, políticas, ideológicas, travadas no país nas últimas seis décadas. E, ao mesmo tempo, sistematiza e generaliza a prática transformadora, estuda, elabora, a partir do marxismo, formulações que buscam responder aos nexos principais da luta de classes em cada momento histórico, jamais se deixando aprisionar por verdades pétreas.

E sempre que a prática e o curso da história revelam erros ou insuficiências, com base no método leninista da crítica e da autocrítica, abraça ou participa da gênese do novo, que faz a teoria e a prática avançarem.

Para completar, o terceiro traço do retrato se avulta: construtor do Partido Comunista do Brasil, com a seiva da luta política e de massas, com a teoria marxista-leninista a toda carga, com sua essência transformadora iluminando a prática revolucionária.
Finalmente, a biografia de Renato é um acervo vivo e pulsante de ideias e práticas transformadoras, de convicções e de energia revolucionárias que nos convidam, nos convocam, a prosseguir as jornadas de lutas pela construção do socialismo em nosso país.

Adalberto Monteiro é jornalista e poeta, secretário nacional de Formação e Propaganda do PCdoB

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Serviço:

Título: Renato Rabelo – vida, ideias e rumos
Autor: Osvaldo Bertolino
ISBN: 978-65980456-4-7
Publicação: Fundação Maurício Grabois
Ano de publicação: 2025
Páginas: 848

Fonte: www.gradois.org.br

Motivos e fatos da reorganização do PCdoB em 1962

Passados 63 anos da Conferência extraordinária que reorganizou o PCdoB, ocorrida em 18 de fevereiro de 1962, a versão de que o Partido foi “fundado” nessa data já não reina em regime de monopólio, superada pela força dos fatos.

Por Osvaldo Bertolino

Carlos Nicolau Danielli, um dos primeiros dirigentes comunistas a opinar sobre o cisma ocorrido com os impactos do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), escreveu que naquele processo estava em questão a defesa dos princípios do Partido Comunista do Brasil. Segundo ele, os princípios deveriam ser defendidos sob pena de o Partido perder suas características essenciais de um partido revolucionário.

Outros dirigentes comunistas – principalmente João Amazonas – também rejeitaram com ênfase a tese superficial daquela primeira vertente revisionista. Pode-se afirmar com segurança que havia naquele primeiro embate uma manipulação dos fatos com uma finalidade mal escondida – a liquidação do Partido Comunista do Brasil.

Maurício Grabois escreveu, em 1960, durante o debate do V Congresso do PCdoB, que nas discussões de 1956/57 surgiram entre os comunistas ideias antipartidárias. Seus porta-vozes eram basicamente militantes que atuavam na imprensa do Partido.

Grabois conta que ideias reformistas e revisionistas do debate de 1956/57 acabaram se impondo no Partido. Mas no debate do V Congresso elas ganharam uma formulação claramente mais sofisticada.

O antológico texto de Grabois Duas concepções, duas orientações políticas resume a questão. Para ele, a nova orientação traçada pelo Comitê Central em março de 1958, com a Declaração de Março, defendia uma linha “oportunista de direita”. A polêmica evoluiu para o “racha”.

Já no V Congresso, doze dos vinte e cinco membros do Comitê Central – além de vários suplentes – não foram reeleitos. Entre eles estavam Maurício Grabois, João Amazonas e Diógenes Arruda Câmara.

Mais tarde, foram afastados também Pedro Pomar, Danielli e Ângelo Arroyo. E, mais adiante, uma nova leva de dirigentes – Lincoln Oest, José Duarte, Walter Martins e Calil Chade – também seria destituída.

Era a consolidação da direção que defendeu a nova linha política pós-XX Congresso do PCUS. No dia 11 de agosto de 1961, o jornal Novos Rumos publicou um suplemento com o programa e os estatutos do Partido Comunista Brasileiro, de inspiração visivelmente revisionista. A direção eleita no V Congresso pretendia, com os novos documentos e a mudança de nome, obter a legalidade da nova agremiação.

O problema é que esse ato contrariava o artigo 32 dos Estatutos do Partido. “As decisões do Congresso são obrigatórias para todo o Partido e não podem ser revogadas, no todo ou em parte, senão por outro Congresso”, dizia o documento.

Em resposta, os comunistas que combateram a linha política da Declaração de Março organizaram um abaixo-assinado – Carta dos Cem – pedindo à nova direção a revogação das medidas anunciadas. Na Carta, eles disseram que a mudança de nome do Partido era “uma séria concessão às forças reacionárias”.

De fato, quando a repressão lançou os comunistas na ilegalidade, em 1947, o principal pretexto foi o de que o nome deixava claro que o Partido Comunista do Brasil era um instrumento da política externa da União Soviética. “Na realidade, essa alteração tem sentido mais grave – procura-se registrar um novo partido, com programa e estatutos que nada têm a ver com o verdadeiro Partido Comunista”, diz a Carta.

No encerramento do debate do V Congresso, Pedro Pomar escreveu que ele tinha esperanças de que a defesa feita por Luiz Carlos Prestes, então secretário-geral, no único artigo por ele publicado, de uma “justa linha política revolucionária para o Partido”, viesse a se concretizar.

O texto da Carta dos Cem termina com esta conclamação: “Ao adotar essa posição, confiamos que nas fileiras do próprio Partido existam forças suficientes para derrotar as tendências errôneas e encontrar o acertado caminho para resolver as dificuldades que o Partido enfrenta”.

No longo debate interno – iniciado em 1956/57 e encerrado em 1960 – fica facilmente perceptível que os principais fatores que levaram à cisão eram de fato predominantemente internos.

O problema é que no curso do processo do V Congresso solidificou a tendência revisionista, culminando na criação do novo PCB – o que não deixou aos antigos dirigentes alternativas à reorganização do Partido.

Pedro Pomar afirmou que a Conferência de 1962 fora convocada para debater e enfrentar graves problemas do movimento comunista no Brasil, decorrente de um longo processo que culminara na formação de um novo partido.

Outra missão seria a discussão da necessidade de reorganizar “o nosso velho e glorioso Partido e de indicar o caminho da luta capaz de conduzir o proletariado e povo à sua emancipação nacional e social”.

Segundo Pedro Pomar, em comentário no jornal A Classe Operária, não seria possível compreender o significado da Conferência sem estabelecer conexão com os acontecimentos anteriores, sobretudo os dos anos 1950.

Fora um período difícil para país, constatou ele, que exigiu dos comunistas esforços para vencer os obstáculos “que o Partido teve de transpor para cumprir sua missão revolucionária”.

Fora também uma fase rica de ensinamentos, na qual muitos militantes manifestaram grande abnegação, “mas a direção do Partido não teve a capacidade de encontrar o melhor caminho da revolução e deixou que se perdessem magníficas oportunidades para elevar o nível da ação combativa das massas”.

Naquela época já se podia observar certo desalento nas fileiras comunistas e perceber que a linha política claudicava diante dos acontecimentos que se precipitavam, como os de 24 de agosto de 1954 e os de 11 de novembro de 1955, analisou.

O Programa do Partido, aprovado no IV Congresso, na opinião de Pedro Pomar passou a ter uma interpretação sui generis, que não afinava com as diretrizes essenciais nele contidas. “Nessas condições é que nos surpreendeu a ofensiva da reação imperialista e o surto revisonista”, afirmou.

Pedro Pomar constatou que nas fileiras comunistas propagou-se rapidamente uma sensação de frustração, sobretudo nos setores da intelectualidade ligada aos comunistas ou sob a influência do Partido. “Cresceu a confusão ideológica em face das enormes vacilações da direção partidária e da sua impotência para enfrentar os ataques dos revisionistas”, comentou ele.

Pedro Pomar fez uma minuciosa análise dos acontecimentos que levaram à reorganização do Partido Comunista do Brasil, revelando nuances que permitem visualizar as entranhas da batalha desenvolvida no processo do V Congresso.

Segundo ele, o debate no “movimento comunista” começou por iniciativa dos revisionistas e, “embora contivesse aspectos positivos e revelasse o sentimento internacionalista e revolucionário de diversos camaradas, não contribuiu para esclarecer devidamente os problemas controvertidos”.

Ao contrário, gerou mais desorientação, disse ele. “Tudo isso contribuiu para que fosse declinando a influência dos comunistas no movimento operário e democrático. As forças populares, sem liderança efetiva, se tornaram objeto da traficância dos demagogos burgueses e pequeno-burgueses. O movimento de massas ia sendo empolgado, cada vez mais, pelo nacionalismo. As publicações comunistas de massa despareceram e o próprio nome do Partido Comunista do Brasil passou a ser omitido, sendo substituído pela expressão ‘movimento comunista’ ou pela assinatura de um único dirigente”, escreveu.

Toda a atividade pretérita dos comunistas se transformou em alvo de zombaria, disse Pedro Pomar. Era acusada, em todos os aspectos, de ser sectária e dogmática.

“O Programa do Partido foi considerado superado em sua totalidade pelos corifeus do revisionismo, sob a acusação de que não refletia as novas condições do mundo e do Brasil. No que se refere à situação internacional, os revisonistas afirmavam que, na base de uma falsa apreciação, havíamos exagerado o perigo de guerra, que o poderio do socialismo era de tal magnitude que todas as reformas sob o capitalismo favoreciam o socialismo e que, portanto, a ditadura do proletariado e a revolução proletária deixaram de ser indispensáveis.”

O culto à personalidade de Prestes, que segundo Pedro Pomar os comunistas estimularam durante muitos anos, tornou-se um fator primordial para que as ideias revisionistas acabassem se impondo.

“Por ironia, um dos aspectos negativos da atividade do Partido e que os revisionistas diziam combater é que lhes propiciou a arma mais poderosa para empolgar a direção e depois o conjunto do Partido. Justamente graças à adesão de Prestes ao grupo revisionista, em 1957, é que este passou a predominar no Partido.”

Pedro Pomar revelou que os dirigentes do grupo revisionista, de acordo com Prestes na reunião do Comitê Central em agosto de 1957, acusaram quatro integrantes do antigo Presidium de serem os principais responsáveis pelos erros do Partido.

“Embora em conversas privadas confessassem outra coisa, consideraram Prestes como vítima de uma conspiração, como um homem não informado. Os ‘cabeça de turco’ (locução de uso popular que significa teimoso, obstinado, resistente) foram apontados no Partido e alijados de seus postos e aquele que era de fato o maior responsável, não só como decorrência do posto que ocupava, mas, sobretudo, pelo sistema de culto à personalidade, foi inocentado, ou considerado capaz de recuperação”, detalhou.

Apelando para a esperteza e utilizando sofismas, disse Pedro Pomar, os revisionistas continuavam rendendo o mesmo culto à personalidade, acusando, entretanto, os que se mantinham fiéis às tradições revolucionárias do Partido como “saudosistas desejosos da volta do passado”.

“Com esses estribilhos monótonos, aplicavam a torto e a direito o método mandonista por eles tão condenado. Velhos quadros e militantes foram vítimas de uma política discriminatória mais absurda e hipócrita. Empregando tais processos, os revisonistas conseguiram impor no 5º Congresso a linha reformista, apesar da vigilância dos elementos revolucionários e de sua crescente resistência diante do que ocorria no Partido. Tanto assim que os Estatutos então aprovados ainda conservaram, no fundamental, os princípios e as normas leninistas consagrados pelo movimento comunista internacional.”

Era preciso ressaltar a resistência aos revisionistas para se apreciar de modo correto o que aconteceu quando o Comitê Central eleito no V Congresso resolveu alterar o nome do Partido e criar um novo partido, que não se regeria mais pelos princípios do marxismo-leninismo e do internacionalismo proletário, ponderou Pedro Pomar.

“Nessa ocasião, grande número de militantes se dirigiu ao Comitê Central para condenar essa tentativa de formar um novo partido, sob o pretexto de obter seu registro eleitoral. Simultaneamente, esses militantes solicitaram a convocação de um novo Congresso, única instância que podia decidir a questão caso a direção não quisesse voltar atrás de seus propósito liquidacionista.”

A resposta do Comitê Central a essa petição dos que divergiam de sua conduta foi de uma intolerância a toda prova.

“Entrou pelo terreno das sanções disciplinares, da acusação de divisionismo, até o ponto de pretender expulsar do movimento comunista honrados lutadores da causa revolucionária do proletariado. Assim, os reformistas consumavam o divisonismo no movimento comunista. Não restava outro recurso aos que se mantinham firmemente nas posições revolucionárias do marxismo-leninismo senão o da convocação de uma Conferência extraordinária do Partido Comunista do Brasil que tratasse, fundamentalmente, da sua reorganização diante das graves consequências da política e dos métodos aplicados pelos revisionistas.”