A música nas igrejas

Por Osvaldo Bertolino

A genialidade de algumas pessoas não deixa de ser intrigante. Em todas as atividades existem gênios que para os mortais comuns fazem coisas aparentemente inexplicáveis. Talvez seja por isso que a criação de deuses sempre foi uma prática, uma forma simples para explicar coisas complexas. Também nessa seara coisas geniais foram criadas. Uma delas é a diversidade musical. Verdadeiros prodígios se formaram em templos religiosos, em todas as partes do mundo.

O blues e o jazz nasceram no árduo trabalho nas colheitas e portos, e em dias de festas. Os escravos nos Estados Unidos cultivavam suas canções, ritmos e danças tradicionais, enriquecidos com as melodias dos hinos das igrejas protestantes. Eric Hobsbawm, em sua obra História social do jazz, descreve esse rico panorama da música popular do século XX.

O livro fala do jazz como um “hobby e paixão de uma grande legião de entusiastas” e “como parte da vida moderna”. “Se é comovente, é porque homens e mulheres são comoventes: você e eu. Se é um pouco louco e descontrolado, é porque a sociedade em que vivemos também é assim”, escreveu. O jazz é “apenas fruir da música e fazer com que outros também fruam enquanto ela é executada”, analisou.

No Brasil, há também um rico histórico da música nas igrejas. A Congregação Cristã no Brasil, por exemplo, tem o que é considerada maior orquestra do mundo. Em cada templo há um corpo de músicos, que interpreta as músicas sacras com uma harmonia que expressa a incrível criatividade do povo. Todos podem ser músicos na igreja, uma norma que desperta talentos por toda parte, alguns verdadeiros gênios com um instrumento nas mãos. Foi onde aprendi, ainda na primeira infância, os rudimentos da música erudita que me permitem tocar amadoristicamente diversos instrumentos.

Mas a minha interpretação para esse fenômeno não é espiritual. A religião simplesmente deu oportunidade para muitos desenvolver seus talentos. Esse é um dos motivos que me faz ter admiração por essas igrejas. Sem elas, a humanidade não teria essas maravilhas musicais. Pelo menos as que temos atualmente. Como já escrevi, tenho uma relação com a religião como a de Voltaire, contada pelo cronista Humberto de Campos.

Diz ele que o príncipe dos homens sem fé, andando em uma rua de Paris acompanhado de amigos, deparou-se com uma procissão. Ao se aproximar do andor em que se erguia a imagem de Jesus Cristo, o filósofo, com seu sorriso discreto e irônico, levou a mão à cabeça e tirou respeitosamente o chapéu. “Que é isso?”, indagou um amigo, estranhando a atitude daquele ateu confesso. “Virou amigo de Jesus?”, completou. “Não”, respondeu o autor de “Cândido”. “Nós nos cumprimentamos, mas não nos falamos.”

Falo das religiões sérias, não das seitas fundamentalistas e fascistas, a indústria do dízimo. Infelizmente, essas organizações criminosas que emporcalham o mundo cristão são as que mais crescem. E fazem lembrar outra pérola de Humberto de Campos, falando de um imaginário diálogo entre Jesus e Pedro sobre esses parasitas. A história adaptada para o Natal ficou bem apropriada para esses tempos de bestialidade bolsonarista.

Diz ele que a alegria era tão intensa cá embaixo que Jesus, abandonando a cadeira luminosa em que tem assento, à direita do Pai, se encaminhou para a entrada do Paraíso, onde Pedro cochilava pesadamente, com a cabeça encostada ao enorme livro de registro da portaria. “Simão Pedro”, chamou. Despertado subitamente, o antigo barqueiro de Genezaré esfregou os olhos com força, com as costas das mãos, sorriu de ser apanhado em flagrante, e, recompondo a barba alva, e a túnica tão alva como a barba, atendeu: “Pronto, meu Senhor.”

Ainda sonolento, ouviu: “Simão Pedro, eu teria gosto em ir ver, pela terra, o que fazem ali neste meu dia de aniversário. Parece que há grandes alegrias, e eu queria saber se todos, por lá, são felizes. Queres acompanhar-me?” Minutos depois, eram vistas pelas ruas de uma grande cidade, uma ao lado da outra, duas sombras suaves, que marchavam em silêncio, aparecendo e desaparecendo à claridade dos focos elétricos.

À porta de cada casa, mesmo das que se achavam fechadas, e que se abriam à sua simples aproximação, olhavam para dentro, e trocando ligeiras palavras imperceptíveis, continuavam o seu caminho. Aqui, era um palácio, todo enfeitado e festivo, jorrando ouro líquido e sonoro pelas janelas escancaradas; ali, a casa humilde, com a toalha clara, e, sobre a toalha, a consoada frugal dos pobres; adiante, a furna do mendigo sem mesa, sem toalha, sem pão.

Ao fim da rua, Jesus deteve-se, meditativo. “Simão Pedro?”, chamou de novo. “Meu senhor”, respondeu o porteiro do céu. “Achas que eu deveria voltar novamente ao mundo, para humilhar os soberbos e exaltar os humildes?”, indagou. Pedro teve um estremecimento: “Ah, meu Senhor! Não, nunca! Seria pior, muito pior!” Jesus ficou intrigado: “Pior, Simão Pedro?”

E ouviu: “Sim, meu Senhor. Da outra vez, tivestes um discípulo para vos vender e onze para vos salvar; e hoje tereis talvez um para vos salvar e setenta vezes sete os onze para vos vender. Os vermes da terra que corroem a fraternidade e a caridade, muitos se banqueteando em vosso nome, são milhões, talvez bilhões.” E ganharam, tristes, em silêncio, a porta de ouro do Paraíso.

Sobre o abandono dos humanos por Deus há ainda a história atribuída a Anatole France ao elogiar o abade Alfred Loisy, conhecido pelo historicismo que sistematiza nas ciências religiosas o afastamento do sobrenatural. O método põe em questão a história sagrada e suas origens divinas transmitidas pela tradição a partir dos textos sagrados. Loisy dirigiu o famoso Collège de France, substituindo o renomado Ernest Renan. Considerado modernista, acabou excomungado em 1908.

Humilde na sua sabedoria, escreve Humberto de Campos, o eminente sacerdote vivera, sempre, afastado da agitação do mundo, preferindo, em vez da missão de amansar ovelhas humanas, criar frangos de raça em uma pequena propriedade às margens do rio Sena. Cético, o interesse de Anatole France por um membro do clero causava rumores.

Numa homenagem a Loisy, ele falou sobre a sua missão no lugar de Renan: “Para a vaga de um santo, só Deus. E monsenhor Loisy me recorda o primeiro Deus, na sua sabedoria.” Como Deus sobre os homens, monsenhor Loisy velava sobre as galinhas. “Depois, mata-as. Monsenhor Loisy é, mesmo, superior a Deus, pois come as suas vítimas. Deus não tem, sequer, essa desculpa.”

Amélia, mulher comunista de verdade

Por Osvaldo Bertolino

Ninguém fazia a menor ideia de quem era aquele casal andando pelas ruas de Mossoró, Oeste do Rio Grande do Norte. Ele um cego e ela sua guia, uma mulher de barriga volumosa, aparentemente perto de dar à luz. Os disfarces escondiam o professor Raimundo Reginaldo da Rocha e sua filha, Amélia Gomes Reginaldo, de dezoito anos de idade, com a roupa com enchimento de pano, fingindo-se grávida. Fugiam das perseguições desencadeadas em Natal, onde participaram do Levante da Aliança Libertadora Nacional (ANL), deflagrado em 23 de novembro de 1935, de armas nas mãos.

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As ideias marxista-leninistas foram lançadas no Rio Grande do Norte por Raimundo, que iniciou a organização do Partido Comunista do Brasil, então com a sigla PCB, em 1928. Em Mossoró, incentivou os irmãos a entrarem para o Partido, formando o grupo que ficou conhecido como irmãos Reginaldo. Ingressaram, além de Raimundo, Lauro Reginaldo – que ficaria conhecido como Bangu e seria importante personagem nos primeiros anos do Partido em âmbito nacional –, Jonas Reginaldo, Antônio Reginaldo e Glicério Reginaldo.

O Levante teve importante ponto de apoio na União Feminina Brasileira (UFB), à época organizada clandestinamente em várias cidades do país, que chegou a Natal também sob orientação do professor Raimundo, incumbência que teria recebido de representantes da ANL que foram ao Rio Grande do Norte tomar pulso da situação e incentivar a organização aliancista. Núcleos da UFB se espalharam pela cidade, organizados por homens e mulheres comunistas. Na residência de Raimundo, ocorreram as primeiras reuniões, quando foram debatidas as ideias da ANL. Conhecido por Tomé – seu nome clandestino –, ele foi auxiliado pela esposa, Luiza Gomes, e a filha, Amélia, com o nome clandestino de Clotilde.

Em panfleto com o título Convite, o diretório da União Feminina do Brasil, com “seção no Rio Grande do Norte”, convidou as excelentíssimas famílias “a tomarem parte na União Feminina, a única que luta por Pão, Terra e Liberdade”, o lema da Insurreição. Como todos os boletins, o Convite terminou com proclamações de “viva” a Luiz Carlos Prestes, à Aliança Nacional Libertadora, ao 21º Batalhão de Caçadores – o epicentro do Levante – “e ao povo em armas” – além, claro, à União Feminina.

Amélia assumiu a importante função de coordenadora da correspondência com as demais cidades insurretas – Rio de Janeiro e Recife –, falando em nome do Comitê Revolucionário, que havia se instalado na Vila Cincinato, sede do governo. De acordo com a denúncia do procurador criminal da República no Rio Grande do Norte, Carlos Gomes de Freitas, Amélia e outras mulheres invadiram o 21º Batalhão de Caçadores fardadas e portando armas pesadas. Como secretária do Comitê Popular Revolucionário, contribuiu na edição do jornal A Liberdade, o órgão oficial do Levante. Foi a única condenada, das mulheres que participaram do Levante, e recebeu pena de cinco anos de reclusão. Sua prisão foi decretada em 4 de setembro de 1936.

Além de Amélia, Leonila Felix – segundo Graciliano Ramos, no livro Memórias do cárcere, uma mulher branca, nova, bonita –, esposa de Epifânio Guilhermino, motorista de táxi responsável por reunir carros e caminhões para os revoltosos, se destacou por participar do Levante fardada e portando arma.

Raimundo Reginaldo e Amélia dirigiram-se à cidade de Picos, no Piauí. Havia, por parte do governador Rafael Fernandes, uma particular sede de vingança contra ele. Também originário de Mossoró, o governador tentara cooptá-lo, oferecendo-lhe a inclusão do seu nome numa chapa eleitoral pela qual seria eleito deputado estadual. Diante da recusa, foi transferido para lecionar na Casa de Detenção, em Natal, posto que lhe possibilitou a soltura dos presos para ajudar no Levante.

A fuga de Raimundo e Amélia começou antes do amanhecer de 27 de novembro de 1935. Com eles estava um garoto, chamado Eucário, que morava com a família, segundo Amélia em carta enviada ao tio Lauro, o Bangu. Passaram pela casa de um simpatizante do Partido, onde ficaram por certo tempo, ela escondida num quarto e eles no mato. Chegou a informação de que as residências de suspeitos estavam sendo revistadas e Amélia se juntou a Raimundo e Eucário. Alimentavam-se de frutas e do que o menino conseguia comprar.

Três meses depois, voltaram à casa do simpatizante, que comprou roupas e alimentos para que prosseguissem na fuga. Conseguiram tomar um trem com destino a Recife, viajando um distante do outro, até perceberem que estavam sendo observados por policiais. Numa parada, saltaram e se refugiaram num matagal. Decidiram caminhar na direção contrária, rumo a Natal, para despistar a polícia, onde foram recebidos por simpatizantes do Partido.

Raimundo foi trabalhar com um grupo de madeireiros. Comprou uma casa de palha e lá ficou até ser reconhecido. A polícia montou um cerco, mas, percebendo a movimentação estranha, ele fugiu pouco antes do ataque. Passou na casa onde estava Amélia e partiram, com destino a Juazeiro, no Ceará. Foi quando cruzaram Mossoró.

O menino Eucário possivelmente ficou em Natal. Seu destino não consta da carta de Amélia ao tio, mas em seu relato ele deixa de acompanhá-los. Com a polícia no encalço, que prendera e torturara parentes, chegaram a Juazeiro e fixaram residência. Raimundo montou uma “bodega” e Amélia foi morar na casa de um parente em Crato, cidade vizinha a Juazeiro.

A esposa, Luiza, ficara em Mossoró e Reginaldo decidiu visitá-la. Mesmo com toda cautela, a informação chegou à polícia, que divulgou a informação de que ele estaria por lá à frente de um grupo de bandidos, ameaçando assaltar fazendeiros. Mas foi e voltou sem incidente. Logo chegou a informação de que a caçada a eles se estendia por toda a região e decidiram rumar para o Piauí. E por lá ficaram.

Algum tempo depois, Raimundo faleceu de ataque cardíaco. Amélia relata que, quando ele começou a se sentir mal, pediu para ela cantar A Internacional Comunista, o hino de sua paixão, que relembrava suas lutas, seus ideais de redenção do povo brasileiro. “Notando que ele estava muito comovido, eu não quis cantar. Ele insistiu e eu não pude continuar me esquivando. Comecei a cantar. Aí as lágrimas começaram a cair dos seus olhos. Eu parei de cantar e procurei mais uma vez reanimá-lo. Passado algum tempo, ele começou a passar mal. A agonia de que vinha se queixando, voltou forte, violenta”, detalha.

Amélia casou-se – passou a se chamar Amélia Nogueira Feitosa –, teve filhos e não se apartou da sua biblioteca, que começou a montar assim que se estabeleceu no Piauí. Renato Duarte, no livro Picos – os verdes anos cinquenta, diz que Amélia singularizava-se como pessoa simples e recatada, ao mesmo tempo culta. “Leitora ávida de livros e revistas, possuía uma das poucas bibliotecas particulares da cidade”, uma “mulher diferente dos padrões de comportamento feminino de então”.

O hábito da leitura vinha de quando fora líder estudantil na Escola Normal de Mossoró. Recebeu inicialmente o nome de Rosa de Luxemburgo e cresceu em meio às lutas populares. Entre suas leituras, estavam Victor Hugo, Euclides da Cunha, Jorge Amado, Karl Marx e Vladimir Lênin. À frente da União Feminina do Brasil, foi a principal protagonista do Levante. Amélia faleceu em 11 de novembro de 1978, de problemas causados por hipertensão e diabetes.

Adaptado do livro Rio Vermelho – raízes potiguares do Brasil democrático e progressista desde o Levante de 1935