
Apenas dois dias depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter convidado o Vietnã para o Conselho da Paz, o secretário-geral do Partido Comunista, Tô Lâm, aceitou o convite, apesar de algumas preocupações sobre a organização. Segundo comunicado do Ministério das Relações Exteriores do Vietnã, de 18 de janeiro, ele aceitou o convite para se juntar ao Conselho como membro fundador.
Tô Lâm enfatizou a posição do Vietnã de apoiar e estar sempre pronto para contribuir com os esforços comuns da comunidade internacional para resolver conflitos e divergências por meios pacíficos, em conformidade com o direito internacional e a Carta da ONU e respeitando os direitos fundamentais das partes envolvidas.
De acordo com o comunicado, “o Vietnã está pronto para participar, como Estado-membro fundador do Conselho da Paz, trabalhando em conjunto com os Estados Unidos e a comunidade internacional para dar contribuições positivas para uma solução duradoura e abrangente para o processo de paz no Oriente Médio, incluindo o estabelecimento de um Estado palestino que coexista pacificamente com o Estado de Israel”.
No entanto, à medida que mais detalhes foram divulgados, surgiram preocupações sobre este Conselho da Paz, como as relativas aos membros de sua diretoria executiva, incluindo o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, que apoiou a invasão do Iraque em 2003, mas não a da Palestina. Outras preocupações decorrem também da taxa de adesão permanente de um milhão de dólares, para além do papel das Nações Unidas.
Em 16 de janeiro, coincidindo com o dia em que Trump enviou o convite a Tô Lâm, o governo vietnamita concedeu o título de Cidadão honorário de Hanói ao embaixador do Estado da Palestina, Saadi Salama, num gesto que reafirma a amizade tradicional entre os dois países. A atribuição do título é um “reconhecimento respeitoso” de “um diplomata que esteve intimamente ligado ao Vietnã durante mais de quatro décadas, dando muitas contribuições duradouras a Hanói e à amizade Vietnã-Palestina”, afirmou o portal de informação do governo.

O vice-presidente do Comitê Popular de Hanói, Nguyen Manh Quyen (à direita), entrega o título de Cidadão Honorário de Hanói ao embaixador palestino Saadi Salama em 16 de janeiro.
Em sua página no Facebook, no dia 20 de janeiro, Saadi Salama expressou gratidão ao Vietnã, afirmando que o tempo que passou vivendo e trabalhando no país o ajudou a “formar e fortalecer sua base intelectual e pessoal, fundamentada nos nobres valores culturais tradicionais das duas nações irmãs da Palestina e do Vietnã”.
A posição do Vietnã é vista como pragmática, com declarações que apelam a todas as partes envolvidas para que exerçam moderação, cessem fogo, ponham fim à violência e apoiem uma solução de dois Estados. Atualmente, tanto a embaixada de Israel quanto a da Palestina estão presentes em Hanói.
O Vietnã mantém uma relação tradicional com a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), grupo que atualmente detém o poder na Cisjordânia, e não com o grupo armado Hamas. Desde 1968, reconhece a OLP, mais de 10 anos antes da União Soviética, marcando o objetivo comum da OLP e do Partido Comunista de combater o imperialismo norte-americano. Em 1976, a OLP estabeleceu um escritório permanente em Hanói, que mais tarde se tornou embaixada quando o Vietnã reconheceu oficialmente o Estado da Palestina e estabeleceu relações diplomáticas em 1988.
Em 2013, o embaixador palestino Saadi Salama foi citado pela mídia vietnamita dizendo que “o Vietnã continua sendo um símbolo de sua luta”. Alguns especialistas acreditam que, por ser um país pequeno e geograficamente distante, o apoio do Vietnã ao povo palestino é primordialmente moral.
Com Israel, o Vietnã mantém uma relação de cooperação focada em três áreas-chave, que tornam impossível para o Vietnã criticar Israel de forma contundente: inovação, agricultura de alta tecnologia e defesa e segurança. Entre 2017 e 2022, dados do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo indicaram que Israel foi o segundo maior fornecedor de armas para o Vietnã, depois da Rússia.
Apesar de ser um aliado dos Estados Unidos, Israel vende armas letais ao Vietnã desde 2006, incluindo 150 veículos blindados. A isso se seguiram outras armas, como mísseis costeiros Extra e drones Orbiter 2, que foram fornecidos à Marinha vietnamita.
Além de fornecer armas e equipamentos (hardware), Israel é também um dos poucos países que transferiu tecnologia (software) para o Vietnã, permitindo que o país fabrique seus próprios veículos blindados e reduza sua dependência de importações.
Antes de Tô Lâm se tornar secretário-geral, em agosto de 2024, o Vietnã tinha apenas 7 parceiros estratégicos abrangentes. Com a melhoria das relações com o Reino Unido em outubro de 2025, passou a ter 14. Em junho de 2025, o Vietnã tornou-se um país parceiro do BRICS, com o objetivo de contribuir e fortalecer a voz e o papel dos países em desenvolvimento.
Na sessão de abertura do 14º Congresso Nacional do Partido Comunista, em 20 de janeiro, Tô Lâm apresentou o relatório do 13º Comitê Central sobre os documentos submetidos ao 14º Congresso Nacional, afirmando que “promover as relações exteriores e a integração internacional”, juntamente com o fortalecimento da defesa e segurança nacional, “é crucial e contínuo”. Esta é a primeira vez que “assuntos externos e integração internacional” são colocados em pé de igualdade com a defesa e segurança nacional.
As informações são da BBC