Informe de Pedro Pomar: os comunistas e o trabalho de massas

Foto-legenda: Tribuna Popular, janeiro de 1946

Por Osvaldo Bertolino

O palco da Escola Nacional de Música foi  caprichosamente preparado para receber o Pleno Ampliado do Comitê Nacional, realizado entre 4 e 13 de janeiro de 1946. Por trás da mesa onde se sentariam os dirigentes, sob um fundo vermelho, estava um grande e artístico retrato do líder comunista chinês Mao Tse-tung, o presidente de honra do Pleno. Ao lado estava a inscrição, em azul: “Do Partido Comunista do Brasil a Mao Tse-tung, o heroico bolchevique, dirigente máximo do Partido Comunista da China”. Envolvendo toda a face lateral e frontal da mesa dirigente foi disposta uma extensa faixa branca, onde se lia: “Pleno do Comitê Nacional do PCB”. Ao lado da mesa, em uma tribuna pintada de branco, o símbolo comunista, a foice e o martelo, aparecia com destaque.

Às 20h20, quando faltavam dez minutos para a abertura do Pleno, uma noite de sexta-feira chuvosa no Rio de Janeiro, entrou no recinto Lígia Prestes, irmã do secretário-geral do PCB, Luiz Carlos Prestes, recebida de pé pela numerosa plateia com uma prolongada salva de palmas. Minutos depois, subiram à mesa os dirigentes Carlos Marighella — que chamou Prestes, Diógenes Arruda Câmara, João Amazonas, Maurício Grabois, Jorge Herlein, Agostinho Dias de Oliveira, Pedro Pomar e Francisco Gomes, os membros da Comissão Executiva — e Armênio Guedes.

Prestes abriu a reunião, propondo que o Pleno fosse presidido por um grupo integrado por ele e outros dirigentes, entre os quais Pedro Pomar. João Amazonas, em nome da Executiva, falou de improviso sobre os motivos que levaram à sugestão do nome de Mao Tse-tung para presidente de honra do Pleno Ampliado — segundo ele, uma homenagem aos povos e milhões de trabalhadores dos países dependentes e semidependentes, que lutavam pela paz e pela liberdade, pela liquidação dos inimigos do seu progresso e independência nacional.

Ivan Ramos Ribeiro, membro do Comitê Nacional, leu, emocionado, uma homenagem a Olga Benário Prestes e ao então recém-falecido secretário político do Comitê Estadual do PCB em Sergipe, José Anastácio. “Ao realizarmos essa primeira sessão do Pleno Ampliado do Comitê Nacional, não podemos deixar de voltar nossas vistas para dois fatos que afetaram profundamente o nosso Partido. Em primeiro lugar, devemos recordar aqui, com os nossos mais profundos sentimentos, esta figura heroica que é Olga Benário Prestes”, iniciou, sendo interrompido pelos aplausos.

Ele continuou seu discurso dizendo que os proletários, os comunistas, não são sentimentais no sentido vulgar da palavra. Os sentimentos comunistas eram profundos porque pertenciam a um Partido que se construía e se forjava à base das mais sinceras convicções e sentimentos de milhares e milhares de homens e mulheres, cuja força residia na sua vida moral inatacável. Segundo ele, os sofrimentos, para os comunistas, eram novos alicerces para levar avante a luta pelos interesses do proletariado e do povo. O nome de Olga Benário Prestes, disse, como o de Marx, Lênin, José Diaz (líder comunista espanhol assassinado pelo regime fascista de Franco) e tantos outros que serviam de bandeiras de luta para a humanidade, era “um símbolo vivo do internacionalismo proletário”.

José Anastácio — informou Ivan Ramos de Oliveira — estava afastado das suas atividades desde a campanha eleitoral de 1945, acometido de grave enfermidade nos pulmões. Era uma das maiores expressões de lutadores dentro das fileiras comunistas, um legítimo combatente da classe operária, que nunca vacilou, asseverou. Com os pulmões “arrebentados”, quase morrendo, ainda teve forças para mandar a seguinte mensagem para Prestes: “Sei que vou morrer. Diga ao camarada Prestes que morro no meu posto de combate.”

Naquele momento, a plateia se pôs de pé, muitos vertendo lágrimas. “Diante do proletariado e do povo, podemos dizer que jamais esqueceremos esses dois grandes e queridos nomes, os nomes de todos os que tombaram na luta do nosso Partido pelo progresso e a independência da nossa pátria. Eles são dois marcos humanos na nossa história, na história do nosso Partido, do proletariado e do povo brasileiro”, concluiu.

Passava da meia noite, com a chuva ainda intensa, quando Prestes encerrou a leitura do seu Informe Político. A abertura do Pleno terminou com todos de pé, cantando a Internacional Comunista. Os oitenta e um delegados e assistentes do Pleno dedicaram os dias seguintes à discussão do Informe de Prestes.

Pedro Pomar falou no dia 7 e destacou a importância da parte relativa à analise da situação mundial, “depois da liquidação do fascismo e do militarismo imperialista japonês”. Segundo ele, o documento armava o Partido para continuar a luta pela liquidação econômica, moral e política dos remanescentes fascistas no Brasil.

Referindo-se à democracia progressiva, da qual falava o Informe, Pedro Pomar mostrou que a nova concepção de democracia só podia ser dinâmica, como conceituava o texto de Prestes. Isto é: uma democracia em constante desenvolvimento, em constante aperfeiçoamento, em constante adaptação às novas necessidades do povo, afirmou. No que se relacionava ao Brasil, Pedro Pomar destacou que naquelas condições a democracia só poderia ser conquistada por meio da união nacional, “pela qual se tem batido os comunistas nos últimos anos”, que congregasse todas as forças do país.

Pedro Pomar, que seria eleito secretário nacional de Divulgação, leu o seu Informe do Trabalho de Massa no dia 9. Foi um trabalho de fôlego. Com os comunistas na legalidade, seria preciso definir com precisão a relação com as organizações populares, a base da nova tática política do PCB, pontuou o documento em seu início. Desde o “Pleno da Vitória”, de agosto de 1945, registrou o Informe, as forças comunistas demonstraram que estavam mais temperadas e a confiança das massas no Partido crescera. A tática política revelara-se justa porque dera à classe operária consciência de seu papel histórico, com uma significativa representação parlamentar dos comunistas. O desafio era fazer avançar o processo de democratização, que jamais alcançara tão elevado nível, asseverou Pedro Pomar.

O Informe procurou indicar os pontos essenciais da relação do PCB com as organizações sociais diante da nova realidade do país, que, segundo o diagnóstico de Pedro Pomar, estava positivamente perante uma situação que deveria continuar sendo resolvida favoravelmente para as forças da unidade e da democracia. E o meio para alcançar tal objetivo seria a organização do povo, da classe operária, dos camponeses, dos jovens, das mulheres, construindo fortes organizações de massa. Em cada um desses pontos ele teceu comentário e fez indicações para a nova etapa da vida do país e dos comunistas.

Os comunistas deveriam atentar para as perspectivas políticas que indicavam, mais do que nunca, a necessidade de poderosos pontos de apoio popular à atuação parlamentar de todos os deputados “amigos do povo”, comentou. A soberania da Assembleia Nacional Constituinte e a promulgação de uma Constituição progressista para eliminar tudo que fosse lesivo aos interesses nacionais deveriam ser conquistadas pelo povo organizado, com o PCB à frente. Mas era preciso corrigir o espontaneísmo na mobilização das massas, e atentar para as críticas de que os comunistas em geral eram bons agitadores e maus organizadores, constatou.

Segundo Pedro Pomar, a reação zombava daquela debilidade do PCB. Por isso, era dever ter as massas prontas para responder com vigor e entusiasmo a qualquer tentativa dos reacionários contra a democracia, “contra o glorioso Partido Comunista do Brasil”. Menos barulho, menos estrépito e mais contatos com as massas e trabalho de organização, ralhou. Saísse o Partido daquela fase em que olhava mais para si mesmo, daquele período em que havia uma natural vanglória e mesmo jactância de apresentar-se com o nome de comunista. Saísse da tarefa de construção de sua estrutura partidária para a sua verdadeira função, para a sua tarefa primordial, que era organizar o povo. Abandonasse todo sectarismo e soubesse refletir os anseios das massas, formulando e defendendo com consequência seus menores direitos.

Era um trabalho que não deveria ser realizado às cegas, sem uma orientação, sem um objetivo capaz de ser compreendido não somente por todo militante comunista como pelo povo, comentou. Pedro Pomar lembrou Stálin, que advertia para o perigo de se transformar o partido em apêndice do mecanismo eleitoral parlamentar. Atentasse para o largo movimento democrático, a união nacional, que pretendia conjugar os esforços da classe operária, dos camponeses — inclusive de arrendatários —, dos capitalistas, industriais, comerciantes e banqueiros que não estivessem presos a compromissos com o capitalismo estrangeiro reacionário e colonizador. Faltava a compreensão exata de quais aliados deveriam ser ganhos para a união nacional naquela etapa histórica, analisou.

Politicamente eles não estavam à vista, disse Pedro Pomar. Era uma burguesia progressista que não se manifestava como corrente política definida e que, dentro dos partidos burgueses, se misturava com tendências diversas. A polarização dos progressistas só se processaria segundo a pressão das massas. Isso queria dizer que a conduta dos comunistas diante dos aliados não deveria continuar sectária, como fora na luta pela Constituinte. Não continuasse o Partido interpretando a diretiva de ordem e tranquilidade como política de braços cruzados, como passividade. A ordem desejada não era aquela dos cemitérios, nem a ordem fascista, onde se morria de fome sem reclamar, sem protestar, afirmou.

A ordem, segundo Pedro Pomar, para ser assegurada deveria dar ao povo melhores condições de vida, mais liberdade. E liquidar os provocadores da desordem: os quinta-colunistas, os remanescentes do fascismo e do capital colonizador. Havia uma grande incompreensão quanto a esse ponto, disse ele. E enquanto a linha política do Partido não fosse assimilada, dificilmente se transformaria em guia de ação, destacou.

Aqui, segundo Pedro Pomar, apresentava-se uma questão fundamental. Um comunista, por princípio, deveria ser um dirigente de massas. Valia justamente pelo que representava, pelo prestígio de que gozava, pela influência que exercia entre seus companheiros e amigos. Não se concebia um comunista sem atuação destacada perante as massas, sem iniciativa criadora, sem capacidade organizadora, sem sagacidade e sensibilidade, sem firmeza de princípios, sem espírito prático e sem entusiasmo revolucionário.

O Informe de Pedro Pomar abordou a relação das células do PCB com as organizações populares e se deteve no movimento sindical, o setor mais importante do trabalho de massas, segundo ele, que já não era o mesmo de alguns meses passados. Na reunião plenária de agosto de 1945, a direção concitara o Partido para a batalha sindical, com uma ampla orientação de atuação nesse terreno, e colheu os frutos do bom trabalho realizado. Os comunistas foram audazes ao imprimirem um sentimento de unidade a favor da Confederação Geral dos Trabalhadores; o número de sindicalizados subira e importantes eleições sindicais foram ganhas; uniões sindicais e federações foram fundadas em vários estados; a polícia e o Ministério do Trabalho deixaram de vigiar as assembleias sindicais, ponderou.

Como se via, era um panorama que dava energias redobradas para a grandiosa tarefa de organizar os trabalhadores por intermédio de seus sindicatos, segundo o Informe. O quadro internacional ajudava, com a criação da Federação Sindical Mundial (FSM) e da Confederação dos Trabalhadores da América Latina (CTAL), nas quais ingressara o Movimento Unificador dos Trabalhadores, o MUT, sob influência dos comunistas e com João Amazonas à frente. Era uma responsabilidade que recaía sobre os brasileiros, representantes do maior país da região. Deveriam ser o melhor exemplo, afirmou Pedro Pomar.

A política sindical do PCB — prosseguiu Pedro Pomar — para a realização da unidade dos brasileiros estava fundamentada na compreensão de que os problemas daquela hora não seriam resolvidos a não ser na ação comum e à base de entendimentos e cooperação entre as classes interessadas no progresso do Brasil. Do trabalho sindical dependia a vitória da orientação comunista. Contudo, a “ordem e a tranquilidade” permaneciam como condição para a criação de um clima de liberdade, único capaz de derrotar os “restos fascistas”.

Pedro Pomar considerava que chegara o momento propício para dar forma à política do PCB no meio sindical por intermédio de comissões mistas de produção nas fábricas, com o objetivo de resolver todas as reclamações entre operários e patrões. Seriam os dissídios pacíficos para serem decididos na Justiça do Trabalho. Lutassem pela melhora daquele braço do Judiciário, capenga e viciado. Comitês de defesa dos interesses dos trabalhadores também deveriam ser criados para resolver determinados assuntos no próprio local de trabalho, forçando os patrões ao entendimento e a uma atenção maior aos problemas do trabalho, da higiene e dos salários, recomendou.

As comissões mistas foram uma orientação do “Pleno da Vitória”, de agosto de 1945. Uma tarefa para os sindicatos realizarem a fim de solucionar as dificuldades surgidas tanto no que dizia respeito aos salários como a maior eficiência da produção, condicionada à melhoria da alimentação, ao grau de conforto e higiene no trabalho e aos métodos democráticos de tratamento nas fábricas por parte dos capatazes e gerentes, constatou o Informe. Pedro Pomar ressalvou que o PCB defendia o sagrado direito de greve, mas ponderou que ele deveria ser usado como último recurso, depois de esgotados todos os demais meios. Ou quando os patrões se colocassem intransigentemente contra as justas reivindicações dos trabalhadores e, por conseguinte, contra os interesses da união nacional e do progresso do Brasil. Mas tivessem cautela com os insufladores de greves a todo custo para criar ambientes de confusão e violências com a finalidade de justificar medidas antidemocráticas.

Na verdade, o PCB continuava tateando o caminho da democratização, pisando leve a cada passo em um terreno ainda minado pelos remanescentes do nazi-fascismo. Pedro Pomar lembrou que as recomendações do Informe de João Amazonas no “Pleno da Vitória” estavam em plena vigência. Contudo, jamais os comunistas hastearam a bandeira branca ou ensarilharam as armas. “Nunca fomos nem somos contra as greves. Tratava-se, como ainda se trata, de evitar provocações e agitações sem sentido. Mas ficar de braços cruzados diante de salários de fome e de condições de trabalho desumanas nunca foi orientação de nosso Partido”, enfatizou. E enumerou mais uma série de diretivas que deveriam guiar a ação dos comunistas no movimento sindical.

Pediu atenção especial ao campo. Era necessário destacar os melhores e mais hábeis militantes para o trabalho rural — tal a diretiva tomada pelo Comitê Nacional no “Pleno da Vitória”. Organizar e mobilizar os trabalhadores agrícolas das aldeias e das fazendas para a luta política em favor dos seus direitos, para a luta pela garantia, ampliação e consolidação da democracia no Brasil era a tarefa que cumpria realizar sem demora para a formação da união nacional, ponderou. Seria a compreensão do ponto de vista político do PCB que considerava como causa profunda da crise econômica e política do Brasil a contradição entre forças produtivas em crescimento em todo o mundo e os restos feudais que travavam o avanço progressista do país.

Pedro Pomar teceu longos comentários sobre os vinte milhões de brasileiros que não possuíam, na sua enorme maioria, o menor trato de terra. Disse, em resumo, que eles vegetavam na mais dura miséria, plantando unicamente para comer, vivendo nus e doentes. Desconheciam as mais elementares noções de higiene, de conforto e de cultura. Um triste espetáculo de atraso dos meios de trabalho, do analfabetismo, do êxodo de milhares de famílias de suas choupanas para os grandes centros. Só em 1944, mais de cento e quinze mil pessoas abandonaram a zona rural e foram para a capital paulista, lembrou Pedro Pomar. Fugiam do patriarcalismo que dominava as relações entre fazendeiros e trabalhadores, das ameaças permanentes dos grileiros. O senhor de terra mandava na vida e até na alma dos camponeses. Iam para os centros urbanos muitas vezes elevar o número de braços das reservas de força de trabalho.

O trabalho sindical, porém, deveria seguir a linha da união nacional. Para Pedro Pomar, os Comitês Populares eram o grande achado do PCB, a união do povo em cada bairro, fazenda etc. Não elaborassem em erros os comunistas, transformando ou fechando uma dessas organizações para em seu lugar colocar um comitê do Partido, como aconteceu em Bagé, Rio Grande do Sul, comentou. A finalidade era política, não partidária. Lutassem por um Programa formado à base da realidade local; levantassem a luta contra a carestia, contra o integralismo; promovessem campanhas de alfabetização; reclamassem água, limpeza, estrada para o bairro.

Cabia ao Partido, que era a “juventude do mundo”, também organizar os jovens, afirmou. Pedro Pomar fez críticas severas à direção do PCB, que demorou a criar uma secretaria técnica especializada e independente para estudar e fomentar o trabalho dos comunistas entre a juventude. Restava não cair no mesmo erro e fazer com que todo o Partido aprendesse a realizar trabalho entre os jovens. E que não fosse obra apenas de alguns comunistas, mas resultado de uma ação planificada de todos os militantes e células. Não executassem, todavia, planos por cima, idealizados. Não criassem entidades com cabeças e sem corpos, que não representassem a massa.

As debilidades se acentuavam não por falta de capacidade dos comunistas jovens e dos comunistas em geral, mas porque havia sido perdida de vista a importância do movimento juvenil, criticou. Lembrassem que na França o Partido Comunista tinha constatado que grande parte da juventude entre dezesseis e vinte anos estava sob a influência dos elementos mais reacionários. No Brasil, o clero de direita e outros elementos do tipo davam mais atenção aos jovens do que os comunistas. A tarefa do PCB era livrar a juventude da ideologia fascista e reacionária, do ceticismo, da falta de fé nos seus destinos, da miséria, da ignorância, do analfabetismo, disse o Informe.

Na ampla frente de trabalho de massas, que se tornava a cada dia mais volumoso, Pedro Pomar identificou a maior debilidade no trabalho feminino. Era um setor que não recebia atenção especial. Melhor: não recebia atenção alguma, destacou. As organizações femininas e todo o potencial combativo surgido com os primeiros indícios do ascenso democrático praticamente foram por terra.

Prestes havia dito no Informe do “Pleno da Vitória” que as mulheres brasileiras possuíam tradição de luta, lembrou. Demonstraram isso na campanha pela FEB. Em última análise, era a mulher, como dona de casa, mãe e esposa, que sentia as terríveis consequências da crise, enfatizou. Ninguém melhor do que ela para compreender o que havia de justo na linha política de ordem e tranquilidade, de luta para a democracia e contra os “golpes salvadores”, asseverara o Cavaleiro da Esperança. Palavras sábias que os comunistas não souberam aproveitar, segundo Pedro Pomar.

A participação da mulher nas recentes eleições demonstrara que força decisiva ela podia ser no movimento de união nacional, comentou. O eleitorado feminino e as mulheres que participaram da campanha eleitoral, especialmente as comunistas, provaram que o PCB podia liquidar o preconceito que também existia de fato em seu interior, observou. Com efeito, para erradicar essa prática daninha era preciso vê-las não só como cobradoras e especialistas no trabalho de finanças. Para inspirar o trabalho feminino, Pedro Pomar lembrou que fazia pouco tempo realizara-se em Paris o congresso mundial de mulheres, com quarenta milhões delas representadas, que criou a Federação Democrática Internacional de Mulheres.

Enfim, havia chegado a hora, conclamou Pedro Pomar, de coroar o direito que o povo conquistou, as eleições, arregimentando um bom número de votos para os candidatos do PCB. Era essa a tarefa número um dos comunistas que atuavam nas organizações de massa. Para sossegar os ímpetos dos remanescentes fascistas, o PCB precisava dar uma demonstração de força. Caso contrário, corria-se o risco de emergir novamente a ordem política sem nenhum lastro de legitimidade popular. Sem Getúlio Vargas para fazer o papel de algodão entre vidros, os comunistas apostavam todas as suas fichas na Assembleia Nacional Constituinte.

O Informe de Pedro Pomar deixava claro que o Brasil aprendera a duras penas o caminho para superar a cadeia de desmandos que imperava em suas capengas instituições, bem típica da República Velha, quando jagunços davam coberturas a coronéis, que apoiavam as oligarquias nos estados, que davam esteio ao presidente da República. Seguissem os comunistas por aquele rumo. As eleições eram um formidável fator de mobilização e organização política do povo, constatou. Em 15 dias de campanha nas ruas, nas veredas e nos carreadores para a votação de 2 de dezembro de 1945, os comunistas conseguiram que, em média, para cada membro do PCB de cinco a seis brasileiros não partidários votassem em seus candidatos, de acordo com números da Secretaria de Organização.

Pedro Pomar concluiu, com esse dado, que os comunistas possuíam larga simpatia do povo. O PCB podia ser considerado uma força política poderosa. Mas era preciso observar que não haviam conseguido a votação de toda aquela massa que abarrotava os comícios. Trabalhassem os comunistas para transformar o voto de meio de engano em um meio de luta, recomendou. Lembrassem que quase tudo esteve contra o Partido na campanha eleitoral. Mas o sucesso foi reconhecido até pelos inimigos tradicionais do PCB, comentou. Nada poderia esconder o êxito traduzido pelos seiscentos mil votos no candidato a presidente e pela boa votação dos parlamentares. A tática independente dos comunistas também desmascarou e limpou o Partido de oportunistas e traidores — o que Pedro Pomar classificou como o maior êxito da campanha.

Segundo ele, enquanto outras forças políticas mostravam sinais de fadiga, o PCB emergia como referência. O heroísmo admirável dos militantes comunistas, como os fiscais que passaram dias e dias zelando para que a votação não fosse maculada, era uma prova dessa força poderosa que despontava. Admiráveis companheiros, segundo Pedro Pomar, nacionalmente deram mais uma lição de abnegação revolucionária e de amadurecimento político, provando que o PCB era de fato algo novo, educador de homens de mentalidade nova, forjador de homens de têmpera especial, de defensores de uma grande causa, da causa da unidade e da democracia para o Brasil.

Sendo assim, asseverou Pedro Pomar, não poderia terminar sem comentar que o trabalho de massa abrangia também a solidariedade política, o movimento de ajuda e socorro a todas as vítimas da reação, a todos os combatentes da causa mundial da liberdade dos povos, a todas as coletividades oprimidas — como os judeus — e a todos os flagelados de inclemências da natureza ou de endemias e outros males sociais. A ajuda ao povo espanhol em guerra era a primeira grande obrigação, recomendou. O povo português e o paraguaio igualmente mereciam solidariedade democrática e antifascista, disse Pedro Pomar. O mesmo se dava em relação às comunidades estrangeiras, cujos direitos democráticos estavam sendo postergados. Mereciam solidariedade ainda os mutilados, viúvas e órfãos de guerra, bem como os próprios ex-combatentes da FEB.

Para Pedro Pomar, o PCB saíra das eleições com uma visão mais nacional. A direção conheceu melhor a organização e a influência dos comunistas e tomara consciência das necessidades, fraquezas e força do Partido. Com o resultado das eleições, o PCB iniciava outra atividade completamente nova, até então desconhecida para seus militantes. Passaria a trabalhar com um tipo diferente de luta, com uma fração parlamentar, com uma fração comunista na Assembleia Nacional Constituinte. Seria um dos principais centros mobilizadores e organizadores da massa.

Seria o trabalho com o povo que decidiria a vitória da linha política do PCB, da soberania da Assembleia Nacional Constituinte e da promulgação de uma Constituição verdadeiramente democrática, de acordo com a nova situação surgida no mundo e no Brasil, escreveu Pedro Pomar no Informe. A ação justa e consequente dos comunistas, principalmente entre os trabalhadores nos sindicatos, impediria que os reacionários e fascistas se unissem contra os comunistas. Seria o trabalho de massa que permitiria utilizar as contradições entre os inimigos e empurrar para frente os aliados vacilantes da classe operária e solidificar a união nacional, concluiu.

Mulheres heroínas nas biografias do PCdoB

Por Osvaldo Bertolino

Escrevi oito biografias de lideranças do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) – Carlos Nicolau Danielli, Maurício Grabois, Pedro Pomar, Aurélio Peres, Vital Nolasco, Antônio Almeida Soares (Tom), Péricles de Souza e Renato Rabelo. Nelas, adotei como método situar a vida dos biografados nas dimensões pessoais e familiares, nas conjunturas por eles vividas e nas circunstâncias das organizações nas quais atuaram. Em todas, aparecem mulheres como importantes alicerces da história, em geral pouco notadas. No PCdoB, foram elos essenciais, sem os quais as histórias narradas não existiriam ou teriam tomado outros caminhos.

Procurei dar a elas o espaço devido, mostrando como, muitas vezes, seguraram a barra na retaguarda, além de, em alguns casos, militarem na linha de frente. Com as que convivi, criei laços de amizade e camaradagem. Com as que não tive o privilégio de conviver, fiquei com a sensação de que também teriam a mesma atitude.

Marilda Costa Danielli

A primeira delas foi Marilda Costa, esposa de Carlos Nicolau Danielli, com quem convivi, em 2001, por aproximadamente quinze dias, em Niterói, Rio de Janeiro. Mulher de gestos cordiais, memória privilegiada e de convicção sólida, ajudou muito para que na biografia do marido constasse o máximo de informações. Mãe de três filhos – Wladimir, Waldenir e Wladir –, Marilda se viu só, de uma hora para outra, com o brutal assassinato de Danielli no Destacamento de Operações e Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo, em 31 de dezembro de 1972.

Recebi dela, em reconhecimento pela biografia, uma comovente carta me considerando membro da família. Uma grande honra, que comentei em artigo no Portal Vermelho, dia 24 de março de 2006, para homenageá-la quando soube de sua morte, intitulado A perda de uma guerreira: morre Marilda Costa Danielli. Escrevi:

“Os vizinhos gostavam daquela família solidária e unida. Na casa em frente, duas jovens estudantes sempre se socorriam da presteza de Danielli para os trabalhos escolares. Na manhã do dia 27 de dezembro de 1972, ele tomou o café da manhã e fumou um cigarro. Marilda já estava no tanque lavando roupa quando ele se despediu e avisou que possivelmente voltaria dali a um ou dois dias. Não voltou. (…) No dia 5 de janeiro de 1973, uma sexta-feira, ela fazia crochê na sala quando ouviu Sérgio Chapelin (um dos apresentadores do Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão) anunciar com voz grave: “Morto em São Paulo o terrorista Carlos Nicolau Danielli”. (…) Sem parentes, sem conhecidos e com três crianças, Marilda resolveu procurar as vizinhas estudantes. Ao saber da verdadeira história, uma delas se dispôs a levá-la com as crianças para o Rio de Janeiro.”

Marilda foi presa em São Gonçalo, na casa de uma irmã, onde estava com os filhos. Algemada e encapuzada, foi levada para algum lugar no Rio de Janeiro. Dois dias depois, foi encaminhada para o DOI-Codi paulista, onde ficou por dez dias. Ao voltar para a casa da família, no bairro Jabaquara, viu, desolada, que praticamente nada restava. Voltou para o Rio de Janeiro para recomeçar a vida como revendedora de cosméticos. Para as crianças, o pai estava viajando e um dia voltaria.

Alzira da Costa Reis Grabois

A esposa de Maurício Grabois, Alzira da Costa Reis, também atuou intensamente no Partido. No começo da noite de 28 de dezembro de 1972, Danielli deu a ela notícias de Maurício Grabois e de seu filho, André, trazidas pela guerrilheira Criméia Alice Schmidt de Almeida, em um “ponto” na Rua Marselhesa, na Vila Clementino, próximo à Vila Mariana, antes de se dirigir  à Rua Loefgreen, onde foi preso. A operação fazia parte do restabelecimento de contatos entre os dois dirigentes do PCdoB, após o ataque da repressão à Guerrilha do Araguaia em 12 de abril de 1972. Danielli era o secretário de Organização do Partido, responsável pela infraestrutura da Guerrilha.

Alzira militava no Partido antes de conhecer Grabois. O casal teve os filhos Victória e André (também morto no Araguaia). No dia que Maurício Grabois teve o seu mandato de deputado federal cassado, em 1948, ela enfrentou a repressão, que estava pronta para prendê-lo. Ele saiu da Câmara direto para a cama, acometido de mononucleose, doença provocada por vírus que causa dores nas articulações e ínguas pelo pescoço. O estado de saúde do agora ex-líder da bancada do Partido era considerado muito grave pelo médico que o atendeu, José Sarmento Barata.

Mas a situação não impediu que ele fosse levado para a delegacia, detido por policiais que invadiram a sua residência. Na frente dos agentes do delegado José Piccoreli, Alzira telefonou para José Sarmento Barata, que comunicou a eles que o paciente estava proibido de sair de casa. Mas de nada adiantou. Maurício Grabois foi arrastado, de pijama, sem poder andar e escorado por policiais, protestando contra aquela atitude arbitrária.

O vandalismo policial atraiu a vizinhança, que se aglomerou em frente à residência. Alzira, acompanhada dos filhos de quatro e dois anos de idade, fez um discurso contra o autoritarismo do governo do general Eurico Gaspar Dutra. Em seguida, dirigiu-se à Câmara dos Deputados para denunciar a prisão. Lá protestou veementemente e foi recebida pelo deputado Flores da Cunha (UDN-RS), que localizou Maurício Grabois na Delegacia de Segurança Política, levado para prestar “esclarecimentos” sobre o Partido. O parlamentar gaúcho telefonou para o ministro da Justiça e exigiu sua libertação.

Alzira também foi atingida pela repressão. Ela participava da Associação Feminina da Gávea, com forte influência do Partido, e, em uma atividade na favela da Praia do Pinto, foi presa com outras quatro pessoas. Na hora, ela se pôs a protestar, mas o grupo foi levado, fichado e posto à disposição do delegado, que mandou recolher todos ao xadrez, onde passaram a noite. Alzira também seria demitida sumariamente do cargo que ocupava, havia mais de cinco anos, no Serviço Florestal do Ministério da Agricultura.

Pouco depois, a polícia voltou à residência de Maurício Grabois, onde também estava o ex-senador do Partido, Luiz Carlos Prestes. Percebendo a aproximação da repressão, os dois pularam o muro dos fundos e fugiram. Quando a polícia entrou na casa, encontrou Alzira revoltada, segurando André, chorando, no colo. Maurício Grabois e Prestes foram parar no Hotel Glória, no apartamento do ex-deputado e governador da Bahia Octávio Mangabeira que, por telefone, exigiu do presidente da República o fim da perseguição policial aos ex-parlamentares comunistas.

Alzira participou da Federação de Mulheres do Brasil, foi advogada trabalhista e dirigente do Partido no estado do Rio de Janeiro. No desdobramento da crise do movimento comunistas na segunda metade da década de 1950, quando grupos revisionistas tentaram liquidar o Partido, Alzira foi “expulsa” do Parido Comunista Brasileiro (PCB), criado por eles em 1961. O jornal Novos Rumos publicou a seguinte nota: “Os comunistas de Niterói, capital do Estado do Rio, comunicam aos trabalhadores e ao povo que Lincoln Cordeiro Oest (que também seria morto na operação que assassinou Danielli) e Alzira Reis Grabois não mais pertencem às fileiras do movimento comunista, das quais foram expulsos em virtude de suas atividades fracionistas e contrárias aos interesses da classe operária e do povo.”

Catharina Patrocínia Torres Pomar

Pedro Pomar igualmente teve na esposa, Catharina Patrocínia Torres, também militante do Partido desde antes de se conhecerem, um apoio decisivo. O casal teve os filhos Wladimir, Eduardo, Jonas e Carlos Alberto. Ainda no Pará, quando o marido e outros dirigentes locais do Partido foram presos ela encaminhava cartas para serem distribuídas pelo país afora denunciando os abusos da repressão.

Era uma mulher de reconhecida coragem. Quando o presidente Getúlio Vargas visitou Belém, ela entregou-lhe um documento de protesto. A ousadia custou-lhe uma queda do bonde, quando estava nos últimos meses da gravidez do segundo filho, Eduardo. Catharina foi também um elo importante no estabelecimento de contatos entre Grabois – que estava reorganizando o Partido no Rio de Janeiro, após a repressão do Estado Novo – e Pomar e Amazonas. “Já conhecia a Catharina (…) antes mesmo de eles se casarem, pessoa também muito amiga, muito estimada”, disse Amazonas ao jornal Tribuna da Luta Operária.

Na fuga da prisão, liderada, entre outros, por Pomar e Amazonas, Catharina foi um elo fundamental. Ela se encarregou de falar com o médico Raimundo Silas de Andrade, amigo dos comunistas, que seria outro ponto-chave do plano. Faria uma receita para adormecer os guardas. Catharina providenciou carteiras de trabalho com nomes falsos para todos e comprou duas passagens para Marabá, uma para Monte Alegre, duas para São Benedito, em Faro, no Baixo Amazonas. Cada um sabia o destino a tomar depois da fuga. Pomar e Amazonas foram para o Rio de Janeiro. A data da fuga coincidiu com a partida dos barcos – 5 de agosto de 1941.

O escritor comunista Dalcídio Jurandir conta que, em meados de setembro de 1945, quando se dirigia ao Paraná para representar a direção nacional na instalação do Comitê Estadual, passou por São Paulo e foi recebido por dirigentes locais, entre eles Jorge Amado. “Uma grande amiga corre para abraçar-me. É Catharina Pomar. Que alegria na sua voz e a recordo, no Pará, quando a via carregando papéis ilegais, quando foi jogada no chão pelo policial, quando levava horas e horas no Umarizal (onde estavam presos Pomar, Amazonas e outros) à espera de que os policiais lhe trouxessem o companheiro”, disse.

Pomar era amigo dos  escritores Jorge Amado e Zélia Gattai e lhes disse que gostaria que Catharina e as crianças fossem passar uma temporada no sítio do casal, entre São João de Meriti e Caxias. “Catharina está precisando descansar, os meninos andam pálidos… Vão te fazer companhia”, teria dito ele, segundo Zélia em seu livro Um chapéu para viagem. Ela conta que a família de Pomar era unida. O amor reinava entre marido e mulher, pais e filhos. Zélia Gattai diz que concordou com satisfação. Gostava de Catharina e sua presença seria bem-vinda.

Durante três ou quatro semanas que passou no sítio, a “sofrida” mulher de Pomar contou-lhe sua vida. Os momentos de amor, as horas terríveis que vivera, como esposa de um dirigente comunista perseguido, preso várias vezes, condenado. Desde que haviam se casado, somente após a anistia aos presos políticos conseguiram viver juntos, em uma vida estável, em paz.

Uma das distrações de Catharina era conversar com o papagaio do sítio. Segundo Zélia Gattai, nem sempre ela entendia o que o louro dizia. Certa vez, achou que ouvira pirarucu. Mas a conversa nada tinha a ver com peixe. Tratava-se de uma frase indecente, grosseira. Recordações dos tempos em que o papagaio convivia com mulheres da vida e boêmios. Diante da gargalhada de Zélia Gattai, Catharina prestou mais atenção e entendeu: ofendeu-se até o fundo da alma. “Vai você, seu louro vagabundo!”, teria respondido. Foi a última vez que Catharina se dirigiu ao papagaio. Cortou relações com ele, conta Zélia Gattai.

Antes da Chacina da Lapa, em 16 de dezembro de 1976, quando Pomar foi assassinado pela repressão, ele estava de viagem marcada para o exterior, em missão do Partido. Mas Catharina foi diagnosticada com aneurisma cerebral e precisava passar por uma delicada cirurgia. Pomar trocou a viagem com Amazonas. Catharina faleceu em 1984, em decorrência do agravamento do aneurisma.

Maria da Conceição Peres

Maria da Conceição, esposa de Aurélio Peres, iniciou a militância política no trabalho de formação de lideranças populares nos bairros mais afastados da zona Sul paulistana, uma iniciativa da ala progressista da Igreja Católica. O casal teve os filhos Leni e Marco Aurélio. O trabalho começou em 1970 e evoluiu para os clubes de mães e o Movimento do Custo de Vida, mais tarde transformado em Movimento Contra a Carestia, sob a liderança de Aurélio Peres.

Quando ele foi preso em sua residência por agentes do DOI-Codi, em 1974, Conceição foi para a rua e gritou denunciando o ocorrido e saiu a procura de ajuda de advogados ligados ao movimento de resistência organizado pelo cardeal dom Paulo Evaristo Arns. Foi uma heroína, nas palavras de Aurélio. Ao relatar esses fatos, Aurélio fez esforço para segurar as lágrimas, que insistiam em avermelhar seus olhos. Os músculos da face crisparam e o olhar se perdeu no infinito. Ao seu lado, Conceição mexia as mãos, com olhos marejados, revelando a mesma angústia e impotência de quando o marido foi arrancado de casa por agentes da repressão.

Maria Ester Nolasco

Maria Ester também já era militante política quando conheceu Vital Nolasco. O casal teve os filhos Patrícia, Daniel e Iara. Ester foi comerciária e ingressou numa empresa metalúrgica, como operária, seguindo a diretriz da Ação Popular (AP), a organização a qual pertenciam, de integração à produção. Vital diz que faziam os chamados comícios relâmpagos: subiam em um banquinho num lugar de concentração popular, como o Largo Treze de Maio, em Santo Amaro, São Paulo, e metiam o pau na ditadura e na carestia. Falavam rápido e sumiam. Ester, como é chamada, só soube o nome completo de Vital no dia do casamento civil. Até então, era somente Vicente (nome clandestino) ou Vital, conforme a ocasião.

Quando ele estava preso no DOI-Codi paulista, recebeu a visita da mãe, Diva Zanandreis Nolasco, e soube que Ester e a filha, Patrícia, estavam com seus familiares em Belo Horizonte. Para que ela não visse as marcas da tortura, os agentes da ditadura montaram uma farsa: providenciaram uma camisa de mangas compridas.

Para não ficar exposta à repressão, Ester pegou a filha, passou a mão nas coisas que pôde levar e se mandou para a casa de um padre amigo da família. Dali, foram levadas para um convento de freiras. A Patrícia tinha um ano e pouco e foi para uma creche. Depois de certo tempo, arrumaram um esquema para dona Diva pegá-las e levá-las para Belo Horizonte. Foram no mesmo ônibus, mas não se falaram por razões de segurança.

Assim que saiu da prisão, Vital foi reencontrá-las em Belo Horizonte. Quando nasceu o filho, homenagearam Danielli, de quem Vital ouviu falar muito na prisão por sua postura de enfrentar os torturadores, com o nome de Daniel. Vital voltou a trabalhar como operário e Ester ficou em casa para cuidar dos filhos e se reaproximou do Movimento do Custo de Vida. Ester continua na militância do PCdoB.

Anna Martins

Anna Martins também era militante da AP quando conheceu Antônio Almeida Soares, o Tom. Tiveram os filhos Juliana e Pedro. Foi operária e o casal se integrou à produção como camponeses em Livramento de Nossa Senhora, Bahia, logo após o casamento. De volta a São Paulo, trabalhou como operária e liderou lutas sociais históricas nas periferias paulistanas. Ela e Tom foram essenciais para a reestruturação do PCdoB, na luta contra a ditadura militar, na organização e formação dos comunistas.

Filha de agricultores, se integrou à Juventude Operária Católica (JOC), uma das vertentes que criaram a AP. Como estudante, participou também da Juventude Estudantil Católica (JEC). Na década de 1970, integrou-se aos movimentos comunitários e participou dos clubes de mães e do Movimento Contra a Carestia. Foi diretora da Confederação Nacional de Associações de Moradores (Conam) e presidente da Federação Estadual das Associações Comunitárias de São Paulo. Pelo PCdoB, cumpriu três mandatos de vereadora em São Paulo e elegeu-se deputada estadual.

Carmilce Miriam Carneiro de Souza

Carmilce Míriam Brito Carneiro e Péricles de Souza se conheceram na militância estudantil. Algum tempo após o golpe militar de 1964, já militantes da AP, foram se integrar à produção na região do Bico do Papagaio – confluência dos estados do Pará, Maranhão e Norte de Goiás (atualmente pertencente ao estado de Tocantins) – e fixaram residência no município maranhense de Imperatriz. Carmilce assumiu o nome de Clea, atuando como professora num projeto de alfabetização de adultos e crianças.

No processo de incorporação da AP ao PCdoB, o casal se estabeleceu em São Paulo. Carmilce se integrou à equipe de “serviços” – os bastidores do trabalho organizativo – da direção nacional. Era também responsável pelo trânsito da produção e distribuição do jornal da AP, Libertação. Cumpria a ela levar os pacotes do jornal impresso a um ponto, onde era recolhido pelo sistema de organização para a distribuição.

Nesse sistema, Carmilce também se tornou um elo importante com os militantes que chegavam em São Paulo, fazendo o controle dos “pontos” de rua e da rede que garantia a segurança da organização. Os contatos não eram estabelecidos diretamente. Havia um sistema de senhas e símbolos, como a cor da camisa, o tipo de jornal ou revista embaixo do braço, o gesto de tomar café numa padaria e assim por diante.

Após a anistia, com a família de volta a Salvador, Carmilce foi trabalhar na Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia (Coelba), como instrutora de ensino. Antes, trabalhou como auxiliar administrativa na rede de supermercados Paes Mendonça, de 1º de dezembro de 1979 a 9 de agosto de 1980, e passou dois meses na Secretaria de Educação do estado. Na Coelba, fez parte do sistema de direção do Sindicato dos Eletricitários. Se aposentou no começo dos anos 2000 e continuou participando da Associação dos Aposentados da empresa e de atividades sindicais da categoria.

Conceição Leiro Vilan (Conchita)

Conceição Leiro Vilan, a Conchita, e Renato Rabelo também se conheceram no movimento estudantil. Juntos, enfrentaram a investida da ditadura militar e foram, clandestinos, para Belo Horizonte, em 1966, organizar o 28º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), no qual Renato foi eleito vice-presidente. Casaram-se em 1967 e foram morar no Rio de Janeiro. Tiveram os filhos André e Nina. Ela também se integrou ao “serviço” da AP após uma dura experiência de integração à produção na região de Formoso e Trombas, em Goiás.

No episódio da Chacina da Lapa, em 1976, quando Renato estava fora do país e não pôde retornar, Conchita se viu só, com duas crianças. A família havia se estabelecido em Belém, Pará, numa operação montada pelo Partido para que Renato tentasse contato com eventuais sobreviventes da Guerrilha do Araguaia. A residência era precária, vizinha a um local em que porcos eram criados ao ar livre. Não raro apareciam ratos em profusão nos arreadores. Poucos dias após a mudança para Belém, de coração partido – diria Renato mais tarde – ele deixou a esposa com as crianças e os ratos para participar de reuniões da direção do Partido, em 1976, e viajar ao exterior.

Conchita tomou conhecimento da Chacina da Lapa andando pelo centro de Belém. Avistou, numa banca de jornais e revistas, as manchetes sobre o caso. Na busca por notícias de Renato, soube que ele estava na França. Com ajuda de familiares e de entidades solidárias aos perseguidos políticos conseguiu se juntar ao marido em Paris. As crianças foram em seguida. Lá, enfrentou também a dura situação da prisão de Renato, acusado de portar documentos falsos. Ficaram no exílio até a anistia, em 1979.

Assim como Renato e outros militantes da resistência democrática, Conchita continuou vigiada pela ditadura. Nos arquivos da repressão consta que em 1982 ela esteve entre as pessoas que contribuíram para o “agravamento do processo subversivo e contestatório ao regime vigente”. Os espiões relataram sua participação em uma reunião de mulheres, em 1984, num curso de “capacitação política” organizado pelo PCdoB em Campos do Jordão, São Paulo, e a citação do seu nome em uma reportagem intitulada Desempregados invadem prefeitura de Embu, onde ela trabalhava. Cita também sua participação em diversas atividades do PCdoB.

Em 4 de abril de 2014, Renato participou da sessão da Comissão de Anistia que anistiou filhos de presos políticos durante a ditadura militar, na Câmara Municipal de São Paulo. Entre eles estavam os filhos e Conchita, homenageada “pela destacada atuação na luta em prol da democracia e contra a opressão promovida pelo golpe de 1º de abril de 1964”, conforme descreve um certificado assinado pelo presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão.

Edíria Carneiro Amazonas

Na França, Conchita fez amizade com Edíria Carneiro, esposa de João Amazonas, sempre visitada por ela. A amizade se fortaleceu quando Conchita se aposentou como assistente social da prefeitura de São Paulo e passou a visitá-la semanalmente. “Nos tornamos muito amigas. Ela ficava numa alegria grande quando eu chegava. A gente papeava a tarde inteira. Ela servia Chá e a conversa continuava”, lembra Conchita.

A biografia de Amazonas foi escrita por Augusto Buoinicore, mas fiz uma bela amizade com Edíria na busca de informações para escrever as biografias de Danielli, Grabois e Pomar. Na biografia de Pomar, escrevi:

“Foi uma paciente consultora quando minhas limitações eram desafiadas pela história. Conheci essa figura generosa e simpática na manhã fria e ensolarada de 5 de agosto de 2002, quando preparava a biografia de Carlos Danielli. Desde então, tornou-se, além de consultora, uma amiga carinhosa. As conversas com ela eram sempre agradáveis, permeadas por suas tiradas de humor e olhares no espaço, buscando recordações que em seus olhos apareciam como doces lembranças.

Ela se foi sem cumprir uma promessa que me fez quando iniciei a redação final deste livro. Em uma agradável noite de verão, dona Ediria me recebeu em sua casa para trocarmos ideias sobre alguns detalhes que surgiram no curso das pesquisas. Conversamos longamente. Sempre revelava algo novo em nossos contatos. Falou da admiração de Catharina por Pedro Pomar, comentou alguns episódios em que o aqui biografado agiu com exagerado rigor moral e falou da generosa cordialidade do casal.

Deixei com ela cópias da revista Seiva (ligada ao Partido, na Bahia), na qual trabalhou como ilustradora nos anos 1940, gentilmente cedidas por João Falcão, seu diretor, com quem estive em sua residência na cidade de Salvador. Fiquei imaginando como reagiria ao ver seus trabalhos muitos anos depois. Pedi para ela ler os originais deste livro, como fez com as duas primeiras biografias que escrevi (de Danielli e de Grabois). Aceitou de pronto e com indisfarçável satisfação.

Seus olhinhos vivos, seu sorriso discreto quase permanente, sua voz pausada e suas ideias compunham uma doce criatura. Estive com ela pela última vez em 25 de agosto de 2011, no lançamento da sua exposição – era uma refinada artista plástica – no Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo.

Pouco mais de dois meses depois, recebi a notícia de que estava internada. Travou uma dura batalha pela vida, foi vencida e faleceu na noite de Natal de 2011. Perdi uma colaboradora e, mais que tudo, uma amiga que me cativou profundamente. O Brasil perdeu uma lutadora, uma socialista de raro brilho intelectual e artístico. Este livro ficou menos completo sem as suas preciosas observações.”

Tenho de todas elas as melhores recordações e os mais elevados sentimentos, assim como de irmãs, filhas ou mulheres de outros graus de parentesco dos biografados. As que convivi foram de um carinho imenso. Com as que continuo me comunicando, sempre me emociono com suas mensagens transbordantes de generosidade, graça e delicadeza. E, acima de tudo, o reconhecimento pelo esforço para retratá-las nas biografias, método que adoto para dar visibilidade a essas personagens invisibilizadas pelas durezas da vida e, sobretudo, pela estrutura social que esconde essas maravilhosas mulheres heroínas. Um beijo carinhoso em cada uma delas.