Todos os golpes se parecem, inclusive o de Bolsonaro e o da mídia

Por Osvaldo Bertolino

O nazifascismo entra na sociedade ou ele nasce na sociedade? Eis uma questão definidora para o entendimento dos processos sociais que se radicalizam. A resposta mais fácil, aparentemente óbvia, é de que organizações extremistas estão sempre à espreita para se infiltrar em uma determinada situação e impor seus ditames, como se elas tivessem um programa específico e uma espécie de manual a ser aplicado. No caso das hordas de Jair Bolsonaro, é possível ver essa avaliação em muitos lugares. Os fatos demonstram o contrário.

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Seus métodos são comparados aos do golpe militar de 1964 e dos integralistas, a facção de extrema-direita que dividiu com os comunistas as iniciativas radicalizadas da década de 1930, quando houve o levante da Aliança Nacional Libertadora (ANL) em 1935 e o ataque ao governo de Getúlio Vargas seis meses após o golpe do Estado Novo de 1937 — com participação ativa dos integralistas —, mesmo ano da publicação do livro do historiador Hélio Silva intitulado Todos os golpes se parecem.

Naquele tempo, o mundo se defrontava com a ascensão do nazifascismo, resultado da grande crise do capitalismo iniciada no final do século XIX e suas barbáries na Primeira Guerra Mundial, quando o mundo se deparou com o desafio de evitar outras tragédias daquela dimensão, esperança que emergiu com a Revolução Russa de 1917, que trouxe para a cena histórica a primeira grande experiência de uma sociedade socialista, o ideal de justiça social.

Cervejaria de Munique

O prelúdio do que estava por vir foi a guerra civil na Rússia logo após a Revolução, quando as potências capitalistas intervieram naquele país para dar mais um banho de sangue e tentar matar no nascedouro a aplicação do projeto socialista. O insucesso fez o capitalismo adotar novas formas anticomunistas, baseadas numa brutal propaganda ideológica, profusões de calúnias para semear a ideia de que na Rússia surgia um movimento que destruiria a humanidade, as raízes do nazifascismo referenciadas na ideologia dos impérios que se digladiaram na Primeira Guerra Mundial.

O Brasil, ainda sob forte dominação das oligarquias escravistas, estava no centro dessas contradições. Havia inquietações das camadas médias e dos trabalhadores com aquela situação, que deram origem aos movimentos tenentistas, ao Partido Comunista do Brasil, em 1922, e a Coluna Prestes. Os acontecimentos da década de 1930 refletiam essas tendências. Após a Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas, os veios se condensaram, resultando no Levante da ANL contra o avanço do nazifascismo.

A ataque integralista foi uma tentativa de tomar as rédeas do golpe de 1937, algo como a tentativa de Adolf Hitler de derrubar a República de Weimar na noite de 8 para 9 de novembro de 1923 na cervejaria de Munique. Na Alemanha e no Brasil, as condições para aquele tipo de ação não estavam dadas. Hitler pavimentou sua chegada ao poder se valendo das fraquezas econômicas e políticas do capitalismo e do forte anticomunismo do pós-Revolução Russa e provocou a Segunda Guerra Mundial com o objetivo de instaurar a “nova ordem” de um império único mundial, o Terceiro Reich.

Ecos do socialismo

Os integralistas se enfraqueceram e foram praticamente anulados pelos movimentos de Vargas a favor dos aliados na Segunda Guerra Mundial contra o eixo nazifascista (Alemanha, Itália e Japão). A derrota do nazifascismo pelos comunistas exigiria do capitalismo nova configuração, surgida com o expansionismo do seu epicentro emergente das cinzas da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos, que saíram ilesos daquele grande conflito por estarem distante do teatro da guerra e impuseram sua ordem, baseada na mesma retórica anticomunista, agora denominada de “cortina de ferra”, a “guerra fria”.

Nessa nova configuração, também voltada para a tentativa de matar o socialismo sobretudo onde ele surgiu em 1917, a poderosa União Soviética que, por não ter sofrido os efeitos da grande crise do capitalismo, transformou-se rapidamente em superpotência econômica e militar. A conflagração do pré-Segunda Guerra Mundial estava de volta e novamente o Brasil foi atingido, com a chegada ao poder do grupo que se aproximara do nazifascismo no governo Vargas, liderado pelo ex-ministro da Guerra do Estado Novo e presidente eleito em 1945, general Eurico Gaspar Dutra.

O registro do Partido Comunista do Brasil foi cassado em 1947 e seus mandatos parlamentares em 1948. O capitalismo voltou a usar os métodos da violência intervencionista com os genocídios na Coreia e no Vietnã para conter, além da influência das ideias da União Soviética, que formaram o bloco de países de democracia popular no Leste Europeu, o eco do socialismo da Revolução Chinesa de 1949. Com a mesma finalidade, deram banhos de sangue anticomunistas também na Indonésia e na Tailândia.

Padrão ouro

Na América Latina, a influência das ideias socialistas igualmente representava um obstáculo, sobretudo após a Revolução Cubana de 1959. Os golpes de Estado na região começaram com a deposição do presidente da Guatemala, Jacobo Arbenz Guzmán, em 19 de maio de 1954, acusado de adotar medidas de “tendências comunistas”. O principal desses golpes foi o do Brasil em 1964, organizado e programado pela Escola Superior de Guerra, criada em 1949, no governo Dutra, seguindo os moldes da anticomunista cartilha do governo Harry Truman, dos Estados Unidos, a Doutrina Truman.

O fim do socialismo fez o então principal líder político do capitalismo, o presidente estadunidense George Bush, proclamar, literalmente, o triunfo de uma “nova ordem”, também baseada em ácida retórica anticomunista. Desde então, o que se viu foi o capitalismo se radicalizar, tendência que vinha das crises da década de 1970 e do projeto neoliberal adotado pelos governos de Margareth Thatcher no Reino Unidos e Ronald Reagan nos Estados Unidos, e chegou às hostilidades à China, o novo epicentro do projeto socialista.

No Brasil, os efeitos dessas crises se manifestaram pelo fracasso do “milagre econômico” da ditadura, que recebeu de portas abertas o excedente de dólares no mundo – os petrodólares -, no contexto do abandono, pelo presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, e seu secretário de Estado, Henry Kissinger, do padrão ouro internacional, que se desdobraram em graves problemas sociais e políticos, sobretudo nos anos 1980, o drama da dívida externa.

Impulso democrático

O fim da ditadura militar, a Constituinte e a Frente Brasil Popular (PT, PSB e PCdoB), que quase levou Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da República em 1989 – um susto para a direita, a expressão política do capitalismo –, suscitou novas formas de golpismo. A própria eleição de Fernando Collor de Mello contra Lula foi resultado dessa nova ofensiva golpista, processo centrado numa violenta guerra ideológica comandada pela mídia, de fundo anticomunista, e na pregação goebbeliana do neoliberalismo.

O impeachment de Collor e o cerco ao vice, Itamar Franco, que assumiu a Presidência da República, demarcou o começo de mais um ciclo de manobras golpistas, iniciado com a tentativa de revisão constitucional de 1993, que, na prática, revogava a essência da Constituição de 1988, fortemente influenciada pelas lutas democráticas contra a ditadura militar. O impulso democrático da década de 1980 levou a um combate sem trégua ao neoliberalismo nos governos de Fernando Henrique Cardoso e à eleição de Lula em 2002.

O projeto neoliberal também vinha do impulso da “nova ordem” de Bush e ganhou força nos governos de Bill Clinton e de George W. Bush – filho de George Bush –, com as práticas de sempre, de guerras e golpes, e ocupou espaços no governo Lula, sobretudo na gestão do ministro da Fazenda, Antônio Palocci, e no longo reinado do banqueiro Henrique Meirelles no Banco Central. Mas o centro das tramas golpistas era a mídia, que amplificou ao máximo as manobras que levariam à farsa do “mensalão” e à formação da quadrilha da Lava Jato, liderada por Sérgio Moro.

Militares envolvidos

Esses movimentos extremistas, que chegaram fortes aos governos da presidenta Dilma Roussef, foram os responsáveis pelo golpe do impeachment fraudulento de 2016. Neles estava o bolsonarismo, o pronunciamento do anticomunismo escancarado, seguindo o exemplo dos integralistas, do grupo de Dutra e das hordas de 1964. Bolsonaro e seus asseclas são restos dos esgotos da ditadura militar que se misturaram às quadrilhas da farsa do “mensalão” e da Lava Jato e se elegeram em 2018 abertamente apoiados por todo o espectro da direita.

Esse ciclo está inconcluso. O desmascaramento da quadrilha de Sérgio Moro e a ultrapassagem por Bolsonaro da linha demarcada para seu governo, que deveria se ater às decisões do seu ministro da Fazenda, o troglodita neoliberal Paulo Guedes, fortaleceram a candidatura de Lula em 2022, vitoriosa com margem apertada. A frente ampla que se formou para a sua eleição incluiu setores golpistas – sobretudo a mídia – que deram um passo atrás com o propósito de emparedar o governo ou inviabilizá-lo e assim impedir a sua reeleição, um ativismo em franco andamento.

A tentativa de golpe por Bolsonaro foi a repetição das ações de Hitler na cervejaria e dos integralistas em 1938, todos com militares envolvidos. Elas não estavam no curso do golpismo, que viria de outra forma, com eles ou outros atores. Na atualidade, a radicalização do capitalismo busca outras formas golpistas, processo que anula a opção bolsonarista, que serviu a um propósito específico e agora representa um empecilho ao projeto da direita. Ou seja: a essência da luta política vai muito além do combate ao bolsonarismo.

– Manuel Domingos Neto, Roberto Amaral e José Genoino Neto: Washington não pode proclamar González

Manuel Domingos Neto
Roberto Amaral
José Genoino Neto

A política tem sua lógica, nem sempre clara à primeira vista, notadamente em tempo de mudanças radicais.

Está em curso a mais espetacular virada desde a queda de Roma. A supremacia anglo-saxã, imposta paulatinamente desde as circunavegações e revoluções burguesas, busca sobrevida perante a arrancada, até há pouco implausível, de desafiantes poderosos.

Os sinais de hecatombe se anunciam com a exibição de instrumentos de destruição em massa, o cerco à Rússia, a concentração de arsenais em torno da China, o estimulado ressurgimento da capacidade militar da Alemanha e do Japão, a tentativa de naturalização do genocídio em Gaza, os massacres incontáveis e invisíveis de africanos, a ardilosa capacidade de manipulação de comportamentos de indivíduos, sociedades e Estados pelas novas mídias e pelos múltiplos estímulos à bestialidade neonazista.

Ontem à tarde, Washington avisou aos latino-americanos: percam as ilusões de autonomia, domínio da riqueza própria, desenvolvimento integrado, respeito aos direitos humanos, superação de valores racistas e patriarcais, reconhecimento de povos originários e vida social em harmonia com a natureza: nada disso nos interessa, o mundo é dos fortes e nós somos os fortes. Washington não se move por nossos interesses.

Anthony Blinken, em outras palavras, encarnou a religiosidade consagrada em 4 de julho de 1776, segundo a qual o novo país seria terra da promissão e, por mandato divino, surgira para dominar o mundo. Encarnou também o recado de Monroe, emitido em 1823, segundo o qual ninguém d’além-mar se metesse em terras americanas.

Pleno de autoridade, Blinken declarou encerrada as eleições na Venezuela e proclamou eleito Edmundo González. Santificou os baderneiros à soldo de golpistas, atribuindo-lhes a condição de cidadãos de bem. Exigiu que as forças da lei não reprimissem o quebra-quebra terrorista.

Diante de um governo venezuelano envolto em procedimentos eleitorais demorados e de líderes latino-americanos demasiado prudentes, para não dizer desavisados, Washington atribuiu-se poderes de junta eleitoral no país que abriga a maior reserva de petróleo do mundo, projeta-se sobre o Atlântico e o Pacífico e é porta de entrada para a Amazônia.

Anthony Blinken ungiu-se da condição de porta-voz do povo venezuelano e da “comunidade internacional”. Ditou regras para “uma transição transparente” do poder na Venezuela. Com uma penada, jogou ao córner tratativas de entendimento com os maiores países latino-americanos: Brasil, México e Colômbia. Deixou três respeitáveis líderes democratas na condições de atores irrelevantes.

Trata-se de intervenção direta, sem meneios.
A arrogância desmesurada acaba prestando serviços aos latino-americanos: alerta os crédulos na profissão de fé democrática dos candidatos a donos do mundo.

Não há grandes novidades no processo vivido pela Venezuela. Muitos imaginavam que a lisura das eleições seria o grande objetivo de Washington. Preferiam esquecer o longo rol de intervenções que, desde o século XIX, impossibilitaram o exercício efetivo da soberania, a estabilidade política, o desenvolvimento socioeconômico, as reformas sociais e a integração latino-americana. Depositaram fé em bons propósitos de quem se acredita credenciado por Deus a organizar a vida no Planeta.

Os democratas e reformistas sociais latino-americanos estão diante de duas opções: acatar a sina de colono submisso ou rejeitar a vontade imperialista. Não se trata de apoiar ou rejeitar Maduro ou Gonzáles. Trata-se de defender a soberania venezuelana e, por extensão, a soberania dos países latino-americanos, lembrando que nenhum deles pode se defender sozinho.

Não se trata, ainda, de simpatizar ou não com programas governamentais que afetem a vida do povo venezuelano, eternamente saqueado pelo Império. Trata-se simplesmente do direito de cada Estado definir com autonomia suas políticas públicas e erradicar de vez a condição de Washington de xerife e tribunal do mundo.

A carência de petróleo de Washington não pode ser resolvida através da guerra.  Aliás, a guerra amplia desmesuradamente tal carência. A ordem mundial será digna quando as práticas de pilhagem forem substituídas por negócios vantajosos para as partes interessadas. Essa proposição se choca com a experiência histórica, mas não podemos deixar de sonhar com um mundo de paz.

Não existem perspectivas alvissareiras para a América Latina sem a formação de uma grande corrente que conjugue a luta contra o imperialismo com a luta pela democracia e por reformas sociais. A integração de esforços da América Latina não pode ser postergada.

Não vivemos numa ilha isenta das turbulências planetárias. Podemos entrar subitamente no olho do furacão provocado pela mudança da ordem mundial. As pretensões de Washington estão nos conduzindo neste sentido. É hora de nosso subcontinente tomar decididamente partido contra a presunção da unipolaridade.

A política tem lógica e a intervenção estadunidense na Venezuela escancara as pretensões imperiais dos Estados Unidos. Washington não tem direito de proclamar González presidente da Venezuela.

Defendendo o povo e o Estado venezuelano, defenderemos os povos do mundo.