Eu fui à Bahia me despedir de Péricles de Souza

Por Osvaldo Bertolino

O falecimento de Péricles de Souza nesta sexta-feira, 05 de setembro de 2025, em Salvador, Bahia, representa uma daquelas perdas humanas de dimensão histórica. Enfrentou a doença de Parkinson, na luta pela vida, período em que iniciei a pesquisa para escrever a sua biografia, lançada no final de 2024. A tarefa me levou aos ambientes do Brasil e do mundo no ciclo iniciado na década de 1950, a atmosfera do pós-Segunda Guerra Mundial que levou a juventude à resistência às reminiscências do nazifascismo.

As cinzas do grande combate aos regimes que se projetaram sob as botas de Adolf Hitler se levantavam com nova forma, projetada pelo anticomunismo proclamado sobretudo por Herry Truman e Winston Churchill. Os genocídios estavam de volta, com as guerras da Coreia e do Vietnã e os banhos de sangue anticomunistas na Indonésia e na Tailândia. O Brasil foi arrastado para essa atmosfera com a chamada Doutrina Truman, abraçada incondicionalmente pelo governo do general Eurico Gaspar Dutra, abrindo o país para a doutrina da guerra imperialista com a criação da Escola Superior de Guerra, em 1949.

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Péricles cresceu nessa atmosfera e viu a juventude intensificando o combate à militarização da Cortina de Ferro, proclamada por Churchill, então primeiro-ministro britânico, num discurso enfaticamente anticomunista, dia 5 de março de 1946, no Westminster College, na cidade de Fulton, Missouri, Estados Unidos.

No Brasil, os jovens se mobilizaram contra a tentativa de enviar soldados à guerra da Coreia e sabiam que a atmosfera da anticomunista Guerra Fria tendia a militarização do governo, tentativas que se manifestaram contra os presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitscheck. As ameaças se intensificaram com a militarização da Cortina de Ferro para conter as ideias da luta de libertação da Coreia e do Vietnã, da Revolução Chinesa, em 1949, e da Revolução Cubana, em 1959, inspiradas na guerra popular contra o nazifascismo pela União Soviética.

A compreensão desses cenários foi a base para explicar o início da militância de Péricles na sua adolescência. Quando a intenção da militarização se concretizou, com o golpe de 1964, intensificando a brutal ofensiva imperialista na América Latina, Péricles estava nas trincheiras da resistência. A militância na Juventude Estudantil Católica (JEC) foi uma transição para ideias revolucionárias, consolidada na sua participação da fundação da Ação Popular (AP), em 1963.

Os estudos iniciados pela Doutrina Social da Igreja – o pensamento progressista católico – transitaram para o marxismo e, consequentemente, para a ideia da guerra popular de libertação nacional. Péricles foi para os estados do Pará e do Maranhão com essas ideias, assumidas pela AP. Na biografia, esse período é descrito com o alto grau de tensão e perigo daquela missão. Péricles se instalou na região com a esposa, Carmilce, e o filho Saulo.

Caçado pela ditadura, foi para São Paulo onde foi ativo integrante do grupo que fez a transição da AP para o marxismo-leninismo e a consequente incorporação ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em 1973. Péricles desempenhava uma função de alta responsabilidade – a segurança dos militantes, quando a repressão estava no auge e qualquer passo em falso poderia levar a prisões, torturas e mortes. Eram tempos de perseguição à Guerrilha do Araguaia, com uma sucessão de assassinatos brutais e caçada implacável aos comunistas. Em 1975, ele foi para Aracaju, Sergipe, reorganizar o Partido no Nordeste, agora integrado pela estrutura da AP.

Com a anistia de 1979, Péricles retornou a Salvador e foi o principal articulador do Partido na Bahia – ao lado de Haroldo Lima, seu contemporâneo do movimento estudantil no início da década de 1960 –, construindo os alicerces da grande projeção dos comunistas do estado. Sua autoridade moral, esculpida por profunda convicção revolucionária, desenvolvida no fogo das batalhas políticas e ideológicas, foi amplamente reconhecida por todos que participaram das pesquisas para a sua biografia.

A cordialidade, traço de Péricles que considero essencial para um revolucionário, marcou profundamente os membros do Partido que atuaram ao seu lado. Todas e todos ressaltaram essa característica, essencial para a sua militância agregadora e rigorosa com princípios e compromissos, a autoridade que se impunha pelo exemplo e pela força das ideias. Foi com essa cordialidade que fui recebido em Salvador pelos comunistas, dos dirigentes aos militantes de base.

Faço um agradecimento especial aos seus filhos – Saulo, Mariana e Jorge – e à sua esposa, Carmilce. Com emoção lembro as longas conversas, as trocas de informações, seus esforços para que a biografia tivesse o máximo de informações. O resultado é a descrição de Péricles como autêntico comunista, exemplo de revolucionário. O militante, o dirigente, o camarada, o companheiro, o filho, o irmão, o marido, o pai e o trabalhador incansável aparecem como traços de uma pessoa que viveu para o ideal da civilização, a luta pelo socialismo, e deixa um acervo inspirador aos que abraçam o mesmo propósito.

Quando a biografia foi lançada em Salvador, visitei Péricles no hospital, acompanhado por seu filho Jorge e dirigentes do PCdoB. Seu estado de saúde não impediu que ele interagisse com a nossa conversa, às vezes balbuciando algumas palavras, outras nos acompanhando com o olhar. Foi uma emoção especial saber que ele estava entendendo o que representava a sua biografia, da qual participou, com a leitura dos originais pelos filhos, manifestando alegria e confirmando a fidelidade dos fatos narrados.

Obrigado, camarada Péricles, por me proporcionar a oportunidade de contar, em sua biografia, tudo o que você foi! Até sempre!

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Leia a Nota do autor, publicada em sua biografia:

Eu fui à Bahia

Você já foi a Bahia? Não? Então vá! A obra-prima de Dorival Caymmi que instiga o conhecimento de um dos estados mais representativos da brasilidade é uma espécie de guia para se entender o que nenhuma outra terra tem, como diz a canção. “Tudo, tudo na Bahia faz a gente querer bem”, expressa Caymmi. Andando por Salvador, a sensação é de que se ouve essa música por toda parte. A baianidade transborda cordialidade e cultura, história e hospitalidade, traços comuns do Nordeste com especificidades locais. Em todo lugar tem um pedaço da raiz do Brasil. Com quem se fala, fica-se sabendo algo mais sobre a formação do povo brasileiro.

Nos últimos três anos, convivi quase diariamente com esse clima para escrever, simultaneamente, as biografias de Péricles de Souza e Renato Rabelo, baianos que marcaram a história de um período expressivo da luta do povo brasileiro. São, a rigor, continuadores de seus conterrâneos da Independência, das lutas abolicionistas e republicanas, agora num processo de resistência que busca caminhos para outro salto civilizatório. São intérpretes das aspirações populares, vidas dedicadas, desde a tenra juventude, ao ideal socialista.

Como lideranças da Ação Popular (AP) e do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Péricles e Renato têm em suas biografias parte considerável do acervo teórico e histórico dessa trajetória. Muitas passagens se repetem na narração por serem personagens protagonistas da mesma luta. Foi impossível falar de um sem citar outro, cada um em sua dimensão, paralelo nascido pela opção de enfrentar uma das situações mais tenebrosas da história do Brasil, num tempo em que os ecos do nazifascismo ainda ressoavam e se manifestavam na forma de uma série de golpes de Estado iniciada em 19 de maio de 1954 na Guatemala.

Novas formas políticas da ideologia da violência estavam em curso, uma cadeia de ações nascida no pós-Segunda Guerra Mundial e pronunciada de forma mais visível nas guerras da Coreia e do Vietnã. O horizonte se apresentava sombrio para aquela juventude que conhecia bem as ameaças de envolvimento do Brasil em guerras imperialistas e sabia dos perigos deste lado da anticomunista “cortina de ferro” proclamada nos Estados Unidos por Winston Churchill, então primeiro-ministro britânico, referindo-se à barreira ideológica e militar que passou para a história com o nome de Guerra Fria, inserida na chamada Doutrina Truman, o expansionismo autoritário do regime de Washington.

Conheci a luta e as ideias de Péricles e Renato movido pela inquietação da geração que despontou no final dos anos 1970 combatendo a já cambaleante ditadura militar. Péricles conheci pessoalmente fazendo pesquisas para a biografia de Pedro Pomar, liderança do PCdoB desde a década de 1930, assassinado pela ditadura em 16 de dezembro de 1976, publicada no centenário de seu nascimento em 2013. Conversamos por mais de uma hora na sede do Partido, em São Paulo, durante uma reunião do Comitê Central. Fiquei impressionado com a profundidade de suas análises, permeadas por críticas e autocríticas, num momento em que ainda estava em debate a renovação da teoria marxista, iniciada no PCdoB em seu VIII Congresso, de 1992.

Quando recebi o convite de Caio Botelho, então secretário de Formação e Propaganda do PCdoB-BA, para escrever esta biografia, imediatamente a conversa com Péricles me veio à memória. Sua voz pausada, acompanhada de gestos cadenciados, transmitia a serenidade contundente dos que manifestam convicção sobre o que falam. Foram palavras incisivas, que remetem à reflexão no lugar da exaltação, à interrogação sem exclamação, essenciais para a inquietação prospectiva. Ao mesmo tempo, transmitem cordialidade, característica própria da sabedoria revolucionária.

Vi esses traços de Péricles em todas as pessoas que entrevistei para esta biografia. Infelizmente não pude falar com ele, impedido por seu estado de saúde. Mas fiz amizade com seus filhos – Saulo, Mariana e Jorge –, que me auxiliaram do começo ao fim. Foram longas conversas virtuais na busca de informações, com trocas de opiniões e esclarecimentos de dúvidas. Observei neles as lições do pai, de contundência nas convicções, rigor ético e generosidade. Também não pude falar pessoalmente com a esposa, Carmilce, mas tive dela a inestimável colaboração em muitas passagens dessa história. Norlei, a irmã de Péricles, foi igualmente generosa com informações da família.

Menciono, de modo reverencial, Jorge Wilton e Ricardo Moreno por suas inestimáveis contribuições no desbravamento da história do PCdoB-BA, que muito facilitou meu trabalho para esta biografia. Memórias de uma esquerda em transição, de Jorge Wilton, é um extraordinário painel da trajetória dos comunistas baianos na travessia do combate à ditadura militar à consolidação de seu protagonismo político. Naquelas manhãs de segunda – a trajetória de Haroldo Lima, de Ricardo Moreno, relata com primor a vida e as ideias de uma das importantes lideranças políticas da história da Bahia.

Faço também agradecimentos especiais aos dirigentes, militantes e funcionários do PCdoB-BA, que dedicaram tempos preciosos para atender aos meus pedidos de entrevistas. Além de Caio Botelho – que escreve as orelhas deste livro –, faço um destaque para o presidente estadual do Partido, Geraldo Galindo, autor do Prefácio, que também assumiu a tarefa de fazer essa biografia vir à luz. Conversamos longamente no período em que estive pesquisando em Salvador, no começo de 2024 – quando tive o privilégio de presenciar a Festa de Iemanjá, em 2 de fevereiro, na companhia dos amigos e camaradas Itana Sampaio e Ricardo Moreno –, molhando as palavras com cerveja e cachaça, como ele diz no Prefácio.

Considero um imenso privilégio esse trabalho de resgate da memória do PCdoB. É um sonho que vem dos primeiros contatos com a história dos comunistas, no longínquo início da década de 1980. Pude iniciar esse trabalho somente no começo dos anos 2000, como membro da Comissão Estadual de Formação do PCdoB em São Paulo, liderada por Altamiro Borges, que me sugeriu escrever a biografia de Carlos Nicolau Danielli. As biografias de Renato e Péricles são a sétima e a oitava que escrevo. Escrevi também os trinta anos da União da Juventude Socialista (UJS), a trajetória do ressurgimento do sindicalismo brasileiro até a criação da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), a defesa da Guerrilha do Araguaia e a história do PCdoB no Rio Grande do Norte desde a década de 1920.

Como sempre, este é um trabalho coletivo. Participaram comigo, além dos entrevistados, o sempre parceiro e dileto amigo Luiz Manfredini, jornalista e escritor talentoso. Menciono também a colaboração de Fernando Garcia e Felipe Spadari, do centro de Documentação e Memória (CDM) da Fundação Maurício Grabois, e de Harlen Oliveira, que abriu as portas do PCdoB-BA para a minha pesquisa e providenciou o envio do material pesquisado para São Paulo. E agradeço a sempre confortante presença e apoio dos meus filhos, Murilo, Isabela e Lais, a quem dedico este trabalho.

São Paulo, setembro de 2024.