
Outras oito personalidades com papel na defesa da classe trabalhadora também receberão homenagens.
A cartunista Laerte e o ex-deputado federal Aurélio Peres vão receber o troféu José Martinez na celebração do Dia da Luta Operária, em 9 de julho. A escolha foi decidida pela organização do evento, que reúne as 10 centrais sindicais do Brasil.
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Laerte é uma das mais influentes cartunistas e quadrinistas brasileiras. Teve um papel fundamental na comunicação sindical entre 1977 e 1986, produzindo mais de mil charges políticas e materiais educativos pela Oboré Projetos Especiais para mobilizar a classe trabalhadora.
Aurélio Peres, metalúrgico, atuou na Pastoral Operária e liderou o Movimento do Custo de Vida, enfrentando a prisão e a tortura pelo DOI-CODI em 1974. Eleito deputado federal pelo MDB/PMDB duas vezes (1978 e 1982), ingressou no PCdoB em 1985 com a redemocratização. Ao deixar o parlamento, retomou a atividade operária até a aposentadoria.
Também serão homenageados nesta edição do Dia da Luta Operária: Waldemar Rossi, Celia Rossi, Nair Goulart, Idibal Pivetta e Paulo Frateschi, Rubens Romano (placas póstumas); Paulo Canabrava e José Maria de Almeida (placas de reconhecimento).
O ato deste ano será realizado na sede do Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados (SindPD), na avenida Angélica, 35, na Santa Cecília, São Paulo.
O Dia da Luta Operária é celebrado em 9 de julho desde 2017, por lei municipal de autoria do então vereador Antonio Donato (PT), em memória da Greve Geral de 1917 . O troféu é um busto de José Martinez, concebido pelo artista plástico Enio Squeff. Sapateiro de 21 anos, Martinez foi morto a tiros por soldados da Força Pública em 9 de julho 1917, durante a greve geral que paralisou São Paulo por vários dias.
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Prefácio de Renato Rabelo na biografia de Aurélio Peres Vida, fé e luta

Um militante comunista desbravador
Voltei do exílio, onde vivia nos arredores de Paris, em 12 de outubro de 1979, logo depois de Diógenes Arruda e antes de João Amazonas, os quais voltavam também ao Brasil após anos de expatriamento. Era o começo, ainda atropelado, da anistia que manifestava os estertores do longo regime ditatorial, imposto desde começo de 1964, através de um golpe de Estado, conduzido pelos militares.
Tínhamos diante de nós mais uma gigantesca tarefa a realizar na extensa vida do Partido Comunista do Brasil, que exigia a sua reunificação e reestruturação, a sua continuidade. Contudo contávamos com dirigentes experientes e abnegados, que conseguiram sobreviver à sanha do arbítrio e violência do regime militar, os quais se mantinham no país. A eles se juntaram os que estavam fora do país, destacando-se, sobretudo, João Amazonas, o mais experiente e destacado dirigente comunista e, ainda mais, em consequência da súbita morte de Arruda, que ampliava o vazio deixado pelos quadros mais distinguidos do Partido. O terror da ditadura deixou um brutal rastro de sangue, ceivando a vida de inúmeros combatentes, entre eles, quadros muito relevantes à condução do Partido.
Além dessa tragédia para os comunistas, era preciso enfrentar ideias derrotistas e liquidacionistas, que brotam em momentos como estes. Por outro lado, podíamos contar, resultante do valioso papel combatente desses quadros heroicos e da coerência ideológica do PCdoB, uma contrapartida valiosa em situação tão adversa, que a luta nesse momento pôde conceder, como a integração dos quadros e contingentes da Ação Popular. Eles vieram por decisão lastreada em elevada consciência ideológica e politica ao PCdoB, em um momento decisivo. Na reestruturação levada a cabo comportava a importante tarefa de completar e assimilar a integração orgânica dessa importante corrente politica, que estava por concluir.
Em meio à situação que pontilhava tantos desafios foi um prémio dos céus já encontrar militando, na fase dos estertores do regime militar, como deputado federal, Aurélio Peres. Sim, atuando como Deputado Federal, eleito em 15 de novembro de 1978, compondo o bloco dos Autênticos do MDB. Aurélio vinha da Ação Católica, depois ingressou e militou na Ação Popular e, então, já fazia parte daqueles membros dessa Organização, que se integravam ao PCdoB, participando da sua “Estrutura 2” (Na integração da AP ao PCdoB, a incorporação foi feita inicialmente ao nível da Direção nacional, mantendo as estruturas estaduais sem junção organizativa entre PCdoB e AP. Isto por uma justa função de segurança, ainda na vigência da ordem ditatorial, sendo as vinculadas ao primeiro denominada de “Estrutura 1”, e as relacionadas à segunda de “Estrutura 2”).
Neste cuidadoso e minucioso trabalho biográfico sobre a trajetória de Aurélio Peres, Osvaldo Bertolino, já com rica experiência de pesquisa e elaboração biográfica nos oferece ricos relatos da vida, das ideias e do exemplo extraordinário de um filho de trabalhadores rurais, que surgiu como uma liderança expressiva, em um contexto histórico marcado pela transição que anunciava um novo tempo, que descortinava a superação do longo período de chumbo vivido pelo povo brasileiro. A redemocratização advinda, que Aurélio teve um papel protagonista na periferia da cidade de São Paulo, culminou com a promulgação da Constituição de 1988. Esta Constituição foi resultante de um Pacto politico-institucional, que representou saliente passo constitucional progressista, apesar dos limites ainda presentes, e que após 28 anos, esse Pacto é rompido por um golpe de Estado, em uma aventura reacionária e retrograda de um consórcio da classe conservadora-dominante.
Não imaginávamos que após 30 anos, passando por esse golpe parlamentar de 2016, se culminaria por via legal, por meio da vitória eleitoral, numa ocupação do poder central pela extrema-direita. Esta tomou o leme da direita para implantar na continuidade do governo Temer, o estabelecimento de um poder ultraliberal, entreguista e pró-hegemonia do imperialismo estadunidense, agressivamente ultraconservador, defensor de ideias aquém da modernidade, do final do século XVIII – se atentem para o que propõe para educação e os direitos civis – com um caráter autoritário, se espelhando na ditadura instituída em 1964. A dramaticidade de 1964 volta como farsa em 2018.
A biografia de Aurélio Peres é atual, nos coloca em face do que foi a resistência desde 1964, e sua passagem para a redemocratização. Portanto é uma biografia de ricos ensinamentos, que através das jornadas de lutas do biografado, nos remete hoje à comparação histórica desse período do regime militar, com a ocupação do poder pelas forças extremistas de direita e o flagrante da volta da resistência pela democracia e liberdade na atualidade. Em apenas três décadas as forças democráticas, patrióticas e populares voltam ao cenário de nova resistência, desta feita contra a mesma reação conservadora interna subordinada à hegemonia imperialista. Aquela ansiedade que tomou conta de cada resistente pela democracia e pela salvação nacional no estrondo do golpe de1964 parece estar de volta como um fantasma que atormenta. Mas a resistência hoje tem que impedir as repetições das atrocidades do regime de 1964, e suas consequências desastrosas à Nação e ao povo, consciência que já cresce desde o final do segundo turno das eleições de 2018. Somos milhões.
Nesse sentido, a explanação biográfica primorosa de Aurélio Peres, escrita por Osvaldo Bertolino, põe o leitor diante da vida e da luta do simpatizante e da liderança que compunha a resistência nas condições de um regime de exceção, ditatorial, que atingiu fortes traços de fascistização, sobretudo após o Ato institucional número cinco. Traz a lume através da trajetória de Aurélio Peres, com grande riqueza analítica as formas de terror espalhadas pelo regime e seus asseclas, que neste momento, os vencedores do pleito presidencial de 2018 procuram emendar uma narrativa para justificar o rastro de sangue, o crime hediondo da tortura e redimir o golpe militar. No entanto, é ainda pior, parece querer abrir caminho para legitimar tais atos de selvageria nas condições atuais. Desse modo esta biografia é um anátema a hipocrisia e ao ardil que consiste em reinterpretar a história recente do Brasil. É uma obra de grande valor didático para a juventude e todos os amantes do avanço civilizacional.
Eu passei a conhecer Aurélio Peres e sua família a partir do início de 1980, após a minha volta do exilio na França. A impressão primeira que me chamou à atenção era ser um operário com certo domínio teórico e considerável formação cultural. Um hábil e destacado orador, autêntico, comunicativo, sereno e simples. Já era uma liderança que gozava de grande respeito entre os operários e a população simples dos bairros populares da zona sul da cidade de São Paulo; demonstração disso conseguiu se eleger a Câmara dos Deputados, ainda na vigência do regime militar.
Aurelio Peres é descendente de uma família de espanhóis, imigrantes, que se localizaram no interior de São Paulo. A sua origem é camponesa, trabalhava na roça em uma propriedade familiar dos seus pais. Era uma família de trabalhadores, 14 filhos, de camada média simples. Entre seus irmãos se destacou pela persistência em combinar o trabalho e a escola, sendo estas suas prioridades. Ademais, as famílias de classe médias simples, do interior, nesse período da década de 1950, não tendo meios de dar uma educação formal mais avançada a seus filhos, além do curso primário, e por sua vinculação católico-cristã se valiam da existência dos Seminários Menor e Maior (ensino básico e intermediário) localizados em algumas cidades de regiões do estado, para que o filho se tornasse um sacerdote, ou pudessem a partir desse engajamento seguir uma carreira superior. É através desse caminho e por dedicação ao estudo e ao conhecimento, que ele conseguiu sua formação, chegando à etapa superior de filosofia e de teologia, no Seminário Central do Ipiranga, na capital de São Paulo. Assim, Aurélio conseguiu galgar um curso superior. Sua dedicação, generosidade e consciência politica de classe levou-o mais adiante a ser um operário qualificado, ferramenteiro fresador.
Mas essa trajetória que levou Aurélio a percorrer, visando sua formação, conduziu-o a conviver com a efervescência de novos tempos da década de 1960. Dentro da própria Igreja católica, a sua modernização por iniciativa do papa João XXIII, surgimento da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base e ganham impulso os movimentos de Ação Católica, originando principalmente, por sua maior atuação a JUC, JEC e JOC (Juventudes universitária, secundarista e operária católicas). Em meados da década de 1960, estudantes do Seminário Central começam a participar das manifestações juvenis de protestos contra a ditadura. É nesse momento que Aurélio passa a conhecer lideres estudantis da época e mantém contatos com dirigentes da AP (Ação Popular), fundada em 1963, em Salvador, surgida da ação da tendência de esquerda da JUC, padres progressistas e de grupos da JOC, Esse foi o início do caminho da formação da consciência politica de Aurélio e da sua organização e participação crescente na resistência à ditadura militar.
Ele seguiu com sua participação nos trabalhos sociais da igreja católica, sua desistência do sacerdócio para ingressar no trabalho fabril, se voltou mais para a atividade ente os operários, se filiou ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo; por sua capacidade de liderança foi um dos representantes da Oposição Sindical; passou a ter elevado protagonismo nos movimentos sociais que cresciam na fase declinante do regime ditatorial, como o Clube de Mães e Movimento Contra o Custo de Vida.
A proeminência da liderança de Aurélio na atividade sindical e nos movimentos sociais, sua participação na AP, levou-o a estar na mira dos carrascos da repressão do regime, quando enfim foi preso em setembro de 1974, interrogado e torturado pelos esbirros do temido DOI-Codi e do DOPS. Deixou sua esposa Conceição Peres – até hoje sua permanente e dedicada companheira – companheiros, colegas e amigos apavorados, sem saber nem mesmo onde tinham levado Aurélio, procedimento comum nesse período, para facilitar o que pretendiam fazer com o prisioneiro – até o seu assassinato. Ele só teve sua prisão oficializada muitos dias depois, em virtude do trabalho de ampla mobilização e de setores da Igreja, sob a corajosa dedicação do cardeal D. Evaristo Arns. Aurélio teve julgamento militar, contou com a ajuda dos destemidos advogados, como Luiz Eduardo Greenhalgh, defensores dos direitos humanos, e teve que recomeçar mais uma vez sua vida.
O regime militar começa a viver seu ocaso quando já estava na presidência o General Ernest Geisel, no transcurso de 1974; as dificuldades econômicas recrudescem, aumenta o custo de vida para maioria, que começa a sentir pesadamente o arrocho salarial. Aurélio depois de sua absolvição pela Justiça Militar intensifica sua atividade sindical, assume a coordenação do movimento contra o custo de vida, a resistência cresce e se amplia desde o final de 1975; e ele se aproxima do “Grupo Autêntico do MDB”. Setores desse partido ligados aos movimentos sociais articulam uma “frente de candidaturas democráticas e populares”, através da qual, Aurélio já vinculado ao PCdoB, lançou sua candidatura pelo MDB, realizando sua campanha integrada aos movimentos sociais de bairros das regiões sul e leste de São Paulo.
Aurélio é eleito deputado federal, em 15 de novembro de 1978, ainda na vigência do regime militar; e reeleito deputado federal, segundo mandato, em 1982. Isso se passa no período que compreende o curso de declínio da ditadura, com o começo da transição à democracia. É ai que Aurélio desponta como uma liderança expressiva, distinguindo-se no descortinar de novo ciclo histórico, iniciado com a superação do regime militar. Ele na Câmara dos Deputados se situa na “ala esquerda” do Grupo Autêntico do MDB. É defensor destacado das bandeiras da resistência, indicadas pelo PCdoB e correntes democráticas: Eleições diretas em todos os níveis; Abolição dos Atos e Leis de exceção; Anistia ampla, geral e irrestrita; Convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. E as reivindicações fundamentais dos trabalhadores, tais como, Fim do arrocho salarial; Pelas liberdades sindicais e fim das intervenções nos sindicatos; Pelo direito de greve. Aurélio Peres junto com Teotônio Vilella percorre o Brasil, defendendo a anistia, manifestando-se no parlamento e realizando atos, impulsionando o movimento pela resistência em conjunto com muitas lideranças que despontavam, culminando com a aprovação da Lei da Anistia, em 28 de agosto de 1979, e o começo da saída das prisões dos condenados pela ditadura e a volta dos exilados.
Em 23 de maio de 1985, o Partido Comunista do Brasil entrou para a legalidade, após quase quatro décadas na clandestinidade. Aurélio Peres acompanhado de dezenas de simpatizantes do PCdoB presenciou o momento em que dirigentes comunistas, conduzidos por João Amazonas, protocolaram no TSE a documentação do Partido. A Classe Operária, órgão central do PCdoB, registrou em grande estilo esse acontecimento histórico, que repercutiu em toda imprensa. E em 7 de agosto de 1985, “Haroldo Lima e Aurélio Peres comunicaram oficialmente a Ulisses Guimarães e a Pimenta da Veiga, respectivamente presidente do MDB e líder da bancada emedebista, a decisão de deixar aquele partido e constituir formalmente a bancada comunista”. Outro grande acontecimento culmina as vitórias comunistas, quando em 31 de agosto de 1985, Aurélio Peres se filia oficialmente ao PCdoB. João Amazonas saudou sua filiação oficial, afirmando: “Este é um ato simbólico, porque representa o encontro da classe operária com o seu partido de vanguarda”.
Tem mais. Eu repercuto o que disse nosso saudoso camarada João Amazonas no momento da filiação oficial ao PCdoB de Aurélio Peres, já deputado federal: “Aurélio é um bravo lutador, homem simples e modesto, que sabe honrar a ideologia da classe operária”. Aurélio, saído do interior de São Paulo, nascido “quase que debaixo de um pé de café”, trabalhador na roça e estudante dedicado, se torna destacado líder popular, importante líder operário em plena ditadura militar, se empenhou em grandes lutas ao lado dos trabalhadores paulistas e nos movimentos sociais nos bairros da periferia da cidade de São Paulo, e foi um líder eloquente nas duras batalhas que pôs fim ao regime militar. Ele conquistou muito respeito na Igreja, no movimento sindical e popular e nas fileiras do PCdoB. Eleito deputado federal em dois mandatos, primeiro comunista eleito ainda na vigência do regime militar, parlamentar do MDB, “partido que serviu de guarda-chuva para abrigar todos os que lutaram contra a ditadura”. Dessa forma, de fato foi um pioneiro, que desbravou a trilha para junto com os que vieram atrás, construir o caminho da representação parlamentar do PCdoB, na transição à democracia. Aurélio Peres é um exemplo de militante comunista, memorável líder popular, orgulho para todo Partido.