“É impressionante a desfaçatez desse sujeito.” Foi assim que Gilmar Mendes reagiu, na sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) de 15 de setembro, à manifestação de André Mendonça contra o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Antes da explosão verbal, Gilmar havia classificado as afirmações de Mendonça como “leviandade” e criticado o que chamou de “sentimento policialesco”. Mendonça respondeu: “A desfaçatez é de Vossa Excelência. Me respeite.” A sessão terminou sob forte tensão e foi posteriormente suspensa pelo pedido de vista de Flávio Dino.
A frase de Gilmar não surgiu no vazio. Ela sintetizou, em linguagem excepcionalmente dura, o grau de deterioração de uma crise que deixou de envolver apenas Alexandre de Moraes e passou a atingir diretamente os métodos adotados por Mendonça na condução do caso Banco Master.
O que estava em discussão era muito mais amplo do que uma divergência pessoal entre ministros. Estavam em jogo a competência de um ministro para determinar certas diligências, a relação entre o STF e a Polícia Federal, o papel da Procuradoria-Geral da Reppública (PGR), o tratamento dado a diferentes ministros mencionados nas investigações e, sobretudo, os efeitos políticos de uma investigação envolvendo integrantes da própria Corte às vésperas de uma eleição presidencial.
A origem da crise
Mendonça, relator do caso Banco Master, determinou que a Polícia Federal produzisse, em prazo de 72 horas, relatório sobre elementos extraídos do celular de Daniel Vorcaro. O relatório, de 218 páginas, foi efetivamente produzido pela PF e assinado por delegados e agentes, segundo a documentação disponível. A investigação policial registrou que o trabalho se limitou ao material já apreendido e não constituiu uma investigação exaustiva.
A partir desse material, Mendonça adotou providências envolvendo Alexandre de Moraes, o procurador-geral da Repúblia, Paulo Gonet, Andrei Rodrigues – diretor-geral da Polícia Federal – e Leandro Almada – diretor de Inteligência Policial da Polícia Federal.
É aí que começou a se estabelecer a principal linha de contestação à sua atuação. A Procuradoria-Geral da República sustentou que Mendonça teria extrapolado suas competências ao determinar investigação sem provocação do Ministério Público ou da própria Polícia Federal. Gonet pediu a anulação do relatório e questionou a forma pela qual a apuração havia sido determinada.
Não se tratava, portanto, apenas de uma disputa sobre conteúdo de mensagens. A controvérsia passou a envolver quem tinha autoridade para mandar investigar quem, em que circunstâncias e sob qual rito.
A Polícia Federal colocada no centro do conflito
O episódio mais grave veio em 8 de setembro, quando Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada.
Mendonça justificou a decisão alegando a gravidade de supostas irregularidades envolvendo relatórios de inteligência e afirmou ter sido alvo de monitoramento ilegal.
O problema institucional apareceu imediatamente. A Advocacia-Geral da União contestou a medida, argumentando que o afastamento do diretor-geral da PF interferia em competência vinculada à Presidência da República. No dia seguinte, Edson Fachin suspendeu as decisões relacionadas ao afastamento.
O episódio provocou reação dentro do próprio STF. Gilmar Mendes criticou duramente a possibilidade de afastamento do chefe da PF por decisão individual de ministro, comparando a situação, em sua intervenção, à retirada do comando de instituições de Estado de maneira unilateral.
A questão é objetiva: um ministro do STF pode, no curso de uma investigação que envolve integrantes da própria Corte, afastar o diretor-geral da Polícia Federal, instituição diretamente responsável pela produção de provas utilizadas no processo?
Essa pergunta passou a integrar o núcleo da crise.
O problema da seletividade
Outra controvérsia diz respeito ao tratamento dado aos ministros mencionados nos materiais relacionados a Vorcaro. Reportagens sobre o caso registraram que outros ministros do STF também apareciam em materiais relacionados ao banqueiro, mas somente Alexandre de Moraes passou a ser alvo da iniciativa investigativa de Mendonça. A PGR questionou justamente aspectos da competência e do procedimento utilizado.
Essa assimetria tornou-se uma das perguntas centrais do episódio: por que determinados nomes foram submetidos a uma investigação e outros, igualmente mencionados nos materiais, não receberam o mesmo tratamento?
A questão ganhou ainda mais força porque a investigação atingia o ministro que, durante anos, esteve no centro dos processos relacionados à tentativa de ruptura institucional de 2022–2023 e que passou a ocupar papel decisivo na proteção do processo eleitoral.
A reação de Alexandre de Moraes
Na manifestação apresentada ao presidente do STF, Edson Fachin, Alexandre de Moraes fez uma acusação de extrema gravidade. Segundo Moraes, os metadados do relatório demonstrariam que sua abertura e finalização ocorreram no mesmo dia, em computador da Polícia Federal. A partir dessa circunstância, ele sustentou que o relatório não teria sido integralmente produzido pela PF e aventou a hipótese de participação de agentes estrangeiros. Afirmou ainda que o prazo de 72 horas determinado por Mendonça seria incompatível com a elaboração daquele material.
Moraes associou essa suspeita a uma possível tentativa de interferência estrangeira nas eleições brasileiras. É uma acusação de enorme gravidade — e precisa ser tratada como tal. O próprio material divulgado sobre a manifestação de Moraes registra que não foi apresentada, no texto, identificação de país, agência ou agente estrangeiro específico, nem uma análise técnica completa dos metadados que demonstrasse a origem externa do relatório.
Mas a denúncia introduziu no centro da crise uma questão que não pode ser ignorada: houve interferência estrangeira na produção ou encaminhamento de material utilizado para pressionar o STF e atingir um ministro com papel central no processo eleitoral?
Se a resposta for negativa, os dados técnicos precisam demonstrar isso. Se houver elementos de ingerência externa, a dimensão da crise muda radicalmente.
Flávio Dino e a pressão estrangeira
Foi nesse ambiente que Flávio Dino introduziu explicitamente a dimensão internacional na sessão de 15 de setembro.
O ministro mencionou as ameaças de novas sanções dos Estados Unidos contra integrantes do STF e observou que a Corte estava submetida a pressão que vinha também de fora do país.
Dino também tratou da necessidade de diálogo institucional com a Suprema Corte dos Estados Unidos. Pediu que o pronunciamento de Cármen Lúcia — no qual a ministra afirmou estar em “estado de profunda tristeza”, disse que o STF havia provocado um “mal-estar cívico” na sociedade, criticou a espetacularização da crise e defendeu a independência do Judiciário diante do “clamor público” e de pressões externas — fosse encaminhado ao presidente Lula e ao Itamaraty e mencionou a possibilidade de interlocução entre o STF brasileiro e a Suprema Corte norte-americana.
O momento não poderia ser mais significativo. De um lado, ministros brasileiros discutiam uma crise interna envolvendo Polícia Federal, PGR e STF. De outro, Washington voltava a aparecer como fator de pressão sobre autoridades brasileiras, com ameaças de sanções baseadas na Lei Global Magnitsky. A crise institucional brasileira passou, assim, a ser disputada também no terreno internacional.
Trump, Rubio e a pressão sobre o Brasil
O ambiente externo não é abstrato. O governo de Donald Trump aumentou a pressão sobre instituições brasileiras ao longo de 2026. O secretário de Estado, Marco Rubio, tornou-se interlocutor direto de atores políticos brasileiros envolvidos na crise.
Flávio Bolsonaro encontrou-se com Rubio e com o vice-presidente James David Vance em Washington em maio. Posteriormente, enviou carta ao secretário de Estado solicitando que os Estados Unidos não aplicassem tarifas contra o Brasil e afirmou que, caso fosse eleito presidente, colocaria sua equipe à disposição de Rubio para negociar um tratado comercial e de investimentos.
Flávio Bolsonaro efetivamente buscou interlocução direta com Trump, Vance e Rubio e declarou publicamente a intenção de aprofundar a relação com o governo norte-americano ele caso chegasse à Presidência.
Isso adquiriu dimensão eleitoral porque os Estados Unidos passaram a atuar, simultaneamente, como fator de pressão econômica, diplomática e jurídica sobre o Brasil.
A eleição no centro do furacão
A proximidade da eleição presidencial de outubro de 2026 dá à crise uma dimensão que ultrapassa os limites do STF.
O próprio Alexandre de Moraes afirmou que a tentativa de utilização de material de origem supostamente externa poderia configurar interferência estrangeira nas eleições.
Ao mesmo tempo, autoridades norte-americanas discutem novas sanções contra ministros brasileiros. O governo Trump já utilizou a Lei Magnitsky contra Moraes em 2025, medida posteriormente retirada, e novas sanções voltaram a ser aventadas em setembro de 2026. Marco Rubio, como secretário de Estado, aparece no centro do processo de avaliação dessas medidas.
A dimensão eleitoral é ainda mais explícita porque Flávio Bolsonaro é candidato à Presidência. Sua campanha defende maior alinhamento com os Estados Unidos, incluindo retirada do Brasil do Brics e aproximação com estruturas de segurança lideradas por Washington.
E, paralelamente, seus aliados nos Estados Unidos vêm tentando pressionar o governo Trump pela aplicação de sanções contra ministros do STF. Eduardo Bolsonaro declarou em Washington que pretendia levar aos Estados Unidos registros da sessão do STF e buscar uma nova rodada de sanções.
Não é necessário atribuir uma coordenação única a todos esses movimentos para reconhecer a existência de uma convergência objetiva de acontecimentos: uma crise no STF; uma investigação contra um ministro central no processo eleitoral; uma disputa pelo comando da Polícia Federal; pressão da PGR; acusações sobre interferência estrangeira; sanções norte-americanas; e uma candidatura presidencial que defende total subserviência ao governo Trump, dos Estados Unidos.
O problema político-eleitoral
É nesse ponto que a crise assume sua dimensão mais perigosa para o processo eleitoral. Uma decisão judicial tomada às vésperas da eleição pode produzir consequências políticas muito além do processo que a originou.
Quando o alvo da medida é um ministro do STF diretamente envolvido na condução de processos relacionados à democracia e ao processo eleitoral; quando a investigação é determinada por outro ministro cuja própria conduta está sob contestação; quando a Polícia Federal é afastada do centro da disputa; quando a PGR questiona a competência do relator; e quando autoridades estrangeiras pressionam publicamente o Supremo, a disputa institucional deixa de ser um episódio periférico da eleição e passa a integrar o ambiente em que a própria eleição será realizada.
A questão fundamental é a preservação da autonomia das instituições brasileiras diante de qualquer pressão — interna ou externa. E, nesse cenário, a atuação de André Mendonça tornou-se um dos principais pontos de concentração da crise. Não apenas pelos atos que praticou, mas pelas consequências institucionais que eles desencadearam.
A crise não é, obviamente, episódica. Ela integra a engrenagem do sistema da geopolítica imperialista, capitaneada pelo regime dos Estados Unidos. E é justamente por isso que a atuação de Mendonça não pode ser subestimada. Ou seja: a sua desfaçatez é sistêmica.
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