Leslie Rodrigues Backschies, a agente norte-americana que se tornou figura conhecida entre os procuradores de Curitiba, expõe uma dimensão pouco discutida da Lava Jato: a intensa aproximação entre investigadores brasileiros e autoridades dos Estados Unidos
A história da Lava Jato não pode ser compreendida apenas a partir das operações da Polícia Federal, das denúncias do Ministério Público Federal e das decisões da Justiça brasileira. Documentos, mensagens reveladas pela Vaza Jato e reportagens produzidas ao longo dos últimos anos mostram que a maior operação dos corruptos liderados pelo ex-juiz Sérgio Moro também desenvolveu uma relação estreita com autoridades norte-americanas — especialmente com agentes do Federal Bureau of Investigation (FBI) e procuradores do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.
No centro dessa história aparece um nome que durante muito tempo permaneceu praticamente desconhecido do grande público: Leslie Rodrigues Backschies.
Filha de brasileiros, fluente em português e agente do FBI, Leslie passou a atuar na América do Sul e esteve no Brasil desde pelo menos 2012. Sua trajetória incluiu a cooperação com autoridades brasileiras antes mesmo da Lava Jato, mas sua atuação ganhou outra dimensão quando as investigações sobre corrupção envolvendo Petrobras e grandes empreiteiras passaram a interessar diretamente às autoridades norte-americanas. Foi nesse contexto que ela entrou na órbita da Lava Jato.
Uma norte-americana dentro da história brasileira
Segundo a Agência Pública, Leslie esteve entre os agentes norte-americanos que atuaram lado a lado com a Polícia Federal e a força-tarefa de Curitiba. A cooperação do FBI com a Lava Jato começou em 2014 e foi fortalecida em 2015 e 2016, justamente quando o foco da operação alcançava Petrobras e Odebrecht. O episódio é revelador porque a cooperação não tinha apenas uma dimensão policial brasileira.
A legislação norte-americana contra corrupção internacional, a Foreign Corrupt Practices Act (FCPA), permitiu que autoridades dos Estados Unidos investigassem e punissem empresas brasileiras envolvidas em casos que possuíssem conexão com a jurisdição norte-americana. A Petrobras e a Odebrecht acabaram submetidas a pesadas sanções nos Estados Unidos. O resultado foi uma convergência de interesses jurídicos e investigativos.
A Petrobras e a Odebrecht estavam no centro da Lava Jato no Brasil. Ao mesmo tempo, autoridades norte-americanas tinham interesse direto em apurar possíveis violações da legislação dos Estados Unidos. Não era, portanto, apenas uma história de intercâmbio entre policiais. Havia interesses jurídicos, financeiros e empresariais concretos em jogo.
O jantar de Moro e os interesses em torno da Lava Jato
É nesse contexto que ganha importância um episódio ocorrido em 2018 e que recebeu atenção muito menor do que a dimensão do fato sugere.
Em maio daquele ano, Sérgio Moro foi homenageado em Nova York pela Brazilian-American Chamber of Commerce, recebendo o prêmio de Pessoa do Ano ao lado do então ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg. O jantar era um importante evento empresarial da entidade.
As mesas principais custavam US$ 26 mil cada, e bancos, escritórios de advocacia e a Petrobras estavam entre os patrocinadores. Reportagem publicada à época informou especificamente que a Petrobras pagaria US$ 26 mil por uma dessas mesas. O episódio chama atenção pelo contexto.
A Petrobras não era uma empresa qualquer naquela história. Era justamente a estatal que estava no centro da Lava Jato e que, naquele mesmo período, enfrentava também consequências jurídicas nos Estados Unidos. Em 2018, a Petrobras anunciou um acordo com autoridades norte-americanas que envolveu pagamento de US$ 1,78 bilhão, segundo a Agência Pública.
Uma das mensagens envolve Thaméa Danelon, procuradora da República e então coordenadora, em São Paulo, da campanha das 10 Medidas Contra a Corrupção, e Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba. A presença dela nesse episódio se explica justamente por sua atuação na campanha e por seus contatos institucionais com autoridades norte-americanas.
Em 2016, Danelon contou a Dallagnol que o FBI havia pedido que ela apresentasse a Lava Jato e as chamadas “10 Measures” em Washington. Naquele período, ela também representou a Secretaria de Cooperação Internacional do Ministério Público Federal em uma conferência em Washington sobre suborno e corrupção internacional, organizada por órgãos norte-americanos, incluindo o Departamento de Justiça e o FBI, na qual apresentou aspectos da Lava Jato e defendeu as 10 Medidas. Dallagnol respondeu entusiasmado. A frase é reveladora da proximidade existente entre os investigadores.
Quando o FBI deixa de ser apenas parceiro?
Essa é a questão central. Agências policiais estrangeiras podem cooperar com autoridades brasileiras, mas não possuem automaticamente jurisdição para realizar investigações em território nacional. A Agência Pública ressaltou que policiais estrangeiros não podem realizar investigações no Brasil sem autorização expressa do governo brasileiro. O problema, portanto, não é simplesmente a existência do FBI na Lava Jato.
O problema institucional é saber qual foi exatamente a natureza dessa participação, quais canais foram utilizados, quem autorizou cada iniciativa e em que momento os mecanismos formais de cooperação foram empregados.
Essa distinção é fundamental. Uma reunião oficial entre autoridades, dentro de um mecanismo de cooperação internacional, é uma coisa. Uma coordenação informal entre agentes estrangeiros e integrantes de uma força-tarefa brasileira é outra. E as mensagens divulgadas pela Vaza Jato tornaram impossível ignorar essa fronteira.
A visita que não passou pelo governo federal
Em 2015, uma comitiva norte-americana esteve em Curitiba para reuniões com integrantes da Lava Jato. A Agência Pública revelou posteriormente que a visita não havia sido comunicada ao governo federal da maneira esperada para uma cooperação institucional dessa natureza. Do lado norte-americano estavam agentes do FBI, incluindo George “Ren” McEachern e Leslie Backschies.
Segundo a reportagem, Dallagnol recebeu os agentes com uma apresentação geral sobre as investigações. Depois, procuradores apresentaram casos específicos, inclusive de pessoas que haviam celebrado acordos de colaboração premiada.
Esse episódio é particularmente relevante. Não se tratava apenas de uma palestra sobre combate à corrupção. Havia exposição de investigações. Havia contato direto com procuradores. Havia agentes norte-americanos acompanhando casos brasileiros. E havia interesses norte-americanos diretamente relacionados às empresas investigadas.
A nova revelação de 2026
A história ganhou nova dimensão em 2026 com a série “Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato”, da Agência Pública. A reportagem recuperou documentos sobre a presença de agentes norte-americanos no Brasil e identificou novas viagens de integrantes do FBI.
Um dos registros mostra a presença de Leslie Backschies no Brasil em julho de 2017, acompanhada de outros agentes do FBI. A reportagem relaciona a viagem ao período de atuação da agente na Lava Jato.
Uma relação celebrada como modelo
Em 2018, a cooperação entre Brasil e Estados Unidos em torno da Lava Jato era apresentada por autoridades norte-americanas como exemplo de colaboração contra a corrupção internacional.
A Agência Pública registrou que a atuação dos agentes do FBI no Brasil era considerada fundamental para as investigações norte-americanas sobre empresas brasileiras. Para os Estados Unidos, portanto, a experiência brasileira tinha enorme valor.
E é possível compreender a razão. A Lava Jato produziu uma quantidade extraordinária de informações, delações, documentos e provas sobre grandes empresas brasileiras. Parte desse material interessava diretamente às autoridades norte-americanas por causa da FCPA.
A operação brasileira, ao mesmo tempo em que atingia empresas e agentes públicos no Brasil, fornecia elementos para investigações conduzidas nos Estados Unidos.
O outro lado da cooperação
É justamente esse ponto que merece investigação. Cooperação internacional é legítima e necessária no combate à corrupção transnacional. Mas cooperação não significa ausência de regras.
Quanto maior a participação de uma autoridade estrangeira em uma investigação nacional, maior deve ser a transparência sobre os mecanismos utilizados. Essa é uma das questões institucionais deixadas pela Lava Jato.
Quem investigava quem? Quem fornecia informações a quem? Por quais canais? Sob qual autoridade? Com quais limites?
E, principalmente: qual era o grau de autonomia da força-tarefa brasileira diante dos interesses jurídicos e econômicos dos Estados Unidos?
A Lava Jato e a dimensão internacional
A presença norte-americana também ajuda a compreender que a Lava Jato não foi apenas uma operação brasileira. Ela se inseriu em uma rede internacional de corrupção sob a fachada de investigações sobre corrupção, lavagem de dinheiro e grandes empresas multinacionais.
A Odebrecht, a Petrobras e outros grupos brasileiros passaram a ser examinados simultaneamente por diferentes autoridades nacionais. O Departamento de Justiça norte-americano utilizou a legislação norte-americana para alcançar empresas estrangeiras, enquanto investigadores brasileiros conduziam processos e operações dentro do território nacional.
O que as novas informações recolocam em debate
A revelação de novos documentos em 2026 permite reconstruir com muito mais nitidez a extensão da presença norte-americana na história da Lava Jato.
Há registros de agentes do FBI no país. Há reuniões com integrantes da força-tarefa. Há mensagens demonstrando proximidade entre procuradores brasileiros e agentes norte-americanos. Há interesses jurídicos norte-americanos diretamente relacionados às empresas investigadas. Há mecanismos formais de cooperação entre os dois países. Há também episódios que levantam perguntas sobre a fronteira entre a cooperação oficial e os contatos informais.
A questão é saber como essa colaboração funcionou, quem a autorizou, quais regras foram observadas, quais interesses estavam presentes e qual foi o impacto dessa relação no golpe de Estado de 2016 e a estruturação de um sistema de corrupção para formar grupos de mídia e bandos digitais. Essa história ainda está longe de ter sido inteiramente contada.
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