Coletânea mostra vida de combate teórico de Maurício Grabois

Por Osvaldo Bertolino

Os textos aqui reunidos mostram um homem de combates. Um revolucionário que se guiava pela teoria, enfrentando cada etapa de sua trajetória com a força das ideias, até o momento em que foi silenciado pela brutalidade das armas da barbárie. Ao ser atingido mortalmente na Guerrilha do Araguaia, Sul do estado do Pará, na manhã chuvosa de 25 de dezembro de 1973, estava respondendo ao fogo do inimigo com o recurso disponível, um revólver calibre 38, mas seu gesto representou muito mais do que um simples ato de defesa.

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Ergueu-se, no combate final, o portador de uma história que essa coletânea revela como base de sua prática. A repressão calou a voz de um combatente, mas suas ideias não podem ser silenciadas. Agora, com esse livro, elas ganham mais amplificação, uma sistematização de aspectos dos combates do Partido Comunista do Brasil desde seus primeiros passos como protagonista da história brasileira. Emerge, da leitura desses textos, um cenário que as forças opressoras tentam invisibilizar como recurso para neutralizar seus efeitos.

Maurício Grabois, ainda na juventude, compreendeu que não se faz transformações sociais sem ideias, a máxima de Vladimir Lênin de que sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário. Assimilou cedo o primado de que as ideias ganham força material quando são sistematizadas e organizadas, a formulação leninista de partido revolucionário. Foi, sem dúvida, o que mais compreendeu esse princípio num momento em que o Partido Comunista do Brasil procurava sua afirmação como força política.

Sua produção teórica combina textos flamejantes, verdadeiras conclamações ao combate, com reflexões sobre a essência da teoria revolucionária, a superação de toda forma de opressão e exploração. Aparece, na sua produção, o olhar rigoroso para a realidade concreta, a começar pela conjuntura do entreguerras, a difícil tarefa de alinhar a ação política ao objetivo transformador, a clássica combinação de tática e estratégia, um exercício que exigiu rápida reinterpretação do papel dos agentes daquele cenário de grandes batalhas.

Com o instrumental teórico do marxismo-leninismo, Grabois despontou nessa tarefa como integrante da esquipe do jornal A Classe Operária e redator nas revistas Renovação e Continental. Em seus textos aparecem o nascimento e a evolução do conceito de “união nacional” – a tática do Partido à época – como caminho para a derrota do nazifascismo, num momento em que a máquina de guerra comandada por Adolf Hitler avançava furiosa. O presidente Getúlio Vargas, que liderou a Revolução de 1930 e o Estado Novo de 1937, regido por uma ditatorial Constituição outorgada, agora se aproximava da resistência democrática.

Era um mar de contradições, que exigia sagacidade para interpretar cada movimento de forma concreta. Grabois entendia que o momento exigia o fortalecimento da organização política que apontava a saída estratégica. Formou a Comissão Nacional de Organização Provisória (Cnop) e foi à luta para reunir quadros do Partido espalhados pelo país em torno de um projeto organizativo, a Conferência da Mantiqueira de 1943. Foi a ignição de uma nova fase da resistência democrática, com manifestações combativas dos movimentos estudantil e sindical, da intelectualidade e de setores da institucionalidade do Estado.

Grabois começou a aparecer como articulador político, um interlocutor com trânsito em diferentes setores sociais. A mudança no cenário político levou à anistia aos presos políticos do Estado Novo e a um vigoroso movimento de massas pelo estabelecimento da legalidade democrática, a campanha exigindo Assembleia Nacional Constituinte. Após a legalidade do Partido, proclamada em 23 de maio de 1945 no comício do Estádio de São Januário, do Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, Grabois fez discursos memoráveis sobre as possibilidades de transformações sociais pelo caminho da democracia.

Eleito constituinte, destacou-se com sua eloquência e visão política nos duros embates para a elaboração de uma Constituição que traduzisse e institucionalizasse os ideais da história de lutas do povo. Nos limites do jogo de força estabelecido, conseguiu, com seus camaradas de bancada e aliados, inscrever pontos progressistas essenciais na Constituição. Após a Constituinte, como líder da bancada comunista, mais uma vez ergueu-se com sua estatura intelectual e moral, agora contra a ofensiva da direita para pisotear o que havia sido conquistado na Constituinte.

Mesmo com a resistência, houve a cassação do registro e dos mandatos comunistas, em confrontos que foram verdadeiras lições de combates. Foi um período em que Grabois, além dos discursos como parlamentar, escreveu em profusão na imprensa do Partido e para eventos partidários. Seu pronunciamento de despedida da bancada comunista representou uma contundente denúncia do arbítrio que voltava a se manifestar, ao mesmo tempo em que anunciou a continuidade da luta histórica do Partido.

Apesar da mordaça do governo do general Eurico Gaspar Dutra, Grabois seguiu produzindo análises, que se intensificariam nos anos 1950. O momento era de redefinição tática, também numa conjuntura conturbada, a ofensiva anticomunista da “guerra fria”. Grabois foi buscar mais conhecimentos num curso de longa duração na União Soviética e na volta se mostrou preparado para os combates em defesa do Partido nos acontecimentos pós-XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS).

Novamente se mostrou um estrategista sagaz, que compreendia bem os compromissos táticos. O Partido, para ele, era um instrumento imprescindível, sem o qual não haveria transformações sociais. Precisava ser reorganizado, com base nos princípios norteadores da luta revolucionária, tarefa que assumiu com a mesma determinação de quando criou a Cnop. E assim prosseguiu, até o momento em que levou à prática sua vasta produção teórica nos combates do Araguaia, como um dos líderes políticos e comandante militar da Guerrilha. Caiu, de arma na mão, e com o peso de sua profícua vida de combates.

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Lula e o comunismo do seu Antônio em Maringá

Osvaldo Bertolino, Portal Vermelho, 26/1/2006

De férias, conversava com seu Antônio, um velho conhecido de 79 anos, na rica cidade de Maringá, Noroeste do Paraná. Lá pelas tantas, ele pergunta: “E o Lula, como está lá em São Paulo?” Respondo: “Parece que a sua popularidade reflete um pouco o resultado das eleições municipais. Nas imensas periferias historicamente abandonadas, ele é respeitado. Onde predominam as faixas médias, que ostentam alguma riqueza, o pessoal da direita, como sempre, nada de braçadas. Os ricos paulistanos, o senhor sabe, não gostam dos ‘interioranos’ — principalmente se eles são nordestinos. São Paulo é uma cidade muito preconceituosa.”

Seu Antônio coçou a cabeça e disse: “Sei lá, rapaz! O Lula fez um governo até que mais ou menos, mas se ele ganhar de novo aí entra o comunismo!” Eu pergunto: “Será?” Ele responde: “Entra porque o Lula vai trazer o José Dirceu de volta, que vai fazer a cabeça dele e aí já viu.” Seu Antônio traz no rosto as marcas do trabalho duro no campo e no semblante a desilusão por ver suas terras mecanizadas e por viver uma vida urbana que não lhe agrada. Ele acha que o país vai de mal a pior e por isso o comunismo está às portas dos brasileiros. Para seu Antônio, o ex-presidente João Goulart tentou implantar o comunismo e por isso veio o golpe militar de 1964 que produziu essa “bagunça que está aí”. “O Lula precisa tomar cuidado”, recomendou seu Antônio.

A falta de emprego

Tentei mostrar a ele que as passagens históricas similares ao cenário político atual tiveram como pano de fundo a propaganda anticomunista. Mesmo em desuso, esse figurino ainda dita a moda política da direita. Mas o problema maior, no qual está inserido o anticomunismo, é o desinteresse desses setores da sociedade pelo Brasil e pela maioria dos brasileiros. Disse ao seu Antônio: “Aqui mesmo em Maringá, que tem em seu entorno mais de dois milhões de habitantes e uma economia baseada num forte comércio alimentado por pequenas propriedades altamente produtivas, vi adesivos pela cidade criticando Lula. São, possivelmente, pessoas que se beneficiam como nunca da política macroeconômica que se alimenta das exportações e do agronegócio.”

Comecei citando a soja. Citei também a carne. E o suco de laranja. E os produtos metalúrgicos. Enquanto ia falando, seu Antônio reparou que todos esses produtos eram commodities, no seu vocabulário matérias-primas em estado bruto ou semiprocessadas. Ele disse: “Falta emprego, Osvaldo! Sem emprego não tem solução.” Argumentei que a presença tímida do Estado na economia brasileira desinstrumentaliza o esforço do governo para gerar empregos. Não pude mexer nas ideias preconcebidas (ainda que largamente verificáveis) com que seu Antônio compreende o Brasil e o lugar que ocupamos entre as outras nações. Afinal, os números que o país efetivamente produz — ou deixa de produzir — desabonam qualquer tentativa de rever a imagem de periferia, exotismo e ineficiência que ainda nos cobre.

Água e vinho no Sul

Apelei para a necessidade de uma efetiva reforma agrária. Lembrei que se dividirmos o estado do Rio Grande do Sul no sentido horizontal, teremos água e vinho, literalmente. A metade Norte do estado, colonizada por italianos e alemães, foi estruturada em minifúndios — assim como a maioria dos outros dois estados da região Sul, Paraná e Santa Catarina. Já a metade Sul do Rio Grande do Sul foi estruturada em grandes concentrações de terra — assim como a maioria do Brasil. Enquanto o Norte comemora a fartura com vinho — como a famosa festa da uva, em Caxias do Sul —, o Sul faz água com suas enormes estâncias cercadas de populações empobrecidas. Disse ao seu Antônio que esse quadro sulista é a um só tempo uma fotografia do que o Brasil tem sido e do que poderia ser.

As regiões das Missões, do Alto Uruguai e da Serra, ao Norte, assim como as regiões Norte, Noroeste e Oeste do Paraná, correspondem à ideia que o resto do Brasil faz do Sul: lavouras verdejantes, comércio forte, cidades em progresso. São lugares onde a fome, o analfabetismo e a mortalidade infantil não são tão escandalosos como em outras regiões do Brasil. Já as regiões da Campanha e das fronteiras Sul e Oeste do Rio Grande do Sul não guardam muita distância do que ocorre nos sertões de outras regiões do país. Essa fotografia social pode ser explicada pelo modo como aconteceu a colonização no Brasil.

Fronteiras latifundiárias

Enquanto os Estados Unidos atraíam imigrantes distribuindo a eles lotes de terra para que produzissem de modo autônomo, a elite brasileira decidiu resolver o problema da falta de trabalhadores promovendo uma imigração forçada de escravos como força de trabalho barata para os fazendeiros. Somente alguns trabalhadores puderam ter a própria terra, mas bem longe de onde o país estava estabelecido — primeiro no Rio Grande do Sul e Santa Catarina e depois desbravando matas no Norte, Noroeste e Oeste do Paraná. Nos anos 1970 e 1980, a ditadura militar empurrou muitas vítimas da concentração de terra para a Amazônia.

Seu Antônio lembrou que junto com elas foram muitos aventureiros que viram nesse gesto dos governos militares a oportunidade de expandir suas fronteiras latifundiárias para o Norte do país — cortando árvores e destruindo ecossistemas mais antigos do que a própria humanidade para plantar soja e criar gado. Muitos dos que foram para lá atrás de terra acabaram constatando logo que aquele solo não se presta à agricultura e sobrevivem do extrativismo predatório da floresta, derrubando árvores milenares para garantir pequenas plantações ou ganhando uma mixaria para jogar mercúrio nos rios em busca de minerais preciosos.

Legítimo mate paranaense

Disse ao seu Antônio que é fundamental o combate aos muitos fora da lei que dominam vastas regiões improdutivas. Mas que nada se fará enquanto essa ideia não for um posicionamento nacional claro e indiscutível. “Esse é o problema”, respondeu ele. Eu disse: “Um problema que não se limita ao campo. Toda nossa economia é altamente vulnerável. Já devíamos ter aprendido isso há muito tempo.” Lembrei que na quebra da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, o Brasil assistiu impotente à falência de seu comércio exterior, causada pela queda vertiginosa do preço internacional do café, o carro-chefe de nossas exportações à época.

Desde então, qualquer baixa nos preços de mercado dos produtos agrícolas que o governo não possa compensar comprando a safra a preços subsidiados acarreta em centenas de produtores queimando cebola ou derramando leite à frente de instituições federais. Uma cena que, além de desperdiçar alimentos e enfear as cidades, demonstra que alguns produtores brasileiros ainda não perceberam que a chave da questão é beneficiar seu produto de modo a não ficarem à mercê das cotações ditadas por Chicago, nos Estados Unidos, a famosa bolsa de mercadorias dos manipuladores dos preços de matérias-primas. Para tanto, precisamos de mais Estado na economia e mais mercado interno, coisas que a direita sempre usou para taxar seus defensores de “comunistas”. Seu Antônio riu e disse: Gostei disso, Osvaldo. Vamos tomar um tererê com legítimo mate paranaense.”

Eu fui à Bahia me despedir de Péricles de Souza

Por Osvaldo Bertolino

O falecimento de Péricles de Souza nesta sexta-feira, 05 de setembro de 2025, em Salvador, Bahia, representa uma daquelas perdas humanas de dimensão histórica. Enfrentou a doença de Parkinson, na luta pela vida, período em que iniciei a pesquisa para escrever a sua biografia, lançada no final de 2024. A tarefa me levou aos ambientes do Brasil e do mundo no ciclo iniciado na década de 1950, a atmosfera do pós-Segunda Guerra Mundial que levou a juventude à resistência às reminiscências do nazifascismo.

As cinzas do grande combate aos regimes que se projetaram sob as botas de Adolf Hitler se levantavam com nova forma, projetada pelo anticomunismo proclamado sobretudo por Herry Truman e Winston Churchill. Os genocídios estavam de volta, com as guerras da Coreia e do Vietnã e os banhos de sangue anticomunistas na Indonésia e na Tailândia. O Brasil foi arrastado para essa atmosfera com a chamada Doutrina Truman, abraçada incondicionalmente pelo governo do general Eurico Gaspar Dutra, abrindo o país para a doutrina da guerra imperialista com a criação da Escola Superior de Guerra, em 1949.

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Péricles cresceu nessa atmosfera e viu a juventude intensificando o combate à militarização da Cortina de Ferro, proclamada por Churchill, então primeiro-ministro britânico, num discurso enfaticamente anticomunista, dia 5 de março de 1946, no Westminster College, na cidade de Fulton, Missouri, Estados Unidos.

No Brasil, os jovens se mobilizaram contra a tentativa de enviar soldados à guerra da Coreia e sabiam que a atmosfera da anticomunista Guerra Fria tendia a militarização do governo, tentativas que se manifestaram contra os presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitscheck. As ameaças se intensificaram com a militarização da Cortina de Ferro para conter as ideias da luta de libertação da Coreia e do Vietnã, da Revolução Chinesa, em 1949, e da Revolução Cubana, em 1959, inspiradas na guerra popular contra o nazifascismo pela União Soviética.

A compreensão desses cenários foi a base para explicar o início da militância de Péricles na sua adolescência. Quando a intenção da militarização se concretizou, com o golpe de 1964, intensificando a brutal ofensiva imperialista na América Latina, Péricles estava nas trincheiras da resistência. A militância na Juventude Estudantil Católica (JEC) foi uma transição para ideias revolucionárias, consolidada na sua participação da fundação da Ação Popular (AP), em 1963.

Os estudos iniciados pela Doutrina Social da Igreja – o pensamento progressista católico – transitaram para o marxismo e, consequentemente, para a ideia da guerra popular de libertação nacional. Péricles foi para os estados do Pará e do Maranhão com essas ideias, assumidas pela AP. Na biografia, esse período é descrito com o alto grau de tensão e perigo daquela missão. Péricles se instalou na região com a esposa, Carmilce, e o filho Saulo.

Caçado pela ditadura, foi para São Paulo onde foi ativo integrante do grupo que fez a transição da AP para o marxismo-leninismo e a consequente incorporação ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em 1973. Péricles desempenhava uma função de alta responsabilidade – a segurança dos militantes, quando a repressão estava no auge e qualquer passo em falso poderia levar a prisões, torturas e mortes. Eram tempos de perseguição à Guerrilha do Araguaia, com uma sucessão de assassinatos brutais e caçada implacável aos comunistas. Em 1975, ele foi para Aracaju, Sergipe, reorganizar o Partido no Nordeste, agora integrado pela estrutura da AP.

Com a anistia de 1979, Péricles retornou a Salvador e foi o principal articulador do Partido na Bahia – ao lado de Haroldo Lima, seu contemporâneo do movimento estudantil no início da década de 1960 –, construindo os alicerces da grande projeção dos comunistas do estado. Sua autoridade moral, esculpida por profunda convicção revolucionária, desenvolvida no fogo das batalhas políticas e ideológicas, foi amplamente reconhecida por todos que participaram das pesquisas para a sua biografia.

A cordialidade, traço de Péricles que considero essencial para um revolucionário, marcou profundamente os membros do Partido que atuaram ao seu lado. Todas e todos ressaltaram essa característica, essencial para a sua militância agregadora e rigorosa com princípios e compromissos, a autoridade que se impunha pelo exemplo e pela força das ideias. Foi com essa cordialidade que fui recebido em Salvador pelos comunistas, dos dirigentes aos militantes de base.

Faço um agradecimento especial aos seus filhos – Saulo, Mariana e Jorge – e à sua esposa, Carmilce. Com emoção lembro as longas conversas, as trocas de informações, seus esforços para que a biografia tivesse o máximo de informações. O resultado é a descrição de Péricles como autêntico comunista, exemplo de revolucionário. O militante, o dirigente, o camarada, o companheiro, o filho, o irmão, o marido, o pai e o trabalhador incansável aparecem como traços de uma pessoa que viveu para o ideal da civilização, a luta pelo socialismo, e deixa um acervo inspirador aos que abraçam o mesmo propósito.

Quando a biografia foi lançada em Salvador, visitei Péricles no hospital, acompanhado por seu filho Jorge e dirigentes do PCdoB. Seu estado de saúde não impediu que ele interagisse com a nossa conversa, às vezes balbuciando algumas palavras, outras nos acompanhando com o olhar. Foi uma emoção especial saber que ele estava entendendo o que representava a sua biografia, da qual participou, com a leitura dos originais pelos filhos, manifestando alegria e confirmando a fidelidade dos fatos narrados.

Obrigado, camarada Péricles, por me proporcionar a oportunidade de contar, em sua biografia, tudo o que você foi! Até sempre!

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Leia a Nota do autor, publicada em sua biografia:

Eu fui à Bahia

Você já foi a Bahia? Não? Então vá! A obra-prima de Dorival Caymmi que instiga o conhecimento de um dos estados mais representativos da brasilidade é uma espécie de guia para se entender o que nenhuma outra terra tem, como diz a canção. “Tudo, tudo na Bahia faz a gente querer bem”, expressa Caymmi. Andando por Salvador, a sensação é de que se ouve essa música por toda parte. A baianidade transborda cordialidade e cultura, história e hospitalidade, traços comuns do Nordeste com especificidades locais. Em todo lugar tem um pedaço da raiz do Brasil. Com quem se fala, fica-se sabendo algo mais sobre a formação do povo brasileiro.

Nos últimos três anos, convivi quase diariamente com esse clima para escrever, simultaneamente, as biografias de Péricles de Souza e Renato Rabelo, baianos que marcaram a história de um período expressivo da luta do povo brasileiro. São, a rigor, continuadores de seus conterrâneos da Independência, das lutas abolicionistas e republicanas, agora num processo de resistência que busca caminhos para outro salto civilizatório. São intérpretes das aspirações populares, vidas dedicadas, desde a tenra juventude, ao ideal socialista.

Como lideranças da Ação Popular (AP) e do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Péricles e Renato têm em suas biografias parte considerável do acervo teórico e histórico dessa trajetória. Muitas passagens se repetem na narração por serem personagens protagonistas da mesma luta. Foi impossível falar de um sem citar outro, cada um em sua dimensão, paralelo nascido pela opção de enfrentar uma das situações mais tenebrosas da história do Brasil, num tempo em que os ecos do nazifascismo ainda ressoavam e se manifestavam na forma de uma série de golpes de Estado iniciada em 19 de maio de 1954 na Guatemala.

Novas formas políticas da ideologia da violência estavam em curso, uma cadeia de ações nascida no pós-Segunda Guerra Mundial e pronunciada de forma mais visível nas guerras da Coreia e do Vietnã. O horizonte se apresentava sombrio para aquela juventude que conhecia bem as ameaças de envolvimento do Brasil em guerras imperialistas e sabia dos perigos deste lado da anticomunista “cortina de ferro” proclamada nos Estados Unidos por Winston Churchill, então primeiro-ministro britânico, referindo-se à barreira ideológica e militar que passou para a história com o nome de Guerra Fria, inserida na chamada Doutrina Truman, o expansionismo autoritário do regime de Washington.

Conheci a luta e as ideias de Péricles e Renato movido pela inquietação da geração que despontou no final dos anos 1970 combatendo a já cambaleante ditadura militar. Péricles conheci pessoalmente fazendo pesquisas para a biografia de Pedro Pomar, liderança do PCdoB desde a década de 1930, assassinado pela ditadura em 16 de dezembro de 1976, publicada no centenário de seu nascimento em 2013. Conversamos por mais de uma hora na sede do Partido, em São Paulo, durante uma reunião do Comitê Central. Fiquei impressionado com a profundidade de suas análises, permeadas por críticas e autocríticas, num momento em que ainda estava em debate a renovação da teoria marxista, iniciada no PCdoB em seu VIII Congresso, de 1992.

Quando recebi o convite de Caio Botelho, então secretário de Formação e Propaganda do PCdoB-BA, para escrever esta biografia, imediatamente a conversa com Péricles me veio à memória. Sua voz pausada, acompanhada de gestos cadenciados, transmitia a serenidade contundente dos que manifestam convicção sobre o que falam. Foram palavras incisivas, que remetem à reflexão no lugar da exaltação, à interrogação sem exclamação, essenciais para a inquietação prospectiva. Ao mesmo tempo, transmitem cordialidade, característica própria da sabedoria revolucionária.

Vi esses traços de Péricles em todas as pessoas que entrevistei para esta biografia. Infelizmente não pude falar com ele, impedido por seu estado de saúde. Mas fiz amizade com seus filhos – Saulo, Mariana e Jorge –, que me auxiliaram do começo ao fim. Foram longas conversas virtuais na busca de informações, com trocas de opiniões e esclarecimentos de dúvidas. Observei neles as lições do pai, de contundência nas convicções, rigor ético e generosidade. Também não pude falar pessoalmente com a esposa, Carmilce, mas tive dela a inestimável colaboração em muitas passagens dessa história. Norlei, a irmã de Péricles, foi igualmente generosa com informações da família.

Menciono, de modo reverencial, Jorge Wilton e Ricardo Moreno por suas inestimáveis contribuições no desbravamento da história do PCdoB-BA, que muito facilitou meu trabalho para esta biografia. Memórias de uma esquerda em transição, de Jorge Wilton, é um extraordinário painel da trajetória dos comunistas baianos na travessia do combate à ditadura militar à consolidação de seu protagonismo político. Naquelas manhãs de segunda – a trajetória de Haroldo Lima, de Ricardo Moreno, relata com primor a vida e as ideias de uma das importantes lideranças políticas da história da Bahia.

Faço também agradecimentos especiais aos dirigentes, militantes e funcionários do PCdoB-BA, que dedicaram tempos preciosos para atender aos meus pedidos de entrevistas. Além de Caio Botelho – que escreve as orelhas deste livro –, faço um destaque para o presidente estadual do Partido, Geraldo Galindo, autor do Prefácio, que também assumiu a tarefa de fazer essa biografia vir à luz. Conversamos longamente no período em que estive pesquisando em Salvador, no começo de 2024 – quando tive o privilégio de presenciar a Festa de Iemanjá, em 2 de fevereiro, na companhia dos amigos e camaradas Itana Sampaio e Ricardo Moreno –, molhando as palavras com cerveja e cachaça, como ele diz no Prefácio.

Considero um imenso privilégio esse trabalho de resgate da memória do PCdoB. É um sonho que vem dos primeiros contatos com a história dos comunistas, no longínquo início da década de 1980. Pude iniciar esse trabalho somente no começo dos anos 2000, como membro da Comissão Estadual de Formação do PCdoB em São Paulo, liderada por Altamiro Borges, que me sugeriu escrever a biografia de Carlos Nicolau Danielli. As biografias de Renato e Péricles são a sétima e a oitava que escrevo. Escrevi também os trinta anos da União da Juventude Socialista (UJS), a trajetória do ressurgimento do sindicalismo brasileiro até a criação da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), a defesa da Guerrilha do Araguaia e a história do PCdoB no Rio Grande do Norte desde a década de 1920.

Como sempre, este é um trabalho coletivo. Participaram comigo, além dos entrevistados, o sempre parceiro e dileto amigo Luiz Manfredini, jornalista e escritor talentoso. Menciono também a colaboração de Fernando Garcia e Felipe Spadari, do centro de Documentação e Memória (CDM) da Fundação Maurício Grabois, e de Harlen Oliveira, que abriu as portas do PCdoB-BA para a minha pesquisa e providenciou o envio do material pesquisado para São Paulo. E agradeço a sempre confortante presença e apoio dos meus filhos, Murilo, Isabela e Lais, a quem dedico este trabalho.

São Paulo, setembro de 2024.

A música nas igrejas

Por Osvaldo Bertolino

A genialidade de algumas pessoas não deixa de ser intrigante. Em todas as atividades existem gênios que para os mortais comuns fazem coisas aparentemente inexplicáveis. Talvez seja por isso que a criação de deuses sempre foi uma prática, uma forma simples para explicar coisas complexas. Também nessa seara coisas geniais foram criadas. Uma delas é a diversidade musical. Verdadeiros prodígios se formaram em templos religiosos, em todas as partes do mundo.

O blues e o jazz nasceram no árduo trabalho nas colheitas e portos, e em dias de festas. Os escravos nos Estados Unidos cultivavam suas canções, ritmos e danças tradicionais, enriquecidos com as melodias dos hinos das igrejas protestantes. Eric Hobsbawm, em sua obra História social do jazz, descreve esse rico panorama da música popular do século XX.

O livro fala do jazz como um “hobby e paixão de uma grande legião de entusiastas” e “como parte da vida moderna”. “Se é comovente, é porque homens e mulheres são comoventes: você e eu. Se é um pouco louco e descontrolado, é porque a sociedade em que vivemos também é assim”, escreveu. O jazz é “apenas fruir da música e fazer com que outros também fruam enquanto ela é executada”, analisou.

No Brasil, há também um rico histórico da música nas igrejas. A Congregação Cristã no Brasil, por exemplo, tem o que é considerada maior orquestra do mundo. Em cada templo há um corpo de músicos, que interpreta as músicas sacras com uma harmonia que expressa a incrível criatividade do povo. Todos podem ser músicos na igreja, uma norma que desperta talentos por toda parte, alguns verdadeiros gênios com um instrumento nas mãos. Foi onde aprendi, ainda na primeira infância, os rudimentos da música erudita que me permitem tocar amadoristicamente diversos instrumentos.

Mas a minha interpretação para esse fenômeno não é espiritual. A religião simplesmente deu oportunidade para muitos desenvolver seus talentos. Esse é um dos motivos que me faz ter admiração por essas igrejas. Sem elas, a humanidade não teria essas maravilhas musicais. Pelo menos as que temos atualmente. Como já escrevi, tenho uma relação com a religião como a de Voltaire, contada pelo cronista Humberto de Campos.

Diz ele que o príncipe dos homens sem fé, andando em uma rua de Paris acompanhado de amigos, deparou-se com uma procissão. Ao se aproximar do andor em que se erguia a imagem de Jesus Cristo, o filósofo, com seu sorriso discreto e irônico, levou a mão à cabeça e tirou respeitosamente o chapéu. “Que é isso?”, indagou um amigo, estranhando a atitude daquele ateu confesso. “Virou amigo de Jesus?”, completou. “Não”, respondeu o autor de “Cândido”. “Nós nos cumprimentamos, mas não nos falamos.”

Falo das religiões sérias, não das seitas fundamentalistas e fascistas, a indústria do dízimo. Infelizmente, essas organizações criminosas que emporcalham o mundo cristão são as que mais crescem. E fazem lembrar outra pérola de Humberto de Campos, falando de um imaginário diálogo entre Jesus e Pedro sobre esses parasitas. A história adaptada para o Natal ficou bem apropriada para esses tempos de bestialidade bolsonarista.

Diz ele que a alegria era tão intensa cá embaixo que Jesus, abandonando a cadeira luminosa em que tem assento, à direita do Pai, se encaminhou para a entrada do Paraíso, onde Pedro cochilava pesadamente, com a cabeça encostada ao enorme livro de registro da portaria. “Simão Pedro”, chamou. Despertado subitamente, o antigo barqueiro de Genezaré esfregou os olhos com força, com as costas das mãos, sorriu de ser apanhado em flagrante, e, recompondo a barba alva, e a túnica tão alva como a barba, atendeu: “Pronto, meu Senhor.”

Ainda sonolento, ouviu: “Simão Pedro, eu teria gosto em ir ver, pela terra, o que fazem ali neste meu dia de aniversário. Parece que há grandes alegrias, e eu queria saber se todos, por lá, são felizes. Queres acompanhar-me?” Minutos depois, eram vistas pelas ruas de uma grande cidade, uma ao lado da outra, duas sombras suaves, que marchavam em silêncio, aparecendo e desaparecendo à claridade dos focos elétricos.

À porta de cada casa, mesmo das que se achavam fechadas, e que se abriam à sua simples aproximação, olhavam para dentro, e trocando ligeiras palavras imperceptíveis, continuavam o seu caminho. Aqui, era um palácio, todo enfeitado e festivo, jorrando ouro líquido e sonoro pelas janelas escancaradas; ali, a casa humilde, com a toalha clara, e, sobre a toalha, a consoada frugal dos pobres; adiante, a furna do mendigo sem mesa, sem toalha, sem pão.

Ao fim da rua, Jesus deteve-se, meditativo. “Simão Pedro?”, chamou de novo. “Meu senhor”, respondeu o porteiro do céu. “Achas que eu deveria voltar novamente ao mundo, para humilhar os soberbos e exaltar os humildes?”, indagou. Pedro teve um estremecimento: “Ah, meu Senhor! Não, nunca! Seria pior, muito pior!” Jesus ficou intrigado: “Pior, Simão Pedro?”

E ouviu: “Sim, meu Senhor. Da outra vez, tivestes um discípulo para vos vender e onze para vos salvar; e hoje tereis talvez um para vos salvar e setenta vezes sete os onze para vos vender. Os vermes da terra que corroem a fraternidade e a caridade, muitos se banqueteando em vosso nome, são milhões, talvez bilhões.” E ganharam, tristes, em silêncio, a porta de ouro do Paraíso.

Sobre o abandono dos humanos por Deus há ainda a história atribuída a Anatole France ao elogiar o abade Alfred Loisy, conhecido pelo historicismo que sistematiza nas ciências religiosas o afastamento do sobrenatural. O método põe em questão a história sagrada e suas origens divinas transmitidas pela tradição a partir dos textos sagrados. Loisy dirigiu o famoso Collège de France, substituindo o renomado Ernest Renan. Considerado modernista, acabou excomungado em 1908.

Humilde na sua sabedoria, escreve Humberto de Campos, o eminente sacerdote vivera, sempre, afastado da agitação do mundo, preferindo, em vez da missão de amansar ovelhas humanas, criar frangos de raça em uma pequena propriedade às margens do rio Sena. Cético, o interesse de Anatole France por um membro do clero causava rumores.

Numa homenagem a Loisy, ele falou sobre a sua missão no lugar de Renan: “Para a vaga de um santo, só Deus. E monsenhor Loisy me recorda o primeiro Deus, na sua sabedoria.” Como Deus sobre os homens, monsenhor Loisy velava sobre as galinhas. “Depois, mata-as. Monsenhor Loisy é, mesmo, superior a Deus, pois come as suas vítimas. Deus não tem, sequer, essa desculpa.”

Um dia frio e um bom lugar para se ouvir Luis Fernando Veríssimo

Por Osvaldo Bertolino

Um talento pouco valorizado de Luis Fernando Veríssimo, que acaba de falecer em Porto Alegre, é o musical. São raros os registros fotográficos e audiovisuais dele com seu saxofone. Esse talento era uma das facetas de minha admiração por ele. No geral, tenho grande identificação com a sua história. A diferença é a dimensão dos talentos – ele foi gênio, sem hipérbole, em todas as artes a que se entregou. Assim como ele, comecei tarde no jornalismo – premido pelas dificuldades econômicas, ao contrário dele, que foi por opção –, ofício pelo qual eu tenho obsessão desde quando aprendi que o mundo é grande.

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Veríssimo dizia que a fase de filho de pai rico terminou em pouco tempo, por falta de vocação para playboy e de pai rico. Filho do renomado escritor Érico Veríssimo, enveredou pelo mesmo caminho, também tardiamente. Eu me tornei escritor também tardiamente. Ele gostava de gol do Internacional de Porto Alegre, eu do Santos Futebol Clube. E foi aprender saxofone quando morou nos Estados Unidos numa escola de música, enquanto eu aprendi clarinete, amadoristicamente, observando outros músicos e tomando lições teóricas de conhecidos.

Também na timidez me identifico com ele. Com o passar do tempo fui rompendo algumas barreiras, mas ainda carrego um peso enorme toda vez que preciso frequentar ambientes alheios à minha convivência. Veríssimo estampava timidez em seu falar, no olhar e nos gestos. Talvez seja por isso que falava das mulheres com tanta elegância e conveniência, como numa referência à atriz Patrícia Pillar. “O pudim de laranja é a única prova convincente da existência de Deus. Além da Patrícia Pillar, claro”, disse.

Veríssimo deixa uma galeria de frases que são ontologias de humor, inteligência e perspicácia. Quando Lula ganhou as eleições presidenciais de 2002, ele escreveu que acabava a era dos Bragança e começava a dos Silva. Depois disse que o governo Lula era decepcionante: decepcionou os que imaginavam que ele mudaria tudo e decepcionou os que imaginavam que ele não mudaria nada.

Repetia a frase Dura lex, sed lex (a lei é dura, mas é lei), no cabelo só gumex (do teatro de Vianinha) para ironizar os economistas engomados de cabelos emplastrados da “era FHC”, segundo ele neoliberais apropriadamente chamados de time de cobras, bicho desunido e dissimulado, frustrado por não poder passar a perna um no outro. Era uma crítica à “austeridade fiscal” e suas leis discricionárias, como a Lei de Responsabilidade Fiscal, criada para blindar a roubalheira neoliberal via taxa de juros do Banco Central.

Certa vez, acompanhando um congresso da Associação Nacional de Transporte Público (ANTP), num dia muito frio em Porto Alegre, soube que ele tocaria em público no shopping Moinhos de Vento. Peguei um táxi e fui bater lá. Veríssimo estava no saguão com seu saxofone e poucas pessoas assistindo. Num determinado momento ele notou meus aplausos e me agradeceu. Conversamos por alguns minutos, tempo suficiente para ele saber tudo o que eu acho dele. Adeus, mestre! Obrigado por me ensinar tanto!

A fênix comunista de João Amazonas

Por Osvaldo Bertolino

Em duas conferências do Partido Comunista do Brasil  – de 1943 e de 1962 –, os comunistas recomeçavam praticamente do zero, uma atividade de construção e reconstrução do Partido que João Amazonas comparava à mitológica fênix, a ave da literatura grega que renasce de suas cinzas.

O sorriso largo não deixava dúvida. João Amazonas estava feliz ao receber uma placa homenageando seus quase sessenta e sete anos de militância comunista, perto de completar quarenta anos como principal dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Pouco antes, estivera na tribuna do X Congresso do Partido, realizado entre 9 e 12 de dezembro de 2001 no Centro de Convenções Riocentro, Rio de Janeiro, para apontar, com voz serena e embargada, Renato Rabelo, então vice-presidente, como seu substituto. A quarta geração de dirigentes estava assumindo o comando do Partido.

Os mais de oitocentos delegados, representando em torno de duzentos mil filiados, além dos convidados e trinta e duas delegações estrangeiras, ouviram, em silêncio absoluto, Amazonas dizer que Renato era um bom camarada, que vinha se destacando no Partido e procurando seguir suas tradições de luta.

Em pé, trajando terno e gravata, com as mãos apoiadas na mesa, Amazonas falou, num breve discurso, que completaria noventa anos de idade em 1º de janeiro de 2002 e não tinha mais condições físicas para ocupar o cargo máximo da direção partidária. Pediu aos seus camaradas dispensa da função. Não havia cargo vitalício no PCdoB, mas não estava pedindo aposentadoria, comunicou. Queria morrer em sua banca de trabalho, continuando a luta pelos ideais que procurou defender durante a vida. Seguiria membro do Comitê Central, agora no simbólico posto de presidente de honra.

Agradeceu pelo apoio que sempre teve “nas fileiras do glorioso e heroico Partido Comunista do Brasil” e virou-se para a esquerda, onde estava sua companheira de jornada, Elza Monnerat. Sentou-se lentamente. Com o gesto, retirou-se simbolicamente do posto que ocupava desde 1962, quando o Partido foi reorganizado. Às suas costas, um painel do Congresso ostentava as imagens de Karl Marx, Friedrich Engels e Vladimir Lênin.

Maiores responsabilidades

Na passagem de comando para Renato, Amazonas destacou o papel dos camaradas da direção coletiva na sua geração, dos quais lembrava com saudades e respeito pela sua combatividade. Citou Maurício Grabois, Pedro Pomar, Lincoln Oest, Carlos Danielli, Ângelo Arroyo, Luís Guilhardini e outros tantos que pagaram alto preço pela coragem de desafiar um regime de traição e brutalidade – a ditadura militar – para defender os interesses do povo.

Com os assassinatos daqueles camaradas, coube a ele maiores responsabilidades. O ingresso de Renato e outros dirigentes da Ação Popular (AP) no Partido, no começo da década de 1970, reforçou a direção. Foram recebidos com entusiasmo. Estavam entrando para o PCdoB em um momento de alto risco, quando a repressão atacava ferozmente os comunistas. A caçada aos que, de uma forma ou de outra, estavam ligados à Guerrilha do Araguaia era uma obsessão da ditadura militar.

Começava ali o trajeto que levaria à quarta geração de dirigentes, reunindo remanescentes da incorporação da Ação Popular e novas lideranças. Quando Renato ingressou no PCdoB, encontrou na direção quadros experientes, marcados por combates que vinham dos anos 1930. Não conheceu Grabois, morto em ação armada na Guerrilha do Araguaia, mas foi recebido por Amazonas, Pedro Pomar e Elza Monnerat, sobreviventes das matanças promovidas pela ditadura e antigos dirigentes comunistas.

Guerrilha do Araguaia

Amazonas ingressou no Partido em Belém do Pará, sua terra Natal, onde fora preso em atividades da Aliança Nacional Libertadora (ANL), que organizava o Levante de 1935, assim como Pomar. Elza Monnerat viera do Rio de Janeiro. Ingressara no Partido em 1945. Foram lideranças da reorganização de 1962, quando o Partido enfrentou um surto revisionista e reformista, processo iniciado em 1956 sob o influxo do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS).

Com o golpe de 1964, diante da quase impossibilidade da luta revolucionária nas cidades, foram para o campo organizar a guerra popular, o caminho da luta armada, a resistência à ditadura. Amazonas e Elza sobreviveram à repressão à Guerrilha do Araguaia, no Sul do Pará. Pomar esteve em diferentes regiões do Norte e do Nordeste. Fixou-se no Vale do Ribeira, organizando bases da guerra popular nas montanhas do Sul do estado de São Paulo, e seria morto na Chacina da Lapa, em 16 de dezembro de 1976.

Amazonas assumiu a liderança da terceira geração de dirigentes, em 1962 – ao lado de Maurício Grabois, Pedro Pomar e outros –, com a experiência de membro do Comitê Central desde a Conferência da Mantiqueira, de 1943, assim chamada por ter sido realizada nas proximidades da serra com esse nome, numa casa de taipa, moradia de uma propriedade rural que pertencia a um militante comunista, no meio da mata, em Engenheiro Passos, distrito de Resende, Sul Fluminense, entre 28 e 30 de agosto de 1943. Nela, o Partido foi reconstruído após a feroz perseguição do Estado Novo, instaurado com o golpe de 1937.

Sua militância política começou na “Ala Moça” da União Popular do Pará (UPP), uma frente única organizada para participar das eleições municipais de Belém em 30 de novembro de 1935. O passo seguinte seria o ingresso no Partido Comunista do Brasil, tendo como caminho a ANL, organizadora do Levante de 1935, liderada por Luiz Carlos Prestes. Ingressou também na União dos Proletários.

Primeira prisão

Quando a ANL surgiu com força no país, Amazonas participou de uma ação ousada ao içar, à noite, uma bandeira da organização nos mastros dos reservatórios de água da Lauro Sodré, local com ampla visibilidade na cidade, com vinte metros de altura. O jornal Folha do Norte de 19 de dezembro de 1935 noticiou o fato notado pelo público desde a manhã do dia anterior. Os participantes do protesto escreveram, segundo a Folha do Norte, com tinta arroxeada, várias inscrições – como Viva Luiz Carlos PrestesViva a ANL e Viva o comunismo.

Na repressão que se instalou no país após o Levante, Amazonas foi preso na Cadeia de São José, descrita pela Folha do Norte como “um antigo e inqualificável pardieiro, uma ignomínia”. Um ano depois, a Justiça mandou soltá-lo, quando terminou o estado de guerra. Mergulhou na clandestinidade, mas logo seria preso novamente.

Segundo o inquérito que determinou a sua prisão, nas palavras da Folha do Norte, “João Amazonas agia no preparo de matrizes e boletins subversivos da propaganda moscovita, matrizes que eram entregues a Pedro de Araújo Pomar, detido há dias passados”, encarregado “de mimeografá-los em grande quantidade para os espalhar sorrateiramente pelos bairros da cidade”. Eram “pouquinhos, mas teimosos os adeptos do credo sinistro”.

Células nas empresas

Foram para a prisão de Umarizal, em Belém, de onde fugiram e, numa longa e penosa viagem, chegaram ao Rio de Janeiro para se juntar aos comunistas que reconstruíam o Partido, ainda na vigência do Estado Novo, liderados por Maurício Grabois. A decisão foi tomada após a informação de que a Alemanha nazista invadira a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 22 de junho de 1941. Fugiram em 5 de agosto. Chegaram ao Rio de Janeiro e se integraram à Comissão Nacional de Organização Provisória (CNOP), criada por Maurício Grabois e outros comunistas para reestruturar o Partido desarticulado pelo Estado Novo.

Amazonas empregou-se como auxiliar de contabilidade, no centro da cidade. Era uma forma de fazer algum recurso enquanto a CNOP pavimentava os caminhos para o início de uma nova jornada. Logo foi para Minas Gerais. Recebeu alguns mil-réis e a passagem de trem que o levaria para as terras onde deveria fazer rebrotar as raízes comunistas. Outro ponto visitado por Amazonas foi a Bahia, de onde partiu o dirigente Diógenes Arruda Câmara para se integrar à CNOP. O objetivo era realizar uma Conferência Nacional e eleger um Comitê Central.

Os comunistas ressurgiam com força, presentes em organizações como a União Nacional dos Estudantes (UNE), a Associação Brasileira de Escritores (ABDE), além da Liga de Defesa Nacional – uma frente com vários departamentos, entre eles o sindical, assumido por Amazonas, embrião do Movimento Unificador dos Trabalhadores (MUT). O Partido priorizava a organização de células nas empresas, formando uma grande base de trabalhadores.

Contra o liquidacionismo

De 1941 a 1945 foram anos de luta aguda contra o liquidacionismo – os que pretendiam liquidar o Partido, dissolvendo-o numa frente contra o nazifascismo –, disse Amazonas. “É preciso dizer que a desvantagem era grande. Vencemos porque a verdade estava do nosso lado”, afirmou. A nova equipe que assumia a defesa do Partido – registrou Amazonas – eram pessoas desconhecidas quase completamente. “Afinal, essa nova equipe – Arruda, Grabois, Pomar, eu etc. – eram pessoas que não tinham nenhuma posição no Partido, na época, a não ser locais, naqueles lugares onde tínhamos atuado.”

Na Conferência da Mantiqueira Amazonas assumiu a Secretaria Sindical e de Massas. A direção eleita contava também com Grabois, Pomar, Arruda, José Medina Filho, Álvaro Ventura, Jorge Herlein, Francisco Campos, Agostinho Dias de Oliveira e Lindolfo Hill.

Naquele processo, o encontro de Amazonas, Pomar, Grabois e Arruda representou as fundações de uma nova fase do Partido Comunista do Brasil. A meta era enterrar a ditadura do Estado Novo e liquidar o nazifascismo. Em 9 de agosto de 1943, o governo do presidente Getúlio Vargas decidiu organizar a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Segundo Amazonas, os comunistas foram os primeiros a reivindicar a participação militar do Brasil na Segunda Guerra Mundial. “E o fizemos de maneira consequente”, constatou.

Os comunistas lideraram grandes manifestações para redemocratizar o país, defendendo uma Assembleia Nacional Constituinte, principalmente após a legalidade, em meados de 1945. Amazonas foi eleito deputado constituinte, o mais votado do Distrito Federal, sediado então no Rio de Janeiro. Depois da cassação do registro do Partido – em 1947 – e dos mandatos comunistas – em 1948 –, voltou à clandestinidade.

Via prussiana

No debate deflagrado pelas mudanças do PCUS, Amazonas foi um dos primeiros a se pronunciar. Seu primeiro artigo, intitulado As massas, o indivíduo e a história, publicado no jornal Voz Operária em 26 de janeiro de 1957, contestou duramente a base dos argumentos daqueles que iniciaram os ataques ao Partido Comunista do Brasil, então com a sigla PCB. Disse que eram as massas que faziam a história, mas “não se pode concluir que seja nulo ou insignificante o papel das personalidades”.

Amazonas voltaria a escrever em 2 de fevereiro de 1957 para defender a ideia de que “o Partido Comunista elabora sua orientação e enriquece seus princípios coletivamente”. “Isso dá ao Partido do proletariado uma grande vantagem sobre os partidos burgueses”, asseverou.

Nos debates do V Congresso, em 1960, também inovou ao abordar o desenvolvimento do capitalismo no Brasil pela via prussiana (as análises de Marx e Engels sobre o desenvolvimento capitalista no espaço da Prússia e do que viria a ser a Alemanha sem alterações na propriedade da terra).

Segundo ele, as Teses do Congresso se equivocavam ao definir “que as contradições entre o desenvolvimento do capitalismo e o monopólio da terra são antagônicas”. “O capitalismo, seguindo o caminho prussiano, pode se desenvolver no campo, conservando o latifúndio. Pode também o capitalismo crescer, substituindo a dependência do país ao imperialismo”, escreveu. “Não é o crescimento do capitalismo que leva à independência e às transformações democráticas, como se afirma implicitamente nas Teses.”

Unidade do Partido

Os debates do V Congresso evoluíram para o “racha” e a reorganização. No jornal do Partido A Classe Operária, Pomar fez uma minuciosa análise dos acontecimentos que levaram à reorganização, revelando nuances daquela batalha. Os que assumiram o controle partidário elaboraram um novo Programa e novo Estatuto para a criação de outro partido, o Partido Comunista Brasileiro, que assumiu a sigla PCB. Segundo Pomar, toda a atividade pretérita dos comunistas se transformou em alvo de zombaria. Era acusada, em todos os aspectos, de ser sectária e dogmática.

A atitude revoltou os comunistas que combateram a linha vitoriosa no V Congresso. Imediatamente enviaram à nova direção um documento denominado Em defesa do Partido, com cem assinaturas – que ficaria conhecido como Carta dos cem –, solicitando a revogação das mudanças anunciadas. O documento classificava as medidas como uma “violação frontal dos princípios partidários, aberta infração das decisões do V Congresso (que) ferem a disciplina e atingem a própria unidade do Partido”.

De acordo com o documento, “as mudanças feitas no nome, no Programa e nos Estatutos objetivam o registro de um novo partido e, por isto, se suprime tudo que possa ser identificado com o Partido Comunista do Brasil, de tão gloriosas tradições”. “Ora, precisamente o partido que deve conquistar a legalidade é o Partido Comunista do Brasil e não um arremedo de partido de vanguarda do proletariado”, asseverava.

Guerra popular

A resposta do Comitê Central foi, como destaca Pomar, de intolerância a toda prova. “Entrou pelo terreno das sanções disciplinares, da acusação de divisionismo, até o ponto de pretender expulsar do movimento comunista honrados lutadores da causa revolucionária do proletariado. Assim, os reformistas consumavam o divisionismo no movimento comunista. Não restava outro recurso aos que se mantinham firmemente nas posições revolucionárias do marxismo-leninismo senão o da convocação de uma Conferência extraordinária do Partido Comunista do Brasil que tratasse, fundamentalmente, da sua reorganização diante das graves consequências da política e dos métodos aplicados pelos revisionistas.”

Após o golpe militar de 1964, o Partido, agora com a sigla PCdoB, começou a estudar o caminho da guerra popular. “Em toda parte, em especial no campo, é preciso discutir os problemas da luta armada e, guardadas as normas de trabalho conspirativo, tomar medidas visando à sua preparação prática”, diz o texto da VI Conferência, de 1966. O PCdoB saiu a campo à procura dos melhores lugares para instalar a guerrilha, com três grupos de trabalho – um dirigido por Amazonas e Grabois, outro por Pedro Pomar e Ângelo Arroyo, e um terceiro por Carlos Danielli.

Amazonas se integraria ao Araguaia, Sul do Pará, onde Grabois e outros militantes do PCdoB desenvolviam o trabalho da guerra popular. Na ocasião, Amazonas e Grabois escreveram dois importantes documentos: A atualidade do pensamento de Lênin e Cinquenta anos de luta, sobre a história do Partido Comunista do Brasil.

Eleições presidenciais

Ele trabalhou a sua sucessão com a dedicação de sempre. Envolveu o coletivo dirigente no processo e fez a transição seguro de que seus métodos como principal liderança do Partido garantiriam a continuidade da marcha revolucionária iniciada em 1922.

Uma de suas principais preocupações, naquele momento, era a tática para as eleições presidenciais de 2002. João Amazonas defendia, desde a campanha de 1989, quando se formou a Frente Brasil Popular (PT, PCdoB e PSB) liderada pelo candidato presidencial Luiz Inácio Lula da Silva, que, nas condições brasileiras, inseridas na conjuntura da América Latina e do mundo, seria muito difícil a esquerda sozinha ganhar eleições presidenciais.

Ficou contente quando soube que Lula, na articulação de sua quarta campanha, procurava ampliar a frente. Disse-lhe pessoalmente, na sede do PCdoB, em São Paulo – a última vez que se encontraram –, que a escolha de José Alencar para seu vice era uma boa decisão. Amazonas não chegou a ver a vitória de Lula nas eleições de 2002 – faleceu, cinco meses antes, de causas naturais, no dia 27 de maio de 2002.

Todos os golpes se parecem, inclusive o de Bolsonaro e o da mídia

Por Osvaldo Bertolino

O nazifascismo entra na sociedade ou ele nasce na sociedade? Eis uma questão definidora para o entendimento dos processos sociais que se radicalizam. A resposta mais fácil, aparentemente óbvia, é de que organizações extremistas estão sempre à espreita para se infiltrar em uma determinada situação e impor seus ditames, como se elas tivessem um programa específico e uma espécie de manual a ser aplicado. No caso das hordas de Jair Bolsonaro, é possível ver essa avaliação em muitos lugares. Os fatos demonstram o contrário.

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Seus métodos são comparados aos do golpe militar de 1964 e dos integralistas, a facção de extrema-direita que dividiu com os comunistas as iniciativas radicalizadas da década de 1930, quando houve o levante da Aliança Nacional Libertadora (ANL) em 1935 e o ataque ao governo de Getúlio Vargas seis meses após o golpe do Estado Novo de 1937 — com participação ativa dos integralistas —, mesmo ano da publicação do livro do historiador Hélio Silva intitulado Todos os golpes se parecem.

Naquele tempo, o mundo se defrontava com a ascensão do nazifascismo, resultado da grande crise do capitalismo iniciada no final do século XIX e suas barbáries na Primeira Guerra Mundial, quando o mundo se deparou com o desafio de evitar outras tragédias daquela dimensão, esperança que emergiu com a Revolução Russa de 1917, que trouxe para a cena histórica a primeira grande experiência de uma sociedade socialista, o ideal de justiça social.

Cervejaria de Munique

O prelúdio do que estava por vir foi a guerra civil na Rússia logo após a Revolução, quando as potências capitalistas intervieram naquele país para dar mais um banho de sangue e tentar matar no nascedouro a aplicação do projeto socialista. O insucesso fez o capitalismo adotar novas formas anticomunistas, baseadas numa brutal propaganda ideológica, profusões de calúnias para semear a ideia de que na Rússia surgia um movimento que destruiria a humanidade, as raízes do nazifascismo referenciadas na ideologia dos impérios que se digladiaram na Primeira Guerra Mundial.

O Brasil, ainda sob forte dominação das oligarquias escravistas, estava no centro dessas contradições. Havia inquietações das camadas médias e dos trabalhadores com aquela situação, que deram origem aos movimentos tenentistas, ao Partido Comunista do Brasil, em 1922, e a Coluna Prestes. Os acontecimentos da década de 1930 refletiam essas tendências. Após a Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas, os veios se condensaram, resultando no Levante da ANL contra o avanço do nazifascismo.

A ataque integralista foi uma tentativa de tomar as rédeas do golpe de 1937, algo como a tentativa de Adolf Hitler de derrubar a República de Weimar na noite de 8 para 9 de novembro de 1923 na cervejaria de Munique. Na Alemanha e no Brasil, as condições para aquele tipo de ação não estavam dadas. Hitler pavimentou sua chegada ao poder se valendo das fraquezas econômicas e políticas do capitalismo e do forte anticomunismo do pós-Revolução Russa e provocou a Segunda Guerra Mundial com o objetivo de instaurar a “nova ordem” de um império único mundial, o Terceiro Reich.

Ecos do socialismo

Os integralistas se enfraqueceram e foram praticamente anulados pelos movimentos de Vargas a favor dos aliados na Segunda Guerra Mundial contra o eixo nazifascista (Alemanha, Itália e Japão). A derrota do nazifascismo pelos comunistas exigiria do capitalismo nova configuração, surgida com o expansionismo do seu epicentro emergente das cinzas da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos, que saíram ilesos daquele grande conflito por estarem distante do teatro da guerra e impuseram sua ordem, baseada na mesma retórica anticomunista, agora denominada de “cortina de ferra”, a “guerra fria”.

Nessa nova configuração, também voltada para a tentativa de matar o socialismo sobretudo onde ele surgiu em 1917, a poderosa União Soviética que, por não ter sofrido os efeitos da grande crise do capitalismo, transformou-se rapidamente em superpotência econômica e militar. A conflagração do pré-Segunda Guerra Mundial estava de volta e novamente o Brasil foi atingido, com a chegada ao poder do grupo que se aproximara do nazifascismo no governo Vargas, liderado pelo ex-ministro da Guerra do Estado Novo e presidente eleito em 1945, general Eurico Gaspar Dutra.

O registro do Partido Comunista do Brasil foi cassado em 1947 e seus mandatos parlamentares em 1948. O capitalismo voltou a usar os métodos da violência intervencionista com os genocídios na Coreia e no Vietnã para conter, além da influência das ideias da União Soviética, que formaram o bloco de países de democracia popular no Leste Europeu, o eco do socialismo da Revolução Chinesa de 1949. Com a mesma finalidade, deram banhos de sangue anticomunistas também na Indonésia e na Tailândia.

Padrão ouro

Na América Latina, a influência das ideias socialistas igualmente representava um obstáculo, sobretudo após a Revolução Cubana de 1959. Os golpes de Estado na região começaram com a deposição do presidente da Guatemala, Jacobo Arbenz Guzmán, em 19 de maio de 1954, acusado de adotar medidas de “tendências comunistas”. O principal desses golpes foi o do Brasil em 1964, organizado e programado pela Escola Superior de Guerra, criada em 1949, no governo Dutra, seguindo os moldes da anticomunista cartilha do governo Harry Truman, dos Estados Unidos, a Doutrina Truman.

O fim do socialismo fez o então principal líder político do capitalismo, o presidente estadunidense George Bush, proclamar, literalmente, o triunfo de uma “nova ordem”, também baseada em ácida retórica anticomunista. Desde então, o que se viu foi o capitalismo se radicalizar, tendência que vinha das crises da década de 1970 e do projeto neoliberal adotado pelos governos de Margareth Thatcher no Reino Unidos e Ronald Reagan nos Estados Unidos, e chegou às hostilidades à China, o novo epicentro do projeto socialista.

No Brasil, os efeitos dessas crises se manifestaram pelo fracasso do “milagre econômico” da ditadura, que recebeu de portas abertas o excedente de dólares no mundo – os petrodólares -, no contexto do abandono, pelo presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, e seu secretário de Estado, Henry Kissinger, do padrão ouro internacional, que se desdobraram em graves problemas sociais e políticos, sobretudo nos anos 1980, o drama da dívida externa.

Impulso democrático

O fim da ditadura militar, a Constituinte e a Frente Brasil Popular (PT, PSB e PCdoB), que quase levou Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da República em 1989 – um susto para a direita, a expressão política do capitalismo –, suscitou novas formas de golpismo. A própria eleição de Fernando Collor de Mello contra Lula foi resultado dessa nova ofensiva golpista, processo centrado numa violenta guerra ideológica comandada pela mídia, de fundo anticomunista, e na pregação goebbeliana do neoliberalismo.

O impeachment de Collor e o cerco ao vice, Itamar Franco, que assumiu a Presidência da República, demarcou o começo de mais um ciclo de manobras golpistas, iniciado com a tentativa de revisão constitucional de 1993, que, na prática, revogava a essência da Constituição de 1988, fortemente influenciada pelas lutas democráticas contra a ditadura militar. O impulso democrático da década de 1980 levou a um combate sem trégua ao neoliberalismo nos governos de Fernando Henrique Cardoso e à eleição de Lula em 2002.

O projeto neoliberal também vinha do impulso da “nova ordem” de Bush e ganhou força nos governos de Bill Clinton e de George W. Bush – filho de George Bush –, com as práticas de sempre, de guerras e golpes, e ocupou espaços no governo Lula, sobretudo na gestão do ministro da Fazenda, Antônio Palocci, e no longo reinado do banqueiro Henrique Meirelles no Banco Central. Mas o centro das tramas golpistas era a mídia, que amplificou ao máximo as manobras que levariam à farsa do “mensalão” e à formação da quadrilha da Lava Jato, liderada por Sérgio Moro.

Militares envolvidos

Esses movimentos extremistas, que chegaram fortes aos governos da presidenta Dilma Roussef, foram os responsáveis pelo golpe do impeachment fraudulento de 2016. Neles estava o bolsonarismo, o pronunciamento do anticomunismo escancarado, seguindo o exemplo dos integralistas, do grupo de Dutra e das hordas de 1964. Bolsonaro e seus asseclas são restos dos esgotos da ditadura militar que se misturaram às quadrilhas da farsa do “mensalão” e da Lava Jato e se elegeram em 2018 abertamente apoiados por todo o espectro da direita.

Esse ciclo está inconcluso. O desmascaramento da quadrilha de Sérgio Moro e a ultrapassagem por Bolsonaro da linha demarcada para seu governo, que deveria se ater às decisões do seu ministro da Fazenda, o troglodita neoliberal Paulo Guedes, fortaleceram a candidatura de Lula em 2022, vitoriosa com margem apertada. A frente ampla que se formou para a sua eleição incluiu setores golpistas – sobretudo a mídia – que deram um passo atrás com o propósito de emparedar o governo ou inviabilizá-lo e assim impedir a sua reeleição, um ativismo em franco andamento.

A tentativa de golpe por Bolsonaro foi a repetição das ações de Hitler na cervejaria e dos integralistas em 1938, todos com militares envolvidos. Elas não estavam no curso do golpismo, que viria de outra forma, com eles ou outros atores. Na atualidade, a radicalização do capitalismo busca outras formas golpistas, processo que anula a opção bolsonarista, que serviu a um propósito específico e agora representa um empecilho ao projeto da direita. Ou seja: a essência da luta política vai muito além do combate ao bolsonarismo.

Gabriel Galípolo e os vendedores de “rabinho de coelho” no Banco Central

Por Osvaldo Bertolino

A cadeira de presidente do Banco Central, nos moldes atuais, é lugar de autocrata. E o atual presidente, Gabriel Galípolo, incorporou essa prática, conforme tem se revelado numa série de entrevistas com próceres do Plano Real no Youtube para comemorar os sessenta anos do Banco Central e, segundo ele, trazer sorte para a sua gestão. Suas interações ultrapassam os limites da parcimônia e omitem as barbaridades daquela trupe contra o povo e o país.

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Galípolo assume a “legitimidade” do cargo sem mandato constitucional e popular, apesar da controvertida decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que declarou a legalidade da “independência” do chamado “guardião dos valores do Brasil”, também designado como “autoridade monetária”, com a ressalva de que “é fato induvidoso que a questão da autonomia do Banco Central divide opiniões”.

Esse poder autocrático representa interesses muito bem definidos. Ele opera o principal mecanismo de controle da riqueza produzida, a circulação monetária. Quem controla o dinheiro, a mercadoria espelho de todas as outras, tem plenos poderes sobre as políticas do país, uma anomalia do Estado Democrático de Direito, que rege os programas de governo, inviabilizados quando sua essência são investimentos públicos em infraestrutura e políticas sociais.

Cenário sem horizonte

O controle do dinheiro é o cerne do poder capitalista, hoje na forma de remuneração por juros já chamados de pornográficos, parasitando o orçamento público e submetendo todos ao seu designo, inclusive o Estado e suas instituições. É o esteio do projeto neoliberal, a ideia de que o velho liberalismo de Adam Smith triunfou sobre as teorias que se apresentaram como alternativas às mazelas do capitalismo. Socialismo, socialdemocracia e keynesianismo teriam fracassado, dando razão aos dogmas liberais.

A tese não se sustenta diante dos fatos. O projeto neoliberal é uma alternativa ao próprio fracasso do liberalismo, liquidado quando os ideais de livre circulação de capitais e de mercadorias foram inviabilizadas pela corrida às matérias-primas e à força de trabalho, a competição entre grupos econômicos pelo controle de territórios, povos e países, traduzida pelas guerras, por genocídios e morticínios que marcam a história do capitalismo, teorizada como neocolonianismo e imperialismo.

No século XX e neste início do século XXI, a violência e a guerra midiática-ideológica se concentram, basicamente, no combate às ideias democráticas e patrióticas. A forma mais conhecida é o clássico anticomunismo, cada vez mais rude e primário, a plataforma que impulsiona a extrema-direita, a expressão mais pronunciada do poder político do capitalismo na contemporaneidade, com a diferença de que, ao contrário do seu passado, age num cenário de maior complexidade, com o desafio de se impor num cenário sem horizonte.

Nova fórmula do velho poder

Ou seja: o poder político com base nessa suposta ressurreição do liberalismo de Adam Smith só se viabiliza com o rompimento das regras do Estado Democrático de Direito, o direito constitucional que se formou com a Revolução Francesa e seus desdobramentos, o ideal republicano e humanista do projeto socialista. A evolução dessa contradição fundamental explica a agressividade do projeto neoliberal, em todas as suas nuances, cada vez mais extremista e hostil às ideias de democracia, soberania nacional, direitos sociais e humanos.

Esse é o arcabouço político e ideológico da autocracia no Banco Central, a nova fórmula do velho poder que precedeu a Revolução Francesa, fundado no absolutismo e no escravismo. Todos devem se submeter aos “guardiões da moeda”, que usam e abusam do dinheiro público como propriedade privada, distribuindo-o aos que alimentam a ciranda financeira, a fonte de remuneração do capital acumulado à base do trabalho excruciante, desumano e alijado das regras do Estado Democrático de Direito.

Os ideólogos desse projeto de “independência” do Banco Central proclamam essas ideias, abertamente, como um grande feito atribuído por eles a eles mesmos. Isso aparece na série de entrevistas realizadas por Galípolo com os autocratas que impuseram o arcabouço do Plano Real. Foi, na verdade, um festival de arbitrariedades confessado pelo principal deles, Pedro Malan, ao lembrar que pretendiam fazer uma revisão constitucional para, na prática, revogar a Constituição de 1998 como condição para os arbítrios do Plano Real.

Dedo no nariz

Pretendiam, à base de corrupção desbragada, fazer, de uma vez só, o que fariam, com dificuldade e autoritarismo, nos governos Fernando Henrique Cardoso (FHC). A ordem era tirar, com apenas um golpe de mão, as cores progressistas da Constituição. Manipularam o Artigo 3° do título constitucional das Disposições Transitórias, que determinava mudanças em alguns aspectos caso o sistema de governo fosse alterado num plebiscito que decidiu pela continuidade do presidencialismo, derrotando as propostas de parlamentarismo e monarquia.

Não houve mudança de sistema de governo. Portanto, não havia justificativa legal para a revisão constitucional. O pensamento neoliberal mostrava força, mas, nesse caso, não obteve sucesso. A vitória da legalidade democrática veio como resultado de uma ampla mobilização popular. O ponto alto foi a segunda Carta aos Brasileiros, redigida pelo jurista Goffedro da Silva Telles, histórico combatente dos desmandos da ditadura militar.

Ficaram famosas as cenas de resistência ao golpe pelas bancadas do Partido Democrático Trabalhista (PDT) e Partido Comunista do Brasil (PCdoB) no dia em o projeto de resolução convocando a revisão constitucional seria votado no Congresso Nacional, numa sessão marcada por grosseira manipulação das regras parlamentares. Wilson Muller (PDT-RS) tomou o projeto das mãos do primeiro-secretário, deputado Wilson Campos (PMDB-PE), e transformou-o em papel picado. Haroldo Lima (PCdoB-BA) falou poucas e boas com o dedo a um palmo do nariz do senador Humberto Lucena (PMDB-PB), o presidente do Congresso.

Repetição goebbeliana

A “independência” é uma prática antiga, criada pela chamada “reforma bancária” da ditatura miliar, no começo de 1965, quando surgiu o mandato fixo para a Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc), autarquia criada em 1945, em 1965 substituída pelo Banco Central, e o Conselho Monetário Nacional. A “reforma bancária” se deu com os mesmos argumentos que ecoaram pela mídia com o arcabouço do Plano Real e que, desde então, são enfiados goela abaixo do povo, numa repetição goebbeliana abusiva.

A trupe do Plano Real promoveu um festival de arbitrariedades já no início de suas atividades, com intervenções para centralizar o sistema bancário pelos ditames do Banco Central, uma operação que passou pelo Proer, mecanismo que despejou US$ 12,1 bilhões no “salvamento” de bancos mal administrados e com operações obscuras em carteira, originando a clássica fórmula de instituições falidas e banqueiros riquíssimos.

A “independência” do Banco Central – existente na prática desde o lançamento do Plano Real – encampou também o papel do Conselho Monetário Nacional, transformado em instância com pouco poder.

Sobre cigarras e formigas

Já se dizia, na ditadura militar, que a “autoridade monetária” se sujeitava ao Poder Executivo, transformando a política monetária em apêndice, sem autonomia fiscal. A “independência” e o mandato fixo evitariam “injunções políticas” nas decisões monetárias, o mesmo argumento, sem tirar nem pôr, da ladainha dos “pais” do Plano Real, um léxico de tolices que serve para qualquer justificativa contra as críticas aos seus abusos, espécie de novilíngua capaz de reinventar a história, recurso que reapareceu com força nas comemorações dos trinta anos do Plano Real.

Os arautos desse léxico frequentam a mídia como salvadores da pátria – sobretudo no Grupo Globo, conforme sintetizou recentemente o apresentar Pedro Bial ao dizer que a trupe era o “genial grupo do Plano Real” –, tida por eles como um dos grandes trunfos da “estabilização da moeda”, transformado em pensamento único pelo que definiram como “eficaz meio de comunicação com a população”. Esse léxico alicerçou os crimes contra o povo e o país na “era FHC” e chegou ao governo Lula pelo macaquear do ministro da Fazenda, Antônio Palocci, registrado em seu infame livro intitulado Sobre cigarras e formigas.

Rua do Ouvidor

O linguajar padronizado, medíocre e hipócrita, é repetido à exaustão, como se eles estivessem fazendo um grande favor ao país, a soberba do poder absoluto, o galo que pensa que o sol nasce porque ele canta, não sem motivos chamados de “ortodoxos de galinheiro”. Dizem que foram “convocados” para os cargos e que enfrentaram as resistências, ridicularizando quem não reza por sua ladainha, principalmente os presidentes da República que se opuseram a essa roubalheira no período neoliberal, Itamar Franco e Lula.

Não se pode negar que esse poder autoritário serve muito bem à plataforma política da direita, que não tem como se manifestar sem extremismo. São, a rigor, criminosos perante o direito constitucional. Antigamente seriam criminosos comuns. Como lembra o economista Ney Bassuino Dutra em artigo no Monitor Mercantil, na Rua do Ouvidor, na cidade do Rio de Janeiro, a polícia volta e meia corria procurando prender dois tipos de contraventores: um, que vendia “rabinho de coelho” para dar sorte; outro, que emprestava dinheiro a juros aos funcionários públicos a 14% ao ano.

Socialismo versus nazifascismo: a grande encruzilhada, há oitenta e um anos

Segunda Guerra Mundial: vitória do socialismo - Vermelho

Por Osvaldo Bertolino

Não deixarei o Volga! Não sairei de lá! Os gritos de Adolf Hitler, tomado por um acesso de cólera, eram a expressão do desastre causado pela sua ordem de manter o 6º Exército ao redor da simbólica cidade soviética de Stalingrado. A derrota nazista naquele local representou uma reviravolta na Segunda Guerra Mundial e um êxito incalculável dos comunistas em todo o planeta.

A reviravolta se consolidaria em janeiro de 1942, quando o Exército Vermelho lançou a ofensiva geral em uma ampla frente e em alguns setores avançou mais de 400 quilômetros para o ocidente, afastando a fera nazista que rugia às portas de Moscou. Os comunistas soviéticos, artífices da vitória, ganharam enorme prestígio internacional. A importância militar e política fora gigantesca — pela primeira vez durante toda a guerra o exército nazista sofria uma derrota séria.

Poucos meses antes, em 7 de novembro de 1941 — 24º aniversário da revolução socialista de 1917 —, o líder revolucionário Josef Stálin dissera ao Exército Vermelho e aos guerrilheiros comunistas que o mundo via neles “a força capaz de destruir as hordas rapaces dos invasores alemães”. Adolf Hitler, o senhor absoluto de Berlim, determinara que em 2 de outubro seria desencadeada a grande ofensiva. Tufão era o seu nome em código, um verdadeiro ciclone que devia abater-se sobre os soviéticos, destruindo as últimas forças combatentes diante de Moscou e fazendo desmoronar a pátria do socialismo.

Tudo para frente, tudo para a vitória!

A história não conhecia guerras libertadoras como aquela. Já nos primeiros movimentos, ficara demonstrado que na União Soviética os combates seriam diferentes dos que ocorreram na Europa. Além das debilidades daqueles exércitos, o trabalho de sapa dos colaboracionistas fora determinante para o avanço alemão. No país socialista, as bases sociais para a organização de contrarrevolucionários não existiam mais — ao contrário do que ocorreu na guerra civil, após a Revolução de 1917.

Os soviéticos, com o lema “Tudo para frente, tudo para a vitória!”, estavam conscientes do que representava aquela guerra. Em muitos locais os combatentes deixaram inscrições de loas à pátria gravadas nas ruínas. Eram exemplos do elevado moral comunista, que levaram os Estados Unidos e a Inglaterra a declarar, em 22 de junho de 1941, que estavam dispostos a prestar ajuda à União Soviética. Havia, até então, uma passividade das potências ocidentais. Para as velhas senhoras da Europa e seu aliado norte-americano, o problema de Adolf Hitler era com os soviéticos.

Em janeiro de 1933, quando se tornou chanceler alemão, Adolf Hitler já havia publicado sua plataforma política. Era o livro Mein Kampf  (Minha Luta), um best-seller que naquele tempo contava com mais de um milhão de exemplares vendidos. Nele, estavam claras as idéias do novo chanceler alemão: ódio aos comunistas, aos judeus, aos eslavos, aos proletários, etc. Logo, a venda da obra nazista explodiria. “Com exceção da Bíblia, nenhum outro livro foi tão vendido durante o regime nazista”, escreveu William L. Shirer no livro Ascensão e Queda do 3° Reich, parcialmente traduzido para o português pelo histórico dirigente do Partido Comunista do Brasil, Pedro Pomar.

Na obra, Hitler expôs com clareza o modelo de governo que ele queria implantar na Alemanha. A “nova ordem” que o líder nazista pretendia impor ao mundo tinha no Estado de seu país — que um dia se tornaria “o soberano da terra” — o alicerce para uma ditadura absoluta. A “nova ordem” nazista também teria uma “ideologia universal”. Para tanto, segundo Minha Luta, a Alemanha deveria ajustar contas com a França, “o inexorável e mortal inimigo do povo alemão”. Hitler considerava esse passo decisivo como meio para mais tarde “dar ao nosso povo a expansão que venha a ser possível alhures”.

Estratégia nazista

Ele estava dizendo que a Alemanha tinha como alvo final a União Soviética. “A Alemanha deve expandir-se para o Leste, em grande medida às custas da Rússia”, escreveu. No primeiro volume de Minha Luta, Hitler discorreu longamente sobre o problema do “espaço vital” — Lebensraum, em alemão. “Se na Europa de hoje falarmos em terras, haveremos de ter em mente apenas a Rússia e as nações vizinhas a ela subordinadas”, afirmou o líder nazista. Ele perseguiria esse objetivo até à morte. Para Hitler, o destino tinha sido generoso ao entregar a região à direção dos comunistas — o que, segundo sua teoria, era o mesmo que entregá-la aos judeus.

A estratégia nazista estava clara. Primeiro, era preciso aniquilar a França apenas como condição para o avanço de seus exércitos rumo ao Leste. No decorrer da guerra, essa promessa foi fielmente executada. Hitler tomou a Áustria, a região dos Sudetos, na Tchecoslováquia, e a parte ocidental da Polônia. Em setembro de 1938, os líderes da Alemanha, Inglaterra e França assinaram o “Pacto de Munique”, permitindo ao exército alemão iniciar sua marcha para a Tchecoslováquia. A ameaça à União Soviética estava mais perto do que nunca.

Segurança coletiva

Logo depois da ocupação nazista da Tchecoslováquia, a União Soviética propôs uma conferência das seis potências (Alemanha, Itália, França, Inglaterra, Estados Unidos e União Soviética) para debater formas de evitar futuras agressões. Mas a proposta foi considerada “prematura”. Os movimentos no xadrez político ocidental deixavam claro a intenção de manter a União Soviética fora do concerto das potências européias. Moscou voltou a acenar, em vão, com um pacto de assistência mútua com a França e a Inglaterra. Esses movimentos evoluíram para a aproximação entre União Soviética e Alemanha.

Discursando no VIII Congresso do partido dos comunistas da União Soviética, em março de 1939, Josef Stálin disse que Inglaterra e França haviam abandonado o princípio da segurança coletiva, com a finalidade de orientar os Estados agressores para “outras vítimas”. Stálin advertiu que os países ocidentais estavam empurrando os alemães ainda mais para o Leste, prometendo-lhes uma presa fácil. Segundo o líder soviético, os princípios orientadores do país socialista eram o de seguir uma política de paz, de fortalecimento das relações econômicas com todos os países e não permitir que a União Soviética fosse arrastada para conflitos pelos provocadores de guerra.

O recado foi entendido em Berlim. A Alemanha tinha interesse em atacar a Polônia sem temer uma intervenção soviética. As conversações evoluíram para o pacto de não-agressão mútua. Quando Hitler invadiu a Polônia, a União Soviética movimentou suas tropas para os Estados Bálticos. A etapa principal do pacto estava vencida. A Alemanha nazista preparava “uma campanha rápida” para “esmagar a União Soviética”. Em junho de 1941, um ano depois da queda da França, as tropas nazistas atacaram o país socialista. Um general alemão disse que a guerra estaria ganha em catorze dias.

Chegada da reviravolta

A batalha de Stalingrado representou a chegada da reviravolta. Dali para diante, o poder de Hitler declinaria, minado pela crescente contra-ofensiva soviética. Um representante do “Ministério para os Territórios Ocupados do Leste”, criado pelo governo nazista, disse na ocasião que os soviéticos “estavam lutando com excepcional bravura e com espírito de renúncia, nada mais visando que o reconhecimento da dignidade humana”. O resultado seria o esmagamento da máquina de guerra criada por Hitler.

Em junho de 1944, as forças anglo-americanas atacaram na frente ocidental. A muralha nazista foi rompida em poucas horas. À meia-noite de 8 para 9 de maio de 1945, os canhões silenciaram fogo na Europa pela primeira vez desde 1939. O fim da contenda entre nazistas e soviéticos chegou quando as tropas motorizadas do Exército Vermelho capturaram o coração da cidadela nazista — Berlim. Um soldado anônimo hasteou a bandeira vermelha no topo do Reichstag. Em 2 de setembro de 1945, os japoneses renderam-se a bordo do encouraçado norte-americano Missouri, ancorado na baía de Tóquio. Era o fim de uma luta que se iniciara em meados de 1937, na China, expandindo-se mais tarde para praticamente todo o Pacífico.

A bandeira da liberdade e da democracia passou a flutuar por toda a Europa e em boa parte do mundo. O resultado da guerra fez com que o socialismo ganhasse muito respeito. Na luta pela existência, os povos aprendem a conhecer seus amigos e a reconhecer os seus inimigos. O socialismo bateu de frente com a Alemanha nazista e foi a principal barreira ao III Reich sonhado por Adolf Hitler. No combate, emergiu a União Soviética na sua verdadeira estatura e significação, com seus líderes, sua economia, seu exército, seus povos e, segundo o então secretario de Estado norte-americano, Cordell Hull, “a quantidade épica de seu fervor patriótico”.

A ordem de Adolf Hitler

Quando o Exército Vermelho empurrava as tropas nazistas para fora do território soviético, em fevereiro de 1942, o general Douglas Mac Arthur, que assinaria a rendição dos japoneses, disse: “Durante a minha vida eu participei de numerosas guerras e testemunhei outras tantas, assim como estudei pormenorizadamente as campanhas dos principais cabos de guerra do passado. Em nenhuma delas observei tão eficiente resistência (…). A escala e grandeza desse esforço assinala-o como o maior feito militar em toda a história.”

Segundo William L. Shirer, o tratamento aos prisioneiros de outros países, especialmente britânicos e americanos, era relativamente mais suave. “Havia, vez por outra, casos de assassínios e massacre deles, mas isso, geralmente, era devido ao excessivo sadismo e crueldade de certos comandantes”, escreveu ele. Quando a maré da guerra começou a virar contra Hitler, com a contra-ofensiva soviética iniciada na batalha de Stalingrado, o líder nazista ordenou o extermínio dos “comandos” aliados capturados, especialmente no ocidente. “Doravante, todos os inimigos em missões denominadas ‘de comando’, na Europa e na Ásia, (…) devem ser mortos até ao último homem”, dizia a ordem de Hitler.

Canhões de grande calibre

É impossível calcular o volume de perdas econômicas causadas pela guerra. Quanto à perda de vidas, há uma estimativa, embora longe de ser exata. Morreram cerca de 50 milhões de pessoas, fardadas ou não. Uma média de 8,3 milhões por ano de luta. Tomada em seu conjunto, a Segunda Guerra Mundial é um fato sem paralelo na história. Nunca tantos países haviam se envolvido num conflito armado. Nunca se produziu tanto armamento. Raramente se aplicou tanta pesquisa e dinheiro no desenvolvimento de equipamentos militares.

A guerra começou numa época em que os exércitos ainda usavam cavalos. Quando terminou, os caças a jato já voavam. No final da década de 1930, as armas mais destrutivas ainda eram os canhões de grande calibre. Meia dúzia de anos mais tarde o planeta tomava contato com as armas nucleares e com os mísseis balísticos. O mundo não poderia ser o mesmo após o término da Segunda Guerra Mundial.

O julgamento de Nuremberg

No dia 20 de novembro de 1945, 21 acusados nazistas sentaram no banco dos réus no Palácio da Justiça, em Nuremberg, Alemanha, para o julgamento por crimes de guerra. Outro acusado, Martin Bormann, foi acreditado como morto. Pela primeira vez, ocorria um julgamento internacional. Para isso, foi criado o Tribunal Militar Internacional (TMI), que combinou elementos do direito anglo-americano e das leis civis do continente europeu, formado pelas quatro potências aliadas: União Soviética, Inglaterra, França e Estados Unidos.

Em agosto de 1945, os aliados reuniram-se em Londres para assinar o acordo que criou o TMI e acertar as regras do julgamento. O documento, conhecido como “Carta de Londres”, tem uma característica salutar: a ausência de palavras como “lei” ou “código”, num esforço para lidar com aquela questão delicada de forma eficiente.

A “Carta de Londres” criou as regras dos processos de julgamento e definiu os crimes a serem tratados: assassínio, extermínio, escravização, deportação, atos inumanos cometidos contra alguma população de civis antes ou durante a guerra e perseguição política, racial, ou religiosa. Os réus foram acusados de exterminar milhões de pessoas e espalhar a guerra na Europa.

Os processos de Nuremberg certificaram o nascimento do direito internacional. O TMI faria ainda outros julgamentos, principalmente de médicos que realizaram experimentos brutais, e criou um documento que ficou conhecido como “Código de Nuremberg” — considerado um marco na história da humanidade por estabelecer uma recomendação internacional sobre os aspectos éticos envolvidos na pesquisa com seres humanos.

Logo no início dos trabalhos, o juiz norte-americano Robert Jackson, que atuou como promotor-chefe da acusação, declarou: “Não devemos esquecer que os parâmetros pelos quais julgamos hoje estes acusados são os parâmetros pelos quais a história nos julgará amanhã. Passar a estes acusados um cálice envenenado é pôr esse cálice em nossos próprios lábios. Devemos observar em nossa conduta tal imparcialidade e integridade que a posteridade possa elogiar este julgamento por ter cumprido as aspirações da humanidade de que se faça justiça”. A duras penas, o mundo chegava a um ponto decisivo: o que fazer depois daquele conflito gigantesco?

Fenda no governo brasileiro

No Brasil, a Segunda Guerra Mundial abriu uma fenda no governo, que se estendeu depois que, em 7 de dezembro de 1941, realizou-se na cidade do Rio de Janeiro a Conferência de Chanceleres das Américas em apoio à entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Ali se descortinaram caminhos políticos para o progresso do movimento patriótico e antifascista.

O país estava chocado com o torpedeamento de vários navios da Marinha brasileira por submarinos alemães e o governo reagia timidamente devido às suas diferenças internas — o ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra — que viria a ser o sucessor de Getúlio Vargas na Presidência da República e aliado incondicional dos Estados Unidos no nascedouro da “Guerra Fria” —, e o aparelho repressivo chefiado por Filinto Muler eram abertamente a favor da Alemanha. Mas a pressão popular levaria, finalmente, o governo a declarar guerra ao Eixo nazifascista no dia 22 de agosto de 1942.

Outra manifestação da divisão no governo ocorreu quando os estudantes organizaram uma “passeata antitotalitária” no dia da Independência dos Estados Unidos, 4 de julho, que contou com o apoio do ministro das Relações Exteriores, o chanceler Osvaldo Aranha, e a repulsa de Filinto Muller. O chefe da repressão tentou impedir a passeata, desacatou o ministro da Justiça interino, Vasco Leitão da Cunha, foi preso e demitido. Em consequência do episódio, foram demitidos também Francisco Campos, ministro titular da Justiça, e Lourival Fontes, diretor do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Felisberto Batista Teixeira, diretor do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), foi outro afastado.

Organização da FEB

Os avanços das forças soviéticas, que impulsionavam a luta democrática em todo o mundo, refletiram fortemente no Brasil. O Partido Comunista do Brasil se empenhou com tenacidade na luta anti-fascista e propôs a organização da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que lutaria em Nápoles, Itália. Com essa finalidade, o Partido abriu duas frentes de trabalho — reforçou a União Nacional dos Estudantes (UNE) e relançou a Liga da Defesa Nacional, entidade fundada em 1916 no Rio de Janeiro pelos intelectuais Olavo Bilac, Pedro Lessa e Miguel Calmon, sob a presidência de Rui Barbosa.

No dia 28 de novembro de 1943, o governo decidiu organizar a FEB. “Fomos os primeiros a reivindicar a participação militar do Brasil e o fizemos de maneira consequente”, segundo o histórico dirigente comunista João Amazonas. As Comissões de Ajuda, criadas às centenas em todo o território nacional, angariaram donativos, realizaram conferências e promoveram comícios populares. Todo esse trabalho foi coroado com a organização da FEB.

O desembarque do primeiro escalão da FEB em Nápoles, Itália, em 17 de julho de 1944, coroou o trabalho abnegado daqueles brasileiros que olhavam para o futuro e imaginavam o país livre da ditadura do Estado Novo e das ameaças nazifascistas. O Partido Comunista do Brasil mobilizou forças e organizou grandes ações em favor desse objetivo. E, após o término da guerra, enfrentaria seus efeitos.

Denúncia de Maurício Grabois

No dia 9 de outubro de 1946, o deputado federal Maurício Grabois – que seria líder da bancada do Partido Comunista do Brasil na Câmara dos Deputados – ocupou a tribuna para denunciar o perigo que a guerra ainda representava. Ele reagiu, indignado, às palavras de Gilberto Freyre (UDN-PE) que, “em nome da consciência universal cristã”, protestou contra a pena de morte imposta aos criminosos nazista julgados em Nuremberg. Grabois disse: “A clemência para com esses bandidos nazistas em Nuremberg poderá significar, para o futuro, a morte de milhões de homens livres.”

O líder da bancada comunista também denunciou a proibição da entrada de judeus no Brasil pelo governo do general Dutra. “Ainda ressoa o eco das bombas da última conflagração e os mesmos preconceitos, as mesmas perseguições, ainda persistem no cenário mundial”, disse Grabois. “Hoje, após a derrota do nazifascismo, vemos se levantar as tentativas dos imperialistas norte-americanos e seus aliados para reacender a fogueira ateada por Hitler”, afirmou.

Nascimento da “Guerra Fria”

A guerra mostrou ser um negócio lucrativo. Durante os anos da Primeira Guerra Mundial, estima-se que os monopólios americanos obtiveram um lucro líquido de US$ 38 bilhões. Durante a Segunda Guerra Mundial, o lucro líquido foi de US$ 53 bilhões. Logo, uma violenta tempestade se formaria debaixo da calma aparente do pós-Segunda Guerra Mundial. Enormes áreas coloniais e semicoloniais do globo, agitadas com as novas esperanças de liberdade pelo exemplo da vigorosa vitória das forças democráticas, estavam despertando e ameaçando subverter a pesada estrutura do imperialismo. A revolução socialista cintilaria na China e começava a irromper na Coreia.

Eram acontecimentos anunciados como o fim dos tempos, obras de uma “conspiração moscovita”. O mundo capitalista, que se debatia nas garras da crise antes do início da Segunda Guerra Mundial enquanto a União Soviética embarcava em uma era de progresso, armava-se febrilmente para impedir o avanço do socialismo. O mito propaganda da “ameaça comunista” trazia de volta o ramerrame dos velhos chavões que inundaram o mundo pelas ações do nazifascismo no entreguerras. Era o surgimento da nova face do anticomunismo, a “Guerra Fria”.

Lula, José Serra e Ciro Gomes: três homens e um destino

Por Osvaldo Bertolino – Portal Vermelho, 31/07/2002

O primeiro debate na Rede Bandeirantes de televisão no próximo dia quatro representará uma queda-de-braço prévia entre os programas dos candidatos à Presidência da República. Estarão em discussão, com várias nuances, as duas concepções possíveis hoje para um projeto de governo. Do ponto de vista macroeconômico, a pauta é a de sempre: estabilidade da moeda, abertura do mercado e equilíbrio das contas nacionais. Do ponto de vista administrativo, os temas devem ser o espectro de reformas – ou, por outra, o papel do Estado – e do ponto de vista social, a melhoria dos serviços públicos básicos e a geração de empregos.

A análise desses temas revela que o país vai muito mal. Mesmo que tenhamos muito em comum com as mazelas de países tão subdesenvolvidos como Paraguai e Bolívia, vários dos desafios que os próximos anos reservam ao Brasil são semelhantes aos enfrentados por Argentina e México para administrar suas opções econômicas.

Temos, portanto, problemas gigantescos a serem enfrentados nos campos social e macroeconômico. Se optarmos por atacá-los de frente, com nossa importância histórica, nossa diversidade continental e nosso papel geopolítico, a América Latina tende a seguir por outro caminho. Entraremos para o clube dos países que lutam por sua soberania. Se a opção for por manter o rumo atual, lançaremos toda a região no olho do furacão neoliberal.

Esse é um esquadro que aparece muito bem desenhado pela conjuntura latino-americana. Existem apenas dois caminhos: o atual e o proposto pela esquerda. Outubro representará uma encruzilhada decisiva para o Brasil. Não há como o centro político ser o esteio de um projeto de governo. É uma impossibilidade física. Então, o que de substancial aconteceu para que o índice de intenções de voto em Ciro Gomes subisse vertiginosamente?

Supunha-se até bem pouco tempo que Lula imporia margens folgadas sobre seus adversários no primeiro turno. No começo de julho, Serra, segundo o “Datafolha”, aparecia em segundo lugar com 20% e Lula em primeiro com 38%. Ciro Gomes, que oscilava entre 12% e 14%, caiu para 11% no começo de junho e na primeira pesquisa de julho já aparecia com 18%. Agora se isola no segundo lugar, ameaçando o favoritismo de Lula no segundo turno. Mas nada de sólido aconteceu para essa mudança. Nenhum dos escândalos da gestão FHC veio à tona novamente com força suficiente para abalar as estruturas da candidatura Serra. As manipulações do episódio de Santo André e da crise na segurança do Rio de Janeiro para atingir Lula não conseguiram arrastar o debate eleitoral para os subníveis da histeria.

Esses índices das pesquisas, portanto, não refletem o ápice do que pode fazer eleitoralmente as candidaturas de Lula e Serra. O ponto, aqui, é que o salto de Ciro Gomes encerra uma verdade: o eleitorado está muito interessado no debate dos programas de governo em disputa. Conclusão: Ciro Gomes está crescendo pelos motivos errados. Seu palavreado estridente e oco, cativa pela incisão e tende a se desmanchar pela inconsistência. Ele tenta encarnar o Joãozinho do Passo Certo para encobrir sua tortuosidade política à frente de uma coligação que vai se configurando como de direita. Sua candidatura pode até ocupar esse espaço que originalmente é de Serra, mas a tendência é a de ela se espatifar ante os embates de peso no debate eleitoral. Sua coloração de esquerda, por outro lado, vai ficando cada vez mais desbotada.

Ciro Gomes tenta repetir a tática de Collor de pautar as intervenções pela frase de efeito e pelo que seu público-alvo quer ouvir – não por seu projeto para o país. Mas nessas eleições, o eleitor quer saber como serão tratadas as questões sociais e macroeconômicas. Nesse terreno, Ciro Gomes derrapa. Não faz tempo, ele teorizou sobre a dívida interna, propondo redução dos juros para os papéis de curto prazo e aumento para os de longo prazo, e diante da reação não teve como levar o debate adiante. Preferiu o silêncio. Mas o povo quer saber. E ele terá de dizer o que pretende fazer com essa e outras questões. No campo social, suas propostas também são pífias.

As candidaturas de Serra e Lula têm propostas claras para esses temas. O governista pretende, obviamente, levar adiante o projeto neoliberal. O desafio para ele é neutralizar a dicotomia entre inflação baixa, represada pelos juros altos, e crescimento econômico sem mexer nos fundamentos do modelo. Ele diz que é possível. O povo não acredita. Por isso, não decola. Como não dá para servir a dois senhores, ele está claramente a serviço do capital financeiro e terá de deixar isso claro no curso do debate eleitoral. Não há explicação plausível para a conciliação entre juros altos, uma bola de chumbo atada ao tornozelo da produção, e a geração de empregos. FHC prometeu conciliar esses conceitos opostos e não cumpriu. Nem tentou – o que demonstra sua demagogia eleitoreira. Por que o povo acreditaria em Serra?

Lula, por seu turno, leva vantagem por ser o candidato que diz claramente o que pretende fazer na Presidência da República. E por isso contraria alguns e agrada muitos. Seu programa não deixa margem para dúvidas sobre qual rumo o governo irá seguir. O crescimento econômico e a geração de empregos, prioridades do governo Lula, não aparecem como algo estrambótico – como nas propostas de Serra. Esses itens do programa estão solidamente amarrados pelas propostas de boa administração macroeconômica e vigor na ação social. E esse escopo abarca as aspirações de camadas da população nas quais se encontram desde o sujeito socialmente excluído até uma sólida fatia do empresariado nacional produtivo.

Serra não passa verdade em seu olhar. Mas tem as costas quentes. É o candidato do sistema, do dinheiro, da mídia. A candidatura inflada de Ciro Gomes tende a perder gás. Lula, portanto, segue firme em sua trajetória de levar o país ao encontro de sua vocação histórica de independência e progresso. A conjuntura nunca esteve tão propícia para tanto. Mas sua candidatura é o alvo preferencial do poder econômico. É previsível, portanto, que o debate eleitoral, num determinado estágio, deixará a esfera das propostas de gestão para o país e entrará no terreno do espetáculo circense. Mas o circo pode pegar fogo. Resta saber como o eleitor irá reagir.