O roteiro do golpe: de 1937 às portas do STF

Brasil

Os métodos se renovam, mas permanecem as mesmas ideias, os mesmos objetivos e o mesmo “inimigo interno”, uma “ameaça comunista” deliberadamente difusa, agora maquiada de antipetismo, que, desde 1937, serve de pretexto para a violência contra o povo, o saque do país e a entrega das riquezas nacionais a mãos estrangeiras em troca de benesses para oligarquias parasitárias, recorrendo ao velho anticomunismo embolorado para alimentar ideias extremistas que ganharam a nominação de fascismo.

Todos os golpes se parecem. A formulação de Hélio Silva, título de seu livro sobre o golpe 1937, não significa que todos os golpes sejam idênticos, nem que circunstâncias históricas diferentes possam ser reduzidas a uma mesma fórmula. Mas identifica uma recorrência nos mecanismos pelos quais uma crise política é transformada em emergência; a emergência, em excepcionalidade; a excepcionalidade, em concentração de poder; e a ruptura, em uma nova aparência de legalidade.

Em 1937 — Todos os golpes se parecem, publicado pela Civilização Brasileira em 1970, Hélio Silva reconstrói os bastidores da instalação do Estado Novo. Mostra que a ruptura não começou no instante em que Getúlio Vargas fechou o Congresso e impôs uma Constituição de inspiração fascista. A preparação vinha de antes. Houve articulação entre personagens civis e militares, construção de uma situação de excepcionalidade, exploração do medo político e elaboração antecipada de uma nova ordem jurídica.

O golpe aparece, assim, menos como um acontecimento súbito do que como um processo. A sociedade foi conduzida de uma situação de normalidade para outra, na qual a própria ruptura passou a ser apresentada como defesa da ordem que seria rompida.

No caso de 1937, o Plano Cohen, uma fictícia “conspiração comunista”, ocupou papel decisivo nessa manipulação política. Foi utilizado para criar um ambiente favorável à decretação do estado de guerra, ao adiamento das eleições e à realização do golpe. A elaboração antecipada da nova Constituição revelou, por sua vez, como uma ruptura pode ser preparada juridicamente antes de ser apresentada publicamente como fato consumado.

Essa chave de leitura ajuda a compreender 1964 sem transformar a história em uma repetição mecânica. A força da formulação de Hélio Silva está precisamente em mostrar que épocas diferentes podem produzir mecanismos semelhantes de preparação, legitimação e execução da ruptura. O golpe militar de 1964 não começou na madrugada de 31 de março, quando as tropas do general Olympio Mourão Filho saíram de Juiz de Fora em direção ao Rio de Janeiro.

A manipulação ideológica

Uma parte decisiva da batalha política já havia sido travada durante anos no terreno da opinião pública. A mídia predominante martelou diariamente um estado de crise, desordem, “infiltração comunista”, subversão, indisciplina militar e ameaça às instituições. João Goulart aparecia cada vez menos como o presidente constitucional de um país submetido a uma feroz disputa política com o golpismo e cada vez mais como o responsável pela aproximação de uma catástrofe.

Quando os tanques começaram a se mover, milhões de brasileiros já haviam recebido dos jornais uma interpretação pronta para os acontecimentos, dizendo que o governo representava uma ameaça. A mídia divulgava que os “comunistas” estavam às portas do poder. A intervenção militar era apresentada como uma operação destinada a salvar a democracia. Era, na verdade, a subversão da democracia por uma teia de corrupção manejada pelos mecanismos da política externa dos Estados Unidos no âmbito da anticomunista Guerra Fria.

A mídia e o golpe

O jornal Folha de S. Paulo reconheceu, oportunisticamente, seis décadas depois, a dimensão dessa participação. Em retrospectiva publicada em 2024, registrou que a mídia brasileira, incluindo a própria Folha, desempenhou papel relevante na conspiração contra João Goulart e apoiou a deflagração do movimento golpista. A reconstrução histórica feita pelo próprio jornal registra que, com exceções importantes, os grandes veículos haviam intensificado o ataque ao governo democraticamente constituído.

A posição torna-se especialmente nítida quando se volta às páginas da própria Folha. O editorialismo anticomunista não apareceu depois que os golpistas venceram. Ele precedeu a vitória e criou o ambiente que liquidou a disputa política democrática com o argumento de uma falsa luta entre a legalidade e o fantasma do “comunismo”.

Foi nesse ambiente que a Folha publicou, em 2 de abril, o Editorial Em defesa da lei. Foi um dos documentos mais expressivos da posição assumida pela mídia diante da derrubada de Goulart. O próprio título condensava a extraordinária inversão política daqueles dias. O presidente constitucional estava sendo deposto pela força enquanto a intervenção militar era apresentada como defesa da lei. O governo era derrubado enquanto o movimento que o derrubava aparecia como guardião da Constituição, um ardil muito semelhante ao que ocorre atualmente com a ofensiva contra o Supremo Tribunal Federal (STF).

O Editorial descrevia o país como mergulhado numa profunda crise política. Colocava no centro da explicação a presença “comunista”. Sustentava que “comunistas” haviam alcançado influência desproporcional dentro do governo e associava essa presença à deterioração da ordem política. Desse modo, a “ameaça comunista” funcionava como a grande chave explicativa a partir da qual a intervenção das Forças Armadas podia ser convertida discursivamente de ruptura constitucional em reação defensiva.

O centro do argumento estava justamente nessa transformação semântica, uma explícita manipulação ideológica. Não estaria ocorrendo uma rebelião contra a lei, mas uma reação em defesa dela. As Forças Armadas estariam cumprindo sua obrigação constitucional de proteger os poderes, a lei e a ordem. O movimento que retirava Goulart do poder era apresentado como restauração institucional.

Isso chegava ao ponto em que o Editorial celebrou a vitória do espírito da legalidade e reafirmou a Constituição e o Direito como fundamentos da nova situação. Enquanto isso, os fatos produziam uma contradição que se tornaria histórica. Goulart não havia renunciado. O Congresso declarou vaga a Presidência quando ele ainda se encontrava em território brasileiro. Dias depois, começaram as cassações e suspensões de direitos políticos. A chamada “defesa da lei e da ordem” resultava numa ordem fundada em atos institucionais extraordinários que violentavam a Constituição e o Direito.

O Editorial da Folha não foi uma peça isolada. Foi parte de um poderoso coro midiático. O Estado de S. Paulo também havia assumido oposição frontal e violenta a Goulart e apoiava sua deposição. Depois da vitória militar, estampou a expressão Vitorioso o movimento democrático. O Globo publicou o Editorial Ressurge a democracia!. O Correio da Manhã, que posteriormente se tornaria crítico da ditadura, participava da ofensiva final contra Jango com os célebres editoriais Basta! e Fora!.

O Jornal do Brasil, em Editorial publicado em 1º de abril de 1964, afirmou que a “verdadeira legalidade” havia se instalado no país e sustentou que ela estaria do lado daqueles que se opunham ao presidente, associando Goulart à violação da disciplina e da hierarquia militares. A posição vinha de uma trajetória de ataques ao governo, que se intensificara nas semanas anteriores ao golpe. Em 2014, a Folha de S. Paulo registrou que o Jornal do Brasil foi o último dos grandes jornais a romper com Goulart, mas que, no final de 1963 e início de 1964, também havia convergido para o golpe.

Na Tribuna da Imprensa, jornal fundado por Carlos Lacerda e naquele momento dirigido por Hélio Fernandes, a linguagem chegaria a extremos. Na edição de 2 de abril, quando a deposição já estava consumada, o jornal praticamente abandonou qualquer aparência de distanciamento e lançou contra Goulart uma sequência de insultos políticos. Chamou-o de líder de “comuno-carreiristas-negocistas-sindicalistas”. Qualificou-o como um dos grandes “gatunos” da história brasileira. Acusou-o ainda de “covardia”, um simples ataque sem nenhuma explicação.

Essa retórica não representava mais apenas anticomunismo. Era a transformação do adversário político em personagem moralmente degradado, em inimigo a ser expulso da vida pública, a repetição do que fizeram com Getúlio Vargas e fariam com Luiz Inácio Lula da Silva. Essa operação ajudou a retirar do presidente deposto a condição de adversário legítimo e a convertê-lo em símbolo de corrupção, “comunismo”, oportunismo e traição. Tornava sua cassação, prisão ou expulsão da vida pública apresentável como saneamento nacional.

A extensão do anticomunismo

A ofensiva contra Goulart atingia também os que o cercavam. Entre eles, Darcy Ribeiro, antropólogo, educador, fundador e primeiro reitor da Universidade de Brasília, ministro da Educação e posteriormente chefe da Casa Civil da Presidência. Teve os direitos políticos cassados e partiu para o exílio.

Waldir Pires, consultor-geral da República, permaneceu no Palácio do Planalto durante as horas decisivas. Foi posteriormente perseguido e exilado. Registrou em seu próprio testemunho a dimensão internacional da crise e os planos norte-americanos de apoio aos golpistas caso houvesse resistência.

Os ataques aos integrantes do governo inseriam-se numa ofensiva muito mais antiga contra o próprio trabalhismo. João Goulart era herdeiro direto da tradição getulista. Getúlio Vargas o havia levado para a política. Jango se tornara uma de suas principais lideranças trabalhistas. Chegou ao Ministério do Trabalho durante o segundo governo Vargas.

A identificação entre Goulart e o “comunismo”, contudo, não correspondia à sua trajetória política, vinculada ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e chegara à Presidência da República pela ordem constitucional, depois da renúncia de Jânio Quadros. Sua proximidade com os trabalhadores e com o movimento sindical, além do reajuste de 100% do salário mínimo quando era ministro do Trabalho de Vargas, jamais foi perdoada pela direita.

A associação entre janguismo, reformas de base e “comunismo” foi, antes de tudo, uma trama política. Atacar Goulart significava também atacar uma tradição política progressista. A batalha de 1964 carregava dentro de si outra travada dez anos antes, em 1954. Naquele ano, a mesma mídia realizou uma campanha devastadora contra Vargas. A Tribuna da Imprensa, então comandada por Carlos Lacerda, estava no centro da ofensiva.

Depois do suicídio de Vargas, a revolta popular atingiu justamente veículos identificados com aquela campanha golpista, entre eles O Globo e a Tribuna da Imprensa. Dez anos depois, a guerra contra o getulismo reapareceria dirigida contra aquele que se tornara o principal herdeiro político do trabalhismo. O anticomunismo fornecia uma nova e poderosíssima linguagem para a velha batalha contra Vargas, o PTB, o sindicalismo e o projeto reformista associado a Goulart.

As marchas das mulheres de direita

Esse discurso encontrou sua tradução nas ruas com a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, realizada em São Paulo em 19 de março de 1964. Foi uma demonstração monumental da mobilização conservadora contra Goulart, organizada depois do comício governista da Central do Brasil que reuniu centenas de milhares de pessoas.

Na mobilização da direita houve participação de entidades femininas, associações civis e patronais, grupos religiosos de natureza fascista e organizações empresariais. Entre elas estavam a Sociedade Rural Brasileira, a União Cívica Feminina e organizações que mantinham relações com o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, o Ipes, organismos do subterrâneo do sistema conspirativo dos Estados Unidos. Depois da derrubada de Goulart, novas manifestações passaram a ser apresentadas como Marchas da vitória.

A marcha era apresentada como defesa da família, de Deus e da liberdade. Mas seu conteúdo político estava profundamente impregnado de anticomunismo, de retórica fascista e ataque ao governo. Havia cartazes denunciando a possibilidade de o Brasil transformar-se numa nova Cuba. Discursos associavam as reformas de base à implantação de uma “ditadura comunista”. A defesa da propriedade, da religião e da família era fundida à exigência de golpe contra Goulart e as organizações populares.

A mídia amplificou essa mobilização. As multidões conservadoras ganharam enorme destaque. Foram apresentadas como expressão da reação da sociedade brasileira. Isso produziu a impressão de uma nação unificada contra Goulart.

As pesquisas de opinião recuperadas posteriormente, porém, revelavam uma sociedade muito mais dividida. Levantamento do Ibope realizado em São Paulo antes do golpe apontava 42% de avaliação ótima ou boa do governo e outros 30% de avaliação regular. Ao mesmo tempo, 79% consideravam necessárias as reformas de base, em diferentes graus de urgência. Apenas uma parcela minoritária associava diretamente as medidas propostas por Goulart à implantação do “comunismo”.

Essa distância entre a imagem pública fabricada pela campanha anticomunista e uma sociedade politicamente muito mais complexa é essencial para compreender o poder dos jornais. A mídia selecionava, enquadrava, ampliava e interpretava acontecimentos dentro de uma batalha política feroz, que ocorria sob o ditame do governo norte-americano profundamente envolvido no golpe.

As mãos e os cérebros de Washington

O embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon, acompanhava minuciosamente a movimentação política e militar. O adido militar norte-americano, Vernon Anthony Walters, mantinha relações estreitas com oficiais brasileiros.

Documentos diplomáticos posteriormente desclassificados mostram Gordon enviando mensagens secretas a Washington, avaliando a correlação de forças e discutindo cenários. Walters recebia informações de militares golpistas brasileiros e as transmitia pela cadeia diplomática e militar norte-americana.

A ligação entre os acontecimentos brasileiros e Washington alcançou seu ponto mais concreto na Operação Brother Sam. Foi uma preparação norte-americana para prestar apoio logístico aos golpistas brasileiros caso surgisse resistência. Navios e recursos foram mobilizados.

O golpe avançou rapidamente e tornou desnecessário o emprego efetivo dessa força. Isso ocorreu porque as tropas de Mourão Filho que saíram de Minas Gerais em 31 de março não avançaram sobre um terreno politicamente vazio. Encontraram uma extensa infraestrutura civil, empresarial, religiosa, diplomática e midiática construída durante décadas.

O resultado apareceu rapidamente. Em 9 de abril, o Ato Institucional nº 1 inaugurou o sistema de cassações e suspensões de direitos políticos. Vieram expurgos, prisões, intervenções sindicais, perseguições, torturas e assassinatos. A democracia que a mídia dizia estar salvando transformou-se numa ditadura fascista que duraria 21 anos.

Essa sequência histórica confere aos editoriais de março e abril de 1964 um peso documental extraordinário. Permite observar a linguagem empregada no exato momento em que uma ruptura constitucional era convertida em salvação nacional. O “comunismo” funcionava como ameaça absoluta. Goulart era transformado em inimigo.

Seus ministros e auxiliares eram lançados na mesma fogueira retórica. Os militares legalistas passavam a ser tratados como obstáculos à “restauração da ordem”. As reformas de base eram contaminadas pela acusação de “comunização”. As “marchas da família” ofereciam às ruas a imagem de uma reação popular. As manchetes convertiam a movimentação militar em libertação.

Cada jornal acrescentava sua voz, sua linguagem e sua tradição golpista e corrupta a uma atmosfera dominada pelo anticomunismo, pela desqualificação de Goulart e pela apresentação do golpe militar como solução nacional.

É nesse ponto que a formulação de Hélio Silva adquire toda a sua potência interpretativa. O que se vê em 1964 é justamente a passagem por etapas que sua reconstrução de 1937 permite reconhecer como mecanismos recorrentes. A crise é transformada em ameaça. A ameaça é transformada em emergência. A emergência é convertida em necessidade de excepcionalidade. A excepcionalidade é apresentada como “defesa da ordem”. A ruptura é revestida de legalidade.

A “nova ordem” é apresentada como restauração daquilo que acabara de ser destruído, fórmula usada por Adolf Hitler com sua doutrina nazista, por Harry Truman com sua doutrina anticomunista da “cortina de ferro” e por George Bush com sua doutrina neoliberal quando a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) se dissolveu.

O golpe não se resumiu aos tanques. Assim como em 1937 não se resumira ao fechamento do Congresso. Existiu antes uma linguagem anticomunista agressiva e hipócrita. A experiência de 1964 permite, por isso, avançar para a formulação de uma espécie de gramática histórica do golpe sem transformá-la em lei mecânica.

O que se repete não são necessariamente os personagens ou as instituições. São mecanismos como a fabricação ou amplificação de uma ameaça, a transformação do adversário em inimigo, a construção de uma imagem de maioria, a mobilização das ruas, a legitimação discursiva da excepcionalidade e a apresentação da ruptura como defesa da própria democracia.

O golpe no centro do vocabulário político

A história, entretanto, não parou em 1964. A palavra “golpe” voltou ao centro do vocabulário político brasileiro em 2016, quando o país atravessou outra crise de enorme intensidade. Dessa vez, o centro era a presidenta Dilma Rousseff. Foi uma forma institucional completamente diferente. Não houve quartel derrubando o governo nem intervenção militar, mas a mesma agressividade golpista da mídia, tangendo bandos fascistas agora com a retórica antipetista.

Também em 2016 as ruas foram fundamentais. Grandes manifestações raivosas, como em 1964, apoiaram o golpe do impeachment. A mídia ocupou novamente uma posição central no golpe. O sistema de comunicação da direita já era diferente daquele de 1964. A televisão – sobretudo a Rede Globo – tinha enorme alcance. Os jornais golpistas continuavam influentes. As hordas golpistas ocuparam as redes sociais para manipular profundamente a circulação das informações.

Depois de 2016, essa transformação se acelerou. A direita promoveu uma radicalização política com seus velhos métodos de sabotagem à democracia. O conflito deixou de se concentrar apenas na Presidência da República. Passou a atingir crescentemente as próprias instituições encarregadas de arbitrar democraticamente a disputa política.

O STF entra na mira golpista

O STF tornou-se progressivamente um dos principais alvos da direita. A partir de 2019, ministros da Corte passaram a sofrer ataques cada vez mais intensos, que chegaria fortemente a Alexandre de Moraes pelo seu simbolismo na defesa do Estado Democrático de Direito. Depois dos ataques do bolsonarismo de 8 de janeiro de 2023, o Supremo passou a ser o centro das ações institucionais contra os responsáveis pelos atos golpistas. A anistia dos condenados ocupou lugar importante na mobilização de setores da direita.

A rua voltou a assumir função central, com o STF como alvo das agressões, com a mídia novamente no centro da trama, assumindo de frente as agressões à democracia. Em março de 2026, manifestações em diferentes cidades incluíram pedidos de impeachment de ministros do STF.

A escalada chegou às instalações do Supremo, com os ataques comandados pelo ministro André Mendonça a Alexandre de Moraes, o principal ministro do processo de punição ao golpismo bolsonarista, que passou a ser duramente agredido na marcha que chegou à fatídica sessão de 15 de setembro de 2026, uma verdadeira blitz nazifascista comandada pela mídia.

O elemento histórico que merece atenção está na transformação de uma instituição constitucional em inimigo político absoluto, uma repetição da linguagem de 1937, de 1964 e de 2016. Por isso, a marcha contemporânea contra o STF precisa ser compreendida também à luz dessa memória. A história brasileira já demonstrou que a guerra contra a legitimidade das instituições alcança um ponto em que palavras como “democracia”, “liberdade”, “Constituição”, “legalidade” e “povo” passam a ser utilizadas para justificar projetos golpistas.

O roteiro dos interesses escusos

Esse fio histórico confirma plenamente a formulação de Hélio Silva de que todos os golpes se parecem. Primeiro se estabelece uma crise. Depois se produz ou amplia uma ameaça. Repete-se o roteiro de eleger um inimigo e convocar a população para enxergar a situação como emergência que exige medidas excepcionais, revestida de legalidade. A ruptura é finalmente apresentada como restauração.

A história não se repete, mas deixa repertórios que atualmente desfilam barulhentamente diante dos olhos de todos. O objetivo é violentar o Estado de Direito, a Constituição e a soberania popular, expressa pelo processo eleitoral, pela liverdade do voto. Não se trata de uma questão secundária. É a tentativa de transformar o Judiciário em inimigo político às vésperas da sucessão presidencial, uma representação de interesses escusos, como ocorreu em 1937, em 1964 e em 2016.

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