Por Osvaldo Bertolino
Este livro é um projeto que veio à luz pela ajuda generosa de muitas pessoas. É também resultado de uma ideia desenvolvida para levar ao leitor uma história que estrutura a prática do terrorismo anticomunista, abrangendo múltiplos aspectos, de uma forma que aprofunda o tema pela escrita envolvente do gênero romance-reportagem que, diferente do romance de ficção, não parte livremente da imaginação para criar personagens e acontecimentos.
Muitos protagonistas são pessoas reais e os fatos possuem existência histórica, retratados com técnicas literárias que reconstroem cenas, descrevem ambientes e organizam a cronologia dos acontecimentos, preservando a conexão com a realidade. Aqui estão informações de arquivos públicos, documentos oficiais, jornais, relatórios, processos, entrevistas e testemunhos. A pesquisa permitiu reconstruir os acontecimentos nos seus contextos político, econômico e social.
Em vez de apresentar somente dados e informações, o romance-reportagem acompanha personagens, reconstrói situações e mostra as consequências dos acontecimentos. Cada qual com seu estilo, o gênero se notabilizou por autores como John Reed, Truman Capote, Frederick Forsyth, Gay Talese e Gabriel García Márquez. Optei pela mescla da investigação factual do jornalismo com recursos da literatura.
Ou seja: este livro não deve ser entendido como reportagem escrita de maneira mais literária, mas como forma específica de reconstrução da realidade. Com essa técnica, a história acompanha a formação, o funcionamento e os bastidores do aparelho político e repressivo da ditadura militar brasileira, tendo o governo de Emílio Garrastazu Médici como ponto central.
O núcleo principal é o Grupo Armado Tático Especial (GATE), totalmente ficcional, imaginariamente surgido da organização real Ação Popular (AP) por suas singulares características naquela conjuntura. Seus integrantes são personagens imaginários e suas ações específicas são cenográficas, integradas a lugares, ambientes, objetos, paisagens e atmosferas. Na história, eles surgiram e desapareceram, com técnicas de organização sigilosa, sem que ninguém notasse a sua existência.
A interação do GATE se dá com outro núcleo parcialmente ficcional, a Máfia e seu braço no contrabando de armas, e com os fatos não ficcionais do governo Médici, o ápice do anticomunismo internacional na América Latina, sobretudo na América do Sul. Naturalmente, essa interação também é ficcional, compondo o enredo da realidade concreta, o cerne da história narrado pelo autor.
A regra se aplica também ao Plano de Ação Contra a Agitação Terrorista (Placate), outro núcleo totalmente ficcional, mas organizado dentro de estruturas reais das Forças Armadas. Ele transforma a ideologia anticomunista em plano de Estado, organizando a estrutura de informações, vigilância e repressão que sustentou o governo Médici e tudo o que ele representou.
As descrições dos atores oficiais da ditadura, fora do Placate, no país e no exterior, também são reais. É importante perceber o contraste: o GATE é uma organização de resistência; o Placate é um instrumento de organização do aparelho estatal de repressão. O confronto e a simbiose entre os dois ajudam a estruturar boa parte da tensão do livro.
Essa explicação pretende ajudar o leitor a entender por que o livro se apresenta como romance-reportagem – a história combina personagens e situações ficcionais com estruturas, acontecimentos e personagens históricos, criando uma trama em que ditadura, inteligência, luta armada, anticomunismo e crime organizado se cruzam, em grande parte articulados pela cobertura, real, da Agência de Internacional de Desenvolvimento (USAID), utilizando-se da estrutura do Serviço Nacional de Inteligência (SNI)
É importante notar também que o livro narra um episódio com fim bem recortado na consolidação do poder da linha dura da ditadura militar, indicando ao leitor a necessidade de uma continuidade em outro episódio. Os acontecimentos que se seguiram, o Plano Condor, também são uma obra sinistra do terrorismo anticomunista, assunto pendente para – quem sabe – uma nova empreitada. Como escreveu Gay Talese, o realismo é fantástico.
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