Teia sem fronteiras: como a direita está enredada no caso Master

Brasil

O Banco Master cresceu entre bancos, fundos, empresas, grupos de mídia, estruturas offshore, relações políticas e instituições públicas. A investigação acompanha a circulação do dinheiro, os negócios, os vínculos e os mecanismos que levaram a crise do conglomerado muito além do sistema bancário.

O caso Banco Master não cabe na definição de fraude bancária. A investigação da PF, os procedimentos do Banco Central e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), os documentos enviados ao Supremo Tribunal Federal (STF) e as apurações do Ministério Público Federal revelaram uma estrutura financeira que atravessava bancos, grupos de mídia, fundos de investimento, empresas imobiliárias, carteiras de crédito, regimes de previdência, estruturas offshore, negócios de apostas, relações políticas e contatos com integrantes das instituições encarregadas de fiscalizar, investigar e julgar.

No centro de tudo está Daniel Vorcaro, que assumiu o controle do então Banco Máxima, transformou-o em Banco Master e promoveu uma expansão extraordinária em poucos anos. Os ativos do banco passaram de aproximadamente R$ 3,7 bilhões em 2019 para R$ 82,7 bilhões em 2024. O crescimento foi acompanhado pela compra de outras instituições, pela emissão maciça de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) e pela criação de uma rede de fundos e empresas que permitia ao conglomerado atuar muito além da atividade bancária tradicional.

A expansão acabou sustentada por uma estrutura de ativos cuja qualidade passou a ser questionada pela fiscalização e, depois, pela Polícia Federal (PF). O caso mais expressivo envolve o Banco de Brasília, o BRB. Segundo documentos da PF tornados públicos pelo STF, o BRB transferiu aproximadamente R$ 17 bilhões ao Master na aquisição de carteiras de crédito. Desse total, cerca de R$ 12,2 bilhões seriam títulos falsos ou sem valor econômico, derivados de créditos consignados inexistentes.

O Banco Central liquidou o conglomerado Master em novembro de 2025, depois de concluir que a instituição apresentava grave comprometimento econômico-financeiro e violações das normas que regulam o sistema financeiro. O tamanho relativamente pequeno do banco em relação ao conjunto do sistema não impediu que sua crise se espalhasse por instituições públicas e privadas, fundos de investimento, investidores individuais, regimes previdenciários e estruturas internacionais.

O crescimento e a expansão do Master

O grupo de Vorcaro incorporou negócios como Banif Brasil, Vipal, Voiter, Letsbank e Will Financeira. Também expandiu sua atuação para o crédito consignado, negócios imobiliários e outros segmentos.O Master tornou-se conhecido pela oferta de CDBs com remuneração elevada. Em determinados momentos, chegou a oferecer taxas equivalentes a 120% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI).

A remuneração acima da média ajudava a atrair investidores e ampliava a capacidade de captação. Esse dinheiro precisava ser aplicado em ativos capazes de produzir retorno suficiente para remunerar os investidores e manter a expansão. A PF identificou uma cadeia envolvendo Cédulas de Crédito Bancário, as CCBs, que representam uma obrigação financeira. Para ter valor econômico, precisa estar vinculada a uma operação real de crédito.Segundo a PF, parte das CCBs vendidas pelo Master ao BRB não correspondia a créditos existentes.

A investigação aponta que a Tirreno, empresa criada em dezembro de 2024, era utilizada para gerar créditos consignados fictícios, transformados em títulos e posteriormente vendidos ao Master, que os repassava ao BRB. A Cartos, instituição financeira ligada à origem de parte das operações de consignado, foi citada nos documentos da investigação. A empresa, entretanto, rejeita qualquer ligação com os créditos considerados falsos e afirma que nunca originou, estruturou, intermediou ou cedeu os títulos investigados. Sustenta que as carteiras eram exclusivamente da Tirreno.

A investigação atribui papel central a Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do Master e associado à criação do Credcesta, produto de crédito consignado que chegou a 24 estados e 176 municípios.Segundo a PF, a partir de janeiro de 2025, Lima passou a elaborar carteiras fraudulentas que posteriormente eram vendidas ao BRB. Mensagens extraídas de seu celular mostram, segundo os investigadores, contatos com Henrique Peretto, apontado como controlador da Tirreno, e com Vorcaro.

A PF afirma que Vorcaro cobrava diretamente a produção dos contratos e das CCBs e pressionava para que os documentos chegassem ao BRB dentro dos prazos necessários para que os pagamentos fossem liberados.Lima nega as acusações. Sua defesa afirma que as alegações reproduzidas nos documentos da PF foram formuladas no início da investigação e não se sustentariam diante dos elementos posteriormente reunidos. Ele também afirma ter deixado a sociedade e a direção do Master em maio de 2024.

O BRB, a Faria Lima e a expansão financeira

É na relação com o BRB que a engrenagem aparece com maior nitidez. Em novembro de 2024, uma carteira Credcesta chegou ao banco público com valor contábil de R$ 179,6 milhões. Apenas R$ 110 milhões foram considerados aptos para compra. Mensagens encontradas pela PF no celular do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e do diretor financeiro Dário Oswaldo Garcia Junior mostram que os dois discutiam as dificuldades de compreender a movimentação das carteiras.

Em uma das conversas, Paulo Henrique Costa questiona como uma carteira poderia desaparecer e depois reaparecer. Garcia responde que também não entendia. Dias depois, o Master apresentou um contrato de cessão de R$ 400 milhões. A operação foi concluída em ritmo considerado anormal pelos investigadores.

A relação de Paulo Henrique Costa com o sistema financeiro da Faria Lima também aparece nesse contexto. Durante sua gestão no BRB, Vorcaro, seu ex-sócio Maurício Quadrado e João Carlos Mansur, fundador da empresa do mercado financeiro Reag, chegaram a deter, em conjunto, 23,5% do banco, participação viabilizada por duas operações de aumento de capital realizadas em 2024, no valor total de R$ 1 bilhão. Segundo informações reunidas pela investigação, a operação envolveu fundos ligados ao sistema do Master e é apontada por auditoria como uma possível operação triangulada.

Mansur aparece em outro ponto central dessa engrenagem. Em abril de 2025, ele adquiriu ações do BRB por meio do fundo Celeno, administrado pelo Master. Segundo documentos encaminhados pelo BRB ao Banco Central, a operação envolveu 20.320.952 recibos de ações preferenciais e 1.817.063 ações ordinárias. Mansur passou a deter aproximadamente 4,5% do banco.

A Reag é uma das conexões mais importantes entre o Master e o circuito financeiro da Faria Lima. Segundo relatório encaminhado pelo Banco Central ao Tribunal de Contas da União, foram identificados indícios de fraude em operações realizadas entre o Master e fundos administrados pela Reag.

As operações investigadas, realizadas entre julho de 2023 e julho de 2024, apresentaram falhas consideradas graves e incompatíveis com normas do Sistema Financeiro Nacional. O relatório citado pela investigação aponta que as transações com indícios de fraude poderiam somar R$ 11,5 bilhões.

A empresa Trustee também aparece no endereço mais simbólico desse circuito. A gestora mantinha endereço na avenida Faria Lima e prestava serviços ao Master. Seu sócio Maurício Quadrado havia comandado a área de investimentos do Master entre setembro de 2020 e setembro de 2024. A empresa passou a aparecer também em investigações relacionadas a operações financeiras que extrapolavam o próprio caso Master.

Outro eixo dessas operações envolve André Esteves, controlador e principal acionista do BTG Pactual, que participou das articulações em torno de uma possível solução de mercado para o Master. O banco de Esteves também distribuiu CDBs do Master e posteriormente adquiriu ativos do conglomerado.

A relação financeira entre Vorcaro e o BTG não se limitava às negociações institucionais. Em 12 de novembro de 2025, poucos dias antes da prisão de Vorcaro e da liquidação do Master pelo Banco Central, o ex-banqueiro assinou uma Cédula de Crédito Bancário de R$ 86 milhões em favor do BTG, com vencimento previsto para dezembro daquele ano.

O contrato previa remuneração de 100% da taxa Depósito Interfinanceiro (DI), mais 12% ao ano e oferecia como garantia uma conta mantida por Vorcaro no próprio BTG. O banco de Esteves também adquiriu uma carteira de crédito do Credcesta antes da liquidação do Master e passou a realizar a cobrança dos respectivos devedores.

A XP Investimentos ocupa outro espaço importante nessa rede. A instituição foi uma das principais distribuidoras dos CDBs emitidos pelo Master. Dados fiscais mostram também que Vorcaro mantinha investimentos em diferentes instituições financeiras e recebeu, entre 2016 e 2024, R$ 13,9 milhões em rendimentos declarados pela XP e R$ 11,6 milhões pelo BTG.

A ligação entre XP e BRB reapareceu em 2026, quando o Banco de Brasília vendeu ao Banco XP um pacote de créditos originados no Master. O conjunto tinha valor econômico de R$ 400,7 milhões e foi adquirido por R$ 304,6 milhões, com deságio. A XP submeteu os créditos a auditorias e exigiu salvaguardas antes da aquisição. A operação mostra que a instituição continuou presente no processo de reorganização dos ativos remanescentes do Master.

Outro nome que aparece nesse circuito é a Sefer Investimentos, gestora e distribuidora sediada na Faria Lima. A empresa entrou no caso por sua relação com o fundo Krispy e com operações posteriormente vinculadas à Fictor e ao sistema Master. A Fictor afirmou ter adquirido, em outubro de 2025, parte de um fundo de direitos creditórios chamado Krispy, administrado pela Sefer em nome da Master Holding. A Sefer contestou posteriormente sua classificação como credora em processo de recuperação judicial e afirmou atuar como representante legal de terceiros.

A Fictor entrou no caso em outro momento decisivo. Quando o Master já enfrentava problemas de liquidez e a operação pretendida pelo BRB estava sob escrutínio do Banco Central, a empresa apresentou proposta para assumir o controle do banco por aproximadamente R$ 3 bilhões.  A proposta foi recebida com desconfiança por parte dos controladores do mercado financeiro e posteriormente passou a integrar o conjunto de fatos investigados pela PF.

Augusto Lima, conhecido como Guga Lima, também ocupa posição importante nessa rede. Ex-sócio de Vorcaro e ligado à origem do Credcesta, Lima aparece em documentos e investigações relacionados às carteiras adquiridas pelo BRB. A PF atribui a ele participação na estruturação de carteiras que posteriormente chegaram ao banco público, enquanto Lima nega envolvimento e afirma ter deixado o Master em maio de 2024.

Essa teia de relações indica a dimensão do envolvimento do BRB com o Master. A investigação não examina apenas a compra de carteiras, mas uma cadeia financeira na qual ativos circulavam entre bancos, fundos, gestoras e empresas instaladas ou conectadas ao principal centro financeiro de São Paulo. A PF aponta que o BRB comprou cerca de R$ 17 bilhões em créditos do Master, dos quais aproximadamente R$ 12,2 bilhões seriam compostos por títulos falsos. O BRB afirma ter sido vítima das fraudes e sustenta que os dirigentes envolvidos foram afastados.

Em fevereiro de 2025, o BRB assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Banco Central depois de falhas identificadas na avaliação dos créditos adquiridos, no envio de documentos e informações e na estrutura de auditoria. O dado mais relevante veio depois: segundo a PF, mesmo após o TAC o BRB continuou comprando carteiras do Master, acrescentando aproximadamente R$ 4 bilhões ao valor que o banco tinha envolvido e sujeito a risco nessas operações.

Em maio de 2025, de acordo com os documentos da investigação, o BRB continuou comprando ativos do Master em ritmo elevado. A PF afirma que a diretoria do banco tinha conhecimento dos problemas. O relatório cita inclusive anotações de uma reunião de diretoria realizada em julho de 2025 na qual Costa teria defendido a continuidade das compras apesar de pareceres jurídicos contrários.

O BRB apresenta uma versão diferente. A instituição afirma que foi vítima de atos criminosos e que a atual administração retirou integralmente os dirigentes responsáveis pelas operações realizadas com o Master. O banco sustenta que os antigos administradores não devem ser confundidos com a instituição e afirma que busca recuperar eventuais prejuízos e reforçar seus mecanismos de controle.

A dimensão da exposição do BRB aparece em diferentes cálculos porque as investigações analisam operações em momentos distintos. A PF identificou cerca de R$ 17 bilhões em transferências do BRB ao Master. Em outro cálculo, a perícia encontrou 25 operações que totalizaram aproximadamente R$ 17,5 bilhões. Dos créditos analisados, cerca de R$ 12,2 bilhões são apontados pela PF como falsos. O Banco Central calculou uma perda potencial de R$ 11,4 bilhões para o BRB.

A diferença entre esses números não significa contradição. Eles representam coisas diferentes: volume bruto das operações, valor das operações periciadas, títulos considerados falsos e perda potencial depois da avaliação dos ativos. Essa distinção é fundamental para compreender a dimensão financeira do problema. No fim de 2025, o BRB ainda carregava aproximadamente R$ 20,8 bilhões em carteiras adquiridas ou relacionadas ao Master.

O BRB passou então a tentar vender parte desses ativos e recuperar o máximo possível do dinheiro. É aqui que entra a venda, em agosto de 2026, ao Banco XP, da carteira de R$ 304,6 milhões relacionada à Esfera Aquisições Imobiliárias. A operação precisou de autorização judicial porque os ativos estavam relacionados às investigações. Esse é o estágio em que a crise financeira entra em uma segunda fase: descobrir quanto valem os ativos que restaram.

A conta pública e a teia de fundos

A crise do Master atingiu o BRB, mas não ficou restrita a ele. O governo do Distrito Federal precisou buscar mecanismos para reforçar o patrimônio da instituição. A governadora Celina Leão (PP-DF) afirmou em setembro que o atraso na divulgação do balanço do BRB era técnico e estava relacionado à necessidade de uma operação de crédito para reforçar a instituição. O Distrito Federal buscou financiamento de até R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

O problema chegou ao STF, que passou a arbitrar questões relacionadas à operação. O ministro Luiz Fux determinou que União, Banco Central e FGC explicassem os obstáculos à liberação do financiamento. A situação mostra como uma decisão tomada dentro de uma instituição financeira privada pode terminar produzindo consequências para uma instituição controlada pelo poder público e, por consequência, para o orçamento de um ente federativo.

O FGC tornou-se um dos maiores envolvidos na liquidação do Master e passou a indenizar investidores dentro dos limites previstos no sistema. O episódio foi o maior já enfrentado pelo mecanismo, envolvendo aproximadamente R$ 41 bilhões em depósitos e cerca de 1,6 milhão de credores. A conta final ultrapassou R$ 40 bilhões em ressarcimentos. O FGC não é o Tesouro Nacional. É um mecanismo privado financiado pelas instituições financeiras participantes.

Isso não elimina sua importância sistêmica. Uma quebra de grande porte produz custos que acabam sendo distribuídos pelo próprio sistema financeiro. O caso Master tornou visível uma característica importante desse modelo: uma instituição pode captar recursos oferecendo remuneração elevada, contar com a proteção do sistema de garantia e, se quebrar, transferir parte substancial do custo para o conjunto das instituições que financiam o mecanismo.

A investigação não encontrou apenas um banco. Levantamentos sobre os documentos do caso identificaram pelo menos 216 fundos de investimento e 143 empresas relacionados à rede examinada. Essa quantidade não significa que todos tenham participado de crimes. O que ela mostra é a dimensão da arquitetura financeira que se formou em torno do Master.

Entre os principais veículos aparecem fundos administrados pela antiga Reag, atualmente CBSF DTVM. Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Olaf 95, Maia 95 e Anna chegaram, em conjunto, a apresentar patrimônio líquido de aproximadamente R$ 102,4 bilhões. Esse patrimônio não correspondia a dinheiro disponível em caixa. Parte significativa era formada por ativos cuja avaliação passou a ser questionada.

Havia créditos, participações, recebíveis, papéis antigos, créditos imobiliários e outros ativos de difícil realização. Ou seja: um conjunto de ativos de baixa liquidez, alguns deles apontados pela investigação como inexistentes ou sem lastro. A investigação passou a examinar se alguns desses valores estavam artificialmente elevados e se a valorização contábil dos ativos produzia uma aparência patrimonial superior à riqueza efetivamente recuperável.

Esse mecanismo é particularmente importante porque um ativo superavaliado não afeta apenas o fundo que o possui. Ele pode elevar o valor das cotas, servir de garantia e entrar em novas operações. Uma distorção inicial pode, portanto, ser multiplicada dentro do sistema.

A Reag entrou no centro das investigações por causa dos fundos relacionados ao Master e também por sua aparição na Operação Carbono Oculto. A PF investiga se recursos de origem ilícita foram colocados em fundos administrados pela Reag e pelo Master e posteriormente receberam aparência de legalidade.

Mansur apresentou uma proposta de colaboração premiada à Procuradoria-Geral da República acompanhada de documentos sobre operações envolvendo fundos, empresas e estruturas offshore. A Justiça também passou a restringir a movimentação de ativos de três fundos administrados pela antiga Reag, avaliados em aproximadamente R$ 38,2 bilhões. O objetivo é impedir que patrimônio potencialmente relacionado às operações investigadas seja transferido antes que o liquidante consiga reconstruir sua origem.

PCC, Carbono Oculto e a cadeia financeira

A sobreposição entre as investigações da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) e Master aparece de forma documentada em fundos administrados pela Reag. Seis fundos — Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Olaf 95, Maia 95 e Anna — também aparecem nas investigações da Operação Carbono Oculto, que apura a infiltração do PCC em negócios da economia formal, incluindo os setores de combustíveis e financeiro. Juntos, esses fundos apresentavam patrimônio líquido de aproximadamente R$ 102,4 bilhões, segundo dados da CVM.

A documentação registra ainda operações envolvendo o Gold Style, fundo administrado pela Reag Trust, e a BK Bank, fintech que aparece na investigação da Carbono Oculto. Um relatório de inteligência financeira registra lançamentos de R$ 133,6 milhões da BK Bank para o Gold Style em 2023. Outros lançamentos entre o fundo e a mesma instituição somaram R$ 12,9 milhões em 2024 e 2025.

O Gold Style também aparece em operações com empresas relacionadas ao universo do Master. Relatórios analisados no caso registram R$ 180 milhões em transações entre o fundo e a Super Empreendimentos, empresa ligada a Vorcaro. Outra operação envolveu R$ 20 milhões em transações entre o Gold Style e a Entre Investimentos e Participações, empresa que aparece nas operações financeiras relacionadas ao projeto Dark Horse, supostamente destinado à produção de um filme sobre o ex-presidente

O mesmo fundo participou de operações envolvendo 11 emissões de debêntures privadas (títulos de dívida emitidos por empresas para captar dinheiro de “investidores”), que somaram aproximadamente R$ 3,6 bilhões. As operações envolveram 12 fundos e três bancos, entre eles o Master.

A documentação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado também registrou operações entre estruturas relacionadas à Carbono Oculto, a Reag e ao universo do Master. Entre as operações descritas estão R$ 759,5 milhões da Aster Petróleo, R$ 158 milhões da BK Bank e R$ 175 milhões da Inovanti para o Gold Style, além de R$ 180 milhões transferidos pelo fundo para a Super Empreendimentos.

O caso dos créditos consignados mostra outro ponto de contato. Sócios da Áster e da Copape adquiriram aproximadamente R$ 700 milhões em carteiras de crédito consignado do Master por meio de fundos criados, estruturados e geridos pela Reag. As carteiras foram reunidas no fundo Sinai. Quando o fundo passou pelo processo de transferência para a Genial Investimentos, foram identificados aproximadamente R$ 100 milhões em créditos originados pelo Master que apresentavam problemas e precisaram ser substituídos por outros ativos.

Antes da migração dos investimentos, os mesmos empresários mantinham aproximadamente R$ 1,8 bilhão sob gestão da Reag. Parte relevante desse patrimônio havia sido concentrada em títulos representativos de ações do antigo Banco do Estado de Santa Catarina, o Besc. A documentação também registra que a Reag lançou em demonstrações financeiras de seus fundos aproximadamente R$ 29 bilhões em títulos do Besc.

Esse cruzamento pode esclarecer a dimensão da sobreposição entre os dois universos investigativos: de um lado, a apuração sobre a infiltração do PCC na economia formal; de outro, a investigação sobre as operações do Master e sua teia. Os documentos mostram que determinados fundos, administradoras, fintechs, empresas e carteiras de crédito aparecem simultaneamente nos dois conjuntos de investigação. O que ainda precisa ser estabelecido, operação por operação, é a finalidade econômica de cada transferência, a origem e o destino efetivo dos recursos e o papel desempenhado por cada participante.

Uma das estruturas identificadas na investigação ficou conhecida como “cadeia Frozen”. A expressão descreve a passagem de determinados ativos por diferentes fundos antes de chegarem a veículos relacionados ao Master. O problema para os investigadores é reconstruir a origem econômica de cada ativo. Quando um crédito passa por várias empresas e fundos, o documento final pode mostrar apenas o último proprietário.

É necessário retroceder pela cadeia até descobrir quem originou o crédito, quem o vendeu, quem o comprou, quem recebeu o dinheiro e quem ficou com o benefício econômico. Esse trabalho é ainda mais difícil quando parte das estruturas está fora do Brasil.

As Ilhas Cayman aparecem repetidamente nas investigações. Uma das estruturas mais importantes é a Titan Capital Holding, controlada por Vorcaro. Entre janeiro e julho de 2025, o Master transferiu mais de R$ 700 milhões para estruturas relacionadas à Titan. Uma operação envolveu R$ 85,2 milhões. Outra transferiu R$ 66,3 milhões em cotas do fundo Saint Germain. A maior operação identificada envolveu R$ 555,8 milhões em cotas do fundo GSR, posteriormente transferidas para o fundo Krispy, cujo cotista era a Titan.

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou inconsistências nos valores patrimoniais apresentados pela empresa. Em determinado momento, a Titan aparecia com patrimônio líquido de aproximadamente R$ 300 milhões. Pouco depois, o valor declarado caiu para R$ 20 milhões. A Titan entrou em processo de liquidação judicial nas Ilhas Cayman. Cinco credores apresentaram reivindicações que somavam aproximadamente US$ 1,064 bilhão.

O liquidante informou que não encontrou dinheiro disponível nas contas da empresa nas Cayman. Os ativos potenciais estavam relacionados a participações em empresas brasileiras e fundos. A Grant Thornton foi contratada para conduzir a liquidação. A estrutura também envolve procedimentos nos Estados Unidos. A Justiça norte-americana reconheceu a liquidação brasileira do Master como processo estrangeiro principal e bloqueou ativos do conglomerado nos Estados Unidos.

A Titan também tinha uma dívida com a Tether. Em março de 2025, recebeu uma linha de crédito de US$ 300 milhões garantida por recebíveis ligados a empréstimos consignados do Master. Depois da crise, a dívida entrou em disputa internacional. A arbitragem em Londres produziu decisões favoráveis à Tether, que posteriormente pediu a liquidação da Titan. A dívida chegou a aproximadamente US$ 326,2 milhões, sem contar custos adicionais.

O episódio mostra por que a recuperação dos recursos não termina no Brasil. Parte do patrimônio precisa ser localizada em jurisdições estrangeiras, submetida a processos de insolvência e rastreada por diferentes sistemas judiciais.

A crise regulatória exposta pelo caso Master

O ministro Flávio Dino, do STF, determinou que o governo federal faça uma revisão das regras da Comissão de Valores Mobiliários após identificar, em processo que tramita na Corte, fragilidades regulatórias e de fiscalização que ganharam evidência com o caso Master. A União terá 90 dias para apresentar suas conclusões e eventuais medidas, em trabalho coordenado pelo Ministério da Fazenda.

A determinação alcança três resoluções da CVM, incluindo a Resolução 175, de 2022, que alterou regras para fundos de investimento. Segundo Dino, os documentos apresentados ao STF indicam que os problemas da autarquia não se limitam às restrições orçamentárias, envolvendo também seu modelo regulatório, mecanismos de governança e formas de supervisão.

A decisão foi tomada em ação apresentada pelo partido Novo que discute a estrutura orçamentária e a capacidade da CVM de exercer sua função de fiscalização do mercado de capitais. Ao analisar documentos apresentados pela Transparência Internacional e pelo chamado GT Master, criado dentro da própria CVM, Dino destacou mudanças regulatórias ocorridas em 2021 e 2022.

Entre os pontos examinados está uma denúncia apresentada em 2022 que, segundo os documentos analisados pelo ministro, antecipava com elevado grau de detalhamento irregularidades posteriormente identificadas no Master, incluindo problemas relacionados a ativos ilíquidos, manipulação de cotações e recompra de créditos. Segundo a decisão, a denúncia acabou arquivada pela área técnica da CVM sob o argumento de que as informações eram inverossímeis.

Dino também apontou problemas relacionados à proteção de denunciantes e determinou a avaliação da eficácia das regras de prevenção à lavagem de dinheiro. Outro ponto de atenção são as estruturas de fundos em várias camadas.

Na avaliação apresentada na decisão, a possibilidade de encadeamento sucessivo entre fundos dificulta a identificação da composição econômica final das operações e amplia os desafios de fiscalização. A decisão também registra a expansão expressiva do número de fundos regulados e dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), em um cenário no qual a CVM precisa acompanhar estruturas financeiras cada vez mais complexas.

Offshores e o dinheiro fora do país

Outro caso dessa complexa teia do caso Master é o Jaguar Multimarket Fund, registrado nas Ilhas Cayman. Segundo informações apresentadas por João Carlos Mansur em sua proposta de colaboração, o fundo recebeu R$ 494 milhões enviados pelo Master. Formalmente, Benjamin Botelho aparecia como beneficiário. Mansur afirma que o beneficiário econômico verdadeiro seria Vorcaro. Segundo o colaborador, Benjamin Botelho figurava formalmente na estrutura enquanto Vorcaro seria o verdadeiro beneficiário econômico.

A questão do beneficiário final é uma das mais importantes em qualquer investigação de lavagem de dinheiro. A pessoa que aparece formalmente como proprietária de uma estrutura não necessariamente é quem controla economicamente os recursos.

As investigações também identificaram empresas e contas nos Estados Unidos. Entre os nomes examinados aparecem Global America Title Services, Cosmic Realty Partners, Vibe Overseas, 133 Investimentos e Participações, Master Holding Financeira e estruturas relacionadas à Titan. Bancos como Bradesco, Safra, Royal Business Bank e Northern Trust também aparecem no trabalho de rastreamento dos recursos. Há ainda empresas de imóveis e veículos de luxo.

Previdência, imóveis e espionagem

Uma das dimensões mais sensíveis do caso está nos regimes próprios de previdência. Dezenove fundos de previdência de estados e municípios aplicaram aproximadamente R$ 1,87 bilhão em letras financeiras do Master em 2023 e 2024. As letras financeiras não possuem cobertura do FGC. Isso significa que esses fundos assumiram diretamente o risco do emissor. Em alguns regimes, a exposição era relativamente pequena. Em outros, alcançava uma parcela relevante do patrimônio.

Cajamar, município da Região Metropolitana de São Paulo, tinha quase R$ 100 milhões em títulos do Master, aproximadamente 15,4% de seus investimentos. São Roque, também no estado de São Paulo, tinha R$ 55,8 milhões, equivalentes a 10,58% dos investimentos. Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana de Goiânia, em Goiás, tinha R$ 42,3 milhões. Também apareceram investimentos de regimes previdenciários do Amapá, estado da Região Norte, e de Santo Antônio de Posse, município do interior de São Paulo.

O problema não é apenas financeiro. O dinheiro desses fundos é destinado a aposentadorias e pensões. Uma perda relevante pode exigir aportes adicionais dos governos responsáveis pelo regime. Nesse caso, a conta pode chegar ao contribuinte.

O caso mais expressivo é o Rioprevidência. O fundo de previdência dos servidores do Rio de Janeiro investiu aproximadamente R$ 970 milhões em letras financeiras do Master. O valor representava cerca de 10,53% do patrimônio do fundo. A exposição total ao universo Master chegou a aproximadamente R$ 2,9 bilhões quando consideradas outras operações. A PF passou a investigar as aplicações e realizou buscas relacionadas ao caso. A investigação alcançou a administração do fundo durante o governo de Cláudio Castro (PL-RJ).

A PF também identificou pelo menos 36 empresas que receberam empréstimos considerados suspeitos do Master. Vinte e três atuavam nos setores imobiliário, hoteleiro ou de construção. Parte dos recursos foi direcionada a fundos administrados pela Reag, entre eles DMais e Bravo.

O setor imobiliário ocupava posição importante na estratégia empresarial de Vorcaro. Antes do Master, ele já havia atuado no mercado imobiliário. O conglomerado também participou de empreendimentos de alto padrão, incluindo o projeto Fasano Itaim, em São Paulo. Imóveis passaram a aparecer tanto como investimentos quanto como garantias e, segundo a investigação, em possíveis operações destinadas a transferir vantagens.

A investigação da PF também alcançou a relação entre Vorcaro e dirigentes do BRB. Segundo os investigadores, Paulo Henrique Costa teria recebido vantagens indevidas estimadas em R$ 146,5 milhões por meio da compra de pelo menos seis imóveis de alto padrão em São Paulo e Brasília.

O caso adquiriu outra dimensão quando a PF encontrou evidências de espionagem. Hackers acessaram arquivos armazenados no computador do procurador Gabriel Pimenta, que atuava em uma investigação contra Vorcaro. Documentos relacionados à investigação apareceram posteriormente no celular do ex-banqueiro. A PF também identificou indícios de que Vorcaro teria recebido informações antecipadas sobre medidas policiais.

A investigação passou então a examinar uma estrutura de monitoramento de autoridades, investigadores e processos. Esse capítulo é especialmente relevante porque demonstra que a estrutura investigada não teria atuado apenas na construção de operações financeiras. A PF passou a verificar se alguém procurava descobrir antecipadamente o que a polícia, o Ministério Público ou outros órgãos públicos estavam investigando, quais operações estavam em andamento, quais pessoas eram alvo e quais medidas poderiam ser adotadas.

A mídia e a máquina de influência

A estrutura construída em torno do Master também alcançou o mercado de comunicação. O conglomerado manteve relações comerciais com jornais, portais, grupos de mídia, televisão, empresas de comunicação, jornalistas, produtores de conteúdo e influenciadores. Os pagamentos registrados durante o período de expansão do banco e, posteriormente, durante a crise envolvendo o BRB e o Banco Central, passaram a fazer parte do levantamento das relações empresariais de Vorcaro.

Um dos casos documentados envolve o grupo do jornal O Estado de S. Paulo, o Estadão. Entre 2021 e 2025, o Master pagou R$ 1,12 milhão diretamente ao jornal. Os valores corresponderam a compra de mídia para campanha institucional, campanha de abertura de contas, patrocínio da cobertura do Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1, mídia digital e informe publicitário. O próprio Estadão confirmou os pagamentos e informou que os contratos representavam serviços comerciais e publicitários. O montante não incluía outros projetos e eventos patrocinados pelo Master.

Outro caso de grande dimensão envolve o Metrópoles, controlado pelo ex-senador Luiz Estevão. Entre 2024 e 2025, o Master e o Will Bank repassaram R$ 27,2 milhões ao grupo. Segundo a explicação apresentada pelo próprio Metrópoles, os pagamentos correspondiam a patrocínios esportivos, naming rights, divulgação de conteúdo publicitário e marketing das marcas Master e Will Bank. Os relatórios do Coaf, porém, registraram a rápida transferência de valores recebidos do Master para outras empresas ligadas a Estevão e seus familiares e classificaram parte da movimentação como possível movimentação de recursos em benefício de terceiros.

A relação entre Master e Metrópoles ganhou dimensão adicional durante a tentativa de venda do banco ao BRB. Enquanto a operação era examinada pelo Banco Central, o grupo Master promoveu uma campanha de comunicação contra integrantes da autarquia. Painéis de LED administrados pelo Metrópoles exibiram a imagem do então diretor do Banco Central Renato Dias Gomes, associando-o à resistência à operação.

O relacionamento do Master com o mercado de comunicação também alcançou o Grupo Globo. Em 15 de maio de 2024, o Master foi o apresentador do primeiro Summit Valor Econômico Brazil-USA, realizado em Nova York pelo jornal Valor Econômico, pertencente à Editora Globo. Vorcaro fez a exposição de abertura do evento e, antes de sua fala, foi exibido um vídeo institucional do Master com informações sobre os resultados da instituição.

O próprio histórico institucional do Grupo Globo registra o Master como apresentador do evento. A relação avançou também para a televisão. O Will Bank, instituição financeira controlada pelo Master, tornou-se patrocinador do Domingão com Huck, por meio do quadro Willimpíadas, que oferecia R$ 1 milhão em barras de ouro ao vencedor. Luciano Huck, além de apresentar o programa, foi garoto-propaganda do Will Bank.

Em outubro de 2025, quando o Master buscava vender ativos, Huck chegou a avaliar, junto com um grupo de investidores, a compra do próprio Will Bank. Mensagens registram Vorcaro mencionando um jantar com Huck em outubro de 2024, quando o banco já enfrentava problemas de liquidez.

O Will Bank também esteve presente comercialmente no Caldeirão com Mion, ampliando a exposição da marca do conglomerado na programação da Globo. Esses episódios documentam uma relação comercial que alcançou diferentes plataformas do grupo: eventos empresariais do Valor Econômico e programas de televisão da Globo.

O Grupo Massa também aparece na rede de relações comerciais do Master. Empresas ligadas ao apresentador Carlos Massa, o Ratinho, receberam pelo menos R$ 24 milhões do banco entre 2022 e 2025. A Massa Intermediação recebeu R$ 21 milhões e a Gralha Azul Empreendimentos e Participações recebeu R$ 3 milhões. Os pagamentos foram associados a campanhas publicitárias e à promoção do CredCesta.

Em 2026, apareceu uma relação adicional envolvendo a Massa & Massa, empresa criada para explorar comercialmente a imagem de Ratinho e que tem entre seus sócios o apresentador e o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD-PR).

A empresa recebeu R$ 1,68 milhão do Master em quatro parcelas de R$ 420 mil para um contrato de publicidade relacionado ao CredCesta. Uma dessas parcelas apareceu como pendente em documento encaminhado a Vorcaro e posteriormente incluído em relatório da PF. O Grupo Massa afirmou que se tratava de contrato privado de publicidade e que a relação comercial foi encerrada após atrasos nos pagamentos.

A relação com o jornalista Leo Dias também alcançou valores milionários. Uma empresa de seu grupo recebeu R$ 9,9 milhões diretamente do Master entre fevereiro de 2024 e maio de 2025. Outros R$ 2 milhões vieram de uma empresa que havia recebido aportes do Master. A empresa de comunicação informou que os pagamentos estavam relacionados a contrato de publicidade do Will Bank. O levantamento financeiro mostrou ainda que o proprietário formal da empresa, Flávio Carneiro, mantinha relações empresariais com pessoas próximas a Vorcaro, inclusive Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro.

A relação foi além da publicidade convencional. Thiago Miranda, publicitário e ex-sócio do grupo de Leo Dias, passou a aparecer diretamente nas investigações sobre a estratégia de comunicação do Master.

A PF identificou mensagens e operações relacionadas ao chamado “Projeto DV”, destinado a contratar influenciadores para produzir conteúdo favorável ao banco e questionar a decisão do Banco Central de liquidá-lo. As propostas chegavam a R$ 2 milhões por influenciador. Miranda foi alvo de busca e apreensão em julho de 2026, em investigação que passou a examinar também a coleta de informações sobre jornalistas e críticos do Master.

A estratégia alcançou também influenciadores digitais que não tinham relação tradicional com o sistema financeiro. Segundo informações incorporadas à investigação, uma agência chegou a mapear as redes sociais de Flávio Bolsonaro para identificar influenciadores que pudessem defender publicamente o Master.

O vereador e influenciador Rony de Assis Gabriel (PL-RS) e a jornalista e influenciadora Juliana Moreira Leite afirmaram ter recebido propostas para produzir conteúdo contrário à liquidação do banco e questionar a atuação do Banco Central. A PF identificou ainda dezenas de perfis que publicaram mensagens semelhantes em defesa do Master, embora não esteja estabelecido que todos tenham sido contratados.

A revista IstoÉ aparece em outro ponto dessa estrutura. A Entre Investimentos, empresa que recebeu R$ 2,3 milhões diretamente do Master e foi utilizada em operações relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse, tinha como CEO Antonio Carlos Freixo Júnior, controlador da revista IstoÉ. O Master repassou pelo menos R$ 61 milhões supostamente para a estrutura relacionada ao financiamento do longa. A Entre Investimentos aparece, portanto, simultaneamente no circuito financeiro do Master, nas operações ligadas ao filme e no grupo empresarial associado à IstoÉ.

A relação entre a Entre Investimentos e a IstoÉ também apareceu em processo trabalhista envolvendo a revista. A Justiça do Trabalho analisou relações empresariais entre a IstoÉ Publicações e empresas do mesmo grupo e determinou medidas para preservar créditos destinados aos trabalhadores da publicação. A existência dessas relações empresariais acrescentou a revista ao mapa mais amplo das conexões entre o conglomerado de Vorcaro e o setor de comunicação.

O conjunto das operações mostra que a presença do Master na mídia não se limitava à compra convencional de espaço publicitário. Havia patrocínios de eventos, naming rights, campanhas institucionais, publicidade de produtos financeiros, participação em eventos empresariais, contratos com personalidades de televisão, pagamentos a empresas jornalísticas e propostas de contratação de influenciadores para atuar diretamente no ambiente político e econômico.

Essa rede ganhou importância especial durante a crise do Master. À medida que o Banco Central avançava para a liquidação e a tentativa de venda do banco ao BRB fracassava, a comunicação passou a ocupar espaço estratégico. De um lado estavam os contratos comerciais regulares de publicidade e patrocínio. De outro, surgiram operações investigadas pela PF envolvendo campanhas destinadas a questionar decisões do Banco Central, influenciar a opinião pública, atingir críticos e produzir uma versão favorável aos interesses de Vorcaro.

O caso da mídia acrescenta, assim, uma nova dimensão à estrutura do Master. A investigação não examina apenas para onde foram os recursos financeiros, mas também como o dinheiro circulou pelo mercado de comunicação, quais serviços foram efetivamente contratados, quais relações empresariais existiam entre os beneficiários e o círculo de Vorcaro e, principalmente, onde terminava a publicidade comercial e começava uma estratégia organizada de influência.

A investigação, a política e as apostas

A Operação Compliance Zero começou a investigar o Master ainda antes da liquidação. A primeira fase foi deflagrada em novembro de 2025. Vorcaro foi preso. Augusto Lima também foi preso, assim como outros executivos relacionados ao caso. Paulo Henrique Costa e Dário Garcia foram afastados de suas funções no BRB.

As fases seguintes ampliaram a investigação para lavagem de dinheiro, corrupção, falsificação de ativos, espionagem e outras condutas. Em uma das fases, a PF cumpriu dezenas de mandados e bloqueou bilhões de reais em bens. Os números dos bloqueios variaram conforme as fases e os alvos, chegando a aproximadamente R$ 27,7 bilhões em bens e valores alcançados pelas medidas judiciais.

A lógica da investigação mudou ao longo do tempo. No início, o foco estava nos créditos bancários. Depois, passou para os fundos. Em seguida, chegou às estruturas internacionais. Finalmente, alcançou as relações políticas e institucionais.

A investigação encontrou contatos com alguns parlamentares. Na casa do senador Ciro Nogueira (PP-PI) foi encontrada uma anotação manuscrita intitulada “Câmara”, com nomes e números. A PF levantou a hipótese de que alguns dos nomes correspondessem a Arthur Lira (PP-AL), Hugo Motta (Republicanos-PB), Elmar Nascimento (União Brasil-BA), Doutor Luizinho (PP-RJ), Adolfo Viana (PSDB-BA) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL).  O senador Jaques Wagner (PT-BA) aparece em outro núcleo. A PF identificou ligações entre Wagner e Augusto Lima. Wagner foi alvo de busca e apreensão, que não apresentaram irregularidades.

A conexão política mais direta com o campo bolsonarista aparece no suposto financiamento do filme Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Documentos da PF e da PGR mostram que o candidato presidencial da direita Flávio Bolsonaro (PL-SP) negociou diretamente com Vorcaro recursos para o filme. Segundo a PF, Flávio não aparece apenas como pessoa mencionada por terceiros. Ele aparece como interlocutor direto do banqueiro, participando das tratativas, realizando cobranças e acompanhando o andamento da produção.

A investigação identificou tratativas envolvendo até US$ 24 milhões. Pelo menos US$ 12,3 milhões teriam sido efetivamente pagos, segundo os documentos divulgados. A PF também afirma que o ex-deoutado federal e foragido da Justiça brasileira nos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro (PL-SP), participava da administração dos recursos. O dinheiro passou pela Entre Investimentos e depois chegou ao fundo Havengate, ligado ao advogado Paulo Calixto, criado em 2020, que permanecera praticamente inativo até fevereiro de 2025, quando recebeu US$ 2 milhões da Entre, segundo a PF.

A investigação examina a origem, o trânsito e os beneficiários finais desses recursos. Flávio Bolsonaro confirma ter pedido dinheiro a Vorcaro e afirma que buscava patrocínio privado para o filme. Mas a investigação do Dark Horse alcançou recursos públicos: a PF apura possível desvio de aproximadamente R$ 750 mil da produção e a utilização de verbas públicas.

Segundo os documentos divulgados, Mário Frias (PL-SP), deputado federal e ex-secretário especial da Cultura no governo Jair Bolsonaro (PL), destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Ferreira da Gama, que também é ligada à Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse. A PF investiga a destinação e a utilização desses recursos.

A investigação também apura a relação entre Frias e Karina Gama: os dois se aproximaram em 2020, quando Frias ocupava a Secretaria Especial da Cultura do governo Jair Bolsonaro. Posteriormente, Karina prestou serviços à campanha eleitoral do deputado. A existência das emendas e dos vínculos empresariais é documentada; eventual desvio ou utilização dos recursos na produção do filme permanece como objeto da investigação.

O Instituto Conhecer Brasil recebeu ainda aproximadamente R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo para outros projetos. A PF também examina a utilização de recursos públicos e as relações entre as entidades.

O relacionamento entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro ganhou importância política depois da divulgação de áudios e mensagens. A PF afirma que Flávio fez cobranças reiteradas para que o ex-banqueiro realizasse pagamentos para o filme. O candidato da direita confirmou que pediu recursos.

Flávio Bolsonaro também apareceu em outra controvérsia envolvendo uma empresa relacionada ao Master. Foram emitidas e posteriormente canceladas notas fiscais de aproximadamente R$ 1 milhão. O senador confirmou a existência das notas e negou irregularidades ou relação ilícita com o banco.

Vorcaro também entrou no setor de apostas. Entre dezembro de 2023 e setembro de 2025, foi sócio da Bet.Bet. Entre os demais sócios estavam Ernildo Júnior, ligado à Pixbet, Kleryston Pontes Silveira e o cantor Xand Avião. A Bet.Bet foi lançada em 2024 e posteriormente vendida para o grupo RNGX, ligado à Bet7K.

O caso também alcançou concessionárias de cemitérios de São Paulo. O ministro Dino determinou que a PF e a CVM investigassem relações financeiras entre empresas ligadas ao Master e empresas que atuam no setor. A apuração inclui operações imobiliárias e financeiras e uma reunião entre o também ministro do STF André Mendonça e Vorcaro ocorrida antes de decisões judiciais relacionadas ao setor.

A CVM já ultrapassou a fase de investigação em alguns episódios. Em setembro de 2026, a autarquia aplicou multas superiores a R$ 200 milhões em processo envolvendo o Brazil Realty Fundo de Investimento Imobiliário e pessoas e empresas relacionadas. A CVM concluiu pela existência de fraude em operação do mercado de capitais e aplicou sanções administrativas.

Banco Central, Judiciário e Gonet

O Banco Central autorizou e acompanhou a expansão do Master durante anos, especialmente sob a presidência de Roberto Campos Neto, que comandou a autarquia de 2019 a 2024. Durante esse período, Paulo Sérgio Neves de Souza ocupou a Diretoria de Fiscalização do Banco Central entre 2019 e 2023 e depois continuou na autarquia como supervisor de bancos, entre eles o Master. A própria investigação interna aberta pelo Banco Central passou a examinar a condução da fiscalização desde a expansão do conglomerado até sua liquidação, em novembro de 2025.

Há elementos que tornam esse período especialmente relevante. Segundo investigação divulgada em março de 2026, Paulo Sérgio Neves de Souza é suspeito de ter manipulado informações sobre a atuação do Master quando estava à frente da fiscalização, com o objetivo de afastar suspeitas da cúpula do Banco Central.

O Tribunal de Contas da União também abriu processos para verificar se houve omissão do Banco Central no exercício de suas atribuições de fiscalização e supervisão do Master. Um dos processos, aberto em novembro de 2025, tem exatamente como objeto avaliar eventual omissão do Banco Central na supervisão do banco; outro, de maio de 2025, trata de possíveis omissões na fiscalização de operações consideradas temerárias realizadas pelo Master ao longo dos anos.

Isso coloca três perguntas no centro da apuração: quando os problemas do Master se tornaram identificáveis para a supervisão do Banco Central; quais informações chegaram aos níveis superiores da autarquia durante a gestão Campos Neto; e se, diante dessas informações, havia elementos suficientes para adoção de medidas mais severas antes da liquidação.

A partir de 2026, a investigação do Master passou a alcançar diretamente ministros do STF. No caso de Dias Toffoli, a PF identificou relações empresariais entre familiares do magistrado e fundos ligados ao ecossistema do Master. Empresas da família tiveram como sócio o fundo Arleen, conectado a uma estrutura de fundos investigada no caso.

A PF também encontrou mensagens de Vorcaro e Fabiano Zettel nas quais aparecem referências a pagamentos relacionados a uma empresa da família de Toffoli. O ministro confirmou participação societária em uma das empresas mencionadas e afirmou que os valores recebidos eram lícitos e declarados.

Kassio Nunes Marques apareceu em mensagens envolvendo seu filho. Luiz Fux apareceu por causa de relações de Vorcaro com seu filho. Benedito Gonçalves, ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e atual corregedor nacional de Justiça, apareceu em supostas mensagens extraídas do celular de Vorcaro. As conversas registram encontros em Brasília, participação do ministro em eventos patrocinados pelo Master e mensagens de caráter cordial.

Alexandre de Moraes, do STF, também passou a aparecer no caso a partir de mensagens e registros que teriam sido encontrados no celular de Vorcaro, uma acusação do ministro André Mendonça não comprovada. A espetacularização do caso pela mídia foi antecedida por inferências a respeito de um contrato de R$ 131 milhões entre o Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro acusado por Mendonça.

O ministro acusador entrou na investigação por um caminho diferente. Em fevereiro de 2026, depois que Dias Toffoli deixou a relatoria do inquérito no STF, ele assumiu o caso por sorteio eletrônico. Sua atuação, ao reduzir o grau de sigilo, ampliar o acesso da PF ao material apreendido e autorizar o fluxo normal das perícias, modificando restrições estabelecidas pelo relator anterior, tinha o objetivo de espalhar na mídia vazamentos seletivos e criar manobras diversionistas para embaralhar as investigações — ações que chegaram ao afastamento, determinado por ele, de Andrei Rodrigues e Leandro Almada, diretor-geral e diretor de Inteligência da PF.

A situação se agravou quando Flávio Dino pediu explicações sobre uma relação entre o Master, o Instituto Iter – fundado por Mendonça – e contratos firmados com o município de São Paulo. Dino destacou que Mendonça havia recebido Vorcaro, em março de 2025, na sede de uma empresa privada e questionou a existência de relações contratuais remuneradas posteriores entre o Instituto Iter e o município. O pedido de esclarecimentos foi encaminhado ao presidente do STF, Edson Fachin.

A mídia, seguindo o modelo de Mendonça, arrastou o procurador-geral da República, Paulo Gonet, para o caso, depois que uma fotografia de abril de 2024 apareceu nos documentos. A imagem mostra Gonet e Vorcaro em Londres, em um evento no George Club. Segundo Gonet, o encontro foi superficial, ocorreu em ambiente social e não envolveu discussão profissional. Ele negou amizade ou relação de interesse com Vorcaro. O Conselho Superior do Ministério Público Federal abriu procedimento para examinar o episódio.

Gonet denunciou a forma como Mendonça utilizou determinadas informações da investigação. O ponto central é institucional: o procurador-geral da República tem papel direto na condução de investigações que atingem autoridades. Por isso, a apuração sobre seus contatos com o principal investigado é legítima.

O caso Master termina onde a investigação ainda começa: no rastro de uma estrutura que atravessou bancos, fundos, empresas, offshore, mídia, política e instituições públicas. O dinheiro circulou por carteiras de crédito, CDBs, fundos, imóveis, estruturas internacionais, contratos de publicidade e relações empresariais. A liquidação encerrou a vida do banco; não encerrou a história dos recursos, dos vínculos nem das responsabilidades que o caso colocou sob investigação. O que permanece é uma teia financeira de escala bilionária, com ramificações que alcançaram múltiplos setores que se relacionam com o mundo financeiro.

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