O Brasil está diante de um abismo. O desafio é livrá-lo dele antes de dar o próximo passo na votação para presidente da República no próximo dia 25 de outubro. O “tesouraço” anunciado por Flávio Bolsonaro tem um precedente que já deixa marcas profundas na América Latina: a motosserra de Javier Milei, na Argentina, transformada em símbolo de uma política de cortes, retirada de direitos e corrupção desenfreada. Contra esse cenário de terra arrasada se levantam jovens e trabalhadores em diferentes países, da Europa aos Estados Unidos, da Argentina ao Chile.
O que hoje explode nas ruas de tantas cidades pode ser o retrato do Brasil de amanhã. Se a extrema direita chegar ao governo com um programa de cortes profundos e redução da proteção social, a experiência internacional deixará de ser notícia distante e passará a fazer parte da vida cotidiana dos brasileiros. O suspense não está no que poderá acontecer, mas no que já aconteceu em outros lugares — e nas consequências de repetir o mesmo caminho.
Da Albânia à França, da Grécia à Espanha, da Argentina ao Chile, estudantes e trabalhadores enfrentam o custo de vida elevado, a precarização do trabalho, a crise habitacional e a redução de políticas sociais. A crise do Estado de bem-estar, a financeirização da economia e o avanço de programas de austeridade aproximam conflitos que sacodem a Europa, os Estados Unidos e a América Latina.
O custo social da crise
O encarecimento da alimentação, da energia e da moradia, a perda de poder aquisitivo dos salários, a precarização do trabalho e a deterioração dos serviços públicos estão entre os fatores que impulsionam as mobilizações em diferentes países. Na Europa, França, Itália, Bélgica, Portugal, Espanha e Albânia registraram protestos, enquanto greves e manifestações relacionadas à educação, às aposentadorias e à proteção social chegam a outros países.
Nos Estados Unidos, a mobilização No Kings levou às ruas manifestantes com reivindicações em defesa das instituições democráticas e dos direitos sociais. Na América Latina, medidas de “ajuste fiscal” como o proposto pelo “tesouraço” de Flávio Bolsonaro, com retirada de direitos, privatizações e precarização das relações de trabalho voltaram a desafiar o povo, com manifestações lideradas por organizações sindicais, movimentos populares e setores empresariais.
Entre agosto de 2021 e agosto de 2026, os alimentos encareceram 34% na União Europeia. Na França e na Espanha, quem recebe o salário mínimo perdeu poder de compra diante dos preços da comida. Em Portugal, os imóveis mais que dobraram de preço desde 2017, e os aluguéis de novos contratos quase dobraram. Em 17 de outubro, milhares foram às ruas de Lisboa contra o custo de vida e a crise habitacional. Esses números expõem o núcleo da revolta: salários que não acompanham as despesas essenciais, moradia cada vez mais inacessível e famílias pressionadas a cortar gastos básicos para sobreviver.
Na América Latina, a pressão sobre a renda assume características próprias de economias marcadas por desigualdade, informalidade, concentração patrimonial e dependência das exportações de matérias-primas. A retirada de direitos encarece o custo de vida e a redução do investimento público afeta a infraestrutura e os serviços. Combinadas, essas medidas resultam em arrojo salarial e benefícios previdenciários. Seus efeitos atingem principalmente as famílias que dispõem de menos recursos para absorver aumentos de preços.
A ascensão do capital financeiro
A relação entre essas dificuldades e as políticas econômicas contemporâneas passa pela transformação do capitalismo nas últimas cinco décadas. A dominação dos mercados financeiros, a circulação internacional desregulamentada de capitais e a prioridade atribuída à “estabilidade monetária” e ao controle privado – por meio da “independência da autoridade monetária”, o banco central – das contas públicas modificaram as condições em que os governos geriam os recursos do Estado.
Bancos, fundos de investimento, seguradoras e gestores de ativos negociam títulos públicos, ações, moedas e instrumentos de dívida. Quando os juros impostos pelo mercado financeiro aumentam, o refinanciamento das dívidas fica mais caro e cresce a parcela dos orçamentos destinada aos especuladores. Essa dinâmica interfere nas decisões sobre impostos, investimentos, salários, aposentadorias e serviços públicos.
É o projeto neoliberal, que se consolidou a partir das últimas décadas do século XX. A liberalização radical dos mercados de capitais, a desregulamentação das regras constitucionais sobre a circulação do dinheiro, as privatizações e a ampliação dos fluxos especulativos internacionais impuseram novas regras ao Estado, empresas e trabalhadores. O mercado financeiro passou a ocupar posição central na definição de políticas constitucionalmente vinculadas a estratégias de desenvolvimento, à expansão do emprego e à ampliação da proteção social.
As raízes intelectuais do neoliberalismo remontam às décadas de 1930 e 1940, quando a crise do capitalismo, a ascensão do socialismo e a expansão das políticas keynesianas e social-democratas estimularam uma reação de extrema direita. O Colóquio Walter Lippmann, realizado em Paris, em 1938, tentou reformular o superado liberalismo, enquanto a Sociedade Mont Pèlerin, fundada na Suíça em 1947 por Friedrich Hayek e outros intelectuais, articulou correntes contrárias ao planejamento econômico e à expansão do Estado de bem-estar social.
Entre elas estavam a Escola Austríaca e a Escola de Chicago, associada a Milton Friedman. Essa reação surgiu quando o capitalismo concorrencial já havia sido profundamente transformado pela concentração de capitais. Em O capital financeiro (1910), Rudolf Hilferding analisou a ascensão dos monopólios e do capital financeiro, que subordinavam a concorrência aos interesses de grandes grupos industriais. O imperialismo, nessa perspectiva, expressava a superação histórica do liberalismo concorrencial pelo domínio do capital monopolista e financeiro.
Lenin, o líder da Revolução Russa de 1917, foi decisivo para ampliar a análise de Rudolf Hilferding. Em O imperialismo, fase superior do capitalismo (1916), ele avançou ao definir o imperialismo como uma etapa histórica do capitalismo, caracterizada pelos monopólios, pela exportação de capitais, pela disputa de mercados e pela divisão do mundo entre grandes potências. Também apontou lacunas na obra de Hilferding, como a análise das rivalidades entre potências, da partilha territorial do mundo e do parasitismo econômico dos monopólios. Hilferding explicou a estrutura econômica do capital financeiro, e Lenin integrou essa estrutura a uma teoria do imperialismo como sistema mundial e etapa do desenvolvimento capitalista.
O neoliberalismo desenvolveu-se nesse cenário, tentando restaurar a centralidade do mercado privado. A relação entre essas correntes e o fascismo também teve manifestações concretas. Ludwig von Mises, expoente da Escola Austríaca, afirmou em sua obra Liberalismo (1927) que o fascismo italiano havia salvado temporariamente a civilização europeia do bolchevismo.
Mises também aconselhou Engelbert Dollfuss, cujo governo autoritário austríaco reprimiu o movimento operário e dissolveu instituições democráticas. Em outro caso, Bertrand de Jouvenel, participante da fundação da Sociedade Mont Pèlerin, havia integrado um partido fascista francês.
A crise do modelo do pós-guerra
A crise econômica do capitalismo dos anos 1970 abriu espaço para a expansão dessas ideias. A decisão do presidente Richard Nixon, em 15 de agosto de 1971, de suspender a conversibilidade do dólar em ouro marcou uma nova etapa dessa transformação. Ao desmontar o principal mecanismo monetário de Bretton Woods, instituído em 1944, os Estados Unidos responderam à crise do sistema monetário internacional e às pressões sobre a hegemonia do dólar.
A ruptura contribuiu para a transição a uma ordem de câmbios flutuantes e maior mobilidade internacional dos capitais. As crises do petróleo de 1973 e 1979 elevaram os custos de energia e produção, enquanto diversas economias enfrentaram inflação, desemprego e baixo crescimento. A combinação de estagnação e inflação, conhecida como estagflação, abalou a confiança nas políticas econômicas do pós-guerra. As dificuldades da indústria, os conflitos trabalhistas, a desaceleração da produtividade e a pressão por lucros levaram à contestação ao compromisso que havia sustentado a expansão do Estado de bem-estar social.
O modelo do pós-guerra havia se apoiado na combinação entre crescimento econômico, emprego elevado, negociação trabalhista coletiva, tributação progressiva e ampliação de serviços públicos. Em vários países europeus, governos social-democratas contribuíram para construir sistemas públicos de saúde, educação, previdência e seguro-desemprego. O Estado atuava na regulação dos mercados, na proteção dos rendimentos e na sustentação da demanda.
A crise dos anos 1970 comprometeu as condições econômicas e políticas desse arranjo. A inflação reduziu o poder de compra, o desemprego aumentou e os governos enfrentaram dificuldades para conciliar crescimento, estabilidade dos preços e expansão das despesas sociais. Setores empresariais passaram a contestar a tributação, a força dos sindicatos e a regulação estatal. As correntes neoliberais apresentaram a desregulamentação, a privatização e a contenção dos gastos como respostas à crise. A eleição de Margaret Thatcher, no Reino Unido, em 1979, e de Ronald Reagan, nos Estados Unidos, em 1980, marcou a ascensão política dessa orientação.
Não houve, porém, um desaparecimento uniforme do Estado de bem-estar social. Os sistemas de proteção continuaram a existir, mas sofreram mudanças em sua cobertura, em suas fontes de financiamento e nas condições de acesso. Em diferentes países, políticas universais foram parcialmente substituídas por mecanismos mais seletivos, serviços públicos foram submetidos a critérios de mercado e a previdência passou a incorporar maior participação de fundos privados. A crise do projeto social-democrata manifestou-se também na dificuldade de seus partidos de preservar a combinação entre pleno emprego, direitos sociais, crescimento e controle democrático da economia.
Parte da social-democracia europeia incorporou elementos da agenda neoliberal, aceitando privatizações, flexibilização do trabalho, independência dos bancos centrais e regras fiscais mais restritivas. A integração econômica europeia avançou sem a criação de uma estrutura fiscal comum capaz de redistribuir recursos em escala comparável à dos Estados nacionais. A promessa de uma Europa social permaneceu em tensão com a prioridade conferida à “estabilidade monetária”, o controle privado da moeda.
Austeridade e integração europeia
Na Europa, a transformação se combinou com o aprofundamento da integração econômica. O Tratado de Roma, assinado em 1957, estabeleceu as bases da Comunidade Econômica Europeia e do mercado comum. A circulação de mercadorias, serviços, pessoas e capitais foi ampliada gradualmente. O Tratado de Maastricht, assinado em 7 de fevereiro de 1992 e em vigor desde novembro de 1993, criou a União Europeia e estabeleceu o caminho para a União Econômica e Monetária, que levou à adoção do euro.
Maastricht fixou como valores de referência um déficit público equivalente a 3% do Produto Interno Bruto (PIB) e uma dívida pública de 60% do PIB. Os países que adotaram o euro passaram a compartilhar a política monetária, enquanto os orçamentos e grande parte das políticas sociais permaneceram sob responsabilidade dos governos nacionais.
A união monetária foi instituída sem um orçamento federal europeu com capacidade de arrecadação e redistribuição comparável à dos Estados nacionais. Os países perderam a possibilidade de ajustar individualmente suas moedas para responder a choques econômicos, mas conservaram diferenças importantes em produtividade, estrutura industrial e proteção social.
Os limites fiscais foram reforçados pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento, de 1997, e por reformas posteriores às crises financeiras e das dívidas soberanas. A crise internacional de 2008 aprofundou essas tensões. Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Chipre enfrentaram programas de assistência financeira e medidas de arrocho fiscal.
Na Grécia, os programas incluíram cortes de salários e aposentadorias, aumentos de impostos e cortes na administração pública. Em Portugal, as medidas atingiram rendimentos, emprego público e serviços. A redução dos déficits e a estabilização das dívidas ocuparam posição central nas negociações entre governos, instituições europeias e representantes do mercado financeiro.
A reforma das regras fiscais europeias que entrou em vigor em 2024 manteve os valores de referência de 3% para o déficit e 60% para a dívida, introduzindo planos fiscais e estruturais de médio prazo e trajetórias de ajuste diferenciadas para cada país. O sistema prevê períodos ordinários de quatro anos, que podem ser ampliados para sete mediante compromissos adicionais de reformas e investimentos. A administração das contas públicas continua, assim, submetida a parâmetros comuns que condicionam as escolhas nacionais de despesa e investimento aos ditames do mercado financeiro.
Na França, a combinação de dívida elevada, déficit público acima dos parâmetros europeus e aumento da despesa com juros tornou-se um dos eixos da disputa orçamentária. A dívida francesa chegou a aproximadamente 115,6% do PIB em 2025. As projeções para 2026 indicam déficit superior a 5% do PIB, enquanto o governo estabeleceu uma meta de redução para 2027. O plano fiscal prevê medidas de contenção de despesas, com mudanças em benefícios, aposentadorias e gastos públicos. O custo dos juros da dívida foi estimado em 79,2 bilhões de euros em 2026 e deve alcançar 91,2 bilhões em 2027.
A mobilização estudantil francesa que começou em setembro é resposta a esses arrochos impostos pelo mercado financeiro. As reivindicações começaram com pautas relacionadas às condições das escolas, à falta de professores e às instalações. Posteriormente, as manifestações passaram a reunir outros setores sociais. Os atos de outubro ocorreram em várias cidades, incluindo Paris, Marselha, Nice, Nantes, Bordeaux, Limoges, Lille, Toulouse e Estrasburgo. Houve saques, incêndios e confrontos em determinados locais, além de marchas pacíficas e mobilizações de caráter sindical.
Na Bélgica, as manifestações se relacionam a reformas nas aposentadorias, nos benefícios de desemprego, na desindexação dos salários e no financiamento da educação. As organizações sindicais contestam mudanças que reduzem a proteção social e o poder de compra dos trabalhadores. Estudantes também protestaram contra cortes no sistema educacional, aumento de mensalidades universitárias e alterações nas condições de trabalho dos professores. Em Bruxelas e Liège, manifestações estudantis foram acompanhadas por confrontos e pelo uso de gás lacrimogêneo e jatos d’água pela polícia.
Em Portugal, a crise da moradia se combina com salários insuficientes e aumento das despesas básicas. Em Lisboa, manifestantes montaram barracas na praça do Rossio para denunciar a falta de habitação acessível. A mobilização convocada pela Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP) reivindicou aumentos salariais e das aposentadorias, melhores serviços públicos e medidas contra o encarecimento da moradia e dos combustíveis. O pacote trabalhista denominado “Trabalho XXI”, apresentado pelo governo, também provocou resistência por prever mais de cem alterações ao Código do Trabalho, uma típica reforma trabalhista neoliberal.
O Partido Comunista Português (PCP) e as organizações sindicais ligadas à defesa dos direitos trabalhistas lideram as manifestações. As reivindicações incluem a valorização dos salários e das aposentadorias, a redução da precariedade, a proteção dos serviços públicos e medidas para enfrentar o aumento dos aluguéis. A crise habitacional atinge especialmente jovens trabalhadores que encontram dificuldades para sair da casa dos pais ou permanecer nas regiões onde estudam e trabalham.
Na Itália, manifestações realizadas em outubro reuniram reivindicações sobre o custo de vida, as condições educacionais, a precariedade do emprego e os gastos militares. Em Milão, uma marcha contra a guerra e o encarecimento das despesas domésticas foi seguida por confrontos, incêndios em barricadas e saques. Também ocorreram episódios de confronto em Bolonha e Turim. Os protestos se inserem em uma sequência de mobilizações trabalhistas contra despejos, baixos rendimentos e mudanças nas condições de trabalho.
Na Espanha, a moradia tornou-se o centro de manifestações realizadas em Madri e em outras cidades. Os participantes exigiram medidas para conter os aluguéis e proteger os inquilinos, depois da rejeição parlamentar de propostas de emergência para enfrentar a crise habitacional. O despejo de uma mulher de 87 anos, Maricarmen Abascal, de um apartamento em Madri onde vivia havia décadas, tornou-se um caso de grande repercussão. Ela morreu em 7 de outubro, sem que a causa da morte tivesse sido divulgada. O episódio ampliou a mobilização em torno da dificuldade de permanecer em casa diante do aumento dos aluguéis.
A crise imobiliária espanhola está relacionada à valorização especulativa do mercado financeiro dos imóveis, ao encarecimento dos aluguéis de curta duração em determinadas áreas e à insuficiência de habitação acessível para famílias de baixa e média renda. Os protestos exigem limites aos aumentos, proteção contra despejos e políticas públicas capazes de ampliar a oferta de moradias. A pressão dos preços sobre os inquilinos afeta jovens, aposentados e trabalhadores cujos rendimentos não acompanham o custo de vida.
Na Albânia, as manifestações começaram em Tirana em 13 de outubro, com estudantes que denunciaram as condições das universidades, os custos da educação e a falta de oportunidades de emprego. Os protestos passaram a incluir exigências de renúncia do primeiro-ministro Edi Rama, no cargo desde 2013. Os confrontos com a polícia envolveram o uso de gás lacrimogêneo, jatos d’água e balas de borracha e detenções. A mobilização também incorporou denúncias de corrupção.
Na Grécia, o custo de vida, os salários e as condições dos serviços públicos continuam no centro das mobilizações. Em Salônica, manifestações reuniram reivindicações trabalhistas e estudantis, enquanto a crise habitacional e os custos da formação universitária afetam as perspectivas de jovens que precisam conciliar estudo, trabalho e despesas domésticas. A experiência grega permanece marcada pelos programas de austeridade adotados durante a crise da dívida soberana, que incluíram cortes de salários e aposentadorias, aumentos de impostos e reformas da administração pública.
As organizações comunistas e sindicais gregas, entre elas o Partido Comunista da Grécia (KKE) e sua organização juvenil, a Juventude Comunista da Grécia (KNE), participam de mobilizações em torno do financiamento da educação, dos direitos trabalhistas e da proteção social. As reivindicações estudantis incluem melhores condições nas universidades e alojamentos, além de medidas para reduzir os custos.
Na Alemanha, manifestações sindicais protestaram contra planos sociais e defenderam a proteção das aposentadorias, da saúde e das condições de trabalho. No Reino Unido, greves em universidades envolveram planos de redução de despesas, risco de demissões e fechamento de programas acadêmicos. Os conflitos no ensino superior britânico refletem a pressão financeira sobre instituições que enfrentam dificuldades para equilibrar receitas e despesas, com consequências para a contratação de funcionários, a oferta de cursos e as condições de trabalho.
Na Holanda, trabalhadores do transporte público protestaram contra medidas de contenção das despesas sociais, incluindo mudanças no seguro-desemprego. Na Irlanda, estudantes denunciaram os custos universitários e a falta de moradia acessível. Na Noruega, maquinistas ferroviários mantiveram uma paralisação trabalhista, enquanto organizações estudantis austríacas anunciaram novas mobilizações.
Nos Estados Unidos, a mobilização No Kings levou às ruas manifestantes contrários ao governo de Donald Trump e à concentração de poder na Presidência. Os atos reuniram reivindicações em defesa das instituições democráticas, dos direitos civis e das liberdades políticas e medidas que afetam o custo de vida. A manifestação ocorre em uma sociedade marcada pelo elevado custo da moradia, pelo endividamento de famílias e estudantes e pelas dificuldades de acesso a serviços essenciais. O financiamento da educação e o custo dos cuidados de saúde integram a revolta social sobre as condições de vida das novas gerações.
A experiência norte-americana também está ligada à transformação do Estado de bem-estar. Ao contrário de vários países europeus, os Estados Unidos nunca construíram um sistema universal de proteção social com a mesma abrangência dos modelos europeus. Saúde, educação superior e previdência dependem, em diferentes graus, de rendimentos individuais, emprego e mecanismos privados. A expansão do endividamento familiar e estudantil torna o acesso a serviços essenciais uma questão econômica e política.
O ajuste na América Latina
Na América Latina, a agenda neoliberal chegou a economias com sistemas de proteção social mais restritos e mercados de trabalho marcados pela informalidade. A crise da dívida externa dos anos 1980, a inflação e as dificuldades de financiamento impostas pelo mercado financeiro abriram caminho para programas de cortes sociais e arrojo trabalhista.
O chamado Consenso de Washington, formulado em 1989, sistematizou recomendações como aperto fiscal, abertura comercial, privatizações, desregulamentação e ampliação do papel do mercado financeiro. A crise da dívida e a necessidade de obter financiamento externo aumentaram a influência do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial, do Tesouro dos Estados Unidos e dos credores privados
O Chile foi um dos primeiros laboratórios dessa transformação. Durante a ditadura de Augusto Pinochet, iniciada após o golpe de 1973, o país adotou reformas orientadas pela liberalização econômica, pela abertura comercial, pela privatização de empresas e pela redução do papel do Estado na provisão de determinados serviços sociais e infraestruturais.
O sistema previdenciário de capitalização individual, organizado em torno das Administradoras de Fundos de Pensões (AFPs), tornou-se um dos símbolos desse modelo. A aposentadoria passou a depender fortemente das contribuições acumuladas e dos resultados dos investimentos do mercado financeiro, em vez de se apoiar exclusivamente em um sistema de repartição solidária.
O modelo chileno foi frequentemente apresentado como exemplo de “estabilidade macroeconômica”. Ao longo das décadas seguintes, porém, o resultado foram as baixas aposentadorias recebidas por parcelas dos trabalhadores, a desigualdade e o custo elevados de serviços essenciais. As mobilizações de 2019 reuniram reivindicações sobre transporte, pensões, saúde, educação e desigualdade.
Em janeiro de 2025, o Chile aprovou uma reforma previdenciária destinada a elevar as contribuições e melhorar os benefícios, alterando parcialmente o sistema estabelecido durante a ditadura. A eleição de José Antonio Kast, que assumiu a Presidência em março de 2026, recolocou no centro da agenda chilena propostas de desregulamentação e redução de despesas públicas.
Na Argentina, as políticas de ajuste neoliberal de Javier Milei aprofundaram as dificuldades de parcelas da população. A pobreza atingiu 32,3% no primeiro semestre de 2026, ante 28,2% no período anterior, enquanto o desemprego chegou a 7,9% e o emprego privado acumulou mais de um ano de retração. A desaceleração da inflação não se traduziu automaticamente em recuperação da renda. Em bairros populares, a volta dos clubes de troca — nos quais alimentos e outros bens são permutados por roupas e utensílios — e o recurso a empréstimos para comprar comida expõem o impacto social da perda de poder aquisitivo.
A experiência argentina possui antecedentes importantes. Nos anos 1990, durante a presidência de Carlos Menem, o país adotou privatizações, abertura comercial e conversibilidade entre o peso e o dólar. A paridade ajudou a conter a inflação, mas reduziu a margem de resposta cambial diante de choques externos. O endividamento e a recessão aprofundaram-se no fim da década, culminando na crise de 2001, com colapso econômico, restrições bancárias, inadimplência da dívida e forte convulsão social.
A Bolívia vive uma nova ofensiva neoliberal contra o papel do Estado. Em setembro de 2026, o presidente Rodrigo Paz encerrou a política nacional de preço do diesel e adotou um sistema de paridade internacional, argumentando que a medida era necessária diante da escassez de combustível e do peso fiscal do programa. O diesel passou a custar muito mais, atingindo agricultores, transportadores e consumidores, porque o preço do combustível repercute sobre a produção e a distribuição de alimentos.
A retirada do subsídio boliviano expõe a dimensão concreta das medidas de “ajuste fiscal”. O governo argumenta que a política anterior pressionava as contas públicas, estimulava o contrabando e dificultava o abastecimento. Para os agricultores e transportadores, porém, o aumento do diesel eleva os custos de produção e deslocamento. O preço dos combustíveis afeta o custo de vida mesmo para quem não utiliza automóvel: entra no transporte coletivo, na circulação de mercadorias e na formação dos preços de alimentos e outros produtos essenciais.
O episódio também marca uma mudança na trajetória política boliviana. Depois de décadas de reformas impostas pelo mercado financeiro nos anos 1980 e 1990, o país viveu, a partir de 2006, uma fase de maior presença estatal, nacionalização de setores estratégicos e ampliação de políticas sociais sob os governos do Movimento ao Socialismo (MAS). A expansão das receitas do gás e de outras matérias-primas permitiu financiar programas públicos e ampliar a presença do Estado.
No Equador, a decisão do presidente Daniel Noboa de eliminar o subsídio ao diesel em setembro de 2025 desencadeou protestos liderados por organizações indígenas e rurais. As manifestações incluíram bloqueios de estradas e confrontos, enquanto a Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE) contestou a medida e a resposta do governo. O Executivo argumentou que a “economia” obtida com a retirada do subsídio poderia ser redirecionada a programas sociais, a mesma ladainha em todos os países governados pelo projeto neoliberal.
A riqueza não desapareceu: concentrou-se. Thomas Piketty demonstrou, no livro O capital no século XXI, que o patrimônio se acumula de forma desigual e que os grandes detentores de capital dispõem de vantagens para ampliar suas fortunas, enquanto a maioria enfrenta dificuldades para transformar o próprio trabalho em segurança material. Na economia financeirizada, há recursos e dinheiro, mas o controle dos ativos e dos rendimentos permanece concentrado. O problema não é simplesmente a falta de riqueza, mas quem a possui, quem se apropria de seus rendimentos e a serviço de quais interesses ela é distribuída.
