Em 2019, numa pequena cidade rural de Ohio com cerca de cem habitantes, chamada Rockbridge, um grupo restrito de empresários, investidores e estrategistas políticos alugou uma pousada para discutir uma questão maior do que a própria eleição de Donald Trump. Peter Thiel, James David Vance, conhecido como J. D. Vance, Rebekah Mercer, Tucker Carlson, Oren Cass e outros representantes da nova direita norte-americana discutiram como transformar uma vitória eleitoral circunstancial em uma estrutura política capaz de sobreviver ao próprio Trump.
Entre os participantes estava um empresário do Arizona ainda pouco conhecido fora daquele círculo. Seu nome era Christopher Buskirk, conhecido como Chris Buskirk. Quem estava naquela sala ajuda a dimensionar o que estava sendo discutido. Peter Thiel era o bilionário do setor tecnológico que havia investido na trajetória empresarial e política de J. D. Vance e se tornaria uma das figuras financeiras mais importantes do novo conservadorismo norte-americano.
J. D. Vance, então escritor e investidor, havia se tornado conhecido nacionalmente pelo livro Hillbilly Elegy — um relato autobiográfico sobre sua infância numa família operária originária dos Apalaches, a região montanhosa do leste dos Estados Unidos, as dificuldades econômicas e familiares de sua comunidade e sua trajetória de ascensão social pela educação — e trabalhava no universo empresarial ligado a Thiel. Anos depois, chegaria ao Senado e à vice-presidência dos Estados Unidos.
Rebekah Mercer levava àquele círculo a experiência de uma das famílias que haviam se tornado grandes financiadoras da direita americana. Filha do bilionário Robert Mercer, ela participou do financiamento de organizações políticas, grupos de comunicação e instituições conservadoras e integrou conselhos de entidades importantes desse campo.
Tucker Carlson representava outra dimensão da rede: a comunicação de massa. Jornalista e apresentador, tornou-se uma das figuras mais conhecidas da mídia conservadora dos Estados Unidos. Oren Cass, economista e então uma das vozes intelectuais da nova direita, posteriormente fundaria o American Compass, organização dedicada à formulação de ideias econômicas para esse campo. Chris Buskirk reunia outra característica: empresário, escritor e articulador político, seria um dos principais responsáveis por transformar aquele círculo de relações numa estrutura organizada.
A composição não terminava ali. Marc Andreessen, um dos nomes mais importantes do capital de risco do setor tecnológico, apareceria associado ao ecossistema financeiro que cercava a Rockbridge. Tyler e Cameron Winklevoss, empresários e investidores bilionários ligados ao setor de criptomoedas, também fariam parte do círculo mais amplo de grandes financiadores da direita tecnológica. A presença desses nomes ajuda a compreender que a Rockbridge não nasceu apenas como uma iniciativa eleitoral, mas no encontro entre grandes fortunas, tecnologia, comunicação e organização política.
Capital de risco político
Anos depois, a cena seria muito diferente. Em Palm Beach, cidade litorânea da Flórida conhecida por concentrar grandes fortunas e residências de milionários e bilionários norte-americanos, diante de mais de cem potenciais investidores, J. D. Vance e Chris Buskirk apareceram sentados frente a frente, em poltronas, numa apresentação reservada a doadores.
A pequena reunião da zona rural de Ohio havia dado lugar a uma organização com dezenas de milhões de dólares e uma rede de entidades voltadas a dados, mídia, mobilização eleitoral e comunidades religiosas. A Rockbridge já não era uma conversa entre poucos investidores. Tornara-se uma infraestrutura política.
O material apresentado aos integrantes da Rockbridge descrevia a organização como uma espécie de fundo de capital de risco político. O conceito consiste em aplicar recursos privados em iniciativas políticas e institucionais capazes de produzir efeitos prolongados. O modelo desloca o centro da atividade do financiamento direto de candidatos para a construção das estruturas que produzem candidatos, eleitores, mensagens, quadros e influência institucional.
Entre os nomes associados à rede estavam Rebekah Mercer, com sua experiência como grande financiadora de organizações conservadoras; Marc Andreessen, representante do capital de risco e da indústria tecnológica; e os irmãos Tyler e Cameron Winklevoss, cuja fortuna se expandiu no setor de criptomoedas. Peter Thiel ocupava posição particularmente relevante pela relação com Vance e pela capacidade de conectar o universo tecnológico, financeiro e político.
Uma arquitetura descentralizada
A Rockbridge não concentra suas atividades numa única entidade. Sua estrutura reúne organizações especializadas. Better Tomorrow e Over the Horizon Action atuam na mobilização eleitoral. Firebrand Action trabalha com comunicação e mídia. The Faithful in Action atua com pessoas vinculadas a comunidades religiosas. Turnout for America participa da ação política. Outras entidades desenvolvem pesquisa, formação e relacionamento institucional. A Rockbridge Network funciona como núcleo de articulação desse conjunto.
A descentralização permite distribuir funções entre entidades juridicamente distintas. Uma organização pode trabalhar com eleitores, outra com comunicação, outra com religião e outra com financiamento político, enquanto pessoas e recursos circulam entre elas. O resultado é uma infraestrutura que não depende de uma única instituição visível. A conexão entre capital, dados, relacionamentos, comunicação e conhecimento especializado sustenta o conjunto.
Dinheiro encontra tecnologia
A tecnologia ocupa posição central nessa arquitetura. A Rockbridge reuniu pesquisadores, especialistas em dados, publicitários digitais e operadores eleitorais para identificar grupos de eleitores, conhecer suas características, selecionar mensagens e definir públicos para ações específicas. O trabalho com dados transforma a campanha eleitoral em uma operação contínua de identificação e relacionamento.
Chris Buskirk desempenha papel central nesse modelo. Sua atuação combina relacionamento com grandes doadores, criação de organizações e articulação entre empresários e operadores políticos. Esse percurso também o levou ao universo da 1789 Capital, cujo nome evoca o ano em que a Constituição dos Estados Unidos entrou em vigor, empresa que surgiu em 2022 no mesmo ambiente da Rockbridge.
A empresa passou a operar segundo a ideia de “capitalismo patriótico”, direcionando investimentos para negócios considerados compatíveis com valores do movimento conservador. Donald Trump Jr., filho de Donald Trump, posteriormente ingressou na estrutura. A 1789 Capital ampliou a dimensão econômica do ecossistema, investindo em setores como inteligência artificial, defesa, tecnologia e criptomoedas.
Em 2025, a agência de notícias Reuters informou que a 1789 Capital havia ultrapassado US$ 1 bilhão em ativos. A empresa não se confunde juridicamente com a Rockbridge, mas sua origem e seus dirigentes revelam a proximidade entre capital de investimento, tecnologia e a rede política construída em torno de Buskirk e Vance.
A mídia como infraestrutura
A comunicação constitui outro eixo. Firebrand Action foi criada para atuar na produção e disseminação de mensagens políticas, envolvendo publicidade, pesquisas, produção audiovisual, influenciadores e iniciativas de mídia. A Rockbridge passou a investir em estruturas capazes de produzir conteúdo político fora dos canais tradicionais do Partido Republicano, conhecido nos Estados Unidos como Grand Old Party, ou Grande Partido Antigo, apelido tradicional do partido.
Pesquisas identificam públicos, dados permitem segmentá-los, veículos e influenciadores produzem mensagens e estruturas de mobilização transformam exposição em participação. A comunicação deixa de ser uma etapa final da campanha e passa a integrar a formação antecipada do ambiente político.
A Rockbridge trabalha com a identificação de pessoas antes do período eleitoral. Comunidades, associações, grupos profissionais, atividades sociais e organizações religiosas podem servir como pontos de entrada. A política aparece depois do relacionamento inicial. O método transforma vínculos sociais preexistentes em canais de mobilização.
Um frequentador de igreja pode ser identificado por sua comunidade religiosa. Um empresário pode ser localizado por uma associação profissional. Um eleitor pode ser alcançado por publicidade relacionada a seus interesses. Essas informações podem orientar mensagens, eventos e ações específicas. O modelo combina relacionamento pessoal e tecnologia de dados.
A religião entra diretamente
The Faithful in Action constitui o componente religioso mais direto da arquitetura Rockbridge. Não é uma igreja nem uma denominação religiosa. É uma organização cívica criada para trabalhar com pessoas pertencentes a diferentes comunidades religiosas e estimular sua participação política. A Reuters identificou a entidade como parte da estrutura vinculada à Rockbridge e registrou sua função de mobilização de frequentadores de igrejas.
A entidade aparece em documentos administrativos e fiscais como organização de participação cívica. Sua função é trabalhar com pessoas que já possuem vínculos religiosos, utilizando essas comunidades como ambientes de relacionamento e mobilização. O método não exige que uma igreja seja formalmente incorporada à estrutura política. A atuação pode ocorrer diretamente sobre os indivíduos que pertencem a essas comunidades.
A estratégia religiosa ganha importância porque as igrejas possuem redes sociais próprias, lideranças reconhecidas e atividades regulares. Para uma organização política, esses vínculos formam ambientes previamente organizados de relacionamento. The Faithful in Action foi criada para trabalhar nesse espaço.
A Rockbridge atribuiu à Faithful in Action mais de 160 mil integrantes. A Reuters não conseguiu confirmar esse número nem estabelecer sua dimensão atual. O dado representa, portanto, a dimensão apresentada pela própria rede. A existência da organização e sua finalidade de mobilização religiosa estão documentadas.
Buskirk e o universo cristão
A dimensão religiosa ultrapassa a Faithful in Action. Chris Buskirk também circula por uma rede intelectual cristã. Ele aparece ligado à American Reformer, organização e publicação dedicada ao cristianismo reformado, à teologia pública, à cultura e à relação entre religião e sociedade. A American Reformer não pertence à Rockbridge e não funciona como seu braço formal. A conexão está na participação de Buskirk e na circulação de pessoas entre ambientes políticos, empresariais e religiosos.
A American Reformer discute a presença pública do cristianismo, governo, cultura, ordem social e papel das instituições religiosas. Seus debates reúnem pastores, intelectuais e operadores políticos. A participação de Buskirk nesse ambiente acrescenta à infraestrutura da Rockbridge uma dimensão intelectual que não aparece na simples mobilização eleitoral.
A New Founding acrescenta outro elemento. A organização trabalha com formação de lideranças, empreendedorismo e criação de instituições a partir de uma perspectiva cristã conservadora. J. D. Vance manteve contato com esse ambiente antes de chegar à vice-presidência, e integrantes da New Founding circulam por organizações do novo conservadorismo norte-americano.
A conexão é relevante porque a formação de quadros também está entre as prioridades da Rockbridge. O objetivo não se limita a mobilizar eleitores existentes. A rede procura formar pessoas capazes de atuar em empresas, organizações sociais, meios de comunicação, instituições públicas e governos. A formação passa a ser uma etapa anterior à ocupação institucional.
O círculo dos TheoBros
Nesse ambiente aparece a expressão “TheoBros”, utilizada para identificar uma rede informal de jovens intelectuais e ativistas “cristãos” ligados ao protestantismo reformado e a correntes que se autodenominam pós-liberais e nacional-conservadoras. O termo não designa igreja ou organização jurídica. Descreve um ambiente de relações pessoais, intelectuais e políticas. A American Reformer dedicou um programa específico ao fenômeno, com participação do pastor Douglas Wilson.
O circuito mostra como religião e política se aproximam sem que uma única organização controle as demais. Pastores, escritores, empresários, estudantes, investidores e operadores políticos participam de instituições diferentes e, ao mesmo tempo, compartilham eventos, publicações, relações pessoais e debates. A conexão ocorre pela circulação entre organizações independentes.
Douglas Wilson é pastor reformado norte-americano e fundador da Christ Church, comunidade religiosa localizada em Moscow, Idaho. Está também ligado à Canon Press e à New Saint Andrews College, instituições voltadas respectivamente à publicação e à formação educacional. Wilson não é dirigente da Rockbridge, e suas instituições não fazem parte formal da rede.
A conexão está no ambiente intelectual compartilhado. Wilson participa de debates da American Reformer sobre cristianismo público, formação comunitária e organização social. Pessoas que circulam por esse universo também aparecem na New Founding e no nacional-conservadorismo. O vínculo, portanto, é de rede e circulação, não de relação institucional.
A New Saint Andrews College acrescenta a dimensão educacional. Ligada ao círculo de Wilson, a instituição oferece formação intelectual de orientação cristã clássica. Esse tipo de estrutura permite transmitir ideias e formar pessoas antes de sua entrada na política profissional. Educação e formação intelectual tornam-se instrumentos de construção institucional de longo prazo.
Essa característica coincide com a lógica da Rockbridge. A organização trabalha com formação de jovens e preparação de pessoas para posições estratégicas. As funções permanecem diferentes: a faculdade educa; a American Reformer produz debate intelectual; a New Founding trabalha com formação institucional; a Rockbridge concentra capital e coordenação política; e as organizações eleitorais transformam redes sociais em mobilização.
O nacional conservadorismo
O movimento National Conservatism, conhecido como NatCon, acrescenta outro elemento. Trata-se de uma corrente política e intelectual que enfatiza nação, família, cultura e instituições nacionais. Chris Buskirk e Peter Thiel aparecem associados a esse ambiente, assim como pessoas vinculadas à New Founding e a outras organizações do novo conservadorismo.
O NatCon também não é uma organização religiosa. Sua importância está na circulação de ideias e pessoas. Integrantes do ambiente cristão reformado participam de debates do nacional-conservadorismo, aproximando temas religiosos, culturais, nacionais e econômicos. A Rockbridge participa desse ecossistema sem controlar formalmente as organizações que o compõem.
A estratégia também alcança o campo jurídico. O projeto Lawfare & Strategic Litigation prevê o emprego de instrumentos judiciais em disputas políticas. O termo “lawfare” é utilizado nesse ambiente para designar o uso estratégico do direito como instrumento de conflito institucional. A proposta incluía identificar pontos de pressão e utilizar ações judiciais como parte da disputa política.
A Rockbridge também desenvolveu um projeto de transição governamental destinado a preparar pessoas e programas para uma futura administração republicana. Em vez de esperar uma eleição para selecionar quadros, a estrutura procura preparar previamente especialistas, nomes e propostas.
O mecanismo aproxima organização política e governo. Pessoas que participam de redes privadas de financiamento, pesquisa, comunicação ou formação podem posteriormente ocupar posições administrativas. A preparação antecipada reduz o intervalo entre vitória eleitoral e montagem de uma equipe de governo.
Brasil entra na mira
A Rockbridge passou a buscar presença fora dos Estados Unidos. A Coreia do Sul tornou-se um dos principais pontos dessa expansão, com a criação da Rockbridge Korea, estrutura voltada a pesquisa e debate público que aproximou empresários, especialistas e antigos integrantes do governo sul-coreano. O projeto internacional também passou a considerar Taiwan, Índia, Europa e Brasil.
No Brasil, a Rockbridge iniciou em 2026 uma tentativa de formar uma estrutura própria. Documentos obtidos pelo jornal Folha de S. Paulo mostram que representantes da organização procuraram empresários e líderes políticos brasileiros. O projeto foi interrompido durante o período eleitoral, mas deixou documentação sobre sua arquitetura.
A estrutura foi organizada em torno da Rockbridge Brazil. A expressão LLC corresponde a Limited Liability Company, modalidade empresarial norte-americana semelhante, em alguns aspectos, a uma sociedade de responsabilidade limitada. Chris Applegate, assessor ligado a J. D. Vance, aparece no registro como organizador da estrutura. O contato utilizado estava associado ao advogado Stephen Wade Angus, do escritório Jones Day, com atuação em São Paulo.
Um fundo político brasileiro
A proposta brasileira apresenta a Rockbridge Brasil como fundo de capital de risco político. O material prevê duas categorias de adesão, com contribuições anuais de US$ 500 mil e US$ 1 milhão, além de reuniões fechadas e participação na definição das prioridades da estrutura. O modelo reproduz a lógica de concentração de recursos privados utilizada nos Estados Unidos.
As três áreas previstas são mídia, formação de jovens e atividade legislativa. A mídia produz e distribui mensagens. A formação cria quadros. A atividade legislativa aproxima a estrutura de parlamentares e do processo de elaboração de projetos. O conjunto define uma organização de atuação política e institucional, e não uma empresa convencional.
O projeto brasileiro prevê ainda um Technology Council, ou Conselho de Tecnologia, com 23 integrantes. Quatro brasileiros aparecem relacionados ao conselho: Talles Gomes, empresário de tecnologia; Mario Araripe, empresário e investidor; David Peixoto; e Pedro Sang. O documento estima potencial de impacto econômico superior a US$ 100 bilhões em dez anos.
A iniciativa teve contato com nomes importantes do empresariado brasileiro. Segundo a Folha de S. Paulo, representantes da Rockbridge tiveram contato com Joesley Batista, empresário ligado ao grupo J&F, e André Esteves, banqueiro e presidente do banco BTG Pactual, um barão das finanças da chamada faria Lima. Flávio Bolsonaro e Romeu Zema também se reuniram com integrantes da rede. Esses contatos mostram a aproximação com empresários, banqueiros, investidores, políticos e especialistas em tecnologia.
A tentativa de implantação ganhou dimensão eleitoral depois que Renan Santos, candidato à Presidência da República pelo partido Missão, acusou a Rockbridge de apoiar a campanha de Flávio Bolsonaro. As declarações passaram a integrar pedidos de investigação apresentados ao Supremo Tribunal Federal (STF) sobre eventual financiamento ou interferência estrangeira na eleição brasileira.
Em setembro, foram protocoladas representações para apurar se houve entrada direta ou indireta de recursos estrangeiros na campanha e se estruturas externas poderiam ter atuado no processo eleitoral. As denúncias são objeto de apuração.
What do you feel about this post?
Like
Love
Happy
Haha
Sad
