A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) de interromper os cortes da Selic e mantê-la em 13,75% ao ano expõe uma grave distorção democrática. Ela revela o autoritarismo de uma entidade institucionalmente pública, mas completamente subjugada a interesses privados dos barões do mundo financeiro.
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Na prática, a decisão é imposta a 214,2 milhões de brasileiros por 166 instituições cadastradas pelo BC, entre as quais estão bancos, gestoras de recursos, corretoras, distribuidoras, consultorias e também empresas do setor real da economia, algumas das quais mantêm equipes especializadas em projeções macroeconômicas. O BC não divulga os nomes dessas empresas nem discrimina seus setores de atividade.
Semanalmente, essas instituições fornecem projeções que integram o Boletim Focus, relatório que reúne “expectativas” para a inflação, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), o câmbio e os juros. O BC também criou a pesquisa Firmus — palavra latina que significa firme ou sólido — para ouvir empresas da economia real sobre seus negócios. Na fase-piloto, selecionou companhias da indústria, do agronegócio, do comércio varejista e dos serviços, priorizando as maiores de cada setor, também conectadas ao mercado financeiro.
As pesquisas são um exercício especulativo. Não tratam de fatos econômicos realizados, mas de apostas sobre o futuro, formuladas por agentes interessados nas projeções que realizam. É a especulação financeira convertida em referência para a política monetária.
Enquanto isso, centrais sindicais, movimentos populares, partidos políticos e organizações da sociedade civil não dispõem de canal equivalente para apresentar suas avaliações e influenciar os rumos de uma política que determina o custo do crédito, o investimento, o emprego, a dívida pública e a distribuição da renda.
O centro do debate é democrático: uma decisão tomada por dirigentes de uma instituição pública, com efeitos sobre toda a população, não pode ser discutida apenas a partir das expectativas dos agentes financeiros. Trabalhadores, movimentos populares, sindicatos, partidos e organizações da sociedade civil também fazem parte da sociedade que suporta as consequências dessa política.
A decisão unânime dos sete integrantes do Copom justificou a pausa por uma suposta piora das perspectivas de inflação, pela pressão sobre os preços internacionais do petróleo, pela desvalorização cambial e pela incerteza no cenário externo. O Copom também apontou sinais de desaceleração da economia e de perda de força do mercado de trabalho. Elevou sua projeção de inflação para 2026 de 5,2% para 5,6% e, para 2027, de 3,9% para 4,7%. A meta oficial é de 3%, com margem de tolerância de 1,5% a 4,5%. O Copom afirmou que os juros precisam continuar em patamar restritivo para conduzir a inflação de volta à meta.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) e a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) criticaram a manutenção da taxa. Essas entidades afirmam que o crédito caro adia investimentos, eleva os custos das empresas e reduz a capacidade de expansão da indústria. A CNI classificou a decisão como equivocada e excessivamente conservadora e defendeu a retomada dos cortes na reunião de dezembro. A Fiesp chamou a atenção para financiamentos empresariais próximos de 30% ao ano, custo que dificulta a abertura de novos projetos e a ampliação da produção.
As centrais sindicais também se manifestaram. A Força Sindical, por meio de seu presidente, Miguel Torres, criticou os juros elevados e afirmou que eles prejudicam a produção, o crédito e a geração de empregos. A entidade defendeu a redução da Selic, a ampliação da oferta de financiamento e os investimentos em infraestrutura.
A Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT) também contestaram a decisão. Juvandia Moreira, presidenta da Contraf-CUT e vice-presidenta da CUT, alertou para o peso dos juros sobre a dívida pública e para a redução dos recursos que poderiam financiar serviços essenciais, como saúde e educação.
Os indicadores apresentados pela CNI dão dimensão de parte desse problema. Segundo dados citados pela entidade, em agosto o comprometimento da renda das famílias com dívidas chegou a 29%, o maior percentual em 21 anos, enquanto o endividamento familiar alcançou 50,1% da renda acumulada em 12 meses. Uma consulta realizada em outubro mostrou que 51,9% dos empresários industriais entrevistados esperavam precisar de mais financiamento para pagar fornecedores nos três meses seguintes. Outros 56,9% projetavam redução dos lucros no mesmo período.
Autoritarismo financeiro
Esse autoritarismo, que dá as costas à sociedade, tem como pano de fundo a “independência” do BC, expressão da imposição do poder do capital financeiro sobre as decisões dos Estados nacionais. O que está em jogo não é apenas o preço do dinheiro, mas quem controla sua circulação, quem determina as condições de financiamento da economia e quem se apropria da riqueza produzida pela sociedade.
A moeda não existe para servir aos bancos, aos fundos de investimento ou aos grandes especuladores. É um instrumento da economia de um país e interfere diretamente na vida de quem trabalha, produz, consome e depende dos serviços públicos. Quando o BC mantém juros elevados, encarece o crédito, dificulta investimentos, pressiona o financiamento das famílias e das empresas e aumenta a remuneração dos títulos públicos vinculados à Selic. São decisões que repercutem sobre a produção, o emprego, a renda e o orçamento da União. Não se trata, portanto, de uma questão restrita ao mercado financeiro.
A Constituição de 1988 estabelece outro horizonte para a organização econômica do país. Determina que o poder emana do povo, coloca a dignidade humana e os valores sociais do trabalho entre os fundamentos da República e estabelece como objetivos nacionais a redução das desigualdades, a erradicação da pobreza e a promoção do desenvolvimento.
O artigo 170 é ainda mais explícito: a ordem econômica deve assegurar existência digna a todos, conforme os princípios da justiça social, da redução das desigualdades e da busca do pleno emprego. E o artigo 192 determina que o sistema financeiro nacional deve promover o desenvolvimento equilibrado do país e servir aos interesses da coletividade.
É nesse confronto que precisa ser examinada a “independência” do BC. A Lei Complementar nº 179, de 2021, colocou a estabilidade de preços como objetivo fundamental da instituição e estabeleceu, como objetivos adicionais, a estabilidade e a eficiência do sistema financeiro, a suavização das flutuações da atividade econômica e o fomento ao pleno emprego.
A lei não coloca a política monetária fora do alcance dos princípios constitucionais. A estabilidade da moeda é importante, mas não pode ser tratada como se a economia existisse separada da sociedade. O combate à inflação não dispensa a responsabilidade de considerar quem paga a conta dos juros elevados e quem se beneficia de sua remuneração.
Essa constatação aparece em estudos de economistas, juristas e cientistas políticos. Sócrates Jacobo Moquete Guzmán, no trabalho A independência do Banco Central no contexto neoliberal brasileiro: privatização do poder político em favor do mercado?, publicado na revista Ciências Sociais em Perspectiva, examina a transferência de decisões políticas para estruturas protegidas da participação popular. Sua crítica identifica na “independência” do BC um mecanismo de deslocamento do poder econômico do Estado para o mercado financeiro, ampliando a influência do capital especulativo.
Davi José Paz Catunda, em A independência do Banco Central e a Constituição: o avanço do bloqueio à soberania no capitalismo periférico brasileiro, aborda o risco de uma autoridade monetária conduzir sua política sem compromisso com o programa econômico escolhido nas eleições. A separação entre as decisões monetárias, cambiais e creditícias e a orientação geral do governo pode comprometer a coordenação da economia e dificultar a execução de um projeto nacional de desenvolvimento.
O jurista Gilberto Bercovici, professor de Direito Econômico e Economia Política da Universidade de São Paulo (USP), acrescenta uma dimensão histórica ao debate. Em Sobre o Banco Central independente, publicado em 2022, sustenta que o projeto de “independência” do BC vem sendo defendido pelas elites financeiras brasileiras desde 1964, durante a ditadura militar. Sua análise recupera as tentativas de estabelecer uma diretoria com mandatos independentes e discute a perda de instrumentos democráticos de controle sobre a política monetária.
Vinícius Gomes Casalino e Leda Maria Paulani, no artigo Constituição e independência do Banco Central, publicado em 2018 na revista Direito e Práxis, confrontam a “independência” com os compromissos econômicos e sociais da Constituição de 1988. A partir de uma abordagem marxista e keynesiana, defendem que a política monetária deve considerar o pleno emprego, e não ficar restrita às decisões monetárias. A política de juros não pode ignorar seus efeitos sobre a produção, o investimento e a geração de trabalho.
A discussão também foi formulada pelo sociólogo Francisco de Oliveira, no artigo Democratização e republicanização do Estado, publicado em 2003 na revista Teoria e Debate. Oliveira questionou a transferência de decisões fundamentais da vida econômica para estruturas distantes do controle democrático.
Sua crítica alcançava a financeirização, a perda de autonomia dos Estados nacionais e a transferência de patrimônio público para interesses privados. A democracia, nessa perspectiva, corre o risco de permanecer reduzida ao direito de votar, enquanto decisões determinantes sobre moeda, dívida, investimentos e riqueza nacional são tomadas fora do alcance dos cidadãos.
O milagre e a dívida externa
Para compreender como essa estrutura ganhou força no Brasil, é necessário voltar ao chamado “milagre econômico”, entre 1968 e 1973. Sob a ditadura militar, o país registrou crescimento médio do PIB próximo de 11% ao ano, expandiu sua indústria, construiu grandes obras de infraestrutura e ampliou sua capacidade de importar máquinas, equipamentos, petróleo e tecnologia.
Foi um crescimento sustentado por uma conjuntura internacional de abundância de dólares, crédito bancário barato, juros relativamente baixos e expansão do comércio mundial. A economia brasileira passou a depender cada vez mais de empréstimos externos para financiar sua expansão. O crescimento existiu, mas seu modelo de financiamento acumulava uma vulnerabilidade que apareceria com toda a força na década seguinte.
A expansão do mercado de eurodólares, formado por depósitos em dólares mantidos fora dos Estados Unidos, criou uma enorme disponibilidade de recursos para os bancos internacionais. Depois dos choques do petróleo de 1973 e 1979, os países exportadores acumularam excedentes financeiros conhecidos como petrodólares. Os grandes bancos passaram a reciclar esse dinheiro, emprestando-o a governos, empresas e instituições financeiras de países em desenvolvimento.
O Brasil tornou-se um dos principais destinos desses recursos. Os bancos procuravam rentabilizar o dinheiro disponível; o governo brasileiro buscava financiar a industrialização e os grandes projetos de infraestrutura; as empresas encontravam crédito externo inicialmente mais barato e com condições atraentes.
A legislação brasileira facilitou essa entrada de recursos. A Lei nº 4.131, de 1962, regulamentava os capitais estrangeiros, enquanto a Resolução nº 63, de 1967, permitiu que bancos nacionais captassem dinheiro no exterior e o repassassem a empresas brasileiras. A dívida externa deixou, assim, de ser uma operação concentrada no governo e passou a envolver diretamente bancos e empresas privadas.
O saldo dos empréstimos em moeda estrangeira abrangidos por esses mecanismos saltou de US$ 1,083 bilhão em 1968 para US$ 7,849 bilhões em 1973. Em 1969, representavam 27,9% da dívida externa bruta; em junho de 1979, já correspondiam a 68,9%. A abundância de dólares havia se transformado em uma engrenagem estrutural de financiamento da economia.
O ponto de ruptura veio com a política monetária dos Estados Unidos. A partir de 1979, Paul Volcker, presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central norte-americano, promoveu um choque monetário para combater a inflação. Em 6 de outubro de 1979, anunciou uma mudança radical na condução da política monetária: em vez de manter os juros de curto prazo dentro de uma faixa estreita, o Fed passaria a controlar mais diretamente a quantidade de dinheiro e de reservas disponíveis no sistema bancário. Na prática, isso permitiu uma elevação muito mais agressiva dos juros, restringiu o crédito e encareceu o financiamento em dólares.
A estratégia foi deliberadamente dura. Volcker considerava necessário quebrar a persistência da inflação, mesmo diante do risco de recessão e desemprego. Os juros básicos norte-americanos chegaram a aproximadamente 20% no fim de 1980, enquanto a prime rate, taxa de referência cobrada pelos grandes bancos comerciais de seus clientes empresariais, alcançou 21,5% em dezembro daquele ano. A política provocou uma forte contração econômica, com duas recessões entre 1980 e 1982.
O Brasil, fortemente endividado em dólares, se estrumbicou. O custo da dívida disparou, e o país passou a desembolsar muito mais dólares apenas para pagar os juros dos empréstimos, sem que tivesse aumentado na mesma proporção sua capacidade de produzir e exportar. Ao mesmo tempo, a recessão internacional reduziu a demanda por produtos brasileiros, enquanto a valorização do dólar encareceu ainda mais as obrigações externas.
O resultado foi uma combinação devastadora: escassez de divisas, desequilíbrio nas contas externas e necessidade de recorrer às condições draconianas impostas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), com cortes de gastos, compressão dos investimentos e transferência de parte dos encargos das dívidas privadas para o setor público. O choque financeiro internacional encontrou o Brasil altamente endividado e expôs a irresponsabilidade de um modelo de crescimento sustentado pela entrada de capitais externos.
Da dívida privada à obrigação pública
A crise revelou outra face do modelo: a transferência de riscos e obrigações do setor privado para o Estado. A dívida brasileira nunca foi exclusivamente privada, pois o governo e suas empresas também tomavam empréstimos no exterior. Mas bancos e empresas particulares haviam ampliado consideravelmente sua participação no endividamento externo durante os anos 1970.
Em 1977, a Resolução nº 432 do BC criou um mecanismo pelo qual empresas privadas podiam depositar antecipadamente, em moeda nacional, o equivalente de suas obrigações externas. Com isso, reduziam sua exposição à desvalorização cambial, enquanto parte dos riscos financeiros e cambiais passava para o BC. A Circular nº 230 e outros instrumentos também participaram das operações de transferência e renegociação dos compromissos externos.
Com a crise internacional de 1982 e as negociações com os bancos credores, o BC assumiu papel ainda mais importante no refinanciamento das obrigações externas. O Estado passou a responder por uma parcela crescente dos compromissos que haviam sido originalmente contraídos por empresas e instituições privadas.
Em 1981, a dívida externa líquida brasileira era de aproximadamente US$ 53,9 bilhões: 36,3% correspondiam ao setor privado e 63,6% ao público. Em 1989, havia alcançado US$ 89,6 bilhões, dos quais 89,1% eram públicos e apenas 11% privados. A participação do BC e do governo federal passou de 19,7% para 55,5% do total líquido.
Não foi uma nacionalização realizada por um único ato, nem todos os empréstimos privados foram simplesmente perdoados. Foi uma transformação gradual, realizada por mecanismos financeiros, cambiais e institucionais que transferiram para o setor público riscos e obrigações antes distribuídos entre diferentes devedores.
A dívida externa também alimentou a dívida interna. Quando o BC assumiu obrigações em dólares e passou a administrar os efeitos dessas operações sobre a quantidade de dinheiro em circulação, precisou utilizar instrumentos de controle da liquidez. Entre eles estavam as operações de mercado aberto, por meio das quais títulos públicos eram colocados à disposição dos investidores. Esses papéis criavam obrigações remuneradas em moeda nacional.
Assim, os custos de uma dívida originalmente contratada no exterior também contribuíam para a expansão dos compromissos financeiros internos do Estado. A dívida externa não simplesmente mudou de endereço e virou dívida interna: parte continuou devida aos credores estrangeiros, enquanto outra parte dos custos de financiamento e administração da crise passou a gerar obrigações em moeda nacional.
A maxidesvalorização do cruzeiro em 1983 agravou a situação. Como o Estado havia assumido parte importante dos riscos cambiais, o aumento do valor do dólar elevou o peso das obrigações externas em moeda nacional. Ao mesmo tempo, os juros internos foram elevados para conter a inflação e atrair recursos para financiar o setor público.
Segundo o economista Fabiano Abranches Silva Dalto, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), no estudo A crise financeira brasileira nos anos 1980: precedente histórico de uma economia governada pelos interesses financeiros, a dívida pública líquida cresceu cerca de 20 pontos percentuais do PIB em apenas dois anos, a partir de 1982. Em 1985, os pagamentos de juros já consumiam aproximadamente 7% do PIB.
Em agosto de 1982, o México anunciou que não conseguiria honrar seus compromissos externos, desencadeando uma crise internacional de crédito. Os bancos restringiram drasticamente novos empréstimos. O Brasil precisou negociar com seus credores e com o FMI, submetendo-se a um programa de ajuste que exigia superávits comerciais, redução da demanda interna e contenção dos gastos públicos. Era necessário exportar mais, importar menos e gerar dólares para pagar juros e amortizações.
Investimentos públicos foram comprimidos, o crédito ficou mais caro, a atividade econômica perdeu força e os trabalhadores enfrentaram desemprego e perda do poder aquisitivo. A crise financeira transformou-se em crise social. Era a herança do “milagre econômico”.
A Selic e a remuneração dos credores
A engrenagem financeira assumiu novas dimensões nas décadas seguintes. Uma de suas manifestações mais visíveis está na taxa Selic. Quando o BC mantém os juros elevados, aumenta o custo de financiamento do governo e a remuneração dos títulos públicos vinculados às taxas flutuantes. O Estado emite papéis para captar recursos e financiar suas obrigações.
A “estabilização da moeda” do Plano Real veio acompanhada de um programa de reorganização fiscal que ampliou a arrecadação, criou mecanismos para desvincular receitas do orçamento — primeiro o Fundo Social de Emergência, depois o Fundo de Estabilização Fiscal — e abriu caminho para um arrocho permanente das contas públicas.
Em 1999, após o ataque especulativo do mercado financeiro que levou o Brasil novamente à tutela do FMI, a equipe econômica do governo de Fernando Henrique Cardoso adotou o chamado “tripé macroeconômico”: câmbio flutuante, metas de inflação e metas de superávit primário. O superávit primário passou a funcionar como compromisso de produzir receitas superiores às despesas não financeiras, reservando recursos para o pagamento dos juros da dívida.
A Lei de Responsabilidade Fiscal (Lei Complementar nº 101), aprovada em 2000, institucionalizou essa orientação ao obrigar os governos a estabelecer metas fiscais e prever, em seu artigo 9º, o contingenciamento de despesas quando a arrecadação ameaçasse o cumprimento dos resultados previstos. Era uma espécie de carta do FMI brasileira.
O mecanismo contém uma assimetria decisiva: quando a receita fica abaixo do previsto, investimentos e despesas discricionárias podem ser bloqueados para preservar a meta fiscal, enquanto o artigo 9º exclui da limitação as obrigações constitucionais e legais e também o serviço da dívida pública, incluindo os juros determinados pela Selic.
Assim, os pagamentos aos especuladores ficam protegidos dessa modalidade de contingenciamento, ao passo que obras, investimentos e políticas públicas sujeitos à discricionariedade orçamentária ficam expostos aos cortes. A Lei de Responsabilidade Fiscal, apresentada como instrumento de equilíbrio das contas, passou a amarrar o orçamento à prioridade do resultado primário para o pagamento de juros, restringindo a margem de decisão democrática sobre os recursos públicos. É uma verdadeira carta discricionária que amordaça os compromissos sociais e os objetivos de desenvolvimento inscritos nos artigos 3º, 6º e 170 da Constituição.
Os números dimensionam essa estrutura. Em setembro de 2026, a Dívida Pública Federal alcançou R$ 9,383 trilhões, segundo o Tesouro Nacional. Mais da metade dos títulos estava vinculada a taxas flutuantes, predominantemente relacionadas à Selic. Na composição da dívida mobiliária interna, as instituições financeiras detinham 31,33%, os fundos de investimento, 22,93%, e as entidades de previdência, 22,41%.
Os especuladores estrangeiros possuíam 9,58%. Isso significa que aproximadamente 90,42% dos títulos da dívida mobiliária interna estavam registrados em grupos residentes no Brasil. É necessário fazer uma distinção: esses percentuais se referem aos detentores da dívida mobiliária interna, não à totalidade da dívida federal. Além disso, os fundos reúnem recursos de milhares de cotistas, de modo que o proprietário formal do título raramente é o beneficiário final de toda a remuneração.
Os fundos de investimento são uma peça central desse sistema. Reúnem dinheiro de pessoas, empresas, instituições e entidades de previdência, formando carteiras administradas por gestores profissionais. Em vez de cada investidor comprar diretamente um título do Tesouro, pode adquirir cotas de um fundo que aplica nesses papéis. Os juros recebidos são incorporados ao patrimônio e repercutem no valor das cotas, descontadas as despesas e eventuais perdas.
As gestoras também recebem taxas de administração e, em determinados produtos, taxas de desempenho. O fundo não precisa financiar uma fábrica, construir uma estrada ou contratar trabalhadores para obter rendimentos. Pode comprar títulos públicos, receber juros, negociar esses papéis no mercado secundário e utilizar outros instrumentos para administrar sua carteira.
Um estudo de Wilton Vicente Gonçalves da Cruz, mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP); Mário Sacomano Neto, doutor em Engenharia de Produção e professor da UFSCar; e Júlio César Donadone, doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e também professor da UFSCar, publicado em 2024 na Revista de Sociologia e Política, mostra a expansão dessa relação entre fundos de investimento e endividamento público.
Entre 2010 e 2021, o patrimônio dos fundos aplicado em títulos públicos federais passou de aproximadamente R$ 678 bilhões para R$ 2,6 trilhões. Os pesquisadores identificam a predominância dos títulos públicos e das operações compromissadas lastreadas nesses papéis na estrutura de investimentos dos fundos. A dívida estatal tornou-se, assim, uma fonte importante de acumulação financeira.
O economista norte-americano Joseph Eugene Stiglitz, professor da Universidade Columbia, em Nova York, e laureado com o Prêmio Nobel de Economia de 2001, questiona a ideia de que a política monetária possa ser tratada como atividade exclusivamente técnica, isolada de seus efeitos sociais e distributivos. Em entrevista ao Federal Reserve Bank de Minneapolis, em 1997, defendeu que a “independência” dos bancos centrais precisa ser equilibrada com mecanismos de prestação de contas à sociedade.
Em seus estudos posteriores, criticou a influência de Wall Street sobre o Federal Reserve e apontou a transferência de recursos públicos para instituições financeiras por meio de empréstimos baratos que permitiam aos bancos adquirir títulos de maior remuneração.
O economista francês Thomas Piketty, professor da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais (EHESS) e da Escola de Economia de Paris, dedica parte de sua obra à relação entre dívida pública e concentração da riqueza. Em O capital no século XXI, sustenta que o endividamento estatal envolve uma disputa distributiva entre o poder público e os detentores privados de patrimônio, que recebem juros financiados pela arrecadação de impostos.
Já Nouriel Roubini, economista norte-americano de origem iraniana, professor emérito da Escola de Negócios Stern, da Universidade de Nova York (NYU), e doutor em Economia por Harvard, analisa o poder dos investidores nos mercados de títulos públicos.
No artigo Os vigilantes do mercado de títulos podem impedir a próxima crise da dívida?, publicado em 29 de outubro de 2026 pelo Project Syndicate, ele examinou a atuação dos chamados bond vigilantes, investidores que vendem títulos ou exigem juros mais elevados quando consideram insustentável a situação fiscal de um país, pressionando governos a alterar suas políticas econômicas.
A jogatina do mercado financeiro no Brasil
A Faria Lima, em São Paulo, tornou-se uma referência para esse universo de bancos, corretoras, gestoras de patrimônio e fundos. Ali se administram grandes carteiras, negociam-se títulos, estruturam-se operações e se exerce influência sobre as decisões do BC. Essa estrutura está conectada a Wall Street e a outros centros financeiros internacionais por meio de bancos globais, fundos estrangeiros, operações cambiais e investimentos em ativos brasileiros.
Um especulador de Nova York pode aplicar em títulos do Tesouro brasileiro diretamente ou por intermédio de fundos internacionais. Em setembro de 2026, os investidores estrangeiros detinham aproximadamente R$ 865,5 bilhões em títulos da dívida pública mobiliária interna, equivalentes a 9,58% do total. Sua carteira tinha concentração expressiva em títulos prefixados, o que permite negociar não apenas a remuneração contratada, mas também as oscilações dos preços desses papéis conforme as expectativas sobre os juros futuros — uma dinâmica que também se relaciona às projeções reunidas no Boletim Focus.
A multiplicação do capital financeiro não se limita à compra de títulos e ao recebimento de juros. Ela se estende ao mercado de derivativos, formado por contratos cujo valor depende de outros ativos ou indicadores, como juros, dólar, inflação, ações e commodities. Na Bolsa brasileira, a B3 negocia contratos futuros de Depósitos Interfinanceiros (DI), utilizados para operar com as expectativas sobre os juros futuros. Um investidor pode apostar na alta ou na queda das taxas sem precisar comprar diretamente um título público ou emprestar dinheiro ao governo. Os contratos permitem obter ganhos ou perdas conforme a variação dos preços e das taxas negociadas.
Esse mecanismo é uma característica fundamental do capitalismo financeirizado: o dinheiro pode gerar mais dinheiro sem que exista, necessariamente, um aumento correspondente da produção de mercadorias, da construção de fábricas ou da criação de empregos. Um fundo compra títulos públicos, recebe juros, negocia papéis, utiliza contratos futuros e reorganiza sua carteira para obter novos rendimentos.
Outros especuladores compram cotas, enquanto bancos e gestoras administram as operações e recebem remuneração. A riqueza financeira cresce pela cobrança de juros, pela valorização de ativos e pela negociação de expectativas sobre o futuro. Na crítica de Karl Marx, essa dinâmica aparece na fórmula D–D′: dinheiro que retorna aumentado sem passar pelo processo de produção.
Do liberalismo ao neoliberalismo
É nesse contexto que se deve compreender a relação entre a “independência” dos bancos centrais, a financeirização e o projeto neoliberal. O neoliberalismo não é simplesmente a continuidade do liberalismo de Adam Smith, um dos fundadores da economia política clássica. O liberalismo clássico tinha como referências a liberdade econômica e a concorrência. Sua concepção não pode ser confundida com a defesa irrestrita dos interesses do mercado financeiro.
O neoliberalismo surgiu no século XX, especialmente a partir do Colóquio Walter Lippmann, em 1938, e da criação da Sociedade Mont Pèlerin, em 1947, com pensadores como Friedrich Hayek e Milton Friedman, entre outros representantes de diferentes correntes. Seu projeto anunciava a reorganização do liberalismo diante da expansão do Estado social, das políticas keynesianas e das experiências de planejamento econômico pelo socialismo. Era, na prática, uma teoria para organizar politicamente a reprodução dos grandes capitais.
Nas experiências históricas de orientação neoliberal, essa concepção esteve associada à privatização de empresas públicas, à liberalização financeira, à abertura dos mercados, à desregulamentação de setores econômicos e à extinção de políticas sociais. É aí que aparece um dos antagonismos mais importantes entre o liberalismo clássico e o neoliberalismo. A defesa da concorrência formulada por Adam Smith entra em contradição com estruturas econômicas marcadas pela concentração do capital, pelo poder dos grandes conglomerados e pela influência de grupos financeiros sobre as decisões do Estado.
