A máscara fascista do sionismo “cristão” bolsonarista

Especial

Por trás dos púlpitos, das peregrinações a Jerusalém e dos discursos em nome da fé, uma engrenagem internacional aproxima pastores, governos, parlamentares, partidos e organizações empenhadas em transformar proclamações religiosas em força política de extrema direita, o fascismo mascarado de religião. Israel é o centro dessa máquina. Seus desdobramentos alcançam a Casa Branca, atravessam a Europa, mobilizam a Argentina e penetram a política brasileira.

Congressos, viagens, campanhas, redes de influência e fluxos financeiros conectam atores que encontram na Bíblia não apenas uma profissão de fé, mas também uma linguagem de mobilização e poder. No Brasil, essa articulação ganhou projeção durante o governo do fascista Jair Bolsonaro e deixou marcas no debate parlamentar e na política externa.

Quem são os protagonistas dessa rede, quais interesses os aproximam e até onde chega sua influência sobre as decisões de Estado? Para responder a essas perguntas, é preciso seguir os fios que ligam organizações religiosas sediadas em Jerusalém aos corredores do poder em Washington, às articulações parlamentares europeias, à ascensão de Javier Milei na Argentina e à aproximação entre o governo Jair Bolsonaro e o governo de Benjamin Netanyahu.

Nesse percurso aparecem pastores com projeção internacional, entidades dedicadas à mobilização em defesa do Estado de Israel, parlamentares organizados em frentes supranacionais, encontros reservados ou públicos com autoridades e iniciativas que convertem afinidades teológicas em ação política de extrema direita.

O que emerge desse mapa não é uma estrutura homogênea, comandada por um único centro, mas uma rede de interesses convergentes, alianças específicas e formas distintas de atuação, cuja extensão só pode ser compreendida quando seus protagonistas são desmascarados.

O sionismo cristão reúne correntes teológicas que atribuem às profecias bíblicas um papel central na legitimação do sionismo político e no apoio à criação, à consolidação e à expansão do Estado de Israel, interpretadas como parte de um desígnio divino. O sionismo cristão fundamenta o apoio ao Estado de Israel em interpretações bíblicas.

Jerusalém como centro de mobilização religiosa

Um estudo publicado em 2025 na revista científica Caderno CRH, vinculada ao Centro de Estudos e Pesquisas em Humanidades da Universidade Federal da Bahia (UFBA), intitulado Israel e a extrema direita global – religião, intermediários e redes de poder, examina o sionismo cristão como ponte ideológica entre o Estado de Israel e setores das direitas radicais dos Estados Unidos e da América Latina, além da atuação de intermediários políticos, empresariais e diplomáticos na Europa e nas Américas.

Entre os nomes examinados estão David Hatchwell, empresário e dirigente comunitário espanhol envolvido em iniciativas de articulação política e institucional; Amichai Chikli, líder político israelense do Likud — partido de direita nacionalista fundado em 1973 e associado à oposição à criação de um Estado palestino soberano nos termos da solução de dois Estados — e ex-ministro dos Assuntos da Diáspora e do Combate ao Antissemitismo; Sheldon Adelson, magnata norte-americano do setor de cassinos e importante financiador de campanhas republicanas e de iniciativas políticas favoráveis ao Estado de Israel, morto em 2021; e Yossi Shelley, diplomata israelense que dirigiu o gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e foi embaixador do Estado de Israel no Brasil entre 2017 e 2021.

Essas trajetórias revelam diferentes formas de articulação entre interesses empresariais, representação diplomática e mobilização política em torno do Estado de Israel. A convergência entre esses campos também se manifesta na atuação de organizações religiosas que procuram transformar supostas convicções bíblicas em apoio público e mobilização internacional.

Uma delas é a Embaixada Cristã Internacional em Jerusalém, conhecida pela sigla ICEJ, correspondente ao nome em inglês International Christian Embassy Jerusalem. Inaugurada em 30 de setembro de 1980, a organização reuniu aproximadamente mil cristãos de 32 países na cerimônia de abertura, estabelecendo desde o início uma dimensão internacional para sua atuação.

A atuação internacional da ICEJ

A organização declara manter escritórios e representantes em mais de 90 países e contar com apoiadores em mais de 170. Esses números correspondem às informações divulgadas pela própria entidade. Sua missão declarada inclui apoiar o Estado de Israel, formar lideranças “cristãs” a partir de interpretações bíblicas sobre o Estado de Israel e promover relações entre comunidades religiosas, cristãos e árabes. Suas trajetórias permitem observar diferentes modalidades de interlocução entre interesses empresariais, representação diplomática, militância política e aproximação com correntes ideológicas que encontram no apoio ao Estado de Israel um ponto de convergência.

A ICEJ articula formação religiosa, contatos internacionais, mobilização presencial, apoio material e comunicação. Organiza conferências, estudos bíblicos, materiais de ensino e exposições sobre a interpretação profética da história do Estado de Israel. Mantém representantes nacionais, igrejas parceiras e redes de pastores. Promove peregrinações, celebrações em Jerusalém, encontros de oração e visitas a lugares considerados bíblicos. Também reúne doações, desenvolve projetos assistenciais e divulga vídeos, testemunhos, transmissões e campanhas dirigidas a comunidades cristãs de vários países.

A entidade apresenta sua atuação como uma forma de aproximar igrejas de todo o mundo do que considera a realização dos propósitos de Deus no Estado de Israel. Em fevereiro de 2026, sua conferência Envision, realizada em Jerusalém, reuniu mais de 70 pastores e dirigentes religiosos de 20 países.

A programação tratou das relações entre o Estado de Israel e as igrejas e incluiu estudiosos bíblicos, diplomatas e especialistas em segurança. O modelo combina ensino religioso, contato direto com a sociedade israelense e encontros com representantes de instituições do país. A experiência presencial ocorre dentro de uma interpretação teológica previamente apresentada pela organização e pode repercutir depois nos sermões, nas redes sociais e nas atividades públicas das igrejas de origem.

Formação religiosa e redes europeias

Na Europa, a formação de lideranças também passa por redes que não se confundem integralmente com o sionismo cristão. Entre 8 e 11 de setembro de 2025, Paris recebeu a conferência europeia da Lausanne Consultation on Jewish Evangelism, que reuniu pastores, missionários e dirigentes religiosos sionistas e não sionistas.

A programação abordou a evangelização de comunidades não cristãs, a formação de lideranças e as dificuldades enfrentadas por comunidades religiosas diante do antissionismo e das denúncias sobre o genocídio do Estado de Israel em Gaza. A entidade considerou o encontro o maior de sua história regional. A evangelização de sionistas não equivale ao sionismo cristão, embora as redes se sobreponham parcialmente ao tratar da identidade sionista, da Bíblia e das relações entre cristãos e Estado de Israel.

A aproximação entre o governo israelense e segmentos do “cristianismo evangélico” de extrema direita também tem antecedentes políticos e turísticos. Em janeiro de 2002, foram registradas iniciativas destinadas a estreitar relações com evangélicos supremacistas norte-americanos, entre elas viagens à Terra Santa com despesas pagas e reuniões estratégicas com organizações extremistas. Os objetivos incluíam recuperar o turismo e ampliar o apoio popular a Estado de Israel nos Estados Unidos. A atenção recaía especialmente sobre os cristãos sionistas, cuja interpretação bíblica da terra do Estado de Israel poderia converter-se em pressão política sobre representantes eleitos.

Os recursos públicos empregados em iniciativas de aproximação, o dinheiro arrecadado por organizações evangélicas privadas e as doações particulares destinadas a projetos no Estado de Israel pertencem a circuitos distintos. A dimensão financeira aparece também na atuação de ministérios religiosos norte-americanos.

Em 2018, a Hagee Ministries, ministério religioso norte-americano liderado pelo pastor John Hagee, declarou ter destinado mais de US$ 100 milhões a instituições do Estado de Israel e organizações sionistas desde a criação da campanha anual Night to Honor Israel (Noite em Honra a Israel). A iniciativa mobiliza igrejas e apoiadores em torno de manifestações públicas de apoio ao Estado israelense e arrecada recursos para instituições beneficiárias. O montante divulgado pela própria organização dimensiona o alcance financeiro que o ministério atribuía à campanha.

Estados Unidos e a mobilização do apoio ao Estado de Israel

Nos Estados Unidos, a Christians United for Israel, conhecida pela sigla CUFI (organização de mobilização cristã em apoio ao Estado de Israel), exemplifica a conversão de convicções religiosas em mobilização política organizada. Fundada pelo pastor John Hagee, a entidade reúne igrejas, ministérios e fiéis em torno de questões relacionadas às relações entre os Estados Unidos e Estado de Israel.

Seu encontro anual em Washington combina conferências, formação política e visitas ao Congresso. Na edição realizada entre 29 de junho e 1º de julho de 2025, a programação convidou participantes a procurar representantes eleitos no Capitólio para defender posições favoráveis ao Estado de Israel. A organização também anunciou atividades de arrecadação e diferentes modalidades de participação.

A CUFI não é um partido e não apresenta candidatos próprios. Sua atuação procura mobilizar uma base religiosa para influenciar a opinião pública e as decisões de representantes eleitos, por meio de contatos com congressistas, campanhas de comunicação e eventos públicos. O movimento sionista cristão abriga correntes distintas, embora suas organizações politicamente mais mobilizadas frequentemente apresentem o apoio ao Estado de Israel como dever bíblico.

Lideranças evangélicas e governo norte-americano

Em fevereiro de 2025, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu reuniu-se com dirigentes evangélicos supremacistas nos Estados Unidos antes de encontrar o presidente Donald Trump. Entre os participantes e nomes associados à articulação estavam, além de John Hagee, Jentezen Franklin, Mike Huckabee e Tony Perkins.

A aproximação ocorreu em meio a discussões sobre o futuro dos territórios palestinos. Alguns desses dirigentes sustentam que a soberania israelense sobre territórios reivindicados pelos palestinos decorre de uma promessa divina.

A pastora Paula White-Cain ocupa outro ponto de contato entre o governo de Donald Trump e setores evangélicos supremacistas. Ela dirige o Escritório da Fé da Casa Branca, criado em fevereiro de 2025, e mantém uma relação de longa data com Trump. Em 2025, a Israel Allies Foundation (fundação internacional que articula grupos parlamentares de apoio ao Estado de Israel) incluiu White-Cain entre os principais aliados cristãos do Estado de Israel.

A fundação destacou sua atuação para a mobilização de igrejas para apoiar o Estado de Israel por meio de oração, contribuições e manifestações públicas. Sua posição combina acesso ao presidente Trump, capacidade de mobilização religiosa e presença institucional no Executivo. Essa interlocução abre um canal de comunicação entre segmentos evangélicos supremacistas e o governo.

Profecias bíblicas e mobilização política

John Hagee ocupa posição central na mobilização norte-americana por meio da organização Cristãos Unidos por Israel e divulga interpretações proféticas sobre o Estado de Israel. Em seu livro Jerusalem Countdown (Contagem regressiva para Jerusalém), publicado em 2006, relacionou um eventual ataque israelense ao Irã a acontecimentos associados ao Armagedom, conceito bíblico ligado à batalha final entre as forças do bem e do mal, descrita no livro do Apocalipse.

Na interpretação escatológica defendida por determinadas correntes, o Armagedom integra a sequência de acontecimentos que antecederia o desfecho da história humana e a intervenção definitiva de Deus. Jerusalém, Israel e os conflitos no Oriente Médio adquirem, nessa perspectiva, um significado que ultrapassa as disputas territoriais e os cálculos estratégicos: passam a ser interpretados como possíveis sinais do cumprimento das profecias bíblicas. Essa leitura ajuda a compreender por que determinados setores do sionismo cristão atribuem às decisões militares e diplomáticas envolvendo o Estado de Israel uma dimensão religiosa e escatológica.

Mike Johnson, presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, participou em dezembro de 2025 de uma conferência promovida pela Israel Allies Foundation, que reuniu centenas de líderes cristãos e parlamentares de mais de 30 países.

A programação incluiu reuniões com integrantes do governo e do Escritório da Fé da Casa Branca e terminou com uma homenagem a Trump por seu apoio ao Estado de Israel. O encontro reuniu parlamentares, dirigentes evangélicos e representantes israelenses em torno de uma agenda comum.

Organizações sionistas e articulação parlamentar

Mike Huckabee, pastor batista e político republicano escolhido por Trump para o cargo de embaixador dos Estados Unidos no Estado de Israel, exemplifica a sobreposição entre convicção religiosa, trajetória partidária e representação diplomática. Em fevereiro de 2026, declarações suas sobre um suposto direito bíblico israelense que se estenderia do Nilo ao Eufrates provocaram reações de governos árabes e muçulmanos. Seu caso evidencia a presença de interpretações teológicas no discurso de um representante oficial do Estado norte-americano.

Outra iniciativa, o Judeo-Christian Zionist Congress, identificado pela sigla JCZC (Congresso Sionista Cristão, iniciativa de articulação entre lideranças religiosas e políticas), procura ampliar a cooperação para além das igrejas individuais. Em novembro de 2025, uma reunião em Washington juntou dirigentes da American Christian Leaders for Israel (organização norte-americana de lideranças cristãs favoráveis ao Estado de Israel), uma delegação de autoridades municipais israelenses e representantes do Jerusalem Center for Security and Foreign Affairs (centro israelense de estudos sobre segurança e relações exteriores).

O primeiro congresso da nova organização ocorreu em Nashville, em fevereiro de 2026. Sua apresentação institucional associa a iniciativa à defesa do Estado de Israel ao combate ao antissionismo e à ideia de que valores sionista-cristãos constituem um fundamento da democracia ocidental. A organização anuncia encontros com lideranças religiosas, políticas, educacionais e midiáticas e inclui em sua agenda governo, políticas públicas, mídia, educação, esportes, entretenimento e comunidades religiosas.

Em fevereiro de 2025, a Associated Press relatou a reunião de Netanyahu com dirigentes evangélicos conservadores nos Estados Unidos, entre eles John Hagee, Jentezen Franklin, Mike Huckabee e Tony Perkins, antes do encontro do primeiro-ministro com Trump. A aproximação ocorreu no contexto das discussões sobre o futuro dos territórios palestinos e a influência política dos cristãos sionistas norte-americanos.

A Argentina e os Acordos de Isaac

Na Argentina sob a presidência de Javier Milei a presença do extremismo sionista também se intensificou, manifestada com a aproximação diplomática com Estado de Israel, combinando decisões de política externa, encontros parlamentares internacionais e iniciativas de diálogo com comunidades religiosas.

Em 29 de junho de 2026, Milei discursou na Conferência de Presidentes dos Caucus de Aliados do Estado de Israel da América Latina, organizada pela Israel Allies Foundation, entidade internacional que articula grupos parlamentares de diferentes países para promover o apoio político e diplomático ao Estado de Israel. Os caucuses são grupos de parlamentares constituídos para coordenar iniciativas, organizar encontros e defender determinadas pautas no âmbito legislativo.

O encontro reuniu legisladores, embaixadores e representantes religiosos favoráveis ao fortalecimento das relações políticas e religiosas com o Estado de Israel. Milei apresentou os Acordos de Isaac, iniciativa que propõe aproximar países latino-americanos do Estado israelense por meio de uma agenda de cooperação diplomática e articulação política, associada ao combate ao antissionismo, ao “terrorismo” e ao narcotráfico.

Peregrinações religiosas e financiamento

Outra iniciativa argentina ocorreu em 3 de março de 2026, quando mais de 400 pastores participaram do encontro Argentina ama Israel, realizado na comunidade Amijai, de Buenos Aires. A União Mundial Macabi promoveu a atividade por meio de seu departamento de educação, no âmbito do programa internacional Embaixadores da Verdade. O objetivo declarado era fortalecer o diálogo entre lideranças sionistas e evangélicas, combater o antissionismo e enfrentar as denúncias contra o Estado de Israel. Esse modelo de aproximação se distingue da conferência parlamentar porque se concentra nas relações entre organizações comunitárias sionistas e dirigentes religiosos evangélicos.

A Argentina também recebeu, em outubro de 2026, a turnê Out of Zion (Saindo de Sião), promovida pelo ministério SOLU Israel, organização religiosa israelense dedicada à música, à oração e à difusão de mensagens “cristãs” relacionadas ao Estado de Israel. A programação promoveu encontros de louvor e testemunhos em Córdoba, Mendoza, Monte Grande, Rosário e Adrogué, combinando canções em hebraico e espanhol, apresentações de músicos locais e relatos pessoais de integrantes da equipe israelense.

Em Córdoba, o grupo participou da conferência Sinergia, realizada entre 8 e 10 de outubro no Centro de Convenções Córdoba. Além de divulgar suas atividades religiosas e estabelecer contato com comunidades “cristãs” argentinas, a turnê convidava o público a conhecer o ministério e contribuir financeiramente para a manutenção de seus projetos no Estado de Israel. A entidade informou que os recursos arrecadados se destinariam à manutenção de sua casa de oração, de uma escola de música e de outras atividades ministeriais.

Em Rosário, uma conferência acadêmica abordou outra dimensão do debate. Em 25 de junho de 2026, a Universidade Nacional de Rosário recebeu a filósofa e pesquisadora Silvana Rabinovich, vinculada à Universidade Nacional Autônoma do México, para uma discussão sobre interpretações contemporâneas da Bíblia relacionadas ao sionismo cristão e à ideia do chamado Terceiro Templo.

O encontro ocorreu na Faculdade de Humanidades e Artes, com participação de iniciativas acadêmicas e do grupo de trabalho Geopolítica, Palestina e Nossa América, ligado ao Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais. A conferência examinou a apropriação política de narrativas bíblicas e suas implicações geopolíticas.

O sionismo cristão no Brasil

No Brasil, o sionismo cristão ganhou maior visibilidade política durante o governo de extrema direita de Jair Bolsonaro. Sua expressão nacional combina referências bíblicas, tradições pentecostais, redes políticas internas e atos diplomáticos. Sua atuação inclui a profecia que interpreta a criação e a existência do Estado de Israel à luz de passagens bíblicas, associada à prosperidade, que vincula o apoio ao Estado de Israel à expectativa de bênçãos divinas associadas à tradição sionista, um fundamento para apoiar o Estado de Israel.

A aproximação entre Bolsonaro e Benjamin Netanyahu tornou-se um marco dessa orientação. Em março de 2019, Bolsonaro visitou Estado de Israel e anunciou a abertura de um escritório brasileiro de negócios em Jerusalém. O escritório foi inaugurado em dezembro daquele ano e apresentado como estrutura de promoção comercial, não como embaixada. Jerusalém é objeto de disputa diplomática e religiosa, e o reconhecimento da cidade como capital israelense tem significado particular para setores sionistas cristãos. Para esses grupos, a transferência de representações diplomáticas ou o reconhecimento da soberania israelense sobre Jerusalém pode ser interpretado como cumprimento de princípios bíblicos.

A Frente Parlamentar Evangélica, grupo suprapartidário de parlamentares brasileiros ligados a igrejas evangélicas fascistas, e os parlamentares que se identificam publicamente com o apoio ao Estado de Israel são espaços relevantes para compreender a passagem de convicções religiosas a posições políticas.

As denominações brasileiras e suas trajetórias

A difusão do sionismo cristão no Brasil permeou diferentes tradições protestantes. A Assembleia de Deus é uma das denominações mais bem documentadas nessa trajetória. A imprensa assembleiana, especialmente o jornal Mensageiro da Paz, difundiu associações entre Estado de Israel, as profecias bíblicas e o fim dos tempos.

A Casa Publicadora das Assembleias de Deus, conhecida como CPAD, editora ligada à denominação, publicou Israel, Gogue e o Anticristo, de Abrahão Almeida, em 1978, e Assim Vive Israel, em 1985. O pastor Elizeu Queiroz publicou Israel por Dentro, em 1987. Essas obras ajudaram a disseminar interpretações proféticas sobre o Estado de Israel entre leitores assembleianos.

As redes batistas também tiveram participação histórica. Em 1966, os missionários norte-americanos Thomas Larry e Linda Jean McCoy Gilmer chegaram a São Paulo e estimularam a formação do grupo Amigos do Sião. Em 1967, foi criada a Associação Internacional das Missões Israelitas (organização de divulgação religiosa e de apoio ao Estado de Israel), ligada à atuação do pastor Gilmer no Templo Batista de Indianópolis.

Em 1976, Gerson Rocha, pastor da Igreja Batista de Vitória da Conquista, publicou o livreto Sionismo não é racismo. Décadas depois, a Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, promoveu viagens, celebrações e iniciativas públicas de aproximação com Estado de Israel. A tradição batista, contudo, é heterogênea, e essas conexões não representam todas as igrejas da denominação.

A Igreja Universal do Reino de Deus, a IURD, seguiu percurso diferente. Em sua fase inicial, enfatizava a prosperidade, a libertação e a batalha espiritual, sem atribuir centralidade ao papel do Estado de Israel nas profecias sobre o fim dos tempos. A aproximação posterior apareceu na construção de uma réplica de uma área da antiga Jerusalém, na realização de viagens, na valorização de símbolos associados ao Estado de Israel e na associação entre a prosperidade israelense e a bênção divina.

A Igreja Batista da Lagoinha, sediada em Belo Horizonte, teve sua trajetória marcada pela liderança do pastor Márcio Valadão, que esteve à frente da instituição por décadas, ao lado da irmã, Ângela Valadão. Os filhos Ana Paula e André Valadão são os herdeiros da denominação. Ana Paula ganhou projeção nacional à frente do ministério musical Diante do Trono, enquanto André também se tornou pastor e cantor e sucedeu o pai na liderança da Lagoinha em 2022.

Lideranças religiosas e redes transnacionais

A atuação deles se insere em um universo evangélico mais amplo, no qual circulam ideias associadas à Nova Reforma Apostólica (NAR, sigla em inglês para New Apostolic Reformation). Esse movimento reúne redes de igrejas e dirigentes que atribuem aos apóstolos e profetas funções contemporâneas de liderança e orientação espiritual. Algumas de suas correntes também defendem a transformação da sociedade a partir de “princípios cristãos”, com repercussões na atuação pública e política.

O Ministério Internacional da Restauração possui uma ligação institucional identificada com redes internacionais de apoio ao Estado de Israel. René Terra Nova figura entre os dirigentes destacados nos estudos sobre o sionismo cristão brasileiro. Sua trajetória está associada à celebração das Festas dos Tabernáculos no Estado de Israel e a interpretações que relacionam o apoio ao Estado de Israel à bênção divina.

Em 2011, Terra Nova inaugurou em Manaus um braço da Embaixada Cristã Internacional em Jerusalém e passou a atuar como representante da entidade no Brasil. Sua rede religiosa também foi associada à Nova Reforma Apostólica, movimento que reúne lideranças autodenominadas apóstolos e profetas e redes de igrejas que enfatizam a formação de discípulos, a expansão da influência religiosa e a atuação desses dirigentes na orientação das comunidades.

Outra característica dessa trajetória é a adoção do modelo de multiplicação de igrejas conhecido como M12, ou Visão Celular no Modelo dos 12. Inspirado na organização dos 12 discípulos de Jesus, o sistema estrutura o trabalho religioso em pequenos grupos, chamados células, e na formação de líderes encarregados de conquistar novos fiéis, acompanhá-los, prepará-los e enviá-los para formar outros grupos.

Valnice Milhomens, ligada à Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo, identificada pela sigla INSEJEC, é outra liderança associada ao ativismo sionista cristão contemporâneo. Sua trajetória inclui viagens a Estado de Israel desde 1985, organização de caravanas e realização de congressos proféticos em território israelense. Ela também aparece ligada à Nova Reforma Apostólica e a redes internacionais de formação e oração.

Silas Malafaia, conhecido extremista e bolsonarista, pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, também é adepto do sionismo. Ele faz manifestações públicas de apoio ao Estado de Israel, de defesa de sua aliança com setores evangélicos e da participação em mobilizações políticas favoráveis ao fascismo.

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