Às três horas da tarde de 1º de outubro de 1949, uma multidão reunida na Praça da Paz Celestial (Tiananmen) testemunhou uma mudança que alterou o curso da história chinesa e modificou o equilíbrio político do mundo. Duas horas antes, às duas da tarde, o Conselho do Governo Popular Central havia realizado sua primeira reunião e formalizado a estrutura do novo poder.
Às quinze horas, diante da praça tomada pela população, Lin Boqu, dirigente histórico do Partido Comunista da China (PCCh) e integrante da direção política que preparara a constituição do novo Estado, anunciou o início da cerimônia.
Mao Tse-tung proclamou a República Popular da China e, em seguida, acionou o mecanismo que elevou a primeira bandeira vermelha de cinco estrelas representando a unidade do povo chinês sob a direção do PCCh, com a estrela maior simbolizando o partido e as quatro menores representando as quatro classes sociais reunidas na nova conformação política — trabalhadores, camponeses, pequena burguesia e burguesia nacional. A cena encerrou décadas de guerras, invasões, fragmentação territorial e disputas pelo controle do Estado.
Aquele momento não surgiu de uma ruptura isolada. A Revolução Chinesa resultou de um processo histórico iniciado ainda no século XIX, quando as Guerras do Ópio abriram uma longa fase de intervenções estrangeiras, concessões territoriais, tratados desiguais e perda progressiva da soberania. A antiga ordem imperial enfrentou crises sucessivas, enquanto as potências estrangeiras ampliaram sua presença econômica, militar e política.
A sociedade chinesa passou por uma transformação profunda, marcada pela combinação entre estruturas feudais, dependência externa e fragmentação do poder. A questão nacional tornou-se, assim, inseparável da questão social.
Uma velha ordem em decomposição
A derrota diante das potências estrangeiras revelou a fragilidade do Império Qing. A primeira Guerra do Ópio, entre 1839 e 1842, terminou com o Tratado de Nanquim, que abriu portos chineses ao comércio britânico e transferiu Hong Kong ao Reino Unido.
A segunda Guerra do Ópio, entre 1856 e 1860, ampliou as concessões estrangeiras. França, Reino Unido, Rússia, Japão e outras potências estabeleceram zonas de influência, privilégios comerciais e posições estratégicas. A soberania chinesa passou a sofrer restrições em seu próprio território, enquanto a administração imperial demonstrava incapacidade para conter a invasão externa.
A crise atingiu também a estrutura econômica e social. Rebeliões camponesas, movimentos nacionalistas e conflitos regionais enfraqueceram o poder central. A derrota para o Japão na guerra de 1894-1895 produziu novo choque.
A China perdeu Taiwan e reconheceu a crescente força japonesa no Leste Asiático. A Guerra Sino-Japonesa demonstrou que a crise não se restringia à relação com as potências ocidentais. O Japão havia se modernizado e transformado sua capacidade econômica e militar, enquanto a China permanecia presa a uma estrutura política incapaz de responder às novas condições internacionais.
O despertar político nacional
A Revolução de 1911 derrubou a dinastia Qing e encerrou mais de dois milênios de monarquia imperial. Sun Yat-sen tornou-se uma das principais referências do movimento republicano, e a República foi proclamada. A mudança institucional, contudo, não resolveu a fragmentação do poder.
Yuan Shikai assumiu a Presidência, tentou concentrar autoridade e, depois de sua morte, o território chinês passou por uma longa fase de disputa entre senhores da guerra. A República existia formalmente, mas o poder político permanecia disperso entre forças militares regionais.
O Movimento Quatro de Maio de 1919 abriu outra etapa. Jovens, estudantes e intelectuais protestaram contra as decisões internacionais que transferiram ao Japão antigos privilégios alemães na província de Shandong. O movimento combinou nacionalismo, crítica à velha ordem, defesa da ciência e busca de novas concepções políticas.
O marxismo passou a ganhar influência entre setores intelectuais e operários. Chen Duxiu e Li Dazhao estiveram entre os principais propagadores dessas ideias, enquanto Mao Tse-tung aprofundou sua reflexão sobre a realidade chinesa e sobre as condições concretas para uma transformação social.
A primeira frente revolucionária
Em 1º de julho de 1921, representantes de grupos marxistas reuniram-se em Xangai e fundaram o Partido Comunista da China (PCCh). Mao Tse-tung participou como representante de Hunan. A nova organização surgiu em um ambiente marcado pela crise da República, pela influência crescente do movimento operário e pelo impacto da Revolução Russa de 1917. O partido passou a construir uma organização política destinada a intervir diretamente nas disputas sociais e nacionais chinesas.
A aliança com o Kuomintang (KMT), partido nacionalista dirigido por Sun Yat-sen e depois por Chiang Kai-shek, abriu uma nova frente. Com apoio soviético, forças nacionalistas e comunistas participaram da Expedição do Norte, iniciada em 1926, que buscou derrotar os senhores da guerra e reunificar o país.
A cooperação, porém, entrou em colapso em 1927. Chiang Kai-shek rompeu com os comunistas e desencadeou perseguições e massacres contra seus militantes. A ruptura obrigou o PCCh a reorganizar sua estratégia e deslocar o centro da luta para as áreas rurais.
O campo como base revolucionária
A repressão de 1927 produziu uma mudança decisiva. O PCCh passou a construir bases revolucionárias no campo, organizando estruturas políticas, militares e econômicas. Mao Tse-tung atribuiu importância crescente à questão agrária e à capacidade de mobilização das populações rurais.
A experiência levou à formação de áreas sob controle revolucionário, nas quais foram realizadas reformas sociais, redistribuição de terras e experiências de administração política. A estratégia desenvolvida nessa fase ficou associada à guerra popular prolongada e ao cerco das cidades pelo campo.
O processo não representou apenas uma mudança militar. Ele estabeleceu uma relação entre organização política, reforma agrária, mobilização camponesa e construção de instituições nas áreas sob controle revolucionário. A experiência permitiu ao PCCh ampliar sua base social e desenvolver uma concepção própria da revolução, adaptada às condições chinesas.
A retirada que mudou tudo
Entre 1934 e 1935, as forças comunistas realizaram a Longa Marcha, uma retirada militar de milhares de quilômetros diante das campanhas de cerco do Kuomintang. A operação provocou enormes perdas humanas, mas também reorganizou o comando revolucionário. Mao Tse-tung consolidou progressivamente sua liderança política e militar.
As principais forças chegaram à região de Yanan, cidade situada no norte da província de Shaanxi, que se transformou no principal centro político e militar do PCCh na década seguinte. Ali, o partido consolidou sua organização, desenvolveu sua estratégia revolucionária, ampliou sua influência entre os camponeses e estruturou as bases políticas e militares que seriam decisivas para a etapa posterior da Revolução Chinesa.
A experiência de Yanan aprofundou a formulação política de Mao Tse-tung. A questão nacional, a questão camponesa, a organização partidária e a relação entre teoria e realidade chinesa passaram a ocupar posição central.
O PCCh procurou articular uma ampla frente social, incorporando diferentes setores atingidos pela dominação estrangeira e pelas estruturas políticas existentes. A revolução deixou de ser concebida como simples reprodução de experiências externas e passou a ser formulada a partir das particularidades da sociedade chinesa.
A invasão japonesa transformou tudo
A invasão japonesa em larga escala, iniciada em 1937, modificou novamente o cenário. O conflito com o Japão tornou-se a principal questão nacional. O PCCh e o Kuomintang estabeleceram uma Segunda Frente Unida para enfrentar o invasor, embora a cooperação permanecesse marcada por desconfiança e confrontos. A guerra permitiu aos comunistas ampliar sua presença em vastas regiões rurais e organizar forças de resistência.
Entre 1937 e 1945, a guerra contra o Japão produziu uma transformação da correlação de forças. O Kuomintang manteve importantes centros urbanos e estruturas estatais, mas sofreu desgaste econômico e político. O PCCh ampliou sua influência entre camponeses e populações das áreas ocupadas.
A resistência chinesa à invasão e à ocupação japonesa tornou-se, simultaneamente, uma experiência de guerra e de organização política. O PCCh ampliou suas bases territoriais, organizou forças militares e fortaleceu sua influência entre a população rural, enquanto o governo do Kuomintang concentrava grande parte de suas forças na guerra convencional contra o Japão. Quando o Japão se rendeu, em agosto de 1945, a frente comum contra o invasor deixou de existir.
As negociações após a derrota japonesa
Depois da derrota japonesa, Mao Tse-tung foi a Chongqing, principal centro político do governo nacionalista durante a guerra contra o Japão, em agosto de 1945, a convite de Chiang Kai-shek, para negociar as bases políticas da China do pós-guerra. As conversações se prolongaram por mais de um mês e envolveram, pelo lado comunista, Zhou Enlai e Wang Ruofei.
O acordo alcançado em outubro reconheceu a necessidade de paz, democracia e reconstrução nacional, mas deixou sem solução a questão fundamental: quem controlaria o Estado, as forças armadas e os territórios sob administração das duas organizações.
O Kuomintang pretendia preservar sua condição de partido governante; o PCCh defendia a formação de um governo de coalizão, o reconhecimento da existência legal dos diferentes partidos e a reorganização das forças armadas. A questão territorial agravou a contradição. Com a rendição japonesa, a Manchúria, no Nordeste da China, transformou-se no principal espaço de confronto entre as duas forças.
A região possuía importantes centros industriais, ferrovias e instalações militares deixadas pela ocupação japonesa. A União Soviética havia ocupado o território após a entrada na guerra contra o Japão e começou a retirar suas tropas, enquanto o PCCh procurava consolidar ali suas posições.
Os Estados Unidos, interessados em preservar o governo nacionalista, transportaram por via aérea e marítima dezenas de milhares de soldados do Kuomintang para territórios que haviam estado sob ocupação japonesa. A disputa pela Manchúria passou a determinar boa parte da correlação de forças da guerra que se aproximava.
Em dezembro de 1945, o presidente norte-americano Harry Truman enviou à China o general George Marshall para tentar impedir a retomada da guerra civil. Marshall chegou a Chongqing e passou a negociar simultaneamente com Chiang Kai-shek e Mao Tse-tung.
Em janeiro de 1946, os dois lados aceitaram um acordo de cessar-fogo, seguido por decisões da Conferência Consultiva Política e por um plano de reorganização das forças armadas. Em março, Marshall esteve em Yanan, onde se reuniu diretamente com Mao Tse-tung.
Na ocasião, Mao reafirmou a disposição do PCCh de cumprir os acordos de cessar-fogo e de reorganização militar, mas insistiu que a trégua também deveria abranger a Manchúria, justamente a região onde a disputa territorial adquiria maior importância.
A trégua, entretanto, não eliminou o conflito. Durante os primeiros meses de 1946, forças do Kuomintang e do PCCh continuaram disputando posições estratégicas em regiões como Manchúria, Jehol e norte da China. Chiang Kai-shek exigia a retirada das forças comunistas de determinadas áreas e a dissolução ou transferência de administrações locais vinculadas ao PCCh.
Para os comunistas, a questão não se reduzia à distribuição de cargos num futuro governo. O PCCh havia construído durante a guerra contra o Japão uma extensa rede de bases rurais, administrações locais e forças militares, sobretudo no norte e no Nordeste da China. A experiência de resistência havia ampliado sua influência entre os camponeses e lhe proporcionado uma estrutura política e militar própria.
Subordinar essa estrutura ao governo de Chiang Kai-shek significaria abandonar as condições conquistadas durante anos de guerra. Por isso, Mao Tse-tung buscava uma solução negociada que preservasse a autonomia do movimento revolucionário e, simultaneamente, impedisse o retorno ao sistema de partido único do Kuomintang.
Ao longo de 1946, novas tentativas de acordo fracassaram. O PCCh continuou apresentando propostas de cessar-fogo e participação política, ao mesmo tempo que mantinha suas forças armadas e procurava consolidar posições territoriais.
Os comunistas afirmaram que a paz dependeria do cumprimento dos acordos já assinados e da implantação das decisões da Conferência Consultiva Política. A direção nacionalista, por sua vez, insistia na retirada das forças comunistas de áreas consideradas pertencentes ao governo central. A disputa diplomática converteu-se progressivamente em confronto militar aberto.
A transformação das forças revolucionárias
No segundo semestre de 1946, a guerra civil alcançou novamente grande escala. O Kuomintang possuía superioridade numérica, controlava as principais instituições estatais e recebia amplo apoio material dos Estados Unidos. O PCCh não dispunha inicialmente do mesmo poder convencional, mas contava com suas bases territoriais, uma organização militar forjada durante anos de guerra e uma ampla mobilização camponesa.
As forças armadas dirigidas pelo PCCh também haviam passado por uma transformação decisiva. Durante a primeira guerra civil, sua principal formação militar havia sido o Exército Vermelho. Com a Segunda Frente Unida contra o Japão, essas forças foram reorganizadas em formações como o Exército da Oitava Rota, comandado por Zhu De, e o Novo Quarto Exército. A experiência adquirida na guerra contra o Japão ampliou sua capacidade de organização, recrutamento, comando e mobilização territorial.
Depois da rendição japonesa, em agosto de 1945, essas forças deixaram de atuar dentro da frente comum contra o invasor e voltaram-se para a disputa pelo poder nacional. Em 1946, passaram a adotar oficialmente a denominação Exército Popular de Libertação. Comandantes como Zhu De, Peng Dehuai, Lin Biao e Liu Bocheng dirigiram forças que reuniam quadros formados durante a guerra civil anterior, combatentes experimentados na resistência contra o Japão e novos contingentes mobilizados nas áreas rurais.
A luta pela Manchúria adquiriu importância decisiva. A região reunia centros industriais, ferrovias, arsenais e grandes cidades, além de extensas áreas rurais nas quais o PCCh havia construído bases políticas. O Exército Popular de Libertação utilizou essa combinação de organização territorial, mobilização camponesa e experiência militar para ampliar progressivamente sua capacidade de combate.
A Manchúria tornou-se uma das regiões decisivas do conflito. A retirada japonesa deixou equipamentos, instalações industriais e uma estrutura ferroviária de grande importância estratégica. A presença soviética no Nordeste chinês também alterou o equilíbrio regional. O PCCh conseguiu estabelecer bases importantes e ampliar suas forças. A região passou a funcionar como plataforma para operações militares de maior escala.
A partir de 1947, a iniciativa militar passou gradualmente para as forças comunistas. A guerra adquiriu dimensão nacional. Grandes contingentes passaram a operar em diferentes frentes, enquanto a capacidade de resistência do Kuomintang se enfraquecia.
A guerra deixou de depender predominantemente de ações de guerrilha e passou a incluir concentração de tropas, cerco de cidades, controle de ferrovias e operações destinadas a destruir grandes unidades adversárias. A transformação permitiu ao PCCh passar da defesa de suas bases rurais para uma guerra de movimento e, posteriormente, para operações convencionais de grande escala.
O conflito assumiu características diferentes das guerras anteriores. Os comunistas passaram progressivamente da defesa das bases rurais para grandes operações convencionais. A reforma agrária ampliou sua influência entre os camponeses. Ao mesmo tempo, o governo nacionalista enfrentou inflação, dificuldades fiscais, corrupção administrativa e perda de apoio social. A deterioração econômica atingiu a capacidade do Kuomintang de sustentar a guerra e administrar os territórios sob seu controle.
Três campanhas decidiram o conflito
Entre o final de 1948 e o início de 1949, três grandes campanhas militares determinaram o resultado da guerra civil. A primeira foi a Campanha de Liaoshen, na Manchúria, região estratégica do Nordeste da China. A vitória assegurou às forças revolucionárias o controle da região e ampliou sua capacidade de deslocamento e abastecimento.
A segunda foi a Campanha de Huaihai, entre novembro de 1948 e janeiro de 1949, travada em torno de Xuzhou, importante entroncamento ferroviário da China central. A derrota comprometeu as principais forças do Kuomintang ao norte do rio Yangtzé e deixou expostos Nanjing e Xangai, centros políticos e econômicos ainda sob controle nacionalista.
A terceira foi a Campanha de Pingjin, iniciada no fim de novembro de 1948 e concluída em janeiro de 1949, no Norte da China. O nome reunia Beiping, denominação então utilizada para Pequim, e Tianjin, importante cidade portuária situada a sudeste da capital. A campanha também alcançou Zhangjiakou, no noroeste, e posições estratégicas da planície do Norte da China.
Em 31 de janeiro de 1949, Beiping foi ocupada pacificamente, mediante acordo que evitou uma batalha de grande escala na cidade. Com a sequência de Liaoshen, Huaihai e Pingjin, o Kuomintang perdeu grande parte de suas forças militares e deixou de dispor de condições para impedir o avanço revolucionário em direção ao sul.
Em janeiro de 1949, Chiang Kai-shek deixou a Presidência, embora continuasse exercendo influência política e militar. Em abril, o Exército Popular de Libertação atravessou o rio Yangtzé. Nanjing caiu, seguida por Xangai. As forças nacionalistas recuaram para o sul e, no fim daquele processo, Chiang Kai-shek e seus partidários transferiram-se para Taiwan.
A vitória abriu nova etapa
A vitória militar abriu uma etapa de reorganização política. Em setembro de 1949, a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês reuniu representantes de diferentes forças políticas e sociais. A conferência aprovou o Programa Comum, que funcionou como base política provisória para o novo Estado. A formulação estabeleceu um sistema de democracia popular e reconheceu diferentes formas de propriedade durante a etapa inicial.
A Revolução Chinesa de 1949, portanto, não foi apresentada por seus principais formuladores como a passagem imediata para uma sociedade socialista plenamente constituída. Mao Tse-tung havia formulado a existência de duas etapas: primeiro, a Revolução de Nova Democracia; depois, a Revolução Socialista. Na primeira fase, o objetivo consistia em superar a dominação imperialista, as estruturas feudais e o capitalismo burocrático, reunindo amplas forças sociais em torno de um novo poder político.
A dimensão internacional da vitória também foi percebida no Brasil. Na biografia de Pedro Pomar, Osvaldo Bertolino registra que a proclamação da República Popular da China foi acompanhada pelos comunistas brasileiros como parte da transformação do equilíbrio mundial no pós-guerra. O livro situa a vitória chinesa entre os acontecimentos que ampliaram o campo socialista e repercutiram diretamente nas organizações comunistas brasileiras.
A reconstrução depois da vitória
Entre 1949 e 1952, o governo concentrou esforços na reconstrução econômica, na estabilização monetária, na recuperação da produção e na reorganização administrativa. A reforma agrária atingiu extensas áreas rurais e alterou a estrutura da propriedade da terra. O Estado também iniciou a reorganização de setores estratégicos da economia. A prioridade imediata consistiu em restabelecer condições materiais para o funcionamento do novo país.
A política econômica daquele período conservou diferentes formas de propriedade. Existiram propriedades estatais, cooperativas, pequenas propriedades camponesas e atividades privadas. A transição foi gradual e esteve vinculada à concepção de Nova Democracia. A experiência não eliminou imediatamente todas as relações capitalistas. O governo procurou reorganizar progressivamente a economia de acordo com o projeto político que havia sido estabelecido para a etapa seguinte.
A partir de 1953, a China entrou em uma nova fase. O governo iniciou o Primeiro Plano Quinquenal e acelerou a industrialização. A agricultura passou por processos de cooperação e reorganização, enquanto o artesanato e a indústria e o comércio privados foram progressivamente incorporados a novas formas de propriedade. A transformação econômica passou a acompanhar uma mudança institucional mais ampla.
Em 1954, uma nova Constituição consolidou juridicamente a estrutura política da República Popular da China. Em 1956, segundo a periodização sistematizada pelo PCCh, a transformação socialista dos meios de produção foi basicamente concluída. O governo revolucionário chinês distinguiu, dessa maneira, a vitória da Revolução de Nova Democracia, em 1949, da etapa posterior de Revolução Socialista e construção socialista.
Vistas de Pedro Pomar
O ano de 1956 também aproximou diretamente um dirigente comunista brasileiro da experiência chinesa. Em setembro daquele ano, Pedro Pomar desembarcou em Pequim para acompanhar o VIII Congresso do PCCh. No dia 17, ouviu Mao Tse-tung apresentar seu Informe Político. Pomar levou uma mensagem do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil, assinada por Luiz Carlos Prestes, que foi transmitida pela Rádio Pequim. O episódio registrou uma relação concreta entre a direção comunista brasileira e a experiência política chinesa naquele momento de transformação socialista.
A experiência chinesa também ocupou lugar concreto na trajetória de Pedro Pomar. A visita a Pequim em 1956 ocorreu num momento em que o dirigente brasileiro acompanhava diretamente o debate político do PCCh e as formulações apresentadas por Mao Tse-tung. O contato com a realidade chinesa não se limitou, portanto, à repercussão distante da Revolução de 1949: Pomar esteve na capital chinesa durante o VIII Congresso do partido e acompanhou pessoalmente uma de suas principais formulações políticas naquele período.
Essa experiência encontrou continuidade nos anos posteriores. Pomar acompanhou também o desenvolvimento da Revolução Cultural na China e publicou, em 1968, artigo sobre o processo no jornal A Classe Operária. Aquela primeira posição foi formulada em pleno curso dos acontecimentos e Pomar posteriormente modificaria sua avaliação.
Depois de Mao, a nova etapa
Após a morte de Mao Tse-tung, em 1976, a China entrou em uma fase de reorientação política e econômica. Sob a liderança de Deng Xiaoping, consolidada a partir do fim dos anos 1970, o PCCh priorizou o desenvolvimento econômico e iniciou a política de reforma e abertura ao exterior.
A experiência passou a ser formulada como construção do “socialismo com características chinesas”, combinando planejamento estatal, mecanismos de mercado, modernização tecnológica e ampliação das relações econômicas internacionais.
Com Xi Jinping, a partir de 2012, essa trajetória passou a ser apresentada como uma nova etapa do socialismo com características chinesas. O 19º PCCh, em 2017, incorporou ao Estatuto partidário o “Pensamento de Xi Jinping sobre o Socialismo com Características Chinesas para uma Nova Era”, associado à modernização do país, à inovação tecnológica, ao desenvolvimento econômico, à redução das desigualdades, à proteção ambiental e ao fortalecimento da capacidade estatal.
A formulação estabeleceu como horizonte a construção de um país socialista moderno e, até meados do século XXI, a realização da modernização socialista.
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