A noite de 4 de outubro de 2026 abriu uma nova etapa da disputa presidencial. O resultado do primeiro turno, com Flávio Bolsonaro à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, produziu apreensão entre os setores que haviam trabalhado pela continuidade do governo. Em Niterói, estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF) decidiram que a reação não poderia ficar restrita às conversas nas redes sociais. No dia seguinte, a mobilização saiu da Faculdade de Direito e ganhou as ruas.
O Centro Acadêmico Evaristo da Veiga (CAEV), onde a União da Juventude Socialista (UJS) é a força majoritária, foi o ponto de partida de uma movimentação que rapidamente ultrapassou os limites da universidade. O que começou como uma manifestação estudantil tornou-se uma articulação nacional, na qual a UJS mobilizou seus quadros, atuou nas direções da União Nacional dos Estudantes (UNE) e da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), organizou brigadas e incorporou a disputa eleitoral à atividade cotidiana de sua militância.
A importância de Niterói está no que aconteceu depois. A iniciativa não permaneceu confinada à Faculdade de Direito, nem se limitou à manifestação que reuniu centenas de estudantes naquela primeira noite. A repercussão alcançou outros cursos, universidades e entidades estudantis. A UJS estava inserida nesse ambiente por meio de sua presença no CAEV e de sua estrutura política universitária.
A partir dali, a organização participou de uma mobilização que encontrou nas direções da UNE e da UBES os instrumentos para ganhar escala nacional. A primeira manifestação foi convocada pelas entidades locais e pelos estudantes que se articularam na UFF. A expansão posterior exigiu uma estrutura de organização, capacidade de convocação e coordenação entre diferentes regiões. Foi nessa passagem que a presença nacional da UJS adquiriu maior dimensão.
A organização estudantil
A organização já havia colocado a reeleição de Lula entre suas prioridades antes mesmo do primeiro turno. Em julho, durante seu 23º Congresso Nacional, realizado no Rio de Janeiro, reuniu aproximadamente 1.800 jovens de diferentes estados e elegeu Rafaela Elisiário para a presidência nacional.
O encontro aprovou diretrizes para a atuação da entidade nas eleições e lançou a campanha O futuro é agora, o Futuro é com Lula. A decisão não surgiu como resposta improvisada ao resultado eleitoral. A UJS havia estabelecido previamente uma orientação de mobilização da juventude, com debates sobre educação, trabalho, soberania, ciência, tecnologia e enfrentamento da extrema direita. A campanha presidencial estava incorporada à preparação política da organização.
Essa estrutura ganhou importância decisiva depois do primeiro turno. A presidente nacional da UJS, Rafaela Elisiário, passou a defender uma mobilização que ultrapassasse os limites da militância já convencida. Em artigo publicado no portal da entidade, afirmou que era necessário organizar assembleias nas universidades e escolas, formar brigadas de estudantes e circular pelos bairros onde Lula havia perdido votos ou registrado índices elevados de abstenção.
No mesmo texto, Rafaela sintetizou a orientação da direção nacional: “Nenhum voto deve ser tratado como garantido. Nenhum diálogo deve ser considerado perdido antes de acontecer.” A dirigente defendeu ainda a descentralização das iniciativas e a presença das lideranças juvenis nas redes sociais, com o objetivo de alcançar eleitores que ainda poderiam mudar de posição.
Também recomendou ampliar a presença das lideranças juvenis nas redes sociais e descentralizar as iniciativas para alcançar eleitores que ainda poderiam mudar de posição. O documento revela a orientação adotada pela direção nacional e permite acompanhar a passagem da campanha política previamente anunciada para uma operação de mobilização territorial e digital.
A presença da UJS na direção das entidades estudantis ampliou as condições de execução dessa estratégia. Bianca Borges preside a UNE, depois de ter sido apresentada pela UJS como candidata à direção da entidade. Na UBES, Roberta Pontes foi eleita em abril pelo movimento Tudo nosso!, encabeçado pela organização.
As duas presidências estabeleceram uma conexão entre o movimento universitário e o secundarista, com capacidade de convocação em universidades, institutos federais, escolas públicas e entidades estaduais. A UNE e a UBES tem autonomia institucional e instâncias próprias de deliberação, mas a presença de dirigentes vinculadas à UJS constituiu uma posição política relevante para a articulação nacional.
A UNE decidiu apoiar formalmente a reeleição de Lula em 6 de outubro e lançou a campanha Estudantes com Lula. O calendário estabelecido pela entidade previa assembleias em todas as universidades, panfletagens, atividades em terminais de transporte, mobilizações nos bairros e manifestações nacionais até a véspera do segundo turno.
Ao anunciar a campanha, Bianca Borges declarou: “A partir de agora é estado permanente de mobilização. Os estudantes serão decisivos para reeleger Lula. Não sairemos das ruas!” A presidente da UNE convocou diretórios centrais, centros e diretórios acadêmicos, entidades estaduais e uniões municipais a organizar assembleias e plenárias. A orientação era fazer com que cada reunião terminasse com tarefas e calendário de atividades.
A orientação era transformar cada assembleia em um núcleo de organização, com tarefas definidas e continuidade de atuação. A campanha não deveria depender apenas de grandes manifestações. Era necessário chegar aos espaços de convivência, aos bairros populares, às periferias e aos locais onde a população pudesse ser abordada diretamente.
A UBES incorporou os estudantes secundaristas a esse movimento. Grêmios e entidades estaduais passaram a organizar atividades nas escolas e comunidades. A participação dos adolescentes e jovens do ensino médio ampliou o alcance social da campanha e aproximou a mobilização universitária de uma parcela da juventude que não estava diretamente representada nas assembleias da UNE. A articulação entre as duas entidades permitiu organizar diferentes frentes de atuação, respeitando as características de cada segmento, mas convergindo na defesa da reeleição presidencial.
A presidente da UBES, Roberta Pontes, também convocou os secundaristas a participar das atividades fora das escolas. Em entrevista ao Correio Braziliense, afirmou que a tarefa era estar “na rua conversando com muita gente” e fazer com que a memória dos estudantes que enfrentaram a ditadura fosse honrada pela mobilização da juventude.
A mobilização também contou com a participação da Juventude Pátria Livre (JPL), que desenvolveu uma campanha própria de convocação de estudantes e jovens para a disputa do segundo turno. Em 7 de outubro, o jornal Hora do Povo publicou a convocação nacional da entidade para ocupar universidades, escolas, bairros e centros urbanos, com o objetivo de conversar com eleitores indecisos e alcançar aqueles que não haviam comparecido às urnas no primeiro turno.
Em São Paulo, o coordenador nacional da JPL, Lucas Chen, participou de atividades na Praça Ramos, enquanto, em Porto Alegre, a coordenadora estadual, Vitória Cabreira, organizava ações de mobilização. A entidade também se incorporou ao Mutirão vira voto, intensificando panfletagens e conversas em terminais de transporte, praças e universidades na reta final da campanha.
Durante a mobilização na Praça Ramos, Lucas Chen resumiu o chamado da organização: “É ocupar as ruas para derrotar o fascismo e reeleger Lula presidente.” Em Porto Alegre, Vitória Cabreira também convocou a juventude a participar das atividades de rua. A JPL acrescentou outra estrutura de organização juvenil à mobilização, ao lado da UJS e das entidades nacionais do movimento estudantil. Embora atuassem com estruturas e coordenações próprias, essas organizações convergiam na tarefa de ampliar a participação da juventude e conquistar votos para a reeleição de Lula.
A atuação da UJS ganhou expressão concreta na convocação de seu Encontro Nacional de Juventude, marcado para 11 de outubro. A atividade tinha a finalidade de organizar a campanha entre os estudantes, promover a troca de experiências e distribuir tarefas. A proposta incluía formação de militantes para abordar eleitores, compreender suas dúvidas e apresentar argumentos sobre os projetos em disputa.
A entidade defendia a criação de brigadas da esperança, com atuação de casa em casa e de bairro em bairro. Era uma mudança importante de escala. A mobilização que havia começado nas universidades passava a incorporar o trabalho direto de convencimento eleitoral.
Gabriela Silveira, diretora de Movimento Universitário da UJS Brasil, apresentou um balanço dessa operação em artigo publicado no portal da organização. Segundo seu relato, mais de 30 assembleias foram realizadas em menos de 72 horas. A dirigente identificou a participação de diretórios centrais, centros acadêmicos, grêmios e associações de pós-graduandos, em articulação com a UNE, a UBES e a Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG).
O texto constitui um registro importante da atuação da UJS, pois apresenta a dimensão nacional da mobilização e a participação de seus quadros na organização das atividades. A entidade também reivindicou a realização de grandes manifestações no Rio de Janeiro.
A estratégia da UJS combinava três planos de atuação. O primeiro era a presença nas instituições de ensino, com assembleias, plenárias e atividades de formação. O segundo era a ocupação das ruas, por meio de manifestações, panfletagens e brigadas territoriais. O terceiro era a disputa digital, com produção de conteúdo, divulgação de vídeos e participação de suas lideranças nas redes sociais. A combinação permitia que a mobilização não dependesse exclusivamente dos grandes atos e mantivesse atividade nos intervalos entre as manifestações.
A frente digital
Foi nessa terceira frente que a campanha encontrou uma iniciativa de grande alcance, o Exército do Lula, canal de WhatsApp criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG). A ferramenta havia sido lançada em abril, inicialmente como espaço de troca de informações entre apoiadores do presidente. Depois do primeiro turno, Janones decidiu transformá-la em uma estrutura de mobilização digital. O canal cresceu rapidamente, ultrapassou dez milhões de integrantes e passou a distribuir vídeos, áudios, orientações e tarefas para estimular o compartilhamento de conteúdo favoráveis a Lula.
A orientação era fazer cada participante convidar outras pessoas, ampliar o alcance das publicações e transformar seguidores em agentes de divulgação. O canal também aproximou a campanha de eleitores mais velhos, familiares e pessoas que não participavam habitualmente de manifestações ou organizações políticas.
A convergência entre essas duas frentes foi importante para a dimensão adquirida pela campanha. A juventude organizada ocupava universidades, escolas, bairros e ruas. A rede coordenada por Janones ampliava a circulação de mensagens e conteúdos, alcançando milhões de usuários.
As duas iniciativas não eram a mesma organização nem estavam submetidas a uma única direção. A UJS tinha sua própria estrutura, enquanto o Exército do Lula era conduzido por Janones. Sua importância esteve na convergência de esforços em torno de um objetivo eleitoral comum, combinando mobilização presencial e distribuição digital de conteúdos.
A campanha nas ruas
A campanha, entretanto, não se resumiu à comunicação digital. A atuação nas ruas continuou crescendo durante as três semanas entre os dois turnos. Em Niterói, os estudantes organizaram novas manifestações, assembleias e atividades de diálogo com a população.
No Rio de Janeiro, a mobilização alcançou a Candelária, a Cinelândia e Copacabana. Em outras capitais, universidades e escolas passaram a organizar atos e brigadas. A UJS participou desse movimento por meio de sua estrutura nacional e de seus quadros nas entidades estudantis, enquanto outras organizações juvenis, movimentos sociais, sindicatos, artistas e intelectuais também se incorporaram à campanha.
A disputa passou a envolver eleitores que não haviam comparecido às urnas no primeiro turno, pessoas indecisas e famílias nas quais diferentes posições políticas conviviam. A mobilização de jovens junto a parentes mais velhos ganhou visibilidade, assim como a iniciativa de estimular idosos a comparecer às seções eleitorais.
O próprio Lula participou de uma transmissão com Janones voltada a esse público. A campanha passou a combinar a presença nas ruas, a comunicação direta pelas redes e a conversa familiar, ampliando o alcance da mobilização para além dos militantes organizados.
Na reta final, a JPL intensificou sua participação no Mutirão vira voto. Em 21 de outubro, Lucas Chen convocou estudantes e jovens a ampliar as atividades em ruas, terminais de transporte e universidades. “É hora de intensificar a dose de ações”, afirmou o coordenador nacional da entidade.
A presidenta da UJS, Rafaela Elisiário, avaliou depois da vitória que foram três semanas de mobilização cotidiana, com estudantes e militantes nas ruas e nas redes sociais. Em entrevista publicada pelo Portal Vermelho em 27 de outubro, afirmou que a juventude havia entrado em campo para mudar o resultado da disputa e destacou a capacidade de organização coletiva dos jovens.
Em 25 de outubro, Lula venceu Flávio Bolsonaro e foi reeleito presidente da República com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do adversário. A diferença final foi de 4.430.191 de votos. O resultado reverteu a desvantagem de 2,2 milhões registrada no primeiro turno. A vitória foi construída por uma ampla convergência de forças políticas e sociais, pela atuação da campanha presidencial, pela participação dos movimentos populares e pela mobilização de milhões de eleitores.

A mobilização do povo nas ruas foi um papel decisivo.
Manter essa mobilização em todos os próximos 4 anos será primordial iara Lula poder governar.
Este texto “A UJS e a centelha de Niterói na reeleição de Lula” pode ser um roteiro de documentário.
O que acham?
Parabens a UJS e a juventude.
Fascistas não passarão!