O labirinto miliciano de Flávio Bolsonaro

Reportagem

Um mundo sombrio, habitado por criaturas que não suportam a luz da democracia e da Justiça, onde reinam a impunidade e os abusos. Um submundo, na verdade, no qual as coisas acontecem longe dos olhos do público e seus habitantes surgem em cena vestidos com a pele de cordeiros, escondendo a alcateia de lobos que se dizem adoradores do Cordeiro de Deus. Vão às igrejas com a mesma naturalidade com que frequentam prostíbulos e outros ambientes onde prosperam a jogatina, a corrupção e a ladroagem.

Esse é o mundo de Flávio Bolsonaro, construído por seu clã, povoado por seus parceiros e sustentado pelo poder do dinheiro — um dinheiro que circula por redes de interesses poderosos, atravessa as estruturas financeiras instaladas nos edifícios luxuosos da Faria Lima e encontra nos paraísos fiscais caminhos para escapar ao escrutínio público.

É o universo dos super-ricos, no qual fortunas, influência política e interesses empresariais se entrelaçam numa teia que ultrapassa fronteiras e alcança os centros de poder de Washington, os corredores da Casa Branca e do Departamento de Estado, além dos círculos empresariais e das redes criminosas que atuam em Miami.

Nesse mapa, as conexões entre política, finanças e religião percorrem também igrejas ligadas à extrema direita e mecanismos de circulação de capitais como a Rockbridge, enquanto encontram ressonância na agenda de Marco Rubio, Donald Trump e outras figuras influentes desse universo político da extrema direita.

A teia miliciana

Flávio Bolsonaro ingressou formalmente nesse submundo em 24 de outubro de 2003, quando exercia o mandato de deputado estadual no Rio de Janeiro, com a apresentação de uma moção para homenagear Adriano Magalhães da Nóbrega, então tenente da Polícia Militar. Dois anos depois, em 15 de junho de 2005, apresentou um Projeto de Resolução que concedeu ao mesmo oficial a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).

A justificativa descrevia uma operação policial realizada em 2001, na qual Adriano teria participado da prisão de suspeitos e da apreensão de armas e drogas. A proposta foi aprovada e convertida em Resolução em 23 de agosto de 2005, conforme o registro legislativo original da Alerj. Adriano estava preso preventivamente, acusado de envolvimento no homicídio de Leandro dos Santos Silva, um guardador de carros.

A trajetória posterior de Adriano ajuda a compreender por que aquela honraria passou a ser examinada sob outra perspectiva. O ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) foi apontado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como integrante da milícia de Rio das Pedras e chefe do chamado Escritório do Crime, grupo associado a assassinatos por encomenda. Permaneceu foragido e morreu em fevereiro de 2020, durante uma operação policial na Bahia, antes de ser julgado por todas as acusações que lhe eram atribuídas.

A investigação de sua estrutura financeira, entretanto, prosseguiu depois de sua morte. Em março de 2026, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro anunciou a Operação Legado, com denúncias contra 19 pessoas por suspeitas relacionadas à lavagem de dinheiro, à organização criminosa associada a Adriano e à movimentação de patrimônio do grupo. A operação foi dividida em três ações penais, abrangendo recursos atribuídos ao jogo do bicho, a atuação de uma organização criminosa e a lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio.

O caso queiroz

A relação entre Flávio e Adriano também passou pelo funcionamento cotidiano do gabinete parlamentar. Fabrício José Carlos de Queiroz, policial militar e chefe de gabinete do então deputado, conhecia Adriano desde o período em que ambos integravam a Polícia Militar. Flávio declarou ao Ministério Público que chegou ao ex-capitão por intermédio de Queiroz e afirmou que gostava de conhecer policiais envolvidos em operações de rua.

Segundo o depoimento, Adriano também lhe dera instruções de tiro. No gabinete da Alerj, Flávio manteve duas mulheres da família do ex-policial: Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, então mulher de Adriano, e Raimunda Veras Magalhães, mãe do ex-capitão. Danielle trabalhou na estrutura parlamentar de 2007 a novembro de 2018 e Raimunda foi nomeada em 2016 e permaneceu até novembro de 2018.

Em 2019, estourou o caso da rachadinha, depois que relatórios de inteligência financeira apontaram movimentações consideradas atípicas nas contas de Queiroz e de pessoas ligadas ao gabinete da Flávio Bolsonaro. O Ministério Público do Rio de Janeiro suspeitou que funcionários devolvessem parte dos salários recebidos da Alerj e atribuiu a Queiroz o papel de operador financeiro, apontando Flávio Bolsonaro como beneficiário.

A rede de relações examinada pelas autoridades chegou também às atividades financeiras de Adriano. Em maio de 2026, surgiu a denúncia de pagamento de R$ 6.300 que Queiroz recebeu, em julho de 2017, de uma empresa de estética investigada por suspeita de integrar a estrutura de movimentação de recursos associada ao ex-capitão. A transferência foi identificada em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

A empresa estava vinculada à irmã de um homem apontado pelo Ministério Público como operador de empresas utilizadas para movimentar dinheiro relacionado ao círculo de Adriano. A investigação examinou estabelecimentos comerciais, saques em espécie e operações consideradas incompatíveis com a dimensão de alguns negócios. O pagamento foi registrado quando Queiroz ainda trabalhava no gabinete de Flávio Bolsonaro.

O envolvimento de Flávio Bolsonaro com as milícias também aparece em sua defesa quando era deputado estadual. Em 7 de fevereiro de 2007, ele pronunciou-se na tribuna da Alerj contra o que considerava uma generalização das acusações dirigidas a esses grupos. Ele afirmou que que não se deveria “estigmatizar as milícias”, além de sua crítica a políticos e organizações de direitos humanos que denunciavam a atuação paramilitar.

Flávio Bolsonaro argumentou que os crimes de determinados policiais não deveriam ser atribuídos indiscriminadamente a todos os integrantes dos grupos e apresentou a suposta expulsão de traficantes como justificativa para sua atuação. A fala ocorreu quando a expansão das milícias já era objeto de denúncias de moradores e de investigação parlamentar.

Em 2008, a CPI das Milícias da Alerj, presidida por Marcelo Freixo (então no PSOL), identificou a presença desses grupos em 171 comunidades e descreveu cobrança compulsória por serviços, exploração do transporte alternativo, imposição de fornecedores e ameaças a moradores. O relatório propôs o indiciamento de 226 pessoas.

Em fevereiro de 2009, a Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro (OAB-RJ) criou uma ouvidoria para receber denúncias, diante do temor de represálias e da suspeita de participação de agentes de segurança nas organizações. A organização internacional de direitos humanos Human Rights Watch (HRW) também documentou a atuação das milícias no Rio de Janeiro, registrando práticas de extorsão, violência e controle territorial sobre comunidades, submetidas ao poder armado desses grupos.

A relação de Flávio Bolsonaro com milicianos voltou a aparecer em 2023, quando ele era senador e destinou R$ 199.999,79 ao projeto esportivo Jogadores do Futuro, executado pelo Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), na Taquara, zona oeste do Rio de Janeiro. Ele mandou emenda a miliciano do caso Marielle, conforme revelam mensagens nas quais Robson Calixto Fonseca, conhecido como Peixe, solicitava recursos à assessoria parlamentar de Flávio Bolsonaro.

Peixe havia trabalhado em estruturas ligadas a Domingos Brazão e foi apontado pelas autoridades como intermediário entre os irmãos Brazão e integrantes de grupos criminosos da zona oeste. Em outubro de 2023, ele procurou Maria de Fátima Bezerra Castro, conhecida como Fafá, assessora do gabinete de Flávio Bolsonaro em Brasília, para pedir dinheiro destinado a um projeto de futebol infantil.

As mensagens mostram a orientação para formalizar o pedido e a recomendação de que Peixe reforçasse pessoalmente a solicitação junto a Flávio Bolsonaro. O Ministério do Esporte formalizou a transferência, e a entidade recebeu os recursos em novembro daquele ano. A documentação estabelece a sequência entre o pedido, a interlocução com a assessoria e a destinação da emenda; não demonstra, por si só, que Flávio soubesse de todas as atividades atribuídas a Peixe ou que a transferência tivesse finalidade criminosa.

O nome de Peixe aparece nas investigações sobre o assassinato de Marielle Franco, vereadora do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), e de Anderson Gomes, seu motorista, mortos a tiros em março de 2018. Os irmãos Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, e João Francisco Inácio Brazão, conhecido como Chiquinho Brazão, foram acusados de serem os mandantes do crime. Ronnie Lessa, autor confesso dos disparos, afirmou em colaboração premiada que Peixe o havia apresentado aos mandantes e providenciado a arma utilizada no crime.

Enquanto esses episódios eram reconstruídos, outra frente de apuração avançava sobre o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Há registro de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras atestando um repasse de US$ 1.666.667 ao Havengate Development Fund em 16 de setembro de 2025, oito dias depois de Flávio Bolsonaro cobrar de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, parcelas supostamente atrasadas para a produção.

Com a transferência, o total identificado de recursos enviados por Vorcaro ao fundo passou de US$ 10,6 milhões para US$ 12,3 milhões. Flávio Bolsonaro havia afirmado que o último repasse ocorrera em maio de 2025, enquanto o documento apontava uma transferência quatro meses depois. Ele disse que não havia fato novo e atribuiu à produtora a responsabilidade pela prestação de contas.

Em 20 de outubro, a revista Piauí publicou documentos brasileiros e portugueses indicativos de uma possível participação indireta de Flávio Bolsonaro na Best Bet, uma casa de apostas on-line. Segundo a publicação, Willer Tomaz, advogado e amigo de Flávio, criou em janeiro de 2023 a Cathedral Holdings, com sede na Ilha da Madeira, em Portugal. No mês seguinte, o grupo empresarial constituiu a Rede Loto, responsável pela Best Bet.

Em seguida, Tomaz criou a Alcazar Holdings, também na Madeira, e sua correspondente brasileira, Alcazar Brasil. A revista encontrou semelhanças societárias e contábeis entre a Cathedral e a Alcazar, incluindo o mesmo administrador e o mesmo endereço comercial. Registros obtidos junto à empresa de análise de risco Iberinform mostravam que, em 2025, a Cathedral tinha 984 mil euros a receber, enquanto a dívida da Alcazar aumentara para 824 mil euros. Um auditor fiscal português consultado pela publicação considerou possível que a Cathedral tivesse financiado a Alcazar, total ou parcialmente.

A revista relatou que a Polícia Federal pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura de investigação para apurar se Flávio Bolsonaro seria sócio oculto da Best Bet. A suspeita surgiu da combinação entre o acesso bancário, os vínculos entre Cathedral e Alcazar e as relações pessoais e empresariais entre Flávio Bolsonaro e Tomaz.

A reportagem também informou que o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro faturou R$ 14 milhões entre 2023 e 2026 e que parte dos pagamentos teria sido depositada na conta da Alcazar.

A tarde no lago

Outra reportagem da Piauí, publicada em 21 de outubro sob o título Uma tarde no lago, voltou a um episódio de julho de 2020, quando Flávio Bolsonaro participou de um passeio de lancha em Brasília com empresários ligados à Precisa Medicamentos, empresa que havia intermediado negociações para a compra da vacina Covaxin pelo governo federal durante a pandemia de Covid-19. O encontro também envolveu a presença de garotas de programa.

Entre os participantes citados pela revista estavam Francisco Maximiano, dirigente da Precisa, e Danilo Berndt Trento, empresário relacionado às negociações. A apuração relatou que Trento teria oferecido um relógio Rolex a Flávio Bolsonaro e que ele ajudou posteriormente a viabilizar uma reunião entre Maximiano e Gustavo Montezano, então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O encontro trataria de financiamento para uma empresa de telecomunicações. As investigações sobre a Precisa e a Covaxin foram examinadas pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia, que recomendou o indiciamento de Flávio Bolsonaro, Trento e Maximiano, entre outras pessoas.

O conjunto de episódios passou a repercutir também na leitura do mapa eleitoral do Rio de Janeiro. Uma análise do Centro de Segurança Pública e Analytics da Fundação Getulio Vargas (FGV-Analytics), elaborada pelo pesquisador Bruno Pantaleão e publicada pelo UOL em 21 de outubro de 2026, comparou mais de cinco mil locais de votação, dos quais cerca de dois mil se encontravam em áreas metropolitanas sob influência de tráfico ou milícias, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado.

O levantamento identificou que Flávio Bolsonaro obteve, em média, 5,6 pontos percentuais a mais nessas áreas do que em outras regiões dos mesmos municípios, diferença estimada em aproximadamente 107 mil votos. O candidato Douglas Ruas, do Partido Liberal (PL) – o mesmo de Flávio Bolosnaro –, apresentou vantagem média de 4,7 pontos percentuais em áreas semelhantes na disputa pelo governo estadual.  

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *