Com “tesouraço”, Flávio Bolsonaro pretende sangrar o povo

Especial

O mercado financeiro impôs ao candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, um corte imediato de cerca de R$ 250 bilhões de políticas públicas e de seguridade social. Ele promete em público que não vai tirar dinheiro dos mais pobres, mas, nas portas dos fundos da Faria Lima, onde está o verdadeiro comando de sua campanha, sua equipe econômica apresenta propostas que atingem justamente aposentadorias, benefícios assistenciais, saúde e educação.

O “ajuste” que o candidato vende ao mercado financeiro não cabe no discurso tranquilizador que dirige à população. O povo brasileiro deveria ser amplamente informado sobre o preço dessa operação antes de correr o risco de entregar ao candidato da extrema direita um mandato presidencial. Mas isso é inviabilizado pelo bloqueio midiático em torno das verdadeiras propostas dos candidatos, e cabe à militância organizada cumprir esse papel democrático para garantir a soberania do voto.

A contradição está documentada. Em encontros com agentes do mercado financeiro, interlocutores da campanha de Flávio Bolsonaro apresentaram um pacote de “ajuste fiscal” da ordem de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), equivalente a aproximadamente R$ 250 bilhões. Entre as medidas discutidas estão a desvinculação dos reajustes das aposentadorias e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) dos aumentos reais do salário mínimo e o fim dos pisos constitucionais que vinculam os recursos destinados à saúde e à educação à arrecadação federal.

Não se trata de uma lista de cortes administrativos insignificantes. Trata-se de mexer nas regras que determinam quanto dinheiro chega a milhões de brasileiros e quanto o Estado é obrigado a destinar a serviços essenciais.

Diante do eleitor, porém, Flávio Bolsonaro afirma exatamente o contrário. Em entrevista ao Jornal Nacional, em 16 de outubro, negou que pretenda acabar com as aposentadorias ou privatizar determinadas empresas estatais, prometeu manter os reajustes do salário mínimo acima da inflação e disse que não pretende desmontar os programas sociais. Também apresentou um plano de “ajuste fiscal” de R$ 200 bilhões, associado à extinção de pelo menos dez ministérios. A distância entre o valor anunciado e a falta de explicação detalhada sobre a origem de toda essa economia permanece sem resposta.

É essa a operação política que precisa ser exposta: a candidatura oferece ao mercado financeiro a perspectiva de um “ajuste” profundo e, ao mesmo tempo, promete à população que não haverá sacrifício social. Quando as medidas capazes de produzir a economia anunciada aparecem nas conversas reservadas e nos estudos da equipe, o candidato nega publicamente que pretenda adotá-las.

A campanha chama os relatos de conversas informais e afirma que as propostas não integram o programa oficial. Mas não apresenta uma conta pública que demonstre como pretende cortar centenas de bilhões de reais sem atingir as despesas obrigatórias que concentram a maior parte do orçamento federal.

A conta do mercado financeiro

A Faria Lima não está pedindo apenas que o governo elimine desperdícios ou reduza o número de ministérios. Há representantes do mercado financeiro defendendo que um eventual governo de Flávio comece cortando despesas com aposentados, servidores públicos e Judiciário, em vez de priorizar o combate às emendas parlamentares ou a revisão de renúncias fiscais.

Walter Maciel, presidente-executivo da gestora AZ Quest e apoiador declarado do candidato, defendeu a desvinculação dos benefícios previdenciários do salário mínimo e afirmou que essa medida poderia gerar uma “economia” — na verdade, um desvio para o mercado financeiro — acumulada de até R$ 1,2 trilhão. Sua posição deixa claro que, para o mercado financeiro, a redução dos gastos com aposentadorias e servidores deve estar entre as primeiras providências de um novo governo.

O chamado “tesouraço” não é uma abstração. A equipe econômica discute limitar os reajustes das aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e do BPC à inflação, impedindo que esses benefícios acompanhem os aumentos reais do salário mínimo. Atualmente, a regra de valorização do piso nacional combina a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) com a variação real do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos antes.

Assim, quando a economia cresce, esse crescimento é incorporado ao cálculo do reajuste, permitindo que o salário mínimo aumente acima da inflação. Os benefícios vinculados ao piso acompanham essa valorização. A mudança interromperia esse mecanismo para os beneficiários atingidos, restringindo seus reajustes à reposição inflacionária e impedindo que incorporassem os ganhos reais decorrentes do crescimento econômico.

A diferença aparece no orçamento doméstico. A inflação mede a variação dos preços; o aumento real do salário mínimo representa um ganho acima dessa variação. Se o salário mínimo cresce em termos reais, mas aposentadorias e benefícios assistenciais recebem apenas a reposição inflacionária, esses beneficiários deixam de acompanhar a valorização do piso nacional.

A regra pode preservar o poder de compra em relação à inflação medida, mas impede que aposentados e pessoas que recebem o BPC participem dos ganhos reais concedidos ao salário mínimo. Ao longo dos anos, a diferença se acumula. O alcance da medida seria enorme. Mais de 41 milhões de benefícios são pagos pelo INSS, e aproximadamente 70% correspondem ao valor do piso nacional.

No caso do BPC, a consequência pode ser ainda mais grave para famílias em situação de vulnerabilidade. O benefício atende idosos e pessoas com deficiência que cumprem os critérios legais de elegibilidade e renda. Não é um privilégio nem uma renda excedente: é uma garantia de sobrevivência para quem enfrenta limitações de acesso ao mercado de trabalho e depende de recursos públicos para despesas básicas. Impedir que esse benefício acompanhe os ganhos reais do salário mínimo significa restringir a evolução da renda de pessoas que já vivem com recursos limitados.

A segunda frente do “ajuste” atinge diretamente o Sistema Único de Saúde (SUS) e a educação pública. A proposta em discussão prevê substituir os pisos constitucionais que vinculam os gastos desses setores à arrecadação por uma regra de correção limitada à inflação. Hoje, a Constituição estabelece percentuais mínimos de aplicação de recursos nessas áreas. Retirar a vinculação à receita significa alterar a garantia de financiamento e permitir que a participação relativa desses setores no orçamento diminua quando a arrecadação crescer acima da inflação.

Na vida concreta, isso significa menos margem para ampliar equipes de saúde, construir e equipar unidades, manter hospitais, financiar a atenção básica, contratar profissionais e responder ao aumento da demanda. Na educação, restringe investimentos em escolas, infraestrutura, equipamentos, valorização profissional e expansão da oferta. O efeito não precisa aparecer imediatamente como o fechamento de um hospital ou de uma escola. Pode surgir como a vaga que não é aberta, a unidade que não recebe recursos suficientes, o equipamento que não é substituído ou o serviço que deixa de acompanhar as necessidades da população.

É justamente nessas áreas que o “tesouraço” pretende agir. Estudos citados na cobertura do pacote imposto pelo mercado financeiro estimam que a limitação dos reajustes previdenciários e assistenciais produziria um corte acumulado de aproximadamente R$ 1,1 trilhão em dez anos.

A mudança nas regras de financiamento da saúde e da educação, incluindo a complementação federal ao Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), pretende gerar outro corte de R$ 800 bilhões no mesmo período. O dinheiro que deixaria de crescer nessas despesas para atender ao apetite voraz do mercado financeiro é justamente o que deixaria de acompanhar as regras atuais de proteção social e financiamento público.

Flávio Bolsonaro tenta apresentar o “ajuste” como uma operação contra desperdícios, privilégios e excesso de burocracia. Mas reduzir dez ministérios não equivale a cortar R$ 250 bilhões. Cortar cargos comissionados também não. Combater fraudes é necessário, mas a campanha não demonstra quanto espera recuperar e em que prazo. Vender imóveis públicos pode gerar receita extraordinária, mas não cria, por si só, uma fonte permanente de economia.

A matemática é incontornável: se o “ajuste” anunciado é dessa magnitude e a equipe quer alcançá-lo por meio da contenção das despesas obrigatórias, não basta prometer que os direitos serão preservados. É preciso explicar quais medidas produzirão a economia e quem será atingido.

A inspiração de Milei

A inspiração econômica de Flávio torna o problema ainda mais evidente. Daniella Marques, coordenadora da equipe econômica da campanha, apontou o governo de Javier Milei, na Argentina, como referência. Não se trata apenas de uma afinidade retórica, mas de um programa bem definido, assentado no projeto neoliberal, na imposição do capital financeiro sobre o Estado e no orçamento público. O governo argentino promoveu um “ajuste” que atingiu aposentadorias e políticas sociais, oferecendo um exemplo concreto do tipo de consequência que pode acompanhar essa orientação econômica.

Na Argentina, Milei encerrou a moratória previdenciária que permitia a trabalhadores que haviam alcançado a idade para se aposentar, mas não completado os 30 anos de contribuição, regularizar períodos sem recolhimento. Com o fim do mecanismo, o número de pessoas que ingressaram na Previdência caiu de 213,9 mil no primeiro semestre de 2024 para 99,6 mil no primeiro semestre de 2026. A redução foi de 53%. Trabalhadores que não conseguiram completar o tempo exigido perderam uma via de acesso à aposentadoria.

O governo Milei também alterou a fórmula de reajuste das aposentadorias, limitando sua atualização à inflação. Segundo cálculo do Centro de Economia Política Argentina, o benefício mínimo estava, em junho de 2026, cerca de 21% abaixo do valor que teria alcançado se a fórmula anterior tivesse sido mantida.

Na área dos medicamentos, o governo argentino restringiu as condições de acesso à gratuidade oferecida pelo Instituto Nacional de Serviços Sociais para Aposentados e Pensionistas. Desde dezembro de 2024, a gratuidade passou a depender de critérios de renda e outras exigências. Para idosos com despesas elevadas de saúde, a restrição pode representar uma escolha brutal entre comprar remédios e pagar por alimentação ou outras necessidades básicas.

A soberania em risco

O mercado financeiro também defende a redução do Estado por meio de privatizações, concessões e desregulamentação. Flávio promete ampliar a participação privada e rever a estrutura administrativa. Integrantes de sua equipe afirmaram que Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal não seriam privatizados, mas a campanha não esclarece quais empresas, ativos e serviços entrariam no programa de desestatização. A venda de patrimônio público não pode ser tratada como dinheiro gratuito: o Estado recebe recursos em um momento, mas deixa de controlar o ativo e pode perder rendimentos futuros e instrumentos estratégicos.

A questão da soberania econômica torna-se ainda mais importante quando a abertura ao capital privado é apresentada como solução universal. A entrega de ativos estratégicos a grupos privados pode restringir a capacidade do Estado de orientar investimentos, definir prioridades nacionais e assegurar que setores essenciais atendam ao interesse público. No caso de recursos naturais, energia, infraestrutura e tecnologia, o debate não pode se limitar à receita imediata de uma venda. É necessário saber quem controlará os ativos, quais compromissos de investimento serão exigidos, como serão reguladas as tarifas e quais garantias existirão para a população.

A orientação defendida por Flávio Bolsonaro ficou explícita nos Estados Unidos. Em 28 de março de 2026, durante a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), ele apresentou o Brasil como “a solução para os Estados Unidos quebrar a dependência da China” em minerais críticos, especialmente terras raras, essenciais à fabricação de processadores, ao desenvolvimento da inteligência artificial e à indústria de defesa norte-americana. Em julho, durante sua passagem por Washington, voltou a defender uma zona de livre comércio nas Américas, com a participação dos Estados Unidos, do México, do Canadá e do Brasil, argumentando que as economias eram complementares e que havia oportunidades para ampliar os investimentos norte-americanos no país.

Em agosto, também defendeu a exploração de terras raras no Norte brasileiro e declarou: “Vamos acabar com essas amarras ambientais”. As declarações evidenciam sua defesa da abertura dos recursos minerais brasileiros ao investimento estrangeiro e da aproximação comercial com Washington. O ponto central para a soberania nacional é saber em que condições essa exploração ocorrerá, quem controlará os ativos estratégicos e quanto da riqueza extraída será convertido em tecnologia, industrialização e desenvolvimento dentro do Brasil.

No mercado de trabalho, Flávio Bolsonaro propõe mais precarização, como contratos ainda mais flexíveis, remuneração por hora e modalidades de contratação com custos reduzidos para determinados grupos, entre eles jovens e trabalhadores mais velhos. A candidatura sustenta que essas medidas podem facilitar a contratação. Mas a experiência mostra que essa precarização não garante empregos, salários suficientes ou crescimento da produtividade. Se os direitos e a remuneração forem proporcionais a jornadas reduzidas e a contratação se tornar mais instável, parte do risco econômico será transferida ao trabalhador.

Uma redução brusca dos gastos públicos pode diminuir a renda disponível das famílias e afetar o consumo. Quando aposentados e beneficiários do BPC deixam de receber ganhos reais, o impacto chega aos pequenos comércios, mercados, farmácias, prestadores de serviços e economias locais que dependem dessas compras. Se o governo também restringe investimentos e financiamento público, reduz a atividade econômica e dificulta a criação de empregos.

A promessa de reduzir impostos acrescenta outra contradição. Flávio quer diminuir a arrecadação e, ao mesmo tempo, melhorar o resultado fiscal em grande escala. Se o governo abre mão de receitas, precisa demonstrar como compensará a perda sem transferir a conta para aposentadorias, benefícios, saúde, educação ou investimentos. Não basta dizer que o Brasil é rico, que há dinheiro desperdiçado ou que o combate à corrupção resolverá o problema.

O discurso de “responsabilidade fiscal” também não pode excluir o custo dos juros da dívida pública do debate sobre as escolhas orçamentárias. A trajetória da dívida depende de receitas, despesas primárias, crescimento econômico, juros e condições de financiamento. Reduzir gastos sociais não é a única decisão possível para melhorar as contas públicas, e a dimensão dos cortes não determina automaticamente o sucesso econômico. A política fiscal precisa ser examinada em conjunto com a política monetária, o financiamento do Estado e as medidas capazes de elevar a produtividade e a capacidade de arrecadação.

Quem pagará a conta?

O ponto central, porém, é político. Os representantes do mercado financeiro que defendem cortes em aposentadorias, servidores e despesas sociais estão dizendo com clareza quais gastos consideram prioritários para o ajuste. Flávio Bolsonaro, por sua vez, afirma diante do eleitor que não fará economia em cima de quem precisa. São coisas incompatíveis. Se o candidato aceitar as medidas que sua equipe discutiu com agentes financeiros, terá de explicar por que prometeu preservar benefícios que essas medidas terão de cortar. Se rejeitar as medidas, terá de mostrar como pretende cumprir a meta fiscal anunciada.

É isso que precisa ser dito sem rodeios: o custo do “ajuste” não desaparece porque a campanha evita detalhá-lo. Se a economia vier da limitação dos reajustes das aposentadorias e do BPC, os beneficiários deixarão de receber os ganhos reais previstos pelas regras atuais. Se vier da mudança dos pisos constitucionais, o financiamento da saúde e da educação perderá a vinculação vigente à arrecadação. Se vier da redução de investimentos, obras, serviços e contratações poderão ser afetados. Se vier da privatização de ativos, o país terá de avaliar o que está transferindo, a quem e em quais condições.

O eleitor tem direito de conhecer essas escolhas antes de votar. Não é honesto apresentar uma meta fiscal ao mercado financeiro e oferecer ao público uma promessa de proteção social. Não é honesto elogiar Milei sem explicar o que se pretende importar de sua política econômica. Não é honesto anunciar cortes de centenas de bilhões e atribuir a economia ao combate a desperdícios sem mostrar a conta.

Flávio Bolsonaro precisa ser obrigado a responder publicamente como tratará as medidas discutidas por sua equipe — desvincular aposentadorias e BPC dos aumentos reais do salário mínimo e alterar os pisos de saúde e educação — à luz dos interesses do povo e da nação.

A contradição não é um detalhe de campanha. É a diferença entre o que se promete ao povo e o que se apresenta aos agentes financeiros para obter apoio à política econômica. A conta tem endereço. Se o “ajuste” recair sobre a Previdência, chegará à mesa dos aposentados. Se limitar o BPC, atingirá idosos e pessoas com deficiência de baixa renda. Se restringir o financiamento da saúde, chegará aos pacientes e às unidades do SUS. Se limitar os recursos da educação, atingirá escolas, profissionais e estudantes. Se reduzir a demanda e os investimentos, poderá alcançar trabalhadores e pequenos negócios. A pergunta que a candidatura ainda precisa responder não é se haverá ajuste, mas quem pagará por ele.

O país não pode aceitar uma política econômica como se fosse uma exigência natural, sem responsáveis e sem alternativas. O “ajuste fiscal” é uma escolha sobre prioridades, direitos e distribuição de recursos. Quando o mercado financeiro exige cortes, é necessário identificar quem está exigindo, quais despesas pretende atingir e quais interesses serão beneficiados. Quando Flávio Bolsonaro promete não cortar direitos, é necessário confrontar essa promessa com as medidas que sua equipe discute.

Antes de pedir o voto dos brasileiros, o candidato deveria ter a honestidade de parar de tratar a proteção social como promessa de palanque e o “ajuste” como compromisso reservado aos círculos financeiros. Se fosse honesto, enfrentaria o mercado financeiro para não atingir aposentadorias, BPC, saúde e educação e apresentaria os números para descartar expressamente essas medidas, como faz o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É óbvio que ele pretende executá-las. Mas não o diz porque é desonesto prometer proteção diante das câmeras e deixar sem resposta o custo social do “ajuste” que oferece ao mercado financeiro.

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