Bastidores da fuga de um galinha verde bolsonarista

Especial

Quatro carros escuros deixaram a residência do senador Flávio Bolsonaro, em Brasília, na noite de segunda-feira, 26 de outubro. Separaram-se. Cada um tomou uma direção. Do lado de fora, jornalistas tentavam descobrir em qual deles estava o senador. No dia seguinte, seus aliados já diziam que ele havia chegado aos Estados Unidos. Mas Flávio ainda estava no Brasil. Do outro lado da fronteira, na Argentina, um jato particular aguardava. O que parecia uma sucessão de informações contraditórias começava a adquirir a forma de uma operação organizada.

Vera Bergengruen, Samantha Pearson, Ryan Dubé e Philip Wegmann, jornalistas do The Wall Street Journal, reconstruíram a viagem em reportagem publicada em 29 de outubro. O relato descreve os automóveis como veículos de despiste e aponta a atuação de um pequeno círculo de colaboradores que teria articulado a saída do senador e sua entrada nos Estados Unidos. Segundo a reportagem, a operação envolveu aliados de Donald Trump, integrantes da família Bolsonaro e um assessor do presidente argentino Javier Milei. A rota atravessaria Argentina e Equador antes de terminar na Flórida.

A história havia começado na noite eleitoral de domingo, 25 de outubro, quando o senador perdeu a disputa presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva. Na segunda-feira, uma decisão judicial determinou a entrega de seus passaportes, no contexto de uma investigação criminal. Flávio afirmou que cumpriria a ordem e negou que pretendesse deixar o país. Naquela mesma noite, porém, os carros começaram a circular por caminhos diferentes. Pouco depois, o senador desapareceria do alcance dos próprios aliados.

Geoff Dyer e Michael Pooler, correspondentes do The Irish Times, registraram um detalhe revelador: Rogério Marinho, senador que coordenara a campanha de Flávio, recebeu dele uma mensagem na manhã de terça-feira, às oito horas, dizendo que precisava clarear a cabeça. Mais tarde, Marinho declarou ter sido surpreendido pelo desaparecimento, embora compreendesse as razões do senador.

Um amigo da família, ouvido pelo jornal irlandês, afirmou que até Jair Bolsonaro só soube que o filho estava desaparecido na terça-feira, por meio das notícias. Fundado em 1859 e publicado em Dublin, o The Irish Times é um dos principais jornais da Irlanda, com cobertura nacional e internacional. A reportagem situou a última informação segura sobre os movimentos de Flávio por volta das seis da tarde de segunda-feira. A partir dali, abriu-se um intervalo de mais de um dia sem explicação pública completa.

Na terça-feira, a imprensa argentina começou a divulgar que o senador e sua família haviam atravessado a fronteira e seguiriam para os Estados Unidos. O Infobae, portal jornalístico digital argentino fundado em 2002 e um dos veículos de notícias de maior alcance do país, publicou informações sobre a preparação do voo particular.

As autoridades migratórias argentinas, entretanto, afirmaram inicialmente não encontrar registro da entrada de Flávio. Enquanto isso, veículos de comunicação recebiam versões segundo as quais ele já estaria na Flórida ou teria seguido por uma rota diferente. O The Irish Times descreveu a circulação dessas informações contraditórias como parte de uma sequência destinada a dificultar o acompanhamento do percurso real.

A confirmação veio na noite de terça-feira. A Direção Nacional de Migrações da Argentina informou que o senador, sua mulher e as duas filhas haviam entrado no país às 22h50, pela Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu, no Brasil, e Puerto Iguazú, na Argentina. Cerca de quarenta minutos depois, a família embarcou num jato particular.

O avião era um Gulfstream G400, matrícula LV-JQW, operado pela empresa Baires Fly. Segundo o The Wall Street Journal, a aeronave havia chegado de Buenos Aires no dia anterior e aguardava a família em Puerto Iguazú. Às 23h30, o senador embarcou com a mulher e as filhas. Pouco depois da meia-noite de quarta-feira, 28 de outubro, o jato decolou para Guayaquil, no Equador, onde fez uma parada para abastecimento. Em seguida, prosseguiu rumo à Flórida, evitando o espaço aéreo brasileiro. Na manhã de quarta-feira, o avião pousou no aeroporto executivo de Opa-locka, próximo a Miami.

A cena final do trajeto foi descrita pela imprensa internacional por meio de imagens do desembarque. O senador desceu do avião e foi conduzido com a família por agentes que usaram guarda-chuvas para protegê-los das câmeras. Uma caminhonete os aguardava. Os jornalistas foram mantidos à distância. A viagem que havia produzido rumores durante quase dois dias terminou com a chegada da família à Flórida, sob a proteção de agentes norte-americanos.

O The Wall Street Journal identificou Jason Miller, assessor de Donald Trump, Eduardo Bolsonaro, irmão do senador, e Santiago Caputo, um dos principais auxiliares de Javier Milei, como integrantes do círculo que participou da articulação. Segundo fontes ouvidas pelo jornal, Miller ajudou a organizar o avião, Eduardo manteve contatos com os envolvidos e Caputo acompanhou os acontecimentos na região de Puerto Iguazú. A reportagem também atribuiu a Trump a aprovação pessoal da entrada da família nos Estados Unidos e informou que o secretário de Estado Marco Rubio participou da organização dos vistos.

Segundo as fontes do jornal norte-americano, houve uma rede de interlocutores em Washington e Buenos Aires, construída ao longo de anos de aproximação entre os Bolsonaro e os aliados de Trump. Eduardo Bolsonaro havia atuado para aproximar a família do círculo presidencial norte-americano, participando de encontros políticos e de iniciativas destinadas a obter apoio para as disputas jurídicas enfrentadas no Brasil. A reportagem do The Wall Street Journal insere a saída do senador nesse histórico de relações políticas.

A participação argentina foi examinada pelo Infobae, que atribuiu ao governo Milei colaboração na organização logística da saída. O portal mencionou Santiago Caputo entre os envolvidos e relatou que integrantes de diferentes áreas do Executivo foram consultados sobre os procedimentos e os possíveis desdobramentos. Caputo, por sua vez, publicou uma mensagem expressando admiração por quem havia conseguido confundir a imprensa sobre o paradeiro do senador. O The Irish Times também relatou questionamentos sobre a movimentação do assessor e uma possível participação oficial na operação.

O documento de voo acrescentou outro elemento. O The Wall Street Journal informou ter examinado um manifesto argentino que identificava o senador como passageiro e registrava a utilização de um passaporte italiano. O The Irish Times também mencionou essa possibilidade. A cidadania italiana explicaria como o senador pôde apresentar um documento diferente do brasileiro na travessia.

Em Washington, a decisão de permitir a entrada da família foi tomada rapidamente. O The Wall Street Journal relatou que Trump aprovou pessoalmente a admissão e que Rubio providenciou os vistos. A família recebeu autorização de permanência humanitária por um ano, segundo fontes ouvidas pelo jornal. Essa modalidade não equivale automaticamente à concessão formal de asilo político. Ainda assim, a entrada nos Estados Unidos envolveu procedimentos migratórios específicos e uma articulação política que, segundo a reportagem, ultrapassou a contratação de um voo particular.

O senador agradeceu publicamente a Milei e Trump depois de chegar à Flórida. Em uma declaração divulgada por aliados, apresentou-se como vítima de perseguição política e reivindicou a condição de verdadeiro presidente eleito, sem apresentar provas de fraude eleitoral. Mais tarde, passou a se definir como líder do Brasil. O The Irish Times observou que o próprio partido do senador havia reconhecido o resultado da eleição. Trump, questionado sobre as declarações, afirmou que não pretendia se envolver na disputa política brasileira, embora tivesse autorizado a entrada da família.

O que permanece sem resposta é quem organizou cada etapa, quem pagou pelo avião e quando começaram os contatos que permitiram a entrada nos Estados Unidos. Os veículos estrangeiros identificaram pessoas, descreveram os automóveis, reconstituíram a rota e relataram a existência de documentos de voo e registros migratórios. Mas a extensão da participação de cada interlocutor ainda depende de registros e esclarecimentos adicionais.

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