O Destino Manifesto, por mais simplista e racista que possa parecer, é abertamente proclamado nos Estados Unidos, uma “teoria” que surgiu e se difundiu em meados do século XIX, segundo a qual os norte-americanos nasceram para ser o melhor povo do mundo. É muito forte a influência da religião nessa “teoria”, um destino que teria sido profetizado pela “providência divina”.
O uso do termo Destino Manifesto começa em 1845, quando o jornalista John Louis O’Sullivan empregou a expressão para defender a anexação do Texas. Em artigo publicado na revista United States Magazine and Democratic Review, O’Sullivan apresentou a expansão territorial como um destino atribuído pela Providência aos norte-americanos. A formulação articula nacionalismo, convicções religiosas protestantes e a ideia de que a expansão dos Estados Unidos representa uma missão histórica.
O conceito ganhou força durante a conquista de territórios a oeste, a guerra contra o México e a incorporação de extensas áreas do continente. Sua dimensão racial manifestava-se na crença, difundida entre setores da sociedade norte-americana, de que os colonos anglo-americanos estariam destinados a ocupar e governar territórios habitados por outros povos.
Esse “nacionalismo cristão” que associa identidade nacional e providência divina também aparece na história política e simbólica dos Estados Unidos. A expressão In God We Trust (Em Deus nós confiamos) foi adotada como lema oficial do país em 1956, no auge do anticomunismo da Guerra Fria, e já figurava em moedas desde o século XIX.
A contestação constitucional a esse recurso de associar cristianismo a fascismo decorre da distinção entre proteger a liberdade religiosa e conferir ao Estado a prerrogativa de promover práticas confessionais. A Primeira Emenda, ratificada em 1791, proíbe o Congresso de estabelecer uma religião oficial e impede restrições ao livre exercício religioso.
No século XX — particularmente na sua segunda metade — essa ideia “cristã”, traduzida em anticomunismo sem escrúpulo, permeou a propaganda do regime norte-americano. E isso explica a visão dominante no país de que o restante do planeta — sobretudo o chamado Terceiro Mundo — é cultura e economicamente subdesenvolvido.
Essa propaganda ganhou, evidentemente, novos contornos desde a queda do muro de Berlim, mas sua essência permanece a mesma e consiste, basicamente, em levar a “democracia” aos países que recusam a cartilha de Washington e em “ensinar” os “segredos” da boa gestão econômica.
Foi assim com o golpe militar pró-Estados Unidos de 1964 no Brasil. E com os movimentos congêneres que se alastraram pela região nos anos 1950-1960-1970. e assim por diante. A política externa do regime de Washington segue a lógica de que a economia norte-americana depende das imensas riquezas da América Latina. Logo, seus destinos políticos devem ser controlados pelos interesses econômicos dos Estados Unidos.
Declaração de Independência e expansão continental
A política norte-americana sempre foi expansionista e agressiva com a América Latina. A própria constituição dos Estados Unidos como nação encerra uma contradição entre o que foi proclamado dia 4 de julho de 1776, quando o povo norte-americano aprovou a Declaração de Independência dos Estados Unidos, e a política exterior da jovem pátria. As premissas do expansionismo continental norte-americano foram criadas com as guerras contra a população indígena e as reivindicações dos latifundiários do Sul do país de ampliar o território avançando pelas fronteiras de seus vizinhos.
William Foster, estudioso da história política do continente americano, diz que o próprio nome do país — Estados Unidos da América — expressa suas pretensões panamericanas. Já no começo do século XIX, a contradição entre os princípios humanitários e democráticos proclamados pela Declaração de Independência e a política exterior do jovem Estado levou à renúncia das suas tradições libertárias. A doutrina do direito natural de todos os povos decidirem seu próprio destino — um dos fundamentos da Declaração de Independência — passou a ser interpretada de modo a justificar como “natural” o expansionismo norte-americano.
Para os dirigentes dos Estados Unidos, essa doutrina dava ao país o direito de encarar o continente como sua área de influência direta. Com esse argumento, a princípio os presidentes Thomas Jefferson e John Adams “compraram” a Luisiana — que pertencia à França — e ocuparam a Flórida — que pertencia à Espanha. Depois, no dia 2 de dezembro de 1823, com a mensagem do presidente James Monroe ao Congresso, foi proclamada a famosa Doutrina Monroe — que expressa sem ambiguidades as pretensões norte-americanas à hegemonia em todo o hemisfério ocidental.
Monroe não foi efetivamente o pai da criança — antes dele, todos os presidentes haviam trabalhado para moldar aquela ordem. A mensagem do presidente foi a consequência de um movimento na Europa — envolvendo Inglaterra, França e Espanha — que pretendia “pacificar” as colônias sublevadas na América do Sul. A França enviou o seu exército à Espanha para repor no trono Fernando VII, monarca espanhol deposto por uma onda revolucionária, e despertou a reação da Inglaterra.
As colônias sul-americanas sublevadas estavam dentro do círculo comercial inglês e a França havia prometido devolvê-las à Espanha. O êxito francês significaria a automática conquista do direito de comércio na região. A Inglaterra, então, propôs aos Estados Unidos uma união para travar as pretensões francesas e sugeriu que o acordo fosse selado por uma declaração conjunta baseada no poderio marítimo dos dois países anglo-saxônicos.
Diplomacia britânica e mensagem de Monroe
Quando Monroe tomou conhecimento da proposta inglesa, imediatamente consultou os ex-presidentes Thomas Jefferson e Jacobo Madison — e recebeu o conselho de aceitar o plano da Inglaterra, mas com uma modificação. Jefferson disse que o assunto era da mesma magnitude da Ata da Independência dos Estados Unidos. “Aquela nos fez uma nação, esta fixa na nossa bússola a rota a seguir através do oceano do tempo que se abre perante nós”, disse ele. “A América, tanto no Norte como no Sul, tem um conjunto de interesses diferentes dos da Europa e que lhe são muito próprios.”
A proposta da Inglaterra foi aceita, mas a declaração conjunta, recusada. Assim, no dia 2 de dezembro de 1823 o mundo conheceu a mensagem de Monroe e soube que os Estados Unidos haviam deixado a Inglaterra de lado e tomado a decisão de determinar os destinos dos povos da América. Em vez de dar a mão para a Inglaterra, os Estados Unidos deram um pontapé na Europa. De mãos livres, se apoderaram dos territórios que estavam em seus planos — como Cuba e Porto Rico —, iniciaram a monopolização do comércio na região e começaram a exportação maciça de seus capitais para os países que se tornaram independentes.
Desde então, a propaganda expansionista invocou esses princípios para justificar as ações políticas e militares extraterritoriais dos Estados Unidos. Para os meios de comunicação fortemente vinculados ao poder econômico, os norte-americanos têm o dever natural e sagrado de levar as suas tradições “liberais” e “democráticas” aos povos “incultos” do resto do mundo.
Por qualquer ângulo que se olhe para o regime dos Estados Unidos é impossível não ver criminosos de amplo espectro. A atual ofensiva sobre a América Latina, que combina pressão comercial, sanções, operações militares, organização de quintas-colunas, articulação política e influência sobre processos eleitorais, traz à tona antigos métodos para se apossar de recursos estratégicos.
A América Latina concentra uma parcela extraordinária das riquezas naturais do planeta. A região abriga cerca de metade da biodiversidade mundial, mais de 30% da água doce e uma parcela decisiva das florestas tropicais do mundo. Detém quase 20% das reservas mundiais de petróleo e pelo menos 25% das reservas de alguns metais estratégicos. A Amazônia, por sua vez, contém o maior sistema fluvial do mundo e responde por quase 20% do fluxo dos rios superficiais globais. A região também reúne extensas áreas de terras agricultáveis e condições excepcionais para a produção de alimentos.
É esse patrimônio natural, associado a mercados consumidores, fontes de energia, minerais críticos, biodiversidade, água e terras produtivas, que confere à América Latina importância geopolítica crescente. A intensificação da intervenção dos Estados Unidos na região transforma esses ativos em alvos de rapina que ultrapassa o comércio convencional e alcança infraestrutura, tecnologia, energia, mineração, logística e segurança.
É precisamente nessa articulação entre riqueza material e poder político que se manifesta a lógica imperialista que tudo transforma, deforma e canaliza para suas próprias versões e para seu proveito, convertendo recursos, mercados e relações de dependência em instrumentos de poder. A velha lógica da apropriação econômica reaparece com as mesmas formas, associada à pressão diplomática, ao poder financeiro, às sanções, às tarifas, à ação militar, comprando palavras ou silêncio e tentando calar as forças progressistas, tudo para seu proveito, para a multiplicação do seu dólar.
Déficits, poder militar e hegemonia
A Doutrina Monroe é um punhal cravado nas entranhas dos povos latino-americanos. De George Washington até Trump, os 47 presidentes que passaram pela Casa Branca não mudaram a essência expansionista da política externa dos Estados Unidos. Hoje, com o agravamento da crise estrutural da economia norte-americana decorrente dos seus monumentais déficits comercial e orçamentário, recrudesce a lógica da Doutrina Monroe.
Com um Produto Interno Bruto (PIB) superior a US$ 30 trilhões em valores nominais anuais, os Estados Unidos ocupam uma posição central na produção mundial, no comércio internacional e nas finanças globais. Essa dimensão, entretanto, não elimina os desequilíbrios que condicionam sua trajetória: em 2025, o déficit comercial de bens e serviços alcançou US$ 901,5 bilhões, enquanto o déficit do orçamento federal chegou a aproximadamente US$ 1,8 trilhão.
A essa dimensão econômica soma-se uma disparidade militar de alcance mundial. Em 2025, os gastos militares norte-americanos foram estimados em US$ 954 bilhões, aproximadamente um terço do total global, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI). Essa superioridade não se limita aos recursos orçamentários: compreende uma rede de bases no exterior, alianças estratégicas, capacidade de deslocamento de tropas, poder naval e aéreo e um arsenal nuclear.
Ascensão da burocracia militar norte-americana
A ascensão da burocracia militar nos Estados Unidos, analisada pelo sociólogo norte-americano Charles Wright Mills em A elite do poder, publicado em 1956, expressa uma transformação estrutural do Estado norte-americano no pós-guerra. A instituição militar deixou de ocupar uma posição relativamente circunscrita na administração pública para se converter em um dos centros mais poderosos do governo.
À medida que a Guerra Fria reorganizava as prioridades nacionais, os altos comandos ampliavam sua influência sobre as decisões políticas, a alocação de recursos públicos e a formulação das estratégias econômicas. Os representantes da diplomacia, com seus protocolos de negociação e entendimento, cediam espaço à presença ostensiva de uma burocracia vinculada à máquina de guerra, enquanto a interpretação militar dos conflitos internacionais adquiria ascendência.
Charles Wright Mills afirma que o fenômeno não se explica pelo poder isolado dos generais, mas pela articulação entre dirigentes militares, autoridades políticas e grandes interesses econômicos, cujas relações estreitas contribuíam para concentrar decisões fundamentais nas mãos de uma elite restrita.
O “realismo militar” dos chefes militares instalados no poderoso Estado-Maior Conjunto transformou-se no guia mais inspirado do governo daquele país. Desde os anos da Segunda Guerra Mundial, essa força ampliou seu campo de ação em assuntos relativos à política exterior e doméstica e atualmente pode-se dizer que a ordem militar do Estado-Maior Conjunto está solidamente instalada no Estado.
Existem dois governos nos Estados Unidos. O primeiro é o que o mundo se informa na internet, no rádio, na televisão e nos jornais, e as crianças nos livros escolares. O segundo é invisível e conduz a espionagem e a rede de informações, um aparato maciço que emprega centenas de milhares de pessoas secretamente e conduz a política externa do país. Esse governo invisível emergiu das imposições dos Estados Unidos no pós-Segunda Guerra Mundial.
Criação do aparato de inteligência
A formação desse aparato tem marcos institucionais precisos. Em 1947, a Lei de Segurança Nacional reorganizou a estrutura de defesa e inteligência dos Estados Unidos, criou a Agência Central de Inteligência (CIA) e estabeleceu o Conselho de Segurança Nacional, órgão destinado a assessorar o presidente na articulação das políticas de defesa e relações exteriores.
Em 1952, o governo de Harry Truman criou a Agência de Segurança Nacional (NSA), encarregada da inteligência de sinais e incorporada à estrutura do Departamento de Defesa. A expansão dessas instituições acompanhou a intensificação da anticomunista Guerra Fria e a ampliação das operações de inteligência, vigilância e ação encoberta no exterior.
A dimensão clandestina desse sistema tornou-se publicamente documentada em 1975, quando o Senado dos Estados Unidos instituiu o Comitê Church para investigar as atividades dos órgãos de inteligência. A comissão revelou operações de vigilância doméstica, programas secretos de interceptação de comunicações e ações do Federal Bureau of Investigation (FBI) destinadas a desarticular movimentos pelos direitos civis e contrários à Guerra do Vietnã.
O relatório final, publicado em 1976, concluiu que os abusos identificados não resultavam apenas de decisões isoladas, mas haviam se acumulado ao longo de diferentes governos, no contexto da transformação dos Estados Unidos em uma superpotência durante a Guerra Fria. A investigação também impulsionou a criação de mecanismos permanentes de supervisão parlamentar das atividades de inteligência.
Formação da nova ordem econômica mundial
Os demais países capitalistas centrais, exauridos pela guerra, viram-se compelidos a aceitar essa nova configuração de poder em meio à necessidade urgente de recursos para a reconstrução. Os Estados Unidos deixaram, assim, de figurar como apenas mais um concorrente na disputa internacional por territórios, mercados e zonas de influência para assumir a posição dominante numa ordem hierarquizada, cujos principais mecanismos de funcionamento ajudaram a estabelecer.
As regras desse sistema foram impostas num momento excepcionalmente favorável à potência norte-americana, cuja supremacia industrial, financeira e militar contrastava com a devastação que atingira boa parte da Europa e da Ásia.
Em julho de 1944, antes mesmo da derrota definitiva do Eixo nazifascista (Alemanha, Itália e Japão), representantes de 44 países reuniram-se em Bretton Woods, Estados Unidos, para estabelecer as bases da nova ordem monetária e financeira internacional. A conferência instituiu o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento, lançando os alicerces de um sistema no qual o dólar ocuparia posição central.
A dependência europeia em relação aos recursos norte-americanos aprofundou-se com o Programa de Recuperação Europeia, conhecido como Plano Marshall, anunciado em junho de 1947 e implementado a partir do ano seguinte.
Os aproximadamente 13,3 bilhões de dólares destinados à recuperação da Europa Ocidental financiaram a aquisição de alimentos, matérias-primas, equipamentos e outros bens indispensáveis à retomada da produção. A assistência contribuiu para reconstruir economias devastadas, ao mesmo tempo que estreitou os vínculos comerciais e políticos com os Estados Unidos e integrou a recuperação europeia à estratégia de bloqueio à União Soviética.
A nova arquitetura internacional não excluiu formalmente todos os países periféricos das negociações, mas estabeleceu mecanismos decisórios profundamente assimétricos. O sistema de cotas do FMI e a distribuição do poder de voto no Banco Mundial institucionalizaram parte dessa hierarquia.
Reconstrução europeia e japonesa
A Europa, destruída e ensanguentada por duas grandes guerras num curto espaço de tempo, não estava em condições de se opor à grande capacidade de produção norte-americana proporcionada pela Segunda Revolução Industrial — que dotou o país de uma poderosa e inovadora indústria. Na Ásia, o Japão, destroçado pela guerra, foi ocupado pelos Estados Unidos, que ditaram o rumo da sua reconstrução.
Esse processo do pós-Segunda Guerra Mundial que desencadeou a dominação norte-americana no chamado mundo ocidental, portanto, levou o capitalismo a uma transformação profunda. No final dos anos 1940, somente os Estados Unidos estavam em condições de exportar capital em grande escala. E o país usou essa condição privilegiada para manter sob o seu controle as rédeas num mundo que buscava alternativas ao seu modelo político e econômico.
A dimensão financeira dessa assimetria aparece nos registros do Departamento de Estado norte-americano sobre o balanço de pagamentos do pós-guerra. Entre julho de 1945 e junho de 1949, as exportações norte-americanas de bens e serviços somaram 67,4 bilhões de dólares, enquanto as importações alcançaram 35,3 bilhões.
A diferença de 32,1 bilhões de dólares precisou ser financiada por outras fontes, entre elas a assistência governamental ao exterior, que cobriu mais de 70% desse saldo. Os números revelam a posição singular dos Estados Unidos como fornecedor de mercadorias, recursos financeiros e ajuda econômica num período em que outros países precisavam importar bens essenciais à sua reconstrução.
No Japão, a ocupação pelos Estados Unidos entre 1945 e 1952 alcançou as estruturas políticas, sociais e econômicas do país. As reformas incluíram a dissolução das Forças Armadas imperiais, a reforma agrária, a reorganização das relações de trabalho e a tentativa inicial de desarticular os grandes conglomerados empresariais conhecidos como zaibatsu.
A partir de 1947, diante do agravamento da crise econômica e da intensificação do anticomunismo na Ásia, a política de ocupação deslocou sua ênfase para a recuperação produtiva. A Guerra da Coreia, iniciada em 1950 – igualmente anticomunista –, transformou o território japonês numa importante base de abastecimento e estimulou a atividade industrial. A reconstrução japonesa ocorreu, assim, sob uma estrutura de ocupação que vinculou a recuperação econômica do país aos interesses estratégicos norte-americanos.
Esses processos ajudam a compreender a transformação do capitalismo no pós-guerra. A capacidade de financiar a reconstrução, fornecer equipamentos e matérias-primas, ampliar mercados e sustentar compromissos militares conferiu aos Estados Unidos instrumentos de influência que ultrapassavam a esfera comercial. A assistência econômica articulou-se ao bloqueio à União Soviética, à formação de alianças ocidentais e à consolidação de instituições internacionais nas quais os Estados Unidos exerciam influência decisiva.
Na Europa, o projeto social-democrata procurou adaptar a economia planejada à tradição “comercial liberal” do velho continente. No Japão, o Estado se reforçava para desempenhar um papel de destaque no planejamento econômico. E cerca de um terço da população mundial rompeu com esses paradigmas e se juntou à União Soviética para reforçar o sistema de economia totalmente planificada, socialista. Desde então, os Estados Unidos intervieram em vários países e promoveram uma feroz cruzada anticomunista em todo o mundo.
Religião e poder na Casa Branca
O presidente Donald Trump, por exemplo, aprofundou a aproximação entre a Presidência e setores religiosos fascistas. Em 7 de fevereiro, ele assinou a Ordem Executiva que criou o Escritório da Fé da Casa Branca, subordinado ao Conselho de Política Doméstica. O órgão recebeu a atribuição de articular o governo federal com organizações religiosas, comunidades locais e instituições de culto, além de identificar oportunidades para que essas entidades concorressem a subvenções, contratos e outros recursos federais.
Para dirigir a estrutura, Trump nomeou a pastora e televangelista Paula White-Cain, sua conselheira religiosa desde o primeiro mandato e figura influente nos círculos evangélicos que apoiam o presidente. Trump assinou uma ordem executiva que criou uma força-tarefa destinada a identificar o que seu governo classificou como práticas discriminatórias contra cristãos em órgãos federais.
Trump disse que governos anteriores haviam prejudicado organizações confessionais por suas posições sobre aborto, sexualidade e identidade de gênero. A política recebeu apoio de setores evangélicos de coloração fascista e de organizações religiosas alinhadas ao presidente, que veem na ampliação do acesso a programas públicos uma oportunidade para fortalecer serviços comunitários e garantir maior proteção jurídica às suas instituições.
A reação contrária veio de organizações que defendem a separação entre religião e Estado. Em 7 de fevereiro de 2025, Rachel Laser, presidente da Americans United for Separation of Church and State, disse que a nomeação de Paula White-Cain era “inadequada para servir na Casa Branca”.
Laser denunciou que a pastora atua como uma influente articuladora do nacionalismo cristão (fascismo) e promove políticas que prejudicariam mulheres, pessoas LGBTQ+ e minorias religiosas. Também advertiu que a nomeação poderia permitir o uso do Escritório da Fé para promover ou impor práticas religiosas em desacordo com a Constituição.
Em 13 de fevereiro, a Freedom From Religion Foundation também contestou as novas estruturas, argumentando que a combinação entre o Escritório da Fé e a força-tarefa contra o suposto preconceito anticristão poderia privilegiar o cristianismo conservador no âmbito federal. A entidade advertiu que a promoção de organizações religiosas e sua influência sobre políticas públicas não deveriam se confundir com a proteção constitucional da liberdade de crença.
Em 26 de fevereiro de 2025, a primeira reunião ministerial do segundo mandato de Trump foi aberta com uma oração “cristã” conduzida por Scott Turner, secretário da Habitação e Desenvolvimento Urbano, que invocou Jesus Cristo diante do presidente e dos integrantes do gabinete reunidos na Casa Branca. O episódio conferiu expressão pública à presença da linguagem religiosa no ambiente oficial do governo e à aproximação entre a administração republicana e setores do cristianismo supremacista.
Em 19 de março de 2025, Trump recebeu líderes religiosos no Salão Oval da Casa Branca para uma sessão coletiva de oração, registrada em fotografias oficiais da Presidência. O encontro reuniu representantes do meio evangélico em torno do presidente e tornou visível a proximidade entre o governo e setores do cristianismo supremacista.
Menos de um mês depois, em 16 de abril, Trump participou de um serviço religioso e jantar de Páscoa na Sala Azul da residência presidencial, com a presença de figuras como a pastora Paula White-Cain e o reverendo Franklin Graham. Os episódios ocorreram no contexto da criação do Escritório da Fé da Casa Branca.
O presidente norte-americano certamente não é refém da fé e pode-se dizer que a rigor, ele toma o nome de Deus em vão. Por trás de sua política estão os interesses econômicos de seu expansionismo. A ideologia do Destino Manifesto age como um poderoso elemento mobilizador da energia do país para a conquista de novos territórios. Ao longo da história, ela foi um verdadeiro elixir do expansionismo e do intervencionismo norte-americano.
Doutrina Donroe e segurança hemisférica
A atual versão dessa tradição expansionista reaparece na chamada Doutrina Donroe, denominação que combina o nome de Donald Trump com a Doutrina Monroe e expressa a pretensão de reafirmar a primazia norte-americana no Hemisfério Ocidental. Sob o argumento da segurança regional, do combate ao narcotráfico e da contenção de potências rivais, Washington procura articular governos aliados em torno de uma arquitetura de cooperação militar e policial cuja assimetria de poder favorece os interesses estratégicos norte-americanos.
O Escudo das Américas, lançado em março de 2026, insere-se nesse movimento ao propor o compartilhamento de informações de inteligência e a coordenação de supostas operações contra organizações criminosas transnacionais. A iniciativa pode ser examinada, portanto, não apenas pelo objetivo declarado de enfrentar o crime organizado, mas também pelas implicações de subordinar a segurança regional a uma estratégia concebida sob a liderança de uma potência que reivindica para si uma posição privilegiada no continente.
O Escudo das Américas pode ser interpretado, metaforicamente, como uma espécie de Ministério dos Territórios Ocupados das Américas, evocando o órgão criado pela Alemanha nazista em 1941 para administrar os territórios conquistados da União Soviética.
Não se trata de equiparar regimes, instituições ou métodos de dominação, mas de reconhecer, em contextos históricos distintos, o princípio político que aproxima essas estruturas: a pretensão de uma potência de organizar espaços geográficos submetidos à sua influência segundo os próprios interesses estratégicos, condicionando as escolhas políticas dos povos que neles vivem.
Sob essa perspectiva, a metáfora remete à transformação da soberania formal em autonomia limitada, quando a segurança, a ordem e a estabilidade de uma região passam a ser definidas prioritariamente pela potência que detém os meios econômicos, diplomáticos e militares para impor sua vontade. A expressão de Fidel Castro, líder da Revolução Cubana, que definiu a Organização dos Estados Americanos (OEA) como um “ministério ianque das colônias”, pertence à mesma lógica.
Em conjunto, essas referências permitem interpretar o Escudo das Américas como expressão contemporânea de uma concepção tutelar do continente, na qual Washington reivindica para si a prerrogativa de definir as ameaças, estabelecer as prioridades e coordenar as respostas, convertendo a cooperação regional em instrumento potencial de reafirmação da hegemonia norte-americana.
Remete também ao macarthismo, o anticomunismo que prevaleceu nos Estados Unidos nos anos 1950 com as campanhas conduzidas pelo senador Joseph McCarthy e por outros setores fascistas para promover perseguições no Estado, nas universidades, nos sindicatos, na indústria cultural e nos meios de comunicação. Investigações, interrogatórios e processos de exclusão profissional atingiram pessoas acusadas de vínculos com o “comunismo”.
No plano interno, o anticomunismo funcionou como mecanismo de intimidação e conformidade ideológica; no plano externo, ofereceu justificativa para enquadrar movimentos patrióticos, reformas sociais e experiências políticas soberanas como ameaças à segurança norte-americana. A mesma lógica de enquadramento reapareceria, em diferentes circunstâncias da Guerra Fria, na América Latina, onde governos e movimentos que defendiam a democracia e a soberania nacional foram tratados como extensões de uma ameaça externa. E agora ressurge como Escudo das Américas.
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