A perigosa tesoura de Flávio Bolsonaro escondida pela mídia

Reportagem

Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo, os carros-chefes da mídia brasileira, vêm construindo, em seus editoriais, uma linha de ataque a Lula que associa a defesa do “ajuste fiscal” leonino do mercado financeiro, abraçado pelo candidato da extrema direita Flávio Bolsonaro, a cortes de políticas públicas, investimentos em infraestrutura e benefícios sociais. Trata-se de um programa de governo, que orienta o conjunto da mídia e seus produtos supostamente jornalísticos em todos os meios de comunicação – sobretudo as redes sociais –, disfarçado de jornalismo.

O Estadão condensou essa interpretação no título “Lula quebra o Brasil para se reeleger”. Meses depois, O Globo recorreu à expressão “Surto eleitoreiro de Lula não parece ter fim”. Entre uma formulação e outra, o ataque atenção social inserida nas contas públicas se combinou com acusações sobre a conduta do presidente e com uma ofensiva política contra a harmonia entre os Poderes da República, sobretudo na razia contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e seu ministro Alexandre de Moraes, simbolicamente o mais efetivo no enfrentamento com o golpismo bolsonarista.

O exame desses editoriais, confrontados com os indicadores econômicos, os atos do governo e os programas registrados pelas candidaturas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), permite identificar onde terminam os dados e começam as manobras políticas e ideológicas. Também permite comparar o rigor aplicado às medidas de Lula com o tratamento dado às propostas de Flávio Bolsonaro, sabidamente envolvido em negociações escusas com agentes do mercado financeiro. A questão central é verificar como os jornais enquadram os dois projetos, quais interesses econômicos e sociais estão implicados nas alternativas apresentadas e de que maneira os argumentos editoriais tratam a cobertura política.

No editorial Lula quebra o Brasil para se reeleger, o Estadão reuniu 33 medidas de sociais, estimadas em R$ 215 bilhões, com base em levantamento do economista Marcos Mendes, em relatório da XP Investimentos, um ícone do mercado financeiro. A primeira verificação necessária diz respeito à composição do valor anunciado. A soma reúne iniciativas diferentes, com efeitos fiscais distintos. Aumento de despesas, renúncia de arrecadação e alterações que produzem efeitos em períodos diferentes não representam desembolsos equivalentes, imediatos ou concentrados no mesmo exercício orçamentário.

O montante de R$ 215 bilhões corresponde a uma estimativa agregada de 33 medidas de aumento de despesas ou redução de receitas, com efeitos fiscais distintos, e não a uma despesa nova executada de uma só vez. Segundo o levantamento de Marcos Mendes citado pelo Estadão, apenas cerca de R$ 9 bilhões entrariam na contabilidade do arcabouço fiscal. O governo contestou essa análise e afirmou estar cumprindo as regras. A cifra total, isoladamente, não comprova que o país esteja sendo quebrado nem demonstra a intenção eleitoral atribuída ao presidente. Para avaliar o impacto fiscal, é necessário examinar a composição das medidas, seus efeitos sobre as contas públicas e o tratamento de cada uma pelas regras vigentes.

A atribuição de finalidade eleitoral exige ainda outra etapa de verificação. Medidas de transferência de renda, incentivos tributários, subsídios e investimentos podem produzir efeitos políticos, sobretudo em ano de eleição, mas também respondem a objetivos econômicos e sociais. Para estabelecer que uma iniciativa foi adotada exclusivamente para beneficiar uma candidatura, é necessário examinar sua fundamentação, seus destinatários, o calendário de implementação, as regras legais e os efeitos esperados.

O ataque do Estadão se insere, portanto, numa disputa mais ampla sobre a função do Estado. O programa de Lula propõe preservar investimentos públicos, estimular a indústria e a infraestrutura, sustentar políticas de proteção social e manter o arcabouço fiscal como referência para a condução das contas. O programa de Flávio Bolsonaro prioriza cortes indiscriminados para a “economia” exigidos pelo mercado financeiro.

O programa de governo de Lula associa a estabilização das contas ao crescimento econômico, ao investimento e à arrecadação. O de Flávio Bolsonaro enfatiza o “tesouraço” indiscriminado e radical. Para avaliá-los, é necessário conhecer os custos, os prazos, os efeitos efetivamente alcançáveis e os efeitos sobre os serviços públicos e sociais.

O “ajuste” prometido pela extrema direita

A necessidade de aplicar o mesmo critério às duas candidaturas aparece no debate sobre o tamanho do “ajuste fiscal”. Em reportagem publicada em 7 de outubro, a Folha informou que integrantes da equipe econômica de Flávio Bolsonaro discutiam um “ajuste” de até R$ 250 bilhões, incluindo mudanças na correção de despesas obrigatórias e nas vinculações de recursos para saúde e educação.

O programa de Flávio Bolsonaro propõe retomar o Programa Nacional de Desestatização, que devastou a infraestrutura do país nos governos neoliberais de Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso, enquanto o candidato da extrema direita declara, cinicamente, que não privatizaria Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.

O ataque da mídia ao governo ultrapassou as contas públicas e passou a concentrar-se no calendário e na finalidade das políticas sociais. Em 9 de julho, a Folha publicou o virulento editorial “Papagaiada e hipocrisia eleitoral”, um ataque bestial a Lula. Em 27 de julho, a virulência se repetiu no editorial “A ‘herança maldita’ que o PT esconde”, com os mesmos falsos argumentos do editorial do Estadão sobre dívida pública, déficits, estatais e “expansão fiscal”. O encadeamento dos textos aproximou episódios distintos de uma interpretação geral sobre o governo, na qual decisões econômicas, comportamento eleitoral e perspectiva de reeleição passaram a compor uma mesma linha de ataque.

Em 15 de outubro, O Globo entrou na ciranda de agressividade com o editorial “Surto eleitoreiro de Lula não parece ter fim”. O jornal empregou expressões como “demagógicas” e “populismo em estado puro” ao atacar anúncios de benefícios sociais pelo governo. O editorial levantou falsos questionamentos sobre o impacto fiscal e a legalidade de iniciativas anunciadas. As expressões utilizadas por O Globo pertencem ao campo da avaliação editorial, claramente desprovida de seriedade jornalística.

A disputa chega às instituições

Os ataques se estendem à relação entre Lula, a Justiça Eleitoral e as regras da campanha. Em 3 de outubro, a Folha publicou “Eleição presidencial acirrada tende a ganhar com 2º turno”, um jogo de palavras para desaprovar uma eventual vitória de Lula no 1º turno. Nos dias 1º e 2 de outubro, respectivamente, O Globo e o Estadão publicaram “Sem liberdade não há debate” e “Juízes fazem o diabo para ajudar Lula”, uma orquestração abusiva para atacar decisões judiciais que desmontaram a armadilha do debate na Globo contra Lula.

A cronologia do cancelamento, entretanto, contém etapas que precisam ser preservadas. Lula já havia anunciado que não participaria do debate e optara por conceder entrevista ao podcast Flow. Flávio Bolsonaro também retirou sua participação, alegando censura após decisões do Tribunal Superior Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre as regras do encontro. A Globo acabou cancelando o debate quando o candidato do Missão, Renan Santos, foi confirmado no debate por decisão do ministro do STF Gilmar Mendes.

Atribuir o cancelamento exclusivamente à ausência de Lula ou exclusivamente às decisões judiciais reduz uma sequência de acontecimentos a uma única causa, prática que a mídia usou ad nauseam para atacar Lula, sem separar a legalidade das regras eleitorais, a responsabilidade de cada candidato por comparecer e a decisão da emissora de cancelar o encontro. As decisões judiciais e as desistências são fatos documentáveis. A afirmação de que os juízes agiram para favorecer especificamente Lula constitui uma interpretação sobre a finalidade dos atos desprovida de lógica elementar.

Essa distinção também permite avaliar o alcance do ataque à atuação do Judiciário. Uma decisão pode produzir efeitos favoráveis ou desfavoráveis a uma candidatura sem ter sido tomada com esse objetivo. Para estabelecer favorecimento deliberado, não basta identificar quem foi beneficiado pelo resultado. É necessário examinar os fundamentos da decisão, os precedentes aplicáveis, o tratamento dado a situações comparáveis e os elementos que sustentariam a hipótese de intenção política, condição totalmente ignorada pela mídia.

O almoço com Flávio Bolsonaro

Em 16 de outubro, a cúpula do Grupo Globo recebeu Flávio Bolsonaro para um almoço realizado no mesmo dia de sua sabatina no Jornal Nacional e um dia após a entrevista de Lula à emissora. A diferença de tratamento é uma evidente quebra de isonomia entre os candidatos e confissão de alinhamento ao projeto da extrema direita. A Globo afirmou que o encontro teve caráter institucional e não contou com a participação de jornalistas, mas a explicação não passa de dissimulação.

No mesmo dia, durante ato político em Ipatinga (MG), Lula declarou: “Então, eu quero dizer para vocês que a partir de hoje, a Globo está sob suspeição da minha candidatura. Não vai ter confiança. Não vai ter.” A afirmação recolocou em debate a responsabilidade pública de um conglomerado de comunicação cuja atividade de radiodifusão depende de concessão pública, bem como a transparência das relações entre empresas de mídia e candidaturas durante a disputa eleitoral.

O episódio também remete a 1989, quando a edição do debate presidencial entre Lula e Fernando Collor de Mello, exibida pelo Jornal Nacional, favoreceu Collor na apresentação dos desempenhos dos candidatos, fato posteriormente reconhecido pela própria emissora. A concentração de poder midiático, somada à atuação das grandes plataformas digitais e à circulação de publicidade política irregular, amplia o campo do jogo sujo da direita no processo eleitoral.

O enquadramento ultrapassa os editoriais

A influência dos editoriais não depende apenas da publicação de seus argumentos nas páginas de opinião. Eles fornecem uma moldura para a cobertura posterior, na qual acontecimentos diferentes passam a ser apresentados sob uma mesma chave interpretativa. Uma decisão fiscal pode ser noticiada como “risco econômico”, como medida social ou como cálculo eleitoral. Uma decisão judicial pode ser examinada por seus fundamentos legais ou enquadrada pelo efeito que produz sobre a campanha. A seleção dos aspectos destacados e a linguagem utilizada alteram a forma como o leitor recebe o acontecimento. Ou seja: a parcialidade da mídia é incontestável.

O projeto De Olho na Imprensa, vinculado ao Laboratório de Estudos da Mídia e Esfera Pública do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, acompanha manchetes, chamadas, colunas, artigos e editoriais da Folha, do Estadão e de O Globo. Em seu levantamento referente à primeira metade de setembro, identificou diferenças entre os veículos e os gêneros jornalísticos, com concentração de textos desfavoráveis a Lula nas colunas.

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