Europa se levanta contra austericídio e “ajuste fiscal”

Reportagem

Bruxelas amanheceu nesta sexta-feira, 9 de outubro, sob o impacto de uma grande mobilização popular. Dezenas de milhares de pessoas marcharam contra as medidas orçamentárias do governo belga, enquanto a polícia empregava gás lacrimogêneo, jatos d’água e cassetetes em confrontos nas proximidades da estação ferroviária central.

A manifestação principal, convocada por organizações de trabalhadores, transcorreu pacificamente, segundo a Associated Press (AP). Os distúrbios envolveram grupos vestidos de preto e mascarados, que lançaram pedras e artefatos pirotécnicos contra policiais e incendiaram bicicletas e patinetes. As autoridades afirmaram que os responsáveis pelos confrontos não estavam vinculados à marcha dos trabalhadores.

A mobilização belga não surgiu de um episódio isolado. O país acumula meses de greves e manifestações contra as “reformas” neoliberais da coalizão governamental liderada pelo primeiro-ministro Bart De Wever. Os protestos envolvem aposentadorias, benefícios sociais, regras de reajuste salarial, desemprego e cortes no orçamento. Para as centrais sindicais, o programa transfere aos trabalhadores e às famílias o custo do “ajuste fiscal” exigido pelo parasitismo dos rentistas do mercado financeiro.

O cenário belga integra uma onda mais ampla de protestos no continente. Em diferentes países, trabalhadores e estudantes se levantam contra medidas que ameaçam a renda, a proteção social e o acesso à educação. Os cortes da direita estão relacionados à arquitetura do Tratado de Maastricht, assinado em 1992, que estabeleceu as bases da União Econômica e Monetária europeia. O acordo fixou como valores de referência um déficit público de até 3% do Produto Interno Bruto (PIB) e uma dívida pública equivalente a 60% do PIB. Esses parâmetros se tornaram um dos pilares das políticas impostas pelo mercado financeiro.

A marcha de 9 de outubro foi convocada pelas duas maiores organizações de trabalhadores belgas, a Confederação dos Sindicatos Cristãos (CSC-ACV) e a Federação Geral do Trabalho da Bélgica (FGTB-ABVV). Sob o lema “Tirem as mãos dos nossos bolsos”, os trabalhadores procuraram pressionar o governo às vésperas de uma declaração de política geral do primeiro-ministro.

O protesto ocorreu em um país com longa tradição de negociação coletiva e mobilização dos trabalhadores. Em maio, uma manifestação nacional já havia reunido entre 40 mil pessoas, segundo a polícia, e 75 mil, conforme estimativas sindicais. A paralisação afetou transportes, serviços públicos e operações aeroportuárias. Na ocasião, as centrais denunciaram as reformas das aposentadorias, as restrições à indexação automática dos salários e a falta de democracia nas relações políticas com o governo.

A indexação automática tem importância particular na Bélgica, pois vincula determinados salários e benefícios à evolução dos preços. As alterações nesse mecanismo reduzem a capacidade de trabalhadores e aposentados de preservar o poder de compra. A medida se torna mais grave com a alta dos custos de energia e com a pressão parasitária do mercado financeiro sobre as finanças públicas.

A tensão também alcançou as escolas. Desde o início da semana, estudantes do ensino secundário na região francófona protestavam contra reformas educacionais aprovadas em junho. As medidas previam cortes de 500 milhões de euros até 2029, aumento das mensalidades universitárias e ampliação da carga horária semanal dos professores de 20 para 22 horas. Em Liège, os protestos levaram a mais de 200 detenções.

Representantes estudantis rechaçaram a ministra da Educação da comunidade francófona, Valérie Glatigny, que atribuiu aos protestos influências da escalada de manifestações na França. O Comitê dos Estudantes Francófonos (CEF) contestou essa versão. Seu presidente, Logan Verhoeven, afirmou que a mobilização era conduzida pelos próprios estudantes e que as reivindicações tinham origem nas medidas educacionais aprovadas na Bélgica.

A coincidência entre as manifestações de trabalhadores e estudantes ampliou o alcance do protesto. De um lado, trabalhadores contestavam cortes sociais e mudanças nas regras de aposentadoria e remuneração. De outro, jovens denunciavam o aumento dos custos da educação e a redução de recursos destinados às escolas. Embora fossem movimentos com organizações e objetivos próprios, ambos expressavam resistência a decisões austericidas que comprometem condições de vida e perspectivas futuras.

França: estudantes e professores desafiam os cortes na educação

A França tornou-se outro foco da mobilização estudantil europeia. Desde meados de setembro, manifestações iniciadas em Paris se espalharam pelo país, com estudantes, pais e sindicatos de professores exigindo mais recursos para as escolas e melhores condições de ensino. A onda de protestos ganhou intensidade nos primeiros dias de outubro, com novos atos em Paris e em outras cidades. A resistência se concentrou na falta de investimentos, nas condições das salas de aula e nas dificuldades enfrentadas por estudantes e profissionais da educação.

A mobilização francesa repercutiu na Bélgica e na Itália. Em Liège, estudantes belgas passaram a invocar os protestos do país vizinho, enquanto grupos de secundaristas italianos iniciaram ocupações de escolas em Turim e Roma, sob o lema “Façamos como na França”.

O intercâmbio de palavras de ordem mostra a circulação de referências entre movimentos juvenis que, apesar das diferenças nacionais, compartilham a resistência ao corte de financiamento da educação que compromete as perspectivas de emprego e formação. A repressão policial também entrou no centro do debate francês. A agência Axios relatou confrontos, detenções em grande escala e o ferimento grave de um adolescente durante os protestos.

Portugal: a reforma trabalhista mobiliza os trabalhadores

Em Portugal, a contestação ao pacote de alterações na legislação trabalhista levou a Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP) a convocar uma greve geral para 3 de junho. A paralisação atingiu transportes, educação, saúde e serviços públicos, com adesão de sindicatos de diferentes setores. O projeto do governo de Luís Montenegro, denominado “Trabalho XXI”, previa mais de cem alterações ao Código do Trabalho e provocou protestos contra as medidas prejudiciais aos trabalhadores.

Entre as denúncias dos trabalhadores estavam o risco de ampliar a precariedade, enfraquecer a capacidade de negociação coletiva e restringir a atuação das organizações sindicais. O governo havia negociado o pacote no âmbito da concertação social, mas não conseguiu um acordo com todos os parceiros. A CGTP sustentou que as mudanças exigiam uma resposta nacional, enquanto entidades do setor educacional e científico também anunciaram adesão à paralisação.

A mobilização não se encerrou com a greve geral. Em 2 de outubro, sindicatos ligados à CGTP convocaram novas paralisações no setor público, abrangendo mais de 350 mil trabalhadores da administração. Escolas fecharam por falta de pessoal, e serviços municipais e de recolha de resíduos sofreram interrupções. Uma greve de tripulantes de cabine da companhia easyJet também provocou atrasos nos voos. A sucessão de paralisações demonstrou que os ataques aos direitos trabalhistas envolviam os efeitos da reforma austericida nas condições de funcionamento dos serviços públicos.

Espanha: a crise habitacional leva multidões às ruas

Na Espanha, a moradia tornou-se o principal combustível de uma grande mobilização realizada em 3 de outubro. Dezenas de milhares de pessoas protestaram em Madri e em aproximadamente 50 cidades, exigindo medidas para conter os aluguéis e ampliar o acesso à habitação. A manifestação ocorreu depois que o Parlamento rejeitou duas propostas de emergência apresentadas pelo governo minoritário de Pedro Sánchez para enfrentar a crise dos inquilinos.

A insatisfação acumulada ganhou força após a expulsão de uma aposentada de 87 anos de sua residência em Madri, episódio que mobilizou moradores e ativistas. Centenas de pessoas montaram acampamentos na capital para exigir mudanças. Os manifestantes passaram a defender a convocação de uma greve geral e medidas que limitassem a escalada dos aluguéis. A crise atingiu especialmente jovens e trabalhadores com rendimentos insuficientes para acompanhar os preços do mercado imobiliário.

Os relatos colhidos durante os protestos ilustraram a dimensão do problema. Um manifestante entrevistado afirmou que um apartamento de um quarto em Madri podia custar mil euros mensais, valor equivalente a cerca de metade do salário mensal médio na capital. Outros participantes denunciaram a necessidade de dividir imóveis ou ocupar quartos pequenos para permanecer nas cidades onde estudavam e trabalhavam. A habitação, tradicionalmente tratada como questão urbana e econômica, passou a ocupar o centro da política nacional.

A mobilização também evidenciou os limites da ação governamental. O Executivo apresentou propostas para aliviar a situação dos inquilinos, mas a rejeição parlamentar impediu sua implementação. O impasse alimentou a crítica de que as instituições não respondiam à urgência enfrentada pelas famílias. Os atos foram majoritariamente pacíficos, embora tenham ocorrido confrontos com a polícia em Valência. Em Madri, grupos de extrema direita tentaram aproximar-se de um acampamento de manifestantes, mas foram contidos pelas autoridades.

A crise espanhola revela uma dimensão específica da insatisfação europeia. Mesmo quando há emprego, o custo da moradia pode consumir parcela desproporcional da renda e dificultar a formação de famílias, a permanência dos jovens nas grandes cidades e a mobilidade profissional. O conflito não se resume à oferta de imóveis. Envolve preços, rendimentos, regras de aluguel, investimento público e a capacidade de transformar a moradia em um bem acessível.

Itália: salários, aposentadorias e despesas militares entram na pauta

Na Itália, as mobilizações de trabalhadores assumiram diferentes formas ao longo de 2026. Em julho, cerca de 6 mil integrantes das Forças Armadas e dos serviços de segurança marcharam em Roma para reivindicar melhores salários, aposentadorias mais favoráveis e maior proteção profissional. A manifestação reuniu representantes do Exército, da Marinha, da Aeronáutica, dos Carabinieri e da Guarda de Finanças.

O protesto ocorreu depois da renovação do acordo coletivo que abrangia aproximadamente 430 mil militares e agentes de segurança. O reajuste previsto, de 188 euros brutos mensais, acompanhado de um pagamento retroativo de 2.448 euros, não satisfez parte das entidades representativas. Sindicatos que rejeitaram o acordo consideraram insuficientes as condições oferecidas e pediram mudanças no sistema previdenciário, melhores remunerações e investimentos em recrutamento, treinamento e modernização profissional.

Em outra frente, sindicatos de base convocaram uma greve geral em junho, com manifestações em Roma, Milão, Nápoles, Bolonha, Florença, Gênova, Turim, Palermo e Catânia. A pauta incluiu aumento dos salários e das aposentadorias, combate aos despejos, proteção contra a precariedade e oposição ao aumento dos gastos militares. Organizações pró-Palestina também participaram, vinculando as reivindicações sociais à condenação das operações militares israelenses e à exigência de suspensão das relações com Israel.

Grécia: custo de vida e contestação às políticas econômicas

Na Grécia, milhares de pessoas protestaram em Salônica, em 5 de setembro, durante a Feira Internacional de Salônica, evento tradicionalmente utilizado pelos governos para anunciar prioridades econômicas. A mobilização ocorreu em meio à insatisfação com o custo de vida e antecedeu promessas do primeiro-ministro Kyriakos Mitsotakis de ampliar benefícios fiscais, elevar salários e conceder mais de 2 bilhões de euros em cortes tributários e outras medidas de apoio.

A manifestação reuniu diferentes setores descontentes com os preços e com a distribuição dos ganhos econômicos. Para os participantes, a recuperação macroeconômica não havia eliminado as dificuldades cotidianas das famílias. A necessidade de pagar moradia, energia, alimentação e transporte continuava a pressionar os rendimentos.

O funcionalismo público também contestou propostas de alteração constitucional. A Confederação dos Servidores Públicos (ADEDY) convocou paralisações e manifestações contra mudanças que, segundo a entidade, poderiam enfraquecer a estabilidade no emprego e modificar as regras relativas à educação. A organização exigiu vínculos permanentes, aumentos salariais e defesa da educação e da saúde públicas gratuitas.

Alemanha: sindicatos defendem a proteção social

Na Alemanha, dezenas de milhares de pessoas participaram de manifestações organizadas pela Confederação Alemã de Sindicatos (DGB) em 15 grandes cidades. A mobilização nacional, realizada na primeira semana de outubro, contestou os planos sociais do governo federal. A DGB estimou em aproximadamente 175 mil o número de participantes. O lema da jornada vinculou trabalho, saúde e aposentadoria, e as entidades denunciaram medidas que, em sua avaliação, reduziriam benefícios, restringiriam direitos trabalhistas e transfeririam riscos sociais aos empregados, aposentados e suas famílias.

A pauta alemã aproximou-se das reivindicações belgas. Em ambos os países, trabalhadores contestaram mudanças que poderiam afetar a previdência, a proteção trabalhista e o financiamento dos serviços públicos. As organizações defenderam a preservação dos mecanismos de seguridade social diante das propostas governamentais de reorganização das despesas.

O contexto alemão também refletiu a pressão para conciliar crescimento econômico, competitividade industrial e despesas sociais. A discussão sobre o Estado de bem-estar social ganhou espaço à medida que diferentes setores passaram a questionar quem arcaria com os custos das reformas. Para a DGB, os trabalhadores não deveriam suportar a maior parte dos riscos associados às mudanças econômicas e orçamentárias. O governo, por sua vez, respondeu que precisava responder às pressões do mercado financeiro “por sustentabilidade fiscal”.

Reino Unido: greves universitárias contestam cortes e demissões

No Reino Unido, universidades também foram palco de mobilizações contra cortes orçamentários e perdas de postos de trabalho. Na Universidade de Edimburgo, na Escócia, integrantes do Sindicato das Universidades e Faculdades (UCU) iniciaram, em 28 de setembro, uma greve prevista para durar cinco semanas. O protesto envolve um plano de redução de despesas de 140 milhões de libras, o fechamento anunciado de 90 programas acadêmicos e a possibilidade de até 1.800 demissões, estimativa apresentada pelo sindicato. A entidade afirmou que centenas de trabalhadores já haviam perdido seus empregos ou sofrido redução de horas e não renovação de contratos.

Trabalhadores da Universidade de Dundee também fizeram uma greve de cinco semanas, enquanto funcionários da Universidade de Nottingham retomaram ações em outubro, com paralisações previstas até dezembro. Em Nottingham, a disputa envolve cortes e demissões diante de dificuldades financeiras da instituição. As paralisações afetaram as atividades letivas e reacenderam o debate sobre o financiamento do ensino superior, as condições de trabalho acadêmico e as consequências dos cortes para os estudantes.

Outras mobilizações na Europa

Na Holanda, uma greve nacional do transporte público, em setembro, contestou medidas de contenção das despesas sociais, incluindo propostas de restrição ao seguro-desemprego. Na Irlanda, estudantes universitários protestaram em Dublin contra as mensalidades, o financiamento do ensino superior e a falta de moradia acessível. Na Noruega, maquinistas ferroviários mantiveram uma paralisação por reivindicações trabalhistas, com duração prevista até 12 de outubro. Na Áustria, organizações estudantis anunciaram novas manifestações diante da perspectiva de cortes no orçamento universitário.

A frequência das paralisações ajuda a dimensionar a extensão do descontentamento. Um levantamento publicado pela Euronews em junho, baseado em dados de fontes nacionais e de acompanhamento de greves, registrou 234 paralisações em Portugal, 190 na Itália, 108 na Espanha e 105 na França no primeiro trimestre de 2026. Os números não representam uma contagem completa de todas as mobilizações europeias, mas indicam a intensidade dos conflitos trabalhistas nesses quatro países.

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