Comunistas lideram protestos contra Marco Rubio na Europa

Mundo

A polícia fechou ruas, ergueu barreiras e mobilizou milhares de agentes. No centro de Atenas, bandeiras palestinas e cubanas se misturaram aos cartazes que anunciavam a rejeição à presença norte-americana. A multidão marchou em direção à embaixada dos Estados Unidos, enquanto o aparato de segurança tentava conter seu avanço. Marco Rubio, secretário de Estado de Donald Trump, foi recebido por manifestações que expuseram, para além dos salões diplomáticos, a resistência popular à política externa norte-americana. Sua passagem pela Europa, entre 5 e 8 de outubro, desencadeou protestos contra as guerras, a expansão das alianças militares e a influência norte-americana sobre as decisões dos países aliados.

O roteiro incluiu Reykjavík, Atenas e Lisboa. Em cada escala, a diplomacia norte-americana procurou aprofundar vínculos econômicos e estratégicos. Nas ruas gregas e portuguesas, porém, organizações políticas, sindicatos e movimentos pela paz denunciaram as ameaças militares do governo Trump, o apoio a Israel e o risco de envolvimento europeu em conflitos conduzidos pelos Estados Unidos. A dimensão das manifestações variou de um país para outro, mas a oposição à política externa norte-americana deu unidade aos protestos.

Atenas transformou a visita em confronto político

Na terça-feira, 6 de outubro, mais de 2 mil pessoas, segundo a polícia, concentraram-se no centro de Atenas. O jornal português Observador registrou uma estimativa superior a 3 mil participantes, também atribuída às autoridades gregas. A Praça Syntagma, diante do Parlamento, foi fechada ao trânsito. A segurança foi reforçada, e cordões policiais bloquearam o percurso dos manifestantes em direção à representação diplomática norte-americana.

A convocação partiu da Frente Militante de Todos os Trabalhadores (PAME), organização sindical ligada ao Partido Comunista da Grécia (KKE), e contou com a participação de estudantes e outras organizações de esquerda. A Juventude Comunista da Grécia (KNE) também mobilizou jovens contra a visita. O protesto foi organizado em torno de uma palavra de ordem inequívoca. Rubio não era bem-vindo. Os cartazes exigiam a retirada das forças norte-americanas, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e da União Europeia da região.

A manifestação não se limitou à presença de um representante estrangeiro. Os organizadores contestaram a participação grega nos planos militares norte-americanos, a permanência de bases dos Estados Unidos e o aumento das despesas com armamentos. Para os sindicatos e as organizações comunistas, os recursos destinados à defesa deveriam atender às necessidades sociais, como salários, saúde e educação, em vez de alimentar a preparação de novas guerras. A denúncia vinculou os compromissos militares do governo grego ao custo de vida e às dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores.

Dimitris Koutsoumbas, secretário-geral do KKE, participou da mobilização. Giorgos Stefanakis, presidente do Centro de Trabalhadores de Atenas e integrante da direção da PAME, pronunciou-se contra o envolvimento do país em guerras de interesse das grandes potências. Representantes do Comitê Grego para a Distensão Internacional e a Paz também se manifestaram. O protesto ganhou dimensão nacional, com atos em Salônica, Patras e outras cidades gregas.

A polícia impediu que a marcha alcançasse normalmente a embaixada norte-americana, recorrendo a bloqueios sucessivos e ao uso de gás lacrimogêneo, segundo o relato publicado pelo KKE. Ainda assim, dezenas de manifestantes conseguiram chegar à representação diplomática e abrir faixas de protesto. A operação de segurança, concebida para controlar a circulação e proteger a visita, acabou integrando a própria imagem do acontecimento. De um lado, a reunião diplomática discutiu a ampliação da parceria estratégica; de outro, os manifestantes denunciaram as bases militares e a possibilidade de a Grécia se tornar parte ainda mais ativa de conflitos internacionais.

Palestina e Cuba estiveram no centro da contestação

As bandeiras palestinas e cubanas deram expressão visual às reivindicações. A solidariedade à Palestina se relacionou à denúncia dos ataques israelenses e ao apoio militar e diplomático prestado pelos Estados Unidos a Israel. A defesa de Cuba, por sua vez, refletiu a oposição ao embargo e às medidas coercitivas norte-americanas contra a ilha. Os organizadores situaram a visita de Rubio no contexto mais amplo de uma política externa que, segundo eles, ameaçava a soberania dos povos e favorecia a escalada militar.

A contestação encontrou terreno fértil na tradição de mobilização antiguerra da esquerda grega. O país abriga instalações militares utilizadas pelos Estados Unidos e integra a estrutura estratégica da Otan no Mediterrâneo oriental. Para os manifestantes, a ampliação dessa presença não oferece maior segurança à população. Ao contrário, aproxima o território grego de confrontos nos quais os interesses nacionais ficam subordinados às prioridades das grandes potências. Essa interpretação foi reiterada nos pronunciamentos sindicais e nas declarações do KKE.

Lisboa protestou contra a guerra e a aproximação militar

Em Portugal, a contestação tomou as ruas na quarta-feira, 7 de outubro, um dia antes dos encontros oficiais de Rubio em Lisboa. Cerca de 300 pessoas reuniram-se no Largo de São Domingos, em uma manifestação organizada pelo Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), entidade ligada ao movimento pacifista e com relações com o Partido Comunista Português (PCP). As palavras de ordem exigiram o fim da guerra, o encerramento do que os organizadores classificavam como genocídio do povo palestino e o fim da agressão contra Cuba.

A mobilização portuguesa foi menor que a grega, mas apresentou reivindicações convergentes. Os participantes contestaram a política externa de Trump e a perspectiva de maior alinhamento de Portugal às prioridades militares norte-americanas. O protesto antecedeu as reuniões de Rubio com o primeiro-ministro Luís Montenegro e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, destinadas a ampliar a cooperação nos setores de defesa, economia e tecnologia.

A escolha de Lisboa como etapa final da viagem teve importância que ultrapassou o protocolo. Portugal precisava decidir como substituir os caças F-16 de sua Força Aérea, e uma das opções em análise era o F-35, fabricado pela norte-americana Lockheed Martin. Também estavam em discussão o Gripen, da sueca Saab, e aeronaves europeias como o Rafale e o Eurofighter Typhoon. A escolha envolvia contratos de grande valor, dependência tecnológica, manutenção por décadas e consequências para a autonomia estratégica portuguesa.

Outro ponto sensível era a Base das Lajes, nos Açores, utilizada pelas forças norte-americanas. A instalação tinha importância estratégica para as operações no Atlântico, e sua utilização alimentava o debate sobre os limites da cooperação militar entre os dois países. A proximidade entre a visita de Rubio, as negociações sobre armamentos e as discussões em torno da base ajudou a explicar por que os manifestantes associaram a agenda diplomática ao risco de subordinação da política de defesa portuguesa aos interesses dos Estados Unidos.

Islândia e a disputa pela soberania no Ártico

A primeira escala de Rubio foi Reykjavík, na Islândia, em 5 de outubro. Ali, as conversas com autoridades locais concentraram-se na cooperação econômica, na segurança e na importância estratégica do Atlântico Norte. A região do Ártico ganhou peso nas disputas internacionais devido à posição geográfica, às rotas marítimas, aos recursos naturais e à presença militar de potências como Estados Unidos e Rússia. A aproximação com a Islândia integrou o esforço norte-americano para consolidar sua posição entre os integrantes da Otan.

A visita ocorreu sob o peso das declarações de Donald Trump sobre a Groenlândia, que despertaram inquietação quanto às ambições territoriais e estratégicas dos Estados Unidos no extremo norte. Rubio procurou assegurar às autoridades islandesas que a administração norte-americana respeitaria a soberania do país e que qualquer iniciativa dependeria do consentimento local. O episódio revelou uma dificuldade para a diplomacia norte-americana. Ao mesmo tempo que buscava reforçar a cooperação militar, precisava dissipar o receio de que a assimetria de poder entre aliados fosse utilizada para impor decisões.

A diplomacia dos aliados e a voz das ruas

Na Grécia, Rubio tentou justificar a política de Donald Trump para o país. Em discurso realizado na colina da Pnyx, diante do cenário histórico da democracia ateniense, sustentou que a lealdade à própria nação deveria prevalecer sobre a prioridade atribuída à comunidade internacional. A mensagem retomou a orientação nacionalista da administração republicana, que exigia maior investimento militar dos aliados e reivindicava uma posição mais assertiva para os Estados Unidos.

A escolha do cenário foi eloquente. Nas proximidades dos vestígios da antiga democracia, Rubio apresentou uma concepção de política internacional centrada no poder nacional e na competição entre Estados. Nas ruas, sindicatos, estudantes e organizações comunistas defenderam outra leitura dos interesses coletivos, fundada na oposição à guerra, na solidariedade internacional e na destinação dos recursos públicos às necessidades sociais, protestando contra bases militares, compras de armamentos e compromissos com alianças destinadas a guerras.

What do you feel about this post?

0%
like

Like

0%
love

Love

0%
happy

Happy

0%
haha

Haha

0%
sad

Sad

0%
angry

Angry

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *