O primeiro grande capítulo da histórica relação entre Luiz Inácio Lula da Silva e o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) foi em 1989, quando o país recém-saído da ditadura se preparava para eleger pelo voto direto o presidente da República e a esquerda procurava transformar a abertura democrática numa nova correlação de forças. João Amazonas e Renato Rabelo, os principais dirigentes do Partido, estavam no centro desse importante momento da história da esquerda brasileira, quando o PCdoB integrou, com o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Socialista Brasileiro (PSB), a Frente Brasil Popular que lançou Lula à primeira eleição presidencial direta desde 1960.
A aproximação entre o dirigente sindical que emergira das greves do ABC e a organização comunista que atravessara décadas de clandestinidade, perseguição e resistência não nasceu de uma circunstância eleitoral passageira. Desde então, o PCdoB acompanharia Lula em todas as campanhas presidenciais, enfrentando derrotas, vitórias, governos, crises e rupturas institucionais. A aliança sobreviveria a conjunturas que transformaram profundamente o Brasil e modificaria também a forma como os comunistas compreendiam sua atuação na disputa pelo poder nacional.
A campanha de 1989 condensou uma mudança profunda na vida brasileira. A Constituição de 1988 havia restabelecido direitos políticos, ampliado as instituições democráticas e encerrado formalmente o ciclo iniciado com o golpe de 1964. O movimento sindical recuperava força, os movimentos sociais ocupavam as ruas e os partidos de esquerda procuravam converter a energia acumulada durante a resistência à ditadura em força eleitoral.
Lula aparecia como expressão nova desse processo. Vinha das grandes greves metalúrgicas do ABC, havia participado da fundação do PT e carregava uma experiência política distinta daquela dos dirigentes comunistas formados na tradição do PCdoB. A aproximação entre essas duas trajetórias tinha, por isso, uma dimensão histórica. O PCdoB trazia a experiência de uma organização fundada em 1922, reorganizada em 1962, perseguida pela ditadura e reconstruída na legalidade. Lula trazia a força social de um novo movimento operário. A Frente Brasil Popular colocou essas duas experiências em um mesmo processo político.
Dentro do PCdoB, a escolha de Lula resultou de uma discussão que envolveu a própria possibilidade de candidatura de João Amazonas. Os dirigentes Haroldo Lima e Renato Rabelo chegaram a cogitar o lançamento do seu nome. Amazonas não aceitou. A direção passou então a examinar qual liderança poderia reunir as forças populares numa eleição que prometia ser de enorme intensidade.
Lula surgiu como a alternativa capaz de articular o movimento sindical, os partidos de esquerda e setores sociais que haviam se projetado durante a redemocratização. Em julho de 1989, uma convenção nacional do PCdoB confirmou a aliança. Renato abriu o ato no Anhembi e chamou Lula ao palco como uma liderança popular de dimensão nacional.
A campanha de 1989 aproxima Lula e os comunistas
Aquele momento estabeleceu uma relação que permaneceria nas décadas seguintes. O PCdoB não estava simplesmente aderindo a uma candidatura. Entrava numa frente política na qual enxergava a possibilidade de levar ao centro da disputa nacional as forças populares que haviam ganhado expressão durante a redemocratização.
A campanha teve também uma dimensão pessoal. Em determinado momento, diante das dificuldades eleitorais, Lula procurou Amazonas e Renato. A conversa passou pela necessidade de concentrar a campanha na classe trabalhadora organizada e nos setores populares mais mobilizados. Lula recordaria posteriormente que aquele encontro lhe mostrou a possibilidade concreta de chegar ao segundo turno e disputar a Presidência em condições reais.
O candidato da direita, Fernando Collor de Mello, venceu com 53,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 46,97%. Para o PCdoB, a campanha demonstrara a existência de uma força social capaz de vencer futuras eleições para a Presidência da República. A questão seria ampliar essa força.
João Amazonas havia formulado uma preocupação que acompanharia o Partido durante toda a década seguinte. Uma candidatura sustentada apenas pelas organizações de esquerda encontraria obstáculos para conquistar a maioria nacional. A sociedade brasileira possuía uma estrutura social complexa, interesses econômicos poderosos e uma classe dominante com grande capacidade de organização política. A esquerda precisaria reunir forças mais amplas, preservando em seu interior um núcleo democrático e popular. A experiência de 1989 reforçou essa concepção.
O PCdoB passou a olhar as eleições presidenciais não apenas como confronto entre candidatos, mas como momentos de reorganização das forças sociais. Lula tornou-se o principal ponto de convergência dessa política. A cada eleição, a aliança ganhava novas dimensões. O que havia começado como uma frente eleitoral passou a integrar uma política permanente de unidade.
A experiência eleitoral amplia a política de unidade
Os anos 1990 aprofundaram essa relação. O governo Collor abriu espaço para a ofensiva neoliberal e, depois de sua queda, Fernando Henrique Cardoso consolidou uma política econômica baseada no controle monetário fiscalista – centralizado no sistema financeiro –, privatizações, abertura comercial e redução do papel do Estado em diversos setores.
O PCdoB defendia como questões centrais a defesa da soberania nacional, do desenvolvimento e da democracia. O objetivo era criar uma alternativa nacional ao projeto neoliberal então dominante. A frente incorporava outras forças e procurava ampliar sua presença social.
Em 1998, o PCdoB participou das articulações que aproximaram Leonel Brizola e Lula e contribuíram para a formação da frente que reuniu PT, Partido Democrático Trabalhista (PDT), PSB, PCdoB e PCB, com Brizola como candidato a vice-presidente de Lula. O PCdoB já trabalhava com a compreensão de que uma mudança de governo exigiria mais que uma campanha eleitoral. Seria necessário formar uma base política capaz de governar.
A experiência de 1989 estava presente nessa elaboração. A derrota havia mostrado a força da candidatura de Lula e os limites de uma frente ainda insuficientemente ampla. A década seguinte seria marcada pela tentativa de superar essa limitação. A vitória de 2002 nasceria desse esforço.
Os anos 1990 aprofundam a frente política
Quando Renato Rabelo assumiu a presidência do PCdoB, no X Congresso realizado no Rio de Janeiro de 9 a 12 de dezembro de 2001, a possibilidade de vitória de Lula já era considerada real. O Congresso aprovou uma plataforma de “reconstrução nacional”. O país acumulava oito anos de política neoliberal e a oposição chegava à eleição com uma responsabilidade maior do que nas disputas anteriores.
A vitória de Lula exigiria uma frente ampla, nucleada pelas forças de esquerda e apoiada por um movimento social extenso. Lula precisava chegar à Presidência acompanhado de uma base política suficientemente larga para governar. Essa concepção apareceu na chapa Lula–José Alencar. O empresário representava uma abertura para setores que não pertenciam ao campo tradicional da esquerda. Para o PCdoB, essa composição ampliava a capacidade da candidatura sem modificar seu núcleo político.
O encontro entre Lula e João Amazonas na sede do PCdoB, em São Paulo, guarda um valor simbólico particular. Amazonas recebeu Lula quando a campanha ainda estava em preparação e conheceu pessoalmente José Alencar como candidato a vice.
O PCdoB tinha diante de si a tarefa de transformar a experiência acumulada numa estratégia de conquista do governo. Amazonas morreria em maio daquele ano, sem assistir à vitória. A campanha prosseguiu sob a direção de Renato. Em outubro, Lula venceu a eleição. Pela primeira vez, os comunistas ocupariam ministérios e participariam diretamente da administração da República.
A vitória de 2002 leva o PCdoB ao governo
Renato conduziu a elaboração dessa orientação. A política de unidade e luta ganhou corpo diante das decisões econômicas do ministro da Fazenda Antônio Palocci. O PCdoB chegou ao governo com a expectativa de mudança, mas a política econômica que mantinha juros elevados, metas fiscais rígidas e forte contração orçamentária comandada pelos interesses do sistema financeiro era um problema.
O Partido considerava necessário deslocar o eixo da política econômica para o crescimento, o investimento, a indústria e o fortalecimento do Estado. Renato passou a enfrentar esse debate dentro da coalizão partidária de apoio a Lula. Estar no governo significava assumir parte de suas responsabilidades.
A reforma da Previdência, de conteúdo neoliberal e fortemente prejudicial aos trabalhadores, colocou essa concepção diante de uma questão concreta. O projeto enviado pelo governo ao Congresso Nacional provocou forte resistência popular. O PCdoB apresentou propostas de alteração e procurou modificar alguns pontos. A posição partidária combinava crítica à reforma com compromisso político com o governo.
A reforma da Previdência expõe as diferenças
O debate envolvia a estrutura do mercado de trabalho, a informalidade, a arrecadação e o modelo de financiamento da seguridade social. A experiência deixou uma marca na política do Partido: divergência sobre uma medida concreta não significava ruptura com o projeto político mais amplo que havia levado Lula ao Planalto.
A política econômica continuou no centro da polêmica. Renato procurou Lula para discutir os juros, o superávit primário e a necessidade de criar condições para o investimento. A direção comunista enxergava no Estado um instrumento essencial para recuperar a capacidade produtiva brasileira. A “estabilidade monetária” não poderia ocupar todo o espaço da política econômica.
O desenvolvimento exigia indústria, infraestrutura, crédito, investimento público e planejamento. Essa visão estava baseada no Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento, o Programa do PCdoB. A experiência do primeiro governo Lula deu ao PCdoB o terreno concreto para amadurecer essa elaboração.
A coordenação política e presença comunista
Em 2004, Lula ampliou a composição política de seu governo e convidou Aldo Rebelo, então deputado federal pelo PCdoB e ex-líder do governo na Câmara, para a Secretaria de Coordenação Política e Assuntos Institucionais, com a missão de ampliar a articulação política do Executivo com o Congresso. A presença comunista alcançou então um ponto novo.
Renato acompanhou esse processo como principal dirigente partidário. O PCdoB deixava de ocupar apenas uma posição ministerial e entrava no núcleo da coordenação política. A confiança entre Lula e os comunistas ganhava uma expressão institucional. O Partido passou a participar das engrenagens centrais do Estado. A experiência de governo começava a produzir uma nova geração de quadros com conhecimento direto do funcionamento das instituições federais.
A crise de 2005 leva à disputa pela Câmara
Em 2005, na primeira grande ofensiva golpista contra o governo Lula com o movimento que viria a ser conhecido como “mensalão”, o PCdoB foi decisivo. Na avaliação de Renato, a eleição de Severino Cavalcanti (PP-PE) para a Presidência da Câmara, em fevereiro daquele ano, já havia revelado a dimensão do impasse político enfrentado pelo governo e a necessidade de recompor sua base parlamentar.
A situação se agravou nos meses seguintes, até que Severino Cavalcanti renunciou, em 21 de setembro de 2005, depois de acusações de corrupção. Em seu lugar, assumiu interinamente o primeiro vice-presidente da Casa, José Thomaz Nonô, deputado do Partido da Frente Liberal (PFL) de Alagoas, que passou a conduzir a Câmara até a eleição extraordinária marcada para 28 de setembro.
Para Renato, porém, a sucessão de Severino não era apenas uma disputa pelo comando da Câmara. A oposição conservadora havia se mobilizado para derrubar Severino e, ao mesmo tempo, já trabalhava para colocar Nonô em seu lugar. Os partidos de direita, liderados por Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e PFL, concentraram forças nessa operação, articulando suas bancadas e mobilizando governadores e prefeitos para garantir apoio ao candidato direitista.
Na avaliação de Renato, o objetivo era conquistar a Presidência da Câmara e transformá-la em instrumento de pressão sobre o governo Lula. O presidente da Casa tinha a prerrogativa de decidir sobre o curso dos pedidos de impeachment do presidente da República. Uma vitória da oposição, portanto, poderia colocar o governo sob forte pressão e abrir caminho para uma ofensiva golpista contra o mandato de Lula.
Foi nesse cenário que o PCdoB atuou para recompor a base governista e unificar as forças de esquerda em torno de uma candidatura capaz de enfrentar a ofensiva golpista. A escolha recaiu sobre Aldo Rebelo, cuja candidatura foi articulada politicamente por Renato Rabelo, com participação importante do líder do PCdoB na Câmara, Renildo Calheiros.
Primeiro, buscou-se recompor a coesão da esquerda; depois, ampliar a base. O PT aderiu à escolha de Aldo, e o apoio do Partido Liberal (PL) ainda no primeiro turno ampliou as possibilidades de vitória. No segundo turno, a base governista conseguiu reunir apoio mais amplo. Aldo venceu Nonô por 258 votos a 243. Para Renato, aquela vitória interrompeu a ofensiva da oposição e representou uma inflexão no curso da crise.
O XI Congresso do PCdoB, naquele mesmo ano, recebeu Lula como convidado. Sua presença carregava um significado político que ultrapassava a cerimônia. A relação já possuía uma história própria. A palavra usada por Renato para descrevê-la — amizade — vinha acompanhada de uma longa convivência política.
A reeleição de Lula consolida a aliança política
A reeleição de 2006 consolidou essa experiência. Na coligação A força do povo, formada por PT, PCdoB e Partido Republicano Brasileiro (PRB), com Lula e José Alencar como candidatos a presidente e vice, o presidente manteve canais diretos com Renato. A segunda vitória presidencial abriu uma nova etapa. O Partido passou a considerar que os primeiros anos do governo haviam demonstrado a possibilidade de combinar estabilidade institucional com retomada do desenvolvimento e políticas sociais.
O PCdoB enxergava uma mudança na estrutura do país. A expansão do investimento público, o crescimento do emprego, a valorização do salário mínimo, a política externa mais autônoma e os programas sociais formavam, na leitura comunista, um conjunto de elementos que diferenciava aquele período da década neoliberal.
Renato liderou a atuação do Programa Socialista para o Brasil, que vinculou a estratégia partidária à construção de um caminho brasileiro ao socialismo. O desenvolvimento nacional apareceu como etapa concreta dessa trajetória. Lula, nessa arquitetura, representava uma liderança capaz de abrir espaço para mudanças estruturais.
Dilma dá continuidade ao ciclo iniciado por Lula
A eleição de Dilma Rousseff, em 2010, levou essa concepção para uma nova etapa. Lula deixava a Presidência depois de dois mandatos, mas a política desenvolvida desde 2003 permanecia no centro da estratégia comunista. O PCdoB apoiou Dilma como continuidade do ciclo iniciado com Lula. A política de desenvolvimento, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Programa de Aceleração do Crescimento, lançado em 2007 para ampliar os investimentos públicos em infraestrutura, estimular o investimento privado e acelerar o crescimento econômico, a expansão da infraestrutura, a política industrial e o fortalecimento do Estado, ocupavam lugar importante na elaboração do Partido.
Dilma carregava uma trajetória própria, mas chegava ao Planalto apoiada por uma coalizão que havia se consolidado durante os governos Lula. A relação pessoal e política entre Lula e Renato continuou durante o governo Dilma. Lula permanecia presente nas articulações partidárias e na definição das linhas gerais da frente.
A confiança adquirida durante os dois mandatos presidenciais anteriores se projetava sobre o novo governo. O Partido formulara propostas de reformas estruturais. Comunicação, sistema político, desenvolvimento tecnológico, soberania energética e fortalecimento do Estado ocupavam espaço crescente na elaboração comunista. A política de alianças havia alcançado uma dimensão mais larga. A experiência mostrara que o governo nacional exigia uma composição extensa.
O impeachment e a experiência de governo
A crise de 2015 e 2016 interrompeu essa experiência. O PCdoB permaneceu ao lado de Dilma durante o processo do golpe do impeachment fraudulento de 2016. Renato havia deixado a presidência partidária em 2015. Luciana Santos assumiu a presidência do PCdoB, enquanto Renato Rabelo passou a presidir a Fundação Maurício Grabois, instituição vinculada ao Partido dedicada à pesquisa, à formação política e à elaboração de estudos sobre a realidade brasileira e o socialismo.
A resistência comunista ao golpe contra Dilma passou a integrar o balanço histórico do Partido. O golpe foi considerado pelo PCdoB como ruptura do ciclo iniciado em 2003, além da ruptura institucional com impeachment fraudulento. Lula voltou a ocupar posição central na reorganização da frente democrática.
Manuela representa a autonomia do PCdoB
Em 2018, Manuela d’Ávila apareceu como a expressão eleitoral própria do PCdoB. A candidatura presidencial comunista recuperava uma tradição de autonomia eleitoral que coexistia com a política de frentes. O Programa de Manuela procurava apresentar uma alternativa nacional de desenvolvimento, democracia e direitos sociais.
Lula, porém, permanecia no centro dos ataques da direita. Sua prisão arbitrária por uma organização que atuava como Estado de exceção dentro do Estado Democrático de Direito, a Operação Lava Jato, comandada pelo obscuro juiz de primeira instância Sérgio Moro, e a impossibilidade de disputar a eleição produziram uma situação nova.
À frente do PCdoB, Luciana Santos teve papel importante nesse processo. Ela conduziu a atuação comunista na defesa do direito de Lula ser candidato e na busca pela unidade das forças progressistas. O PCdoB havia lançado Manuela d’Ávila como candidata à Presidência porque sua candidatura expressava a autonomia eleitoral do Partido e se apresentava como uma referência de combate à extrema-direita, ao mesmo tempo em que mantinha aberta a política de frentes e a busca pela unidade da esquerda. Diante da impossibilidade de Lula disputar a eleição pela ação arbitrária e ilegal de Moro, ela passou a integrar, como vice, a chapa liderada por Fernando Haddad, do PT.
Renato passou a atuar pela unidade das forças progressistas e pela formação de um pacto eleitoral amplo. Em fevereiro daquele ano, as fundações Maurício Grabois, Perseu Abramo, Leonel Brizola-Alberto Pasqualini, João Mangabeira e Lauro Campos lançaram o manifesto Unidade para reconstruir o Brasil. A iniciativa reunia cinco organizações de esquerda em torno de uma formulação comum diante do cenário aberto depois de 2016.
A prisão de Lula, segundo o PCdoB, ultrapassava a disputa eleitoral. Renato escreveu, em abril de 2018, que a ausência física de Lula ampliava sua presença simbólica. A defesa de sua liberdade aparecia associada, na formulação comunista, à defesa da democracia e do direito de participação política. O PCdoB mobilizou sua militância em torno da campanha Lula livre.
A vitória do candidato da extrema direita, Jair Bolsonaro, em 2018, aprofundou a elaboração dos comunistas sobre a frente ampla. O PCdoB passou a trabalhar com a necessidade de reunir forças sociais e políticas mais extensas. A experiência da campanha havia demonstrado a força eleitoral do campo democrático, mas também sua fragmentação.
A resistência ao governo Bolsonaro exigiria mais amplitude da frente democrática. Tornara-se uma forma de enfrentar uma mudança na estrutura política brasileira. O PCdoB passou a tratar essa unidade como uma tarefa de longo alcance.
A eleição de 2022 devolve o PCdoB ao governo
A eleição de 2022 levou essa fórmula a uma nova dimensão. PT, PCdoB e PV constituíram a Federação Brasil da Esperança. Lula voltou à disputa presidencial com Geraldo Alckmin como candidato a vice pelo PSB.
O núcleo histórico da esquerda permanecia, mas a aliança alcançava setores políticos que anteriormente não faziam parte do campo tradicional das campanhas de Lula. A vitória devolveu ao PCdoB uma presença direta no governo federal. Luciana Santos assumiu o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A participação comunista retornava ao Executivo sob novas condições históricas.
A ciência e a tecnologia adquiriram uma dimensão central na agenda comunista. A pasta ocupada por Luciana Santos reunia temas diretamente ligados à soberania nacional: tecnologia, inovação, pesquisa, indústria de defesa, transição energética e capacidade científica. O PCdoB via nessa área um instrumento para recuperar a capacidade produtiva do país e fortalecer o Estado.
A aliança chega à eleição de 2026
Renato Rabelo teve lugar central nessa histórica aliança, que consolidou um forte núcleo de esquerda, que transcende as organizações partidárias, abrangendo centrais sindicais e um amplo leque de outros movimentos sociais. A dimensão dessa história aparece em episódios que não cabem na descrição dos momentos eleitorais.
Lula participou de congressos do PCdoB. Recebeu Renato no Palácio do Planalto e no Alvorada. Recorreu aos comunistas em momentos de dificuldade parlamentar. Renato levou ao presidente posições do Partido sobre política econômica, desenvolvimento e composição governamental. Aldo Rebelo tornou-se interlocutor do governo no Congresso. Haroldo Lima assumiu a direção da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, onde passou a atuar em uma área estratégica para a soberania energética do país. Luciana Santos chegaria ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
A relação criou laços de confiança acumulada ao longo do tempo. O PCdoB reconhece essa proximidade sem apagar as diferenças. A experiência de governo tornou-se uma escola comum. Lula conheceu profundamente a cultura política comunista; os comunistas passaram a conhecer por dentro as exigências de uma coalizão presidencial.
Na perspectiva do PCdoB, essa história tem uma direção definida. A democracia é o terreno político da disputa; a soberania nacional é um princípio; o desenvolvimento é uma necessidade histórica; a frente ampla é o instrumento para reunir forças; o governo é um espaço de realização e disputa; e o socialismo permanece como horizonte estratégico.
Agora, diante da eleição de 2026, o PCdoB apresenta a disputa como mais um capítulo dessa longa travessia. Em seu manifesto eleitoral, o Partido associa a candidatura de Lula à continuidade de um projeto de soberania, desenvolvimento e valorização do trabalho e situa a eleição no confronto entre diferentes projetos para o país.
A força simbólica dessa passagem está justamente na distância entre as duas pontas da história. Em 1989, Lula subia ao palanque ao lado de João Amazonas e Renato Rabelo para tentar romper a barreira que separava a esquerda do Palácio do Planalto. Em 2026, a mesma relação chega a uma eleição na qual o passado pesa sobre o presente: as derrotas, a vitória, os governos, as crises, a prisão, a volta ao poder e quatro décadas de política brasileira fazem parte da memória que acompanha essa campanha.
Para o PCdoB, Lula deixou de ser, há muito tempo, apenas o candidato apoiado em uma eleição. Tornou-se a principal liderança de uma frente política que atravessou diferentes períodos da democracia brasileira. E o PCdoB, por sua vez, participou de governos, ocupou espaços decisivos no Estado, formulou políticas, assumiu responsabilidades e preservou sua própria concepção de Brasil e do socialismo.
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