Por que o fascismo venceu no primeiro turno

Especial

A leitura do resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 exige que os números sejam retirados da aparência e analisados pelo movimento político que o produziu. O ponto de partida é a interpretação dialética, entendida como método de apreensão da realidade em movimento, a compreensão dos fenômenos como episódios interdependentes para se estabelecer entre eles relações de determinação, contradição e transformação.

A principal interferência no processo eleitoral se deu pela usurpação da soberania popular com terrorismos ideológicos, políticos e religiosos, estruturados no esgoto das redes sociais a partir de manipulações criminosas da mídia. A regência da decisão coletiva pelo poder do dinheiro concentrado nos grandes detentores do capital, que organizam seu poder por meio da venalidade de grupos a seu serviço, transforma a democracia em mecanismo de coação e tangência de grande parte do eleitorado para as urnas com a decisão de legitimar a imposição de seus interesses.

A alienação sustenta a dominação

Em outras palavras: impõem ao povo a condição de mero produtor de valor por eles apropriados, utilizando-se do controle ideológico absoluto, alienando o trabalhador de sua condição social, uma anomalia da democracia, a negação dos direitos humanos fundamentais. Na campanha eleitoral, quando o povo é convocado a exercer a sua soberania, essa consciência de classe está embotada pelos mecanismos de coerção ideológica e alienação política.  

Nessa campanha do primeiro turno não foram poucos os episódios de interferência brutal no exercício de tomada de consciência do povo, entre eles as infâmias contra Fábio Luis, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acintosamente batizado de “Lulinha”, e a blitz de caráter fascista para executar a sentença da mídia contra o ministro Alexandre de Moraes, com a nítida intenção de subjugar o Supremo Tribunal Federal e pôr o Estado de Direito de joelhos.

A intenção da mídia, expressão do mundo financeiro, era atingir o presidente Lula e arrastá-lo para a lama na qual vive o candidato da extrema direita Flávio Bolsonaro. O método utilizado é a repetição da técnica de Joseph Goebbels, o marqueteiro de Adolf Hitler, de transformar mentiras em verdade à força da repetição e espalhar grandes invectivas dizendo supostas pequenas verdades.

A soberania popular usurpada

Considerar esse fenômeno permite que se tenha a compreensão das forças em movimento, os elos estabelecidos para formar um processo evolutivo e qualitativo. A evolução traz novos elementos e novas questões e assim surgem os ambientes políticos nos quais o povo é inserido. Quer dizer: o resultado da eleição não fala por si mesmo. A votação em Flávio Bolsonaro não traduz uma consciência política.

Compreender o problema por esse ponto de vista permite tirar lições, ensinamentos e olhar para os desafios com uma visão mais correta dos acontecimentos. O grande desafio é estabelecer contato com o povo a partir de sua realidade, condição hoje exercida pelas forças do fascismo, um fenômeno de massas. Essa compreensão é uma grande aquisição da teoria socialista.

Ela mostra como a direita entra nessa seara e faz o papel de estabelecer contato direto com o povo, se utilizando das mazelas criadas pelo capitalismo. Isso só é possível, evidentemente, à base de um sistema que corrompe valores, finalidades públicas e promove a exclusão do debate de ideias.

As formulações teóricas que tocam na essência do problema, que indicam exatamente qual é a natureza das mazelas e tragédias sociais, são banidas do conhecimento público. Portanto, não se trata simplesmente de vontades. Existe uma correlação de forças, um jogo político efetivo, estabelecido pelas realidades do sistema capitalista.

É necessário investigar as condições que antecederam o processo eleitoral, os interesses que nele se expressaram, os mecanismos pelos quais determinadas ideias alcançaram setores da sociedade e as circunstâncias que permitiram a uma força política converter descontentamentos dispersos em comportamento eleitoral. A realidade, portanto, não é uma sucessão de fatos justapostos, mas um processo no qual cada acontecimento modifica o terreno sobre o qual se desenvolvem os seguintes.

Por isso, a análise do resultado da eleição precisa ultrapassar a fotografia da apuração. Os votos são a manifestação quantitativa de uma relação de forças que possui dimensões econômicas, sociais, culturais, ideológicas e institucionais. É nesse ponto que a caracterização da extrema direita adquire sua verdadeira dimensão.

O fascismo conquista as massas

O fascismo, na formulação desenvolvida por Georgi Dimitrov no VII Congresso da Internacional Comunista, em 1935, não é compreendido como uma aberração exterior à sociedade, mas como uma forma política que se desenvolve em determinadas condições da crise do capitalismo.

Dimitrov chamou atenção para a capacidade fascista de interagir com as massas descontentes, apropriar-se de suas frustrações e apresentar-se como alternativa diante de uma ordem que perdeu capacidade de oferecer respostas. A questão decisiva, nessa formulação, não está apenas na existência de organizações fascistas, mas na relação que elas estabelecem com uma sociedade marcada por inseguranças.

Sua formulação vinha da experiência de operário tipógrafo, que entrou muito jovem na atividade sindical e política, participou da organização do movimento comunista búlgaro e, depois, integrou a direção da Internacional Comunista.

Sua trajetória ganhou dimensão internacional em 1933, quando foi preso pelo regime nazista na Alemanha e acusado de participar do incêndio do Reichstag, o parlamento alemão. No julgamento de Leipzig, transformou a própria condição de acusado em instrumento de denúncia do nazismo. Dois anos depois, em 1935, assumiria a Secretaria-Geral do Comitê Executivo da Internacional Comunista.

A Internacional Comunista, conhecida como Comintern, havia sido fundada em Moscou, em 1919, depois da Revolução Russa, com o objetivo de articular internacionalmente os partidos comunistas e coordenar a luta política do movimento operário em diferentes países. Não era simplesmente uma organização destinada à propaganda do socialismo. Funcionava como centro de elaboração estratégica de um movimento da luta de classes internacional e procurava formular respostas comuns diante das transformações do capitalismo, das guerras e das crises políticas.

O VII Congresso, realizado em Moscou entre julho e agosto de 1935, ocorreu em meio à crise econômica iniciada com a quebra da Bolsa de Valores dos Estados Unidos em 1929, mergulhando o mundo na sinistra Grande Depressão, produzindo desemprego em massa, empobrecimento e instabilidade social em vários países.

Ao mesmo tempo, o fascismo havia deixado de ser um fenômeno marginal. Benito Mussolini consolidara sua ditadura na Itália; Adolf Hitler chegara ao poder na Alemanha em 1933; o regime nazista destruía organizações operárias, perseguia comunistas e socialistas e ampliava sua política de repressão, nacionalismo extremo e preparação militar. A própria Alemanha já caminhava para a guerra que eclodiria em 1939.

Foi nesse ambiente que a formulação de Dimitrov ganhou importância. Seu ponto de partida não era a ideia de que o fascismo surgira simplesmente porque existiam grupos violentos ou movimentos políticos extremistas. A questão, para ele, era compreender por que esses movimentos conseguiam conquistar parcelas significativas da sociedade justamente em períodos de crise.

No relatório apresentado ao VII Congresso, Dimitrov retomou uma definição que havia sido formulada anteriormente pela direção da Internacional Comunista: o fascismo no poder seria uma “ditadura terrorista aberta dos elementos mais reacionários, mais chauvinistas e mais imperialistas do capital financeiro”.

A expressão “capital financeiro” refere-se ao desenvolvimento do capitalismo com o entrelaçamento profundo dos grandes capitais industriais e bancários, concentrando poder econômico e político em poucos grupos de grandes capitalistas, formulação sistematizada primeiro por Rudolf Hilferding, economista marxista alemão, e desenvolvida por Vladimir Lênin, o líder da Revolução Russa,

Dimitrov identificou, na estrutura capitalista, os setores que poderiam recorrer a formas extraordinárias de dominação política quando as instituições convencionais encontrassem dificuldades para preservar a ordem social existente. Ele salientou que o fascismo não poderia conquistar o poder apenas pela força dos setores econômicos que o apoiavam. Precisava construir uma base de massas.

A crise econômica havia atingido fortemente a pequena burguesia, os pequenos proprietários, setores médios e trabalhadores. O fascismo atuava nesse terreno apresentando-se como alternativa àquilo que essas parcelas da sociedade identificavam como fracasso das instituições tradicionais. Sua força política estava justamente na capacidade de transformar descontentamentos reais em uma opção política.

A demagogia captura o descontentamento

Em vez de explicar a crise por suas determinações econômicas e sociais, procurava identificar inimigos, culpados e ameaças: comunistas, imigrantes, minorias, organizações operárias, instituições democráticas ou outros grupos definidos como responsáveis pela decadência nacional.

Dimitrov identificou, portanto, que a demagogia fascista não funcionava simplesmente porque as massas eram enganadas. Ela funcionava porque encontrava problemas concretos sobre os quais construiu sua intervenção política. Essa é uma das partes mais sofisticadas de sua formulação.

O fascismo, nessa perspectiva, não cria necessariamente do nada o descontentamento social de que se alimenta. Ele se apropria de contradições existentes, organiza-as politicamente e elabora uma explicação própria. A pequena burguesia arruinada, por exemplo, podia ser mobilizada contra o movimento operário; trabalhadores atingidos pelo desemprego podiam ser conduzidos contra outros trabalhadores ou contra grupos apresentados como inimigos da nação. A indignação contra a crise podia ser convertida em ressentimento político.

É por isso que Dimitrov dedicou uma parte importante de seu relatório à pergunta: “Que proporciona às massas o fascismo vitorioso?” A questão explica como a existência dos aparelhos fascistas atua na sociedade, utilizando-se de uma linguagem capaz de atingir pessoas que não compartilham necessariamente de sua ideologia original.

Há, então, uma questão central na teoria de Dimitrov: o fascismo possui uma determinada função de classe, mas precisa construir uma política de massas para desempenhá-la. Essas duas dimensões não são contraditórias. São complementares.

É justamente essa combinação que torna insuficiente definir fascismo apenas como autoritarismo, violência, nacionalismo ou extremismo. Esses elementos podem aparecer em diferentes regimes e movimentos. Na formulação de Dimitrov, o fascismo precisa ser compreendido pela articulação entre crise capitalista, luta de classes, interesses dos setores dominantes, mobilização de massas, demagogia social, nacionalismo exacerbado, destruição das organizações populares e concentração autoritária do poder.

A política do ressentimento

Outro aspecto importante é que Dimitrov não tratava a ascensão fascista como um processo inevitável. Para ele, a própria vitória do fascismo revelava simultaneamente uma crise das classes dominantes e uma insuficiência de forças populares para construir uma resposta ampla e efetiva à crise. A análise se desdobrava, por isso, na defesa da unidade de ação entre organizações operárias e na formação de uma frente popular antifascista.

Para Dimitrov, dizer que o fascismo é brutal, autoritário ou antidemocrático descreve suas características, mas não explica como ele se torna uma força histórica capaz de conquistar massas e chegar ao controle do Estado. A explicação exige investigar simultaneamente a crise que abre o espaço político, os interesses sociais que sustentam sua ascensão e os mecanismos pelos quais uma organização política transforma insatisfações dispersas em adesão coletiva.

Essa interpretação permite compreender por que o descontentamento social não conduz automaticamente à esquerda. A insatisfação é uma matéria política aberta à disputa. Pode ser organizada por projetos antagônicos, dependendo de correlações de forças políticas que conferem sentido às experiências concretas vividas pela população.

A religião entra na disputa

Na contemporaneidade, um fator determinante para essa correlação de forças tendente ao fascismo é a ascensão vertiginosa do evangelicalismo anticomunista, um fenômeno típico das mazelas do capitalismo, que atingem, por diferentes aspectos, toda a sociedade, fenômeno formulado por Karl Marx como expressão de uma realidade social concreta.

Em sua crítica à filosofia do direito de Hegel, Marx afirmou que “o homem faz a religião, a religião não faz o homem”. E definiu a religião como “o ópio do povo”, uma forma de consciência que transforma o sofrimento real em consolação espiritual e pode deslocar para uma esfera transcendente a busca por respostas para contradições produzidas na vida material.

A religião aparece, assim, simultaneamente como expressão da dor dos oprimidos e como possibilidade de acomodação diante dela: o sofrimento terreno encontra compensação numa promessa de redenção, enquanto as causas sociais desse sofrimento permanecem ocultas.

Nessa perspectiva, a ideia de religião como instrumento de opressão social não nega a experiência espiritual, mas conduz à crítica das condições materiais que tornam necessária essa forma de mitigação das causas das mazelas sociais. Para Marx, compreender a religião exige deslocar a análise do plano exclusivamente espiritual para as relações sociais concretas que a produzem e nas quais ela pode adquirir também uma função de legitimação, conformismo e alienação.

O evangelicalismo anticomunista da CIA

Esse conceito fica explícito quando essa condição religiosa é utilizada para finalidades políticas. Na América Latina esse recurso é abertamente proclamado e amplamente utilizado. Ele assumiu contornos definidos durante a Guerra Fria. As transformações no catolicismo, sobretudo após o Concílio Vaticano II e a Conferência de Medellín, aproximaram setores da Igreja de questões sociais como a pobreza, a reforma agrária, a democracia e os direitos trabalhistas.

A presença crescente de religiosos de diferentes matizes – sobretudo de organizações católicas ligadas à Teologia da Libertação e à Doutrina Social da Igreja – nesse terreno despertou a atenção do regime dos Estados Unidos. Em 12 de julho de 1969, um documento secreto do Conselho de Segurança Nacional determinou a realização de um estudo sobre a Igreja Católica na América Latina, país por país, abrangendo sua estrutura, seu papel social, suas tendências e principais lideranças, além da atuação de clérigos estrangeiros, grupos não católicos e missionários.

A determinação resultara de uma reunião do National Security Council (NSC), realizada três dias antes, na qual o presidente Richard Nixon ordenara à Central Intelligence Agency (CIA) a elaboração de um relatório sobre o assunto. A iniciativa inseria-se numa avaliação mais ampla das transformações políticas e sociais latino-americanas e do lugar ocupado pelas instituições religiosas.

A atenção dedicada à religião correspondia a uma estrutura de acompanhamento da América Latina que Washington vinha ampliando desde o início dos anos 1960, mediante diplomacia, assistência econômica, treinamento policial, cooperação militar, propaganda e inteligência. A United States Agency for International Development (USAID), criada em 1961, constituía a face ostensiva desse aparato, com programas nas áreas de educação, agricultura, saúde, habitação, infraestrutura, pesquisa científica, formação de mercados e segurança pública.

O governo norte-americano já possuía uma estrutura internacional para acompanhar instituições, formar quadros, financiar programas, estabelecer vínculos e produzir informação. Com base nela, Nixon designou Nelson Rockefeller, então governador de Nova Iorque, para examinar o papel político da Igreja durante sua missão pela América Latina em 1969.

O Relatório Rockefeller identificou a Igreja Católica como uma força emergente de transformação social e política, enquanto a CIA relatou que setores progressistas atuavam em organizações de esquerda. Paralelamente, o protestantismo já experimentava forte expansão e possuía redes missionárias norte-americanas articuladas em diferentes países da região, semeando a relação entre religião e política de extrema direita.

A direita ocupa o terreno popular

A técnica consiste em transformar supostos valores religiosos em instrumentos de mobilização política, utilizando temas associados à família, aos costumes, à sexualidade, à educação e à autoridade moral, criando uma linguagem que estabelece contato imediato com parcelas significativas da população.

O fenômeno não decorre da religião em si, nem permite generalizar o comportamento de comunidades religiosas. Trata-se da utilização política de determinados códigos religiosos por organizações, lideranças e grupos que procuram conferir caráter moral a conflitos que possuem dimensões econômicas e sociais. Ou seja: a utilização de conceitos fascistas mascarados de religiosos.

Essa técnica se utiliza da carga secular do anticomunismo para fomentar fundamentalismo político com proclamações supostamente religiosas. O ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, é, atualmente, o símbolo mais evidente desse comportamento.

A política deixa de aparecer como gestão de projetos sociais para ser apresentada como combate entre o bem e o mal, entre a pureza e a corrupção, entre os que supostamente defendem a família e os que seriam responsáveis por sua destruição. É um golpe sujo, desumano, movido por interesses escusos e destinado a manter o povo como rebanho de currais eleitorais.

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