Se debate presidencial fosse prova oral, Flávio Bolsonaro teria passado boa parte da noite pedindo para o professor repetir a pergunta. Não porque não tivesse ouvido, mas porque parecia acreditar que, se falasse suficientemente alto sobre outro assunto, a questão original desapareceria por encanto. Foi o que aconteceu no debate da Band na noite de 18 de outubro, onde ele esteve acompanhado de um bando bolsonarista e lavajatista.
Lula perguntava sobre um problema concreto. Flávio respondia com uma acusação contra o filho do presidente. Lula insistia. Flávio atacava o governo. Lula voltava à pergunta. Flávio encontrava outra saída. A certa altura, o debate da Band parecia menos uma disputa pela Presidência da República do que uma reunião de pais convocada pela escola para explicar por que o aluno mais levado da turma não fazia a lição de casa. Só faltou Flávio dizer que a culpa era do colega da carteira ao lado.
A arte de responder sem explicar
O caso do financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, foi o melhor exemplo da noite. Lula perguntou repetidamente o que havia acontecido com os R$ 134 milhões negociados com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para o projeto cinematográfico. Segundo o levantamento do Brasil de Fato, a pergunta apareceu pelo menos sete vezes.
Flávio respondeu que o dinheiro se destinava ao filme, mas não esclareceu o percurso dos recursos nem os detalhes cobrados pelo presidente. Em determinado momento, afirmou que já havia explicado o assunto e que explicaria quantas vezes fosse necessário. A dificuldade é que repetir a promessa de explicar não equivale a apresentar a explicação.
É como perguntar a alguém onde foi parar o dinheiro do condomínio e ouvir, em resposta, uma palestra sobre a importância de pagar as contas em dia. O discurso pode até ser bonito. O extrato bancário continua faltando.
A ironia ficou ainda mais evidente quando Lula voltou à carga, enquanto Flávio preferia deslocar a conversa para outros assuntos. O presidente queria saber o destino do dinheiro; o senador parecia querer discutir qualquer coisa, desde que não fosse exatamente aquilo.
O debate acabou transformado numa espécie de show do milhão ao contrário: em vez de descobrir quem merece levar o prêmio, o público tentava descobrir quem explicaria a história dos milhões. E o filme? Esse já tem título. A prestação de contas é que continua precisando de roteiro.
A licença-maternidade e volta olímpica
Lula também questionou o voto de Flávio Bolsonaro, em 2009, contra a ampliação da licença-maternidade das funcionárias da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Segundo o presidente, o senador, então deputado estadual, foi o único dos 49 parlamentares a votar contra a medida. A pergunta era direta: por que votar contra a ampliação de um direito das trabalhadoras?
Flávio respondeu que não tinha nada contra as mulheres, mencionou a esposa e as filhas e desviou a conversa para Roberta Luchsinger, ligada a investigações que envolvem o filho do presidente. Lula precisou insistir para lembrar que a pergunta não era sobre a família dele, mas sobre o voto do próprio senador.
A cena mereceria entrar para um manual de técnicas de fuga. Pergunta-se sobre licença-maternidade; responde-se sobre a família adversária. Pergunta-se novamente sobre licença-maternidade; aparece outra acusação. O assunto original, coitado, fica esperando sozinho no corredor.
É uma modalidade curiosa de debate: o candidato não precisa demonstrar que está certo sobre o tema. Basta tentar convencer a plateia de que o adversário também tem problemas. Mas há um detalhe que nem a mais criativa das piruetas retóricas consegue apagar: a pergunta sobre o voto continuou sem resposta direta.
Milei, a motosserra e o tesouraço cruel
Outro momento saboroso veio quando Lula perguntou se Flávio Bolsonaro adotaria como referência o presidente argentino Javier Milei, conhecido pela política de cortes e pela motosserra transformada em símbolo de sua agenda econômica.
Lula chegou a perguntar se o adversário pegaria emprestada a motosserra de Milei. Flávio preferiu falar de corrupção, de governos estrangeiros e de uma suposta necessidade de consertar o que a esquerda teria deixado para trás. Prometeu um “tesouraço na corrupção”, mas não respondeu claramente se seguiria o modelo argentino.
É uma solução engenhosa: quando perguntam sobre a motosserra, apresenta-se uma tesoura. Quando perguntam sobre o modelo econômico, promete-se cortar a corrupção. Quando chega a hora de explicar quais despesas serão cortadas, de que maneira e com quais consequências para a população, o espetáculo precisa de outro ato.
A motosserra, pelo menos, tem uma vantagem sobre o discurso eleitoral: faz barulho, mas ninguém precisa adivinhar para que serve. A política econômica, entretanto, não funciona à base de adereços. O eleitor precisa saber se o candidato pretende reduzir gastos com políticas sociais, alterar direitos, rever investimentos ou mudar a estrutura tributária.
Dizer que vai cortar privilégios é fácil. Difícil é apresentar a lista, os critérios e a conta. No debate, o tesouraço parecia ter um alvo muito bem definido — o governo Lula —, mas um endereço bastante impreciso quando se tratava de explicar o programa de Flávio.
O policial, a criança e a pergunta que não queria desaparecer
Lula também questionou a atuação de Flávio em favor de um policial que matou uma criança de cinco anos com um tiro de fuzil. O presidente perguntou por que o senador havia interferido para evitar a prisão do agente. Flávio respondeu com uma provocação sobre o percentual de presos que, segundo ele, teriam votado em Lula. Em seguida, argumentou que o presidente não poderia criminalizar a advocacia e lembrou que o policial não havia sido julgado.
Observe-se a manobra: a pergunta era sobre a atuação do senador em um caso concreto. A resposta passou a tratar do comportamento de Lula e de uma discussão geral sobre advocacia e processo penal. O debate público exige distinguir coisas diferentes. Defender o direito de defesa é uma garantia fundamental; explicar uma intervenção política em um caso específico é outra obrigação. Uma coisa não elimina a outra.
A pergunta continuou ali, sem que o senador esclarecesse diretamente o ponto central levantado por Lula. E a criança, que deveria estar no centro de uma discussão séria sobre segurança pública, acabou servindo de passagem para uma provocação diversionista. Não é pouca coisa. Segurança pública não é concurso de frases de efeito. É assunto de vida ou morte, que exige dados, responsabilidades e políticas capazes de evitar novas tragédias.
A mansão, o suor do trabalho e a calculadora desaparecida
A compra de imóveis também entrou no debate. Lula questionou o patrimônio imobiliário de Flávio e mencionou uma casa que avaliou em R$ 10 milhões, perguntando como o senador havia conseguido comprá-la com o salário parlamentar. Flávio respondeu invocando o suor do próprio trabalho e voltou a atacar o filho do presidente. A calculadora, mais uma vez, ficou sem o papel principal.
Houve ainda a cena em que Flávio pediu que Lula se aproximasse. O presidente respondeu: “Quero distância de miliciano”. Flávio tentava imprimir ao encontro um clima de intimidação, como se ocupar o espaço e provocar o adversário fossem demonstrações suficientes de autoridade. Lula devolveu a provocação sem aceitar a encenação nos termos propostos.
É o velho truque do valentão de recreio: chegar perto, fazer cara feia e esperar que o outro recue. Só que a Presidência da República não é uma disputa para saber quem consegue encarar o colega por mais tempo. Um presidente precisa negociar com outros países, administrar crises, conduzir políticas públicas, enfrentar conflitos institucionais e explicar decisões à sociedade. Não basta fazer pose de quem manda. É preciso demonstrar capacidade de governar.
O estúdio da Band não era um ringue, e a eleição não escolhe o campeão de encaradas. O eleitor precisa avaliar propostas, resultados, responsabilidades e a disposição de cada candidato para responder pelo que fez e pelo que pretende fazer.
O desafio dos sigilos: a hora em que a brincadeira ficou séria
Na parte final do debate, Lula propôs que os dois abrissem os sigilos bancário e telefônico das respectivas famílias, com entrega dos dados às autoridades antes da votação. O senador miliciano, tão disposto a exigir explicações do adversário, não deu uma resposta igualmente clara quando Lula propôs uma medida concreta de transparência.
É fácil pedir que o outro abra as gavetas. Mais difícil é aceitar que a mesma régua seja aplicada a todos.
Naturalmente, a abertura de dados bancários e telefônicos precisa observar os limites legais, a proteção de terceiros e os procedimentos adequados. Mas o desafio político estava lançado: se ambos afirmavam não ter nada a esconder, por que não discutir seriamente uma forma juridicamente válida de esclarecer as dúvidas?
O episódio mostrou a diferença entre declarar inocência diante das câmeras e assumir um compromisso verificável de transparência. O problema central foi a distância entre a pose de quem pretende comandar o país e a dificuldade de responder a perguntas específicas sobre as próprias decisões, propostas e relações.
Quando Lula perguntou sobre a licença-maternidade, veio a família do presidente. Quando perguntou sobre Milei, vieram acusações contra governos estrangeiros. Quando questionou o destino dos recursos negociados para Dark Horse, o debate ganhou novas voltas. Quando propôs a abertura de sigilos, recebeu uma declaração de que não havia nada a esconder, mas não um compromisso claro nos termos propostos.
É uma técnica que pode funcionar num bate-boca de rede social. Na disputa pela Presidência, porém, deixa um problema elementar: se o candidato não responde às perguntas que lhe fazem, como o eleitor poderá avaliar as respostas que dará aos problemas do país?
Se a eleição fosse decidida pelo número de provocações, Flávio poderia reivindicar um troféu. Mas o Brasil não precisa de um campeão de pirraça. Precisa de um presidente capaz de apresentar propostas, sustentar argumentos e responder pelo que faz.
E fica a pergunta que nenhuma careta patética, nenhuma careta e nenhuma volta retórica conseguem resolver: se Flávio Bolsonaro quer sentar na cadeira de presidente, não seria hora de parar de brincar de candidato e começar a responder como gente grande?
A “mão grande” de Flávio em Angra
Flávio parecia empenhado em transformar o debate num recreio: caretas atrás de Lula, provocações, acusações e respostas que frequentemente mudavam de assunto. Agora, o recreio ganhou cenário de novela: uma mansão em Angra, uma disputa de posse, R$ 10 milhões alegados pelo jogador e um advogado que lançou um desafio documental. Se fosse ficção, o roteirista seria acusado de exagero. Como é uma controvérsia real, o roteiro precisa ser conferido nos autos.
Eis que, quando o debate da Band já parecia uma excursão pelo jardim de infância da política, entrou em cena um personagem inesperado: Richarlison, atacante do Tottenham, com uma história de R$ 10 milhões, uma mansão em Angra dos Reis e uma disputa judicial que acrescentou um capítulo nada trivial à conversa sobre patrimônio e transparência.
Em vídeo publicado em 17 de outubro, o jogador acusou Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz de terem tomado, segundo suas palavras, o imóvel “na mão grande”. Richarlison afirma que investiu cerca de R$ 10 milhões na aquisição de direitos sobre a propriedade entre 2020 e 2021, em sociedade com Alencar da Silveira Júnior e Renato Velasco. Diz que recebeu uma proposta de Flávio, não quis vender e depois perdeu a posse do imóvel em meio à disputa judicial.
Flávio quer discutir quem tem culpa no cartório, mas a conversa sobre patrimônio acabou chegando até uma ilha. No debate, Lula cobrava explicações; em Angra, Richarlison cobra documentos e diz que quer a intervenção da Polícia Federal. A diferença entre as duas cenas é que, na primeira, havia microfones e mediadores; na segunda, há um processo judicial.
