A cidade de Washington, capital dos Estados Unidos, amanheceu em 24 de setembro de 2026 revestida do aparato reservado às grandes visitas de Estado. Bandeiras norte-americanas e chinesas ladeavam a Casa Branca, a banda militar executou os hinos nacionais dos dois países, e Donald Trump recebeu Xi Jinping acompanhado de Melania Trump, primeira-dama dos Estados Unidos.
Depois da cerimônia, os dois presidentes seguiram para o Salão Oval, onde comércio, Inteligência Artificial (IA), segurança, Taiwan, Oriente Médio, Ucrânia e Península Coreana entraram na conversa. O encontro ocorreu quando a relação entre Washington e Pequim atravessa uma fase de competição administrada, marcada pela trégua tarifária, pela disputa tecnológica e pela tentativa de impedir que as divergências estratégicas resultassem em confronto.
Xi chegou à capital norte-americana levando uma concepção definida sobre o futuro da relação bilateral. Em sua declaração pública, defendeu comunicação permanente, cooperação, coexistência pacífica e uma competição mantida dentro de limites, retomando a ideia de que a chamada Armadilha de Tucídides — o risco de conflito entre uma potência estabelecida e uma potência ascendente — não constitua destino inevitável. O presidente chinês associou essa estabilidade à ampliação dos contatos entre diplomatas, autoridades econômicas e financeiras, órgãos de segurança e forças armadas, com mecanismos destinados a prevenir crises.
Trump recebeu Xi com uma linguagem igualmente conciliatória. Recordou a relação pessoal construída entre os dois e apresentou comércio, segurança, IA e tecnologia como os grandes campos da conversa. A cordialidade pública não eliminou a substância áspera das negociações: de um lado estavam as reivindicações norte-americanas sobre comércio, compras agrícolas, minerais críticos e tecnologia; de outro, a defesa chinesa de seus interesses econômicos, de suas empresas e de sua soberania, sobretudo em Taiwan.
O comércio produziu o resultado concreto mais imediato. A trégua estabelecida anteriormente foi prorrogada por dois meses, até 10 de janeiro de 2027, prolongando o intervalo em que permanecem suspensas as tarifas mais elevadas e permitindo novas negociações.
O secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, informou que os dois lados poderiam continuar com o arranjo existente ou trabalhar em um acordo mais amplo; a parte chinesa informou que as conversas trataram da implementação dos entendimentos anteriores, de reduções tarifárias recíprocas, da criação de conselhos de comércio e investimento e da extensão do acordo conjunto alcançado em Kuala Lumpur, em outubro de 2025, quando os dois países estabeleceram uma trégua comercial e acordaram reduções recíprocas de tarifas e outras medidas de descompressão das tensões comerciais.
A China acrescentou uma informação de alcance maior: Xi afirmou que as consultas econômicas haviam produzido uma nova disposição conjunta e novos resultados. Os termos completos desse novo arranjo, contudo, não foram publicados, de modo que o resultado comercial efetivamente documentado continua sendo a extensão da trégua, enquanto compras agrícolas, tarifas, investimentos, terras raras e controles tecnológicos permanecem nas negociações. Os Estados Unidos informaram que a China vinha cumprindo a meta de comprar 25 milhões de toneladas de soja norte-americana, mas permanecia abaixo do compromisso de adquirir US$ 17 bilhões em outros produtos agrícolas.
As terras raras permaneceram no centro desse embate econômico. A China conserva posição dominante em segmentos decisivos da mineração, separação, processamento e fabricação de materiais magnéticos derivados desses minerais, enquanto Washington procura ampliar a produção doméstica e diversificar fornecedores. Não houve anúncio público de um novo acordo específico sobre terras raras durante a reunião, e autoridades norte-americanas continuaram apontando atrasos nas entregas chinesas. Para Pequim, a questão integra sua soberania sobre recursos e cadeias industriais; para Washington, constitui uma vulnerabilidade estratégica que precisa ser reduzida.
A IA ocupou outro espaço decisivo. Xi afirmou que China e Estados Unidos são líderes no setor e possuem capacidade e responsabilidade para desenvolver e administrar a IA de maneira benéfica à sociedade, mantendo seu desenvolvimento sob controle humano. Defendeu diálogo sobre riscos e benefícios, prevenção do uso abusivo da tecnologia e cooperação entre os dois países. Trump também associou a IA ao futuro da humanidade, enquanto os dois governos mantiveram abertas as conversas sobre segurança tecnológica e riscos de sistemas avançados.
A posição chinesa incluiu na reunião uma dimensão de governança que ultrapassa a disputa pela liderança tecnológica. Pequim procura evitar que IA, semicondutores, computação avançada e infraestrutura de dados sejam transformados exclusivamente em instrumentos de contenção estratégica. Washington, por sua vez, mantém restrições ao acesso chinês a determinadas tecnologias e procura preservar sua vantagem nos setores considerados decisivos. A reunião estabeleceu continuidade do diálogo, mas não produziu um tratado bilateral de governança da IA.
Taiwan constituiu o ponto político mais sensível. Segundo o relato chinês da conversa privada, Xi pediu a Trump que os Estados Unidos mantivessem oposição à independência de Taiwan e tratassem a questão com prudência, reiterando que a defesa da unidade nacional e da integridade territorial chinesas representa uma posição central de Pequim. Não houve anúncio de mudança da política norte-americana em resposta à solicitação. No dia seguinte, o governo de Taiwan contestou a caracterização chinesa e afirmou que seu futuro deve ser decidido pela população da ilha.
O Irã também ultrapassou o terreno da expectativa e entrou na conversa efetiva. Segundo o relato divulgado pela parte chinesa, Xi defendeu o retorno de Washington e Teerã ao diálogo e às negociações e manifestou apoio à retomada do entendimento que havia permitido um cessar-fogo e a reabertura do Estreito de Ormuz ao transporte comercial. Não foi anunciado, entretanto, nenhum acordo sino-norte-americano específico sobre o Irã, nem uma mudança da política norte-americana em relação à guerra de Trump.
Trump e Xi também trocaram opiniões sobre a guerra na Ucrânia e a situação da Península Coreana. O relato chinês registra esses temas entre os assuntos discutidos, mas não apresenta compromisso específico resultante da conversa. Os dois governos concordaram ainda em apoiar mutuamente as reuniões de líderes da APEC, fórum de cooperação econômica da Ásia-Pacífico, e a cúpula do G20, grupo que reúne as principais economias desenvolvidas e emergentes, em 2026, incorporando a cooperação multilateral à tentativa de estabilizar a relação bilateral.
Xi anunciou, além disso, medidas destinadas a aproximar as sociedades dos dois países. A China convidará 100 mil jovens norte-americanos para intercâmbios e estudos nos cinco anos seguintes e pretende ampliar os voos diretos entre os dois países.
O presidente chinês também anunciou a chegada de dois pandas, Ping Ping e Fu Shuang, ao Zoológico de Atlanta e recordou a cooperação entre chineses e norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial contra a agressão japonesa. Na mesma cerimônia, Trump evocou os Flying Tigers, os pilotos voluntários americanos que combateram o Japão ao lado dos chineses na Segunda Guerra Mundial, e a expressão chinesa que deu origem ao termo inglês gung-ho, associada à ideia de trabalhar em conjunto.
A fotografia diplomática de Washington, portanto, mostrou cordialidade, mas o conteúdo da reunião revelou uma relação atravessada por interesses incompatíveis e por mecanismos de contenção recíproca. O comércio ganhou prazo adicional; a IA ganhou um canal político; Taiwan foi colocado diretamente diante dos dois presidentes; Irã, Oriente Médio, Ucrânia e Península Coreana entraram no circuito presidencial; e as terras raras permaneceram vinculadas à negociação econômica. A estabilidade procurada por Pequim não significou o desaparecimento da competição, mas sua tentativa de mantê-la dentro de parâmetros administráveis.
Japão rompe limites do pós-guerra
Para compreender a posição chinesa, é necessário deslocar o olhar de Washington para o Japão. Na leitura de Pequim, a transformação da política militar japonesa não constitui fenômeno isolado, mas parte de uma reconfiguração estratégica que envolve Estados Unidos, Taiwan, Filipinas, Austrália e a própria arquitetura de segurança do Indo-Pacífico. A memória da invasão japonesa da China e da guerra na Ásia permanece incorporada à posição da China sobre os limites estabelecidos depois de 1945.
O Livro Branco de Defesa japonês de 2026 identifica a China como o maior desafio estratégico do país e descreve a ampliação das capacidades militares chinesas, as atividades em torno das ilhas Senkaku — Diaoyu para Pequim —, a pressão sobre Taiwan e a expansão da presença chinesa no Pacífico como fatores centrais da política de defesa japonesa. O documento japonês apresenta essas mudanças como resposta ao ambiente de segurança regional e à evolução das capacidades militares chinesas.
O Japão elevou seus gastos militares a aproximadamente 2% do PIB e desenvolve capacidades de longo alcance, classificadas pelo Ministério da Defesa como stand-off defense. A arquitetura inclui mísseis capazes de atingir alvos a grandes distâncias, sistemas não tripulados, modernização naval, IA e uma capacidade de contra-ataque prevista na nova concepção japonesa de defesa. O governo de Tóquio enquadra essas medidas na necessidade de ampliar sua capacidade de dissuasão e defesa.
Pequim acompanha essa transformação por outra lente. Em junho, o Ministério das Relações Exteriores chinês afirmou que o orçamento militar japonês havia superado 9 trilhões de ienes, alcançado recordes durante 14 anos consecutivos desde a Segunda Guerra Mundial e chegado a aproximadamente 2% do PIB, com planos de crescimento adicional. A diplomacia chinesa também destacou a implantação de mísseis intermediários e de longo alcance, a flexibilização das restrições à exportação de armas letais, a revisão dos documentos de segurança e a cooperação militar japonesa com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Em agosto, Pequim reagiu novamente ao Livro Branco japonês e rejeitou a caracterização da China como ameaça. O Ministério das Relações Exteriores afirmou que a política de defesa chinesa possui natureza defensiva e acusou o Japão de acelerar a remilitarização, ultrapassar as restrições constitucionais e jurídicas do pós-guerra e desafiar a ordem internacional construída depois de 1945. A declaração chinesa também vinculou a atual política japonesa à memória do militarismo que provocou guerras e sofrimento em grande parte da Ásia.
A posição chinesa ganhou, assim, uma dimensão simultaneamente histórica, jurídica e estratégica. Pequim invoca a Declaração do Cairo, de 1943, na qual Estados Unidos, Reino Unido e China estabeleceram que Taiwan e outros territórios tomados pela força pelo Japão deveriam ser devolvidos à China; a Proclamação de Potsdam, de 1945, que determinou o cumprimento dos termos do Cairo e limitou a soberania japonesa às principais ilhas do arquipélago; e o instrumento japonês de rendição, pelo qual Tóquio aceitou formalmente os termos de Potsdam.
A partir dessa sequência documental, a diplomacia chinesa afirma que o Japão assumiu compromissos específicos no encerramento da Segunda Guerra Mundial. Quando Tóquio amplia suas capacidades de ataque a longa distância e aprofunda sua cooperação militar com organizações e países externos à Ásia, Pequim interpreta esses movimentos como afastamento progressivo das limitações políticas e estratégicas associadas à ordem estabelecida no pós-guerra.
Taiwan converte geografia em estratégia
A proximidade entre Taiwan e as ilhas japonesas do Sudoeste transformou a questão da ilha em componente central do planejamento militar japonês. Tóquio considera qualquer crise no estreito relevante para sua própria segurança; Pequim considera essa incorporação uma internacionalização de uma questão que define como assunto interno chinês. A aproximação entre Japão, Estados Unidos e Taiwan, vista de Pequim, acrescenta uma dimensão militar a uma disputa que a China pretende resolver dentro do princípio de soberania nacional.
O Livro Branco japonês registra que, segundo dados do Ministério da Defesa de Taiwan, as incursões de aeronaves militares chinesas na zona de Taiwan passaram de mais de 970 em 2021 para mais de 3.700 em 2025. O documento também aponta o crescimento da presença naval chinesa nas águas ao redor da ilha. Para o governo chinês, essas atividades militares respondem àquilo que denomina movimentos separatistas e interferência externa; para Japão, Taiwan e Estados Unidos, constituem sinais de pressão militar crescente.
Taiwan anunciou para 2027 um orçamento de defesa superior a 1 trilhão de dólares taiwaneses, cerca de US$ 31,47 bilhões, justificando o aumento pela necessidade de fortalecer sua capacidade de autodefesa. Pequim reagiu classificando a política como provocação e denunciando o que considera desperdício de recursos em uma estratégia de confronto. A questão passou a integrar, desse modo, o mesmo circuito em que o fortalecimento militar japonês, a presença norte-americana e a modernização militar chinesa se retroalimentam.
O Mar do Sul amplia a tensão
Ao sul de Taiwan, o Mar do Sul da China concentra outra camada da disputa. China, Filipinas, Vietnã, Malásia, Brunei e Taiwan mantêm reivindicações ou interesses sobre diferentes áreas, enquanto os Estados Unidos não reivindicam territórios, mas realizam operações navais e exercícios militares sob a justificativa de preservar a liberdade de navegação. Para Pequim, a crescente presença militar de potências externas introduz um elemento de instabilidade em uma região que deveria ser administrada pelos países diretamente envolvidos.
A participação japonesa ampliou a dimensão estratégica desse espaço. Exercícios com as Filipinas, cooperação militar e coordenação com Washington são interpretados por Pequim como componentes de uma arquitetura que amplia o número de países envolvidos na contenção da China. As rotas marítimas que atravessam o Mar do Sul conectam os centros industriais asiáticos ao Oriente Médio, à Europa e à África, fazendo da região simultaneamente uma passagem comercial, um corredor energético e uma área de importância militar.
A diplomacia chinesa sustenta que suas reivindicações possuem fundamentos históricos e jurídicos e contesta a presença de forças externas como instrumento de estabilização. Filipinas, Estados Unidos e outros governos apresentam a questão por meio do direito marítimo, da liberdade de navegação e da defesa da ordem regional. A divergência sobre o significado estratégico dessas águas tornou-se parte de uma disputa muito maior sobre quem define as regras de segurança do Indo-Pacífico.
Duas leituras sobre a China
A expressão “ameaça chinesa” adquire significados diferentes conforme o país que a emprega. O Japão e os Estados Unidos associam o conceito à modernização nuclear, naval, aérea e missilística chinesa, às atividades em torno de Taiwan, às disputas marítimas e à expansão das capacidades tecnológicas. O Livro Branco japonês de 2026 estima que o arsenal nuclear chinês já superava 600 ogivas em 2024 e reproduz a avaliação de que poderia ultrapassar mil até 2030.
Pequim não contesta que tenha ampliado suas capacidades militares. Contesta a interpretação de que essa expansão constitua, por si mesma, evidência de uma estratégia ofensiva. O governo chinês apresenta sua modernização militar como instrumento de defesa territorial, proteção da soberania e resposta a um ambiente em que os Estados Unidos mantêm uma ampla rede de alianças, bases e capacidades militares ao redor da China.
Essa diferença de interpretação é essencial para compreender a dinâmica asiática. Japão e Estados Unidos veem o crescimento chinês como razão para fortalecer alianças e capacidades de dissuasão; Pequim interpreta o fortalecimento dessas alianças como confirmação da necessidade de ampliar sua segurança. O resultado é uma espiral estratégica na qual cada lado apresenta suas próprias medidas como resposta às medidas do outro.
Ásia entre comércio e contenção
A singularidade do Indo-Pacífico está na coexistência entre dependência econômica e preocupação militar. Indonésia, Malásia, Vietnã, Filipinas, Tailândia e outros países mantêm relações comerciais profundas com a China, ao mesmo tempo em que desenvolvem vínculos econômicos, políticos ou militares com Estados Unidos, Japão, Austrália, Coreia do Sul e Europa.
As pesquisas de opinião refletem essa ambivalência. O Pew Research Center, organização de pesquisa e análise de opinião pública sediada nos Estados Unidos, entrevistou 45.658 pessoas em 37 países em 2026 e encontrou uma média global de 51% de avaliações favoráveis à China, contra 39% desfavoráveis, com avaliações mais positivas na África Subsaariana e na América Latina e percepções mais negativas em diversos países europeus e do Leste Asiático. No Japão, apenas 11% dos entrevistados manifestaram opinião favorável à China, enquanto no Paquistão a proporção chegou a 90%.
A geografia ajuda a explicar a diferença. Nos países diretamente envolvidos nas disputas territoriais e militares, a China aparece sobretudo como questão de segurança; nos países cuja relação com Pequim se estrutura principalmente pelo comércio, investimento, infraestrutura e financiamento, a dimensão econômica ocupa posição mais proeminente. A percepção internacional da China, portanto, não forma um bloco uniforme, mas acompanha interesses, experiências históricas e posições geográficas distintas.
África encontra China
Na África, a presença chinesa assumiu uma fisionomia predominantemente econômica. Estradas, ferrovias, portos, usinas, telecomunicações, mineração, agricultura, energia e comércio constituem os principais canais dessa relação. Pequim enquadra essa política na cooperação Sul-Sul e no Fórum de Cooperação China-África, procurando apresentar sua presença como parceria entre países em desenvolvimento.
Em agosto, China e República do Congo discutiram a ampliação da política chinesa de tarifa zero, além de agricultura, saúde, economia digital, IA e desenvolvimento verde. A agenda revela a extensão da relação para além das matérias-primas e das grandes obras de infraestrutura, incorporando tecnologia e serviços públicos à cooperação bilateral.
As telecomunicações acrescentaram uma dimensão estratégica. A Huawei, empresa chinesa de tecnologia especializada em equipamentos e infraestrutura de telecomunicações, participou da construção de redes africanas, enquanto Washington passou a financiar alternativas destinadas a reduzir a presença de fornecedores chineses. Para os Estados Unidos, a questão envolve segurança das redes e dependência tecnológica; para Pequim, as restrições impostas às empresas chinesas representam tentativa de impedir que a tecnologia chinesa participe do desenvolvimento africano.
América Latina entra pelos recursos
Na América Latina, a expansão chinesa ocorreu inicialmente pelo comércio e posteriormente alcançou infraestrutura, energia, mineração, telecomunicações, veículos elétricos e tecnologia. Soja, petróleo, minério de ferro, cobre, lítio, alimentos e outros produtos conectaram as economias latino-americanas ao mercado chinês, enquanto investimentos chineses ampliaram sua presença em setores considerados estratégicos.
As terras raras e os minerais críticos acrescentaram outra dimensão. Esses recursos são necessários à indústria de defesa, veículos elétricos, eletrônica avançada e transição energética, e a China ocupa posições dominantes em diferentes segmentos dessas cadeias, sobretudo no processamento. Para Washington, a concentração cria vulnerabilidade estratégica; para Pequim, a tentativa de excluir empresas chinesas dessas cadeias representa contenção econômica.
Os países latino-americanos mantêm, em grande parte, relações simultâneas com China, Estados Unidos e Europa. Na pesquisa do Pew Research Center, organização de pesquisa e análise de opinião pública sediada nos Estados Unidos, realizada em 2025, a China figurou entre os três países mais citados como principais aliados em todos os países latino-americanos pesquisados; no Brasil e no México, aproximadamente um quarto dos entrevistados apontou a China, atrás dos Estados Unidos. O levantamento de 2026 registrou ainda que, em vários países de renda média, a China passou a ser considerada uma parceira confiável por parcelas expressivas da população.
Europa entre mercado e segurança
Na Europa, a relação sino-europeia assumiu uma configuração própria. A China é simultaneamente grande mercado, fornecedor industrial e concorrente tecnológico, enquanto a União Europeia procura reduzir vulnerabilidades em setores considerados estratégicos sem romper a interdependência econômica. Veículos elétricos, baterias, painéis solares, semicondutores, matérias-primas e equipamentos industriais passaram a ser discutidos também como questões de segurança econômica.
Bruxelas, a sede da União Europeia, utiliza o conceito de de-risking para descrever a redução de dependências estratégicas sem uma ruptura geral com a economia chinesa. Pequim contesta quando essa política se transforma em restrições comerciais ou tecnológicas dirigidas especificamente às empresas chinesas, interpretando-as como instrumentos de contenção.
A diferença em relação a Washington é significativa. Os Estados Unidos combinam a disputa comercial e tecnológica com uma arquitetura militar de alianças no Indo-Pacífico; a Europa procura administrar simultaneamente sua exposição econômica à China e suas posições militares, apoiando a guerra na Ucrânia, pressionada pela relação sino-russa.
Oriente Médio entre energia e diplomacia
No Oriente Médio, a China emprega instrumentos diferentes dos utilizados pela arquitetura militar norte-americana. Pequim mantém relações econômicas e diplomáticas com países situados em campos opostos das disputas regionais e procura preservar canais de negociação, fiel ao princípio socialista de não ingerência em assuntos externos e da soberania dos povos.
Energia, comércio e diplomacia constituem os pilares dessa presença. A relação com o Irã convive com relações econômicas profundas com países árabes e com contatos diplomáticos com outros atores regionais, permitindo à China preservar interesses econômicos e margem de atuação política em um ambiente marcado por tensões.
Na reunião de Washington, Xi e Trump discutiram a situação do Oriente Médio, e o relato chinês registrou a posição de Xi em favor do retorno das negociações entre Estados Unidos e Irã. Não houve anúncio de um acordo específico entre Washington e Pequim sobre o caso iraniano, mas o tema deixou de pertencer apenas ao campo da agenda prevista e passou a integrar o conteúdo efetivamente tratado pelos dois presidentes.
Rússia acrescenta outra dimensão
A relação entre China e Rússia constitui outro componente da arquitetura contestada por Japão, Estados Unidos e parte da Europa. O Livro Branco japonês registra a intensificação da cooperação sino-russa e a considera relevante para a segurança do Japão; Pequim apresenta sua relação com Moscou como parceria entre Estados soberanos e rejeita a caracterização de uma aliança militar dirigida contra terceiros.
A guerra na Ucrânia tornou essa relação particularmente sensível. A China procura preservar sua parceria com a Rússia e, simultaneamente, manter relações econômicas com a Europa, enquanto governos europeus procuram reduzir vulnerabilidades estratégicas sem romper completamente com a economia chinesa.
A questão ucraniana entrou na conversa entre Trump e Xi em Washington. O relato chinês registra a troca de opiniões, mas não apresenta compromisso específico. A ausência de um novo acordo não eliminou a importância do tema: a relação sino-russa, a militarização europeia e as tensões sino-norte-americanas permanecem entrelaçadas.
IA muda a disputa
A IA incluiu uma fronteira que combina economia, ciência, segurança e poder militar. China e Estados Unidos disputam semicondutores, capacidade computacional, modelos avançados, centros de dados, robótica, aplicações militares e controle de dados, enquanto Washington restringe o acesso chinês a determinadas tecnologias e Pequim acelera a construção de capacidades próprias.
As negociações que antecederam a cúpula já haviam produzido conversas entre o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, e o vice-premiê chinês He Lifeng sobre mecanismos de segurança da IA. Segundo a agência de notícias Associated Press, os dois lados compartilhavam preocupações sobre riscos relacionados a ataques cibernéticos, aplicações biológicas, perda de controle e impactos sobre infraestrutura crítica.
Xi levou essa discussão ao encontro presidencial. Sua proposta de desenvolvimento sob controle humano inseriu uma dimensão política na disputa tecnológica: a China procura evitar que a IA seja tratada apenas como instrumento de superioridade estratégica e defende mecanismos internacionais de diálogo e prevenção de riscos. Trump manteve a ênfase na liderança tecnológica norte-americana, mas reconheceu a necessidade de diálogo.
Economia transforma poder em instrumento
Por trás do confronto militar e diplomática existe uma transformação econômica de grande alcance. A China procura diversificar mercados, reduzir vulnerabilidades externas, desenvolver tecnologias próprias e conservar posições estratégicas nas cadeias globais de produção, enquanto os Estados Unidos procuram reduzir a exposição de setores considerados críticos à indústria chinesa.
O desempenho comercial chinês reforça essa capacidade. Dados citados pela agência de notícias Reuters indicaram que o superávit comercial da China caminhava em 2026 para superar US$ 1 trilhão pelo segundo ano consecutivo, enquanto as exportações continuavam crescendo apesar das medidas norte-americanas de contenção. Para Washington, esses números revelam desequilíbrios comerciais, capacidade industrial e dependência; para Pequim, demonstram a competitividade de sua indústria e a necessidade de preservar mercados internacionais abertos.
Terras raras, semicondutores, baterias, veículos elétricos, portos, ferrovias, energia e telecomunicações passaram a integrar o mesmo campo estratégico. A antiga separação entre política econômica e política externa perdeu espaço diante de uma realidade em que uma fábrica, uma mina, um cabo de comunicação ou um centro de dados podem adquirir importância comparável à de uma instalação militar.
Sul Global ganha centralidade
É nesse espaço que África, América Latina, Oriente Médio e partes da Ásia deixam de aparecer apenas como áreas de influência das grandes potências. São territórios de energia, alimentos, minerais, infraestrutura, mercados consumidores, capacidade industrial e peso diplomático, além de concentrarem parcelas importantes das populações e dos votos nas instituições multilaterais.
A China procura converter essa posição em força diplomática. A estratégia combina comércio, investimento, infraestrutura, financiamento, tecnologia e defesa de maior representação dos países em desenvolvimento nas instituições internacionais, articulando essa política ao conceito de multipolaridade.
Nesse contexto, o BRICS, fórum de cooperação e coordenação formado por 11 países emergentes e em desenvolvimento — Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã — tornou-se um dos espaços institucionais de articulação do Sul Global, reunindo discussões sobre governança internacional, economia, desenvolvimento, tecnologia e cooperação política.
Os dados de opinião pública revelam a dimensão dessa mudança. Em 2026, o Pew registrou, entre 17 países de renda média, percepção mais favorável da China em vários casos, inclusive avaliações superiores às atribuídas aos Estados Unidos em confiança como parceiro. Na África do Sul, 72% dos entrevistados consideraram a China uma parceira confiável, contra 46% para os Estados Unidos; Índia e Filipinas apresentaram, ao contrário, níveis significativamente menores de confiança na China.
O Sul Global, portanto, não constitui um bloco homogêneo. Seus países negociam com diferentes centros de poder, procuram preservar autonomia e frequentemente utilizam a concorrência entre China, Estados Unidos, Europa, Rússia, Índia e países do Golfo para ampliar sua margem de decisão.
Pequim diante da ordem imperialista
Vistos a partir de Pequim, esses acontecimentos formam uma arquitetura coerente. O Japão amplia suas capacidades militares; Estados Unidos, Japão, Austrália e Filipinas aprofundam mecanismos de segurança; Taiwan é incorporado ao planejamento estratégico regional; Washington restringe tecnologias avançadas; países “ocidentais” procuram reduzir dependências das cadeias industriais chinesas; e, simultaneamente, a China expande comércio, tecnologia, forças armadas e relações diplomáticas com o Sul Global.
É a partir dessa sucessão que a diplomacia chinesa encara a tentativa do chamado “ocidente” de impor sua ordem internacional. Pequim mostra que seu desenvolvimento econômico e tecnológico vem sendo convertido em argumento de segurança por concorrentes estratégicos e que a expansão das alianças militares em torno de seu território cria um ambiente no qual cada movimento defensivo é divulgado pelo “ocidente” como preparação ofensiva.
É nesse quadro que a reunião de Trump e Xi adquire seu verdadeiro alcance. O encontro não foi apenas uma negociação tarifária, embora o comércio tenha produzido o resultado mais concreto; não foi apenas uma conversa tecnológica, embora a IA tenha ocupado posição inédita; tampouco foi apenas uma discussão diplomática.
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