A produção editorial de Xi Jinping começou antes de sua chegada à direção nacional da China. Um dos primeiros registros está em Ningde, cidade da província de Fujian, no sudeste do país, onde Xi exerceu a função de secretário do Partido Comunista da China (PCCh) entre 1988 e 1990. Outro momento importante ocorreu em Zhejiang, província do litoral leste, cuja capital é Hangzhou, onde ele comandou o Partido entre 2002 e 2007.
Desses dois períodos de administração regional até os cinco volumes de Xi Jinping: A Governança da China, publicados a partir de 2014, formou-se um acervo de discursos, artigos, relatórios, entrevistas, cartas, instruções e outros documentos. O material cobre áreas como economia, diplomacia, cultura, direito, organização partidária, reforma, finanças, educação, ciência, meio ambiente e administração pública.
A trajetória pode ser acompanhada pela documentação editorial chinesa desde os textos produzidos em Fujian e Zhejiang até as grandes coleções lançadas depois de 2012. Naquele ano, Xi assumiu a secretaria-geral do PCCh e a presidência da Comissão Militar Central (CMC). Em março de 2013, tornou-se também presidente da República Popular da China.
A partir daí, documentos produzidos no exercício da direção nacional passaram a ser reunidos de forma sistemática. Primeiro vieram coletâneas gerais. Depois, surgiram séries organizadas por áreas específicas, como economia, diplomacia, construção do Partido, cultura e direito. O catálogo chinês registra ainda livros dedicados à reforma, à história do Partido, à agricultura, à educação, à ciência e tecnologia e à formulação de uma comunidade de futuro compartilhado para a humanidade.
Ningde e o combate à pobreza
Um dos pontos de partida está em Superar a pobreza, publicado em 1992 com 29 textos escritos entre setembro de 1988 e maio de 1990. Naquele período, Xi era secretário do Partido na prefeitura de Ningde, no nordeste de Fujian.
A região tinha baixos indicadores econômicos e grandes áreas rurais enfrentavam dificuldades de desenvolvimento. Os textos tratam de problemas encontrados diretamente no trabalho administrativo: agricultura, infraestrutura, formação de quadros, desenvolvimento local, administração e relação entre governo e população.
O livro não se limita à renda das famílias. Nos textos, Xi relaciona a redução da pobreza a mudanças nos métodos administrativos e nas concepções de desenvolvimento. Também discute as dificuldades de uma região afastada dos principais centros que concentravam o crescimento econômico chinês naquele período.
Publicado quando Xi ainda exercia funções provinciais, Superar a pobreza seria reeditado mais de duas décadas depois. A obra permaneceu como um registro de sua experiência administrativa em Ningde, distinguindo-se das biografias posteriores construídas a partir de entrevistas e depoimentos.
Zhejiang e a administração provincial
A etapa seguinte ocorreu em Zhejiang, província do litoral leste da China, ao sul de Xangai e com Hangzhou como capital. Xi exerceu ali, entre outras funções, a secretaria do Comitê Provincial do Partido.
Entre fevereiro de 2003 e março de 2007, publicou no Zhejiang Daily, jornal da província, 232 pequenos comentários sobre administração, economia, desenvolvimento, organização política, relações entre dirigentes e população e problemas cotidianos do governo.
Os textos foram reunidos em 2007 no livro Novas palavras de Zhejiang. Tinham origem jornalística e eram relativamente breves, escritos para discutir questões concretas da administração provincial. Esse formato os diferencia dos discursos oficiais mais extensos que posteriormente predominariam nas coleções nacionais.
Ao mesmo período pertence Trabalhar na prática e caminhar na vanguarda — reflexões e práticas para promover o novo desenvolvimento de Zhejiang, dedicado à experiência administrativa e aos problemas encontrados durante o governo da província.
Essas duas obras registram uma fase em que a produção publicada sob o nome de Xi ainda estava diretamente vinculada às funções que ele exercia nos governos locais e provinciais.
A chegada à direção nacional
A mudança de escala ocorreu em novembro de 2012, quando o XVIII Congresso Nacional do PCCh escolheu Xi para a secretaria-geral do Partido. Ele também assumiu a presidência da CMC. Em março do ano seguinte, tornou-se presidente da República Popular da China.
A partir desse momento, a produção documental ligada a Xi passou a acompanhar a direção nacional do Estado e do Partido. Discursos feitos em reuniões partidárias, sessões do Congresso Nacional do Povo (CNP), encontros internacionais, viagens oficiais, conferências e reuniões econômicas e militares começaram a ser reunidos em coleções sucessivas.
Também passaram a integrar esse acervo entrevistas, cartas, prefácios, relatórios e instruções. A organização ficou a cargo de diferentes instituições editoriais e documentais ligadas ao Estado e ao Partido, entre elas o Instituto de História e Literatura do Comitê Central.
Essa expansão produziu diferentes tipos de livro. Algumas obras reproduzem documentos completos selecionados de determinado período. Outras organizam os textos por assunto. Há ainda compilações que retiram passagens de centenas de documentos e as reúnem em capítulos temáticos.
A Governança da China e a circulação internacional
A coleção de maior circulação internacional recebeu o título Xi Jinping: A Governança da China. O primeiro volume foi publicado em 2014 pela Editora de Línguas Estrangeiras e reuniu discursos, pronunciamentos, entrevistas, instruções e cartas produzidos depois do XVIII Congresso do PCCh.
A coleção foi organizada por temas. O segundo volume apareceu em 2017, o terceiro em 2020, o quarto em 2022 e o quinto em julho de 2025. Este último reúne 91 textos produzidos entre 27 de maio de 2022 e 20 de dezembro de 2024, distribuídos em 18 conjuntos temáticos e acompanhados de 41 fotografias.
A série foi concebida também para circulação internacional. A Editora de Línguas Estrangeiras coordenou traduções e edições destinadas a diferentes países e idiomas. Em setembro de 2025, o Diário do Povo informou que a coleção havia chegado a 42 idiomas e sido distribuída em mais de 180 países e regiões.
Obras selecionadas e organização cronológica
Outra coleção importante apareceu em abril de 2023, quando a Editora do Povo lançou os dois volumes de Obras selecionadas de Xi Jinping. Preparada pela Comissão de Edição de Documentos do Comitê Central do Partido, a série adota uma organização diferente de A Governança da China.
Enquanto a coleção de governança é estruturada principalmente por temas, Obras selecionadas acompanha a cronologia dos documentos. O primeiro volume reúne 71 textos produzidos entre novembro de 2012 e outubro de 2017. O segundo contém 75 documentos do período entre outubro de 2017 e outubro de 2022.
Os volumes incluem discursos, pronunciamentos, instruções, determinações, ordens, relatórios e conversas. Parte do material não havia sido publicada anteriormente. A coleção também recebeu versões em mongol, tibetano, uigur, cazaque, coreano, yi e zhuang.
A coleção dedicada à economia
A especialização temática ganhou nova dimensão com o primeiro volume da Coletânea de textos econômicos de Xi Jinping. O livro reúne 74 documentos produzidos entre novembro de 2012 e dezembro de 2024 e organizados pelo Instituto de História e Literatura do Comitê Central.
Os textos abordam desenvolvimento, reforma estrutural, relações entre mercado e Estado, inovação tecnológica, economia real, finanças, desenvolvimento regional, abertura econômica, segurança das cadeias produtivas, redução da pobreza, revitalização rural e desenvolvimento de alta qualidade.
A coleção ampliou uma produção que já incluía volumes menores dedicados a finanças, desenvolvimento, ciência e tecnologia, revitalização rural e reforma. Em março de 2026, foi registrada em Hong Kong a edição em caracteres chineses tradicionais do primeiro volume.
A coleção dedicada à diplomacia
Em junho de 2026 foram publicados os dois primeiros volumes da Coletânea de textos diplomáticos de Xi Jinping. São 134 documentos sobre relações exteriores produzidos entre janeiro de 2013 e novembro de 2025.
O primeiro volume reúne 63 documentos, de janeiro de 2013 a junho de 2018. O segundo contém 71, de junho de 2018 a novembro de 2025.
Entre os documentos está um discurso realizado em março de 2013 no Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou. Os volumes também percorrem temas como relações entre grandes potências, países em desenvolvimento, cooperação Sul-Sul, Iniciativa Cinturão e Rota, governança global, multilateralismo, relações sino-africanas, América Latina, segurança internacional e reforma das instituições internacionais.
A coleção dedicada ao Partido
Os dois primeiros volumes da Coletânea de textos de Xi Jinping sobre a construção do Partido cobrem o período de novembro de 2012 a fevereiro de 2026.
São 102 documentos, entre relatórios, discursos, explicações, artigos, instruções e prefácios. O primeiro volume contém 46 textos, de novembro de 2012 a junho de 2018. O segundo reúne 56, de julho de 2018 a fevereiro de 2026.
A organização cronológica permite acompanhar documentos sobre estrutura partidária, disciplina interna, formação de quadros, combate à corrupção, funcionamento das organizações de base e relação entre direção política e administração estatal.
A coleção dedicada à cultura
Em agosto de 2026, foram publicados os dois volumes da Coletânea de textos culturais de Xi Jinping. A série reúne 78 textos produzidos entre novembro de 2012 e fevereiro de 2026, entre relatórios, discursos, pronunciamentos, cartas e instruções.
O primeiro volume contém 27 textos, de novembro de 2012 a dezembro de 2016. O segundo reúne 51 documentos, de outubro de 2017 a fevereiro de 2026.
A coleção trata de patrimônio histórico, literatura, artes, comunicação, educação política, tradição chinesa, valores sociais, identidade nacional e atividade cultural.
A coleção dedicada ao Estado de Direito
A especialização editorial chegou também ao campo jurídico. Em novembro de 2025 foi publicado o primeiro volume da Coletânea de textos de Xi Jinping sobre o Estado de Direito.
A série reúne documentos relacionados à legislação, à Constituição, à administração pública, ao funcionamento do sistema jurídico, à aplicação das leis e à construção jurídica. Ela se soma a compilações anteriores de excertos sobre governo segundo a lei e disciplina interna do Partido.
Reforma história e desenvolvimento rural
Antes das grandes séries especializadas, outros livros já haviam reunido textos de Xi em torno de temas específicos.
Sobre a persistência no aprofundamento abrangente da reforma reúne intervenções sobre as transformações institucionais e econômicas posteriores a 2012. Sobre a história do Partido Comunista da China concentra pronunciamentos sobre a trajetória histórica do Partido e seu uso na formação política contemporânea.
Também foram publicados volumes sobre agricultura, áreas rurais e camponeses — os chamados “três assuntos rurais” —, além de livros sobre educação, ciência e tecnologia e sobre a construção de uma comunidade de futuro compartilhado para a humanidade.
As compilações temáticas
Existe ainda uma extensa produção formada não por documentos completos, mas por trechos selecionados de discursos, relatórios, conversas, conferências, instruções e outros textos.
Nesse formato, os organizadores retiram passagens relacionadas a determinado assunto e as reorganizam em capítulos. O portal teórico do Diário do Povo registra compilações sobre modernização chinesa, governança de base, trabalho sindical, finanças, juventude, civilização ecológica, inovação científica e tecnológica, mulheres e crianças, prevenção de riscos, resposta a emergências e disciplina partidária.
Um exemplo é a Compilação de pronunciamentos de Xi Jinping sobre prevenção de riscos, enfrentamento de desafios e resposta a emergências, publicada em 2020. O livro reúne 404 passagens retiradas de mais de 180 documentos produzidos entre novembro de 2012 e julho de 2020.
Há também compilações dedicadas à inovação científica e tecnológica, à modernização chinesa, às finanças, à pesquisa de campo, à reforma e ao fortalecimento do estilo de trabalho partidário.
Os livros destinados ao estudo e à formação
Outra parte do catálogo é formada por materiais preparados para atividades de estudo. Em 2023 foi publicada uma nova edição do Esboço para o estudo do pensamento de Xi Jinping sobre o socialismo com características chinesas para uma nova era, acompanhada de compilações destinadas à formação política.
Esses materiais não devem ser confundidos com livros autorais convencionais. São preparados por órgãos do Partido a partir de documentos, conceitos, discursos e formulações já publicados e têm como finalidade organizar conteúdos para cursos, organizações partidárias, instituições públicas e estabelecimentos de ensino.
As obras biográficas sobre a trajetória de Xi
Há ainda uma categoria diferente: livros biográficos e documentais sobre a passagem de Xi por diferentes regiões e funções.
Essas obras são produzidas principalmente por equipes editoriais a partir de entrevistas, depoimentos, documentos e memórias de pessoas que trabalharam ou conviveram com ele. Por isso, pertencem ao universo editorial relacionado a Xi, mas não podem ser classificadas da mesma maneira que Superar a pobreza, Novas palavras de Zhejiang, A Governança da China ou Obras selecionadas.
A distinção é importante porque separa documentos produzidos ou pronunciados por Xi de relatos biográficos produzidos posteriormente por terceiros.
O que circula no Brasil
A pesquisa em catálogos e livrarias brasileiras confirma uma presença em português mais ampla para algumas obras do que para outras.
Superar a pobreza foi lançado no Brasil em novembro de 2024, em edição conjunta da Editora de Línguas Estrangeiras da China, da Editora do Povo de Fujian e da brasileira Contraponto. O lançamento ocorreu no Rio de Janeiro e reuniu representantes chineses e brasileiros em um seminário sobre governança e redução da pobreza.
Também estão disponíveis no mercado brasileiro os volumes I e II de A Governança da China, publicados em português pela Contraponto. O volume I tem 568 páginas e o volume II, 696. Ambos possuem edição brasileira catalogada com ISBN próprio.
Há registro igualmente da circulação brasileira dos volumes III e IV. A Embaixada da China no Brasil apresentou o volume III em português em suas iniciativas de divulgação, enquanto fontes brasileiras registram uma edição em português do volume IV distribuída no país.
A presença dessas obras no Brasil também pode ser observada pelo uso acadêmico e editorial. O primeiro e o segundo volumes de A Governança da China, por exemplo, aparecem em bibliografias brasileiras sobre China e relações internacionais, enquanto o lançamento de Superar a pobreza abriu um circuito específico de debates sobre pobreza, desenvolvimento e governança entre instituições brasileiras e chinesas.
Um catálogo em expansão
O conjunto editorial construído ao longo de mais de três décadas não corresponde a uma única coleção. São modalidades diferentes que trabalham sobre um arquivo documental comum.
Há livros derivados de experiências administrativas locais, como Superar a pobreza e Novas palavras de Zhejiang. Há coleções gerais, como A Governança da China e Obras selecionadas. Existem ainda séries especializadas por área e compilações que retiram trechos de documentos anteriores para reorganizá-los por assunto.
Essa estrutura explica por que a quantidade de “livros de Xi Jinping” depende do critério adotado. Uma relação restrita às coleções de documentos completos é menor. Quando entram na conta compilações temáticas, materiais de estudo, traduções e obras biográficas, o universo editorial se amplia consideravelmente.
A sequência, vista de forma cronológica, começa nas experiências administrativas de Fujian e Zhejiang e chega às coleções produzidas depois de 2012. O que muda ao longo desse percurso não é apenas a quantidade de títulos, mas também a forma de organização do material: de textos ligados a problemas concretos de governos locais para um arquivo nacional dividido por períodos, temas, instituições e públicos.
É esse processo que transformou discursos feitos para uma reunião, um congresso, uma viagem, uma conferência, uma instrução administrativa ou um artigo de jornal em um conjunto editorial que continua sendo ampliado, reorganizado, traduzido e distribuído.
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